CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Entre o Mesmo e a Redenção

Nelson Job


How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Bob Dylan



http://fernandaw.files.wordpress.com/2009/08/grete-stern.jpg
"Botella del mar" Grete Stern

Ela chegou em casa. Olhou para os móveis, o corredor, os quadros. Fez um leve esforço para não perceber que os móveis estavam um pouco fora do lugar, o chão, mais limpo e mais arranhado. Pequenos detalhes evidenciam que tudo mudou na sua pequena ausência diária, mas a rotina pode realçar as semelhanças e então, ela se esforça para olhar o Mesmo. Beijou o marido como de costume, os lábios se tocam, mas não se molham, não se contagiam. A filha a abraça com um sorriso. O sorriso é retribuído - não se mostram os dentes. Dá um presentinho de camelô pra filha. Ela se entretem. A empregada diz várias coisas que estão prontas, várias coisas a fazer e, principalmente, várias coisas a se comprar pra casa. Ela diz apenas “tá bem, pode ir” sem registrar nada. Tira os sapatos, solta o cabelo, põe as velhas sandálias confortáveis. Volta-se para o marido:


- Chegou cedo, amor?


É estranho como se pronuncia “amor”. A palavra perdeu o sentido que se desenvolveu nos filmes, nos livros e nas digressões da adolescência. A palavra virou um adjetivo vazio designando uma prisão e sobretudo, uma moral.


Ele responde qualquer coisa, tanto pode ser “é, o chefe me dispensou porque tinha uma reunião com a outra empresa” ou “pedi pra sair mais cedo pra ir ao dentista”. Ela apenas sorri e emenda nas contas a pagar até a próxima semana. Há uma pequena discussão sobre os gastos dela e sobre o comodismo dele, as duas promessas de mudança não serão compridas. Automaticamente, ligam a televisão. Os comentários variam entre como “a novela é chata” e como “o noticiário só dá notícia ruim”.


No jantar, a atenção se volta para a filha, uma boa oportunidade de não se focar na solidão a dois da relação. Mas não há tanto carinho, apenas um sorriso e uma voz calculadamente suave pra suportar a culpa de deixá-la com a empregada.


No filme, ela vê o casal de protagonista fazendo amor. Seus olhos, pela primeira vez no dia, brilham. Olha pro marido, que, entre cochilos, finge acompanhar o filme. Os cochilos do marido permitem que ela se coloque no lugar dos protagonistas junto com seu colega de trabalho. Tem um pequeno êxtase, interrompido pelo brusco ronco do marido. O filme acaba e eles vão pra cama. Com a bolinação do marido, ela pensa em acabar com tudo, se declarar pro colega de trabalho. Aí pensa na filha, na mãe doente e no apartamento que deu tanto trabalho pra conseguir e cede. Mas como vingança, imagina-se a cada estocada, estando junto com o colega, o colega... o colega...


O orgasmo de ambos é rápido, dessincronizado e pouco intenso. A filha acorda e seu choro constante e cada vez mais próximo anuncia que ela chega próximo ao quarto. Ela imagina em convidar a filha pra ficar na cama com eles, recebendo o carinho pós-cópula do casal, formando um tríade pagã, amoral. Uma plena liberdade. O marido, sonolento, pergunta: “quem vai?” - o que a tira de seus delírios pagãos e simultaneamente a faz por a camisola e acolher a filha, se sentindo suja, pois acabara de cometer uma traição a família. De certa forma.


Manhã, o marido já foi embora. Na mesa, as migalhas do pão dele e a mancha que ele, mais uma vez, entornou do café. A empregada chega com 26 minutos atrasados, sem pedir desculpas, com uma leve culpa estampada no olhar esquivo. “Bom dia, dona”.


A filha come o seu Neston, ela toma seu café sem açúcar com leite semi-desnatado e granola. Põe a roupa da academia. Pensa que lá, vai conhecer alguém que valha a pena. Valha realmente a pena. Na despedida, a filha joga um beijo com a mão. Ela sente ternura e raiva. Se sente presa por aquele ato espontâneo, mais aliviada pela filha prendê-la. Todo o esforço, sutil e constante, de se perpetuar o Mesmo naquele lar, vai levar, cedo ou tarde, a uma tristeza que se resolve sozinha e, se demorar, com fluoxetina; uma dor de cabeça que a levaria a começar a ioga, mas sempre acaba com Neosaldina ou em mais uma briga com o marido, e eles vão ficar dias sem se falar, até que coisas práticas, do tipo consulta com o pediatra, o conserto do carro ou a festa na casa daquele casal chato, porém “amigo”, os “obriguem” a voltar a se falar. Porém, a cada momento, a cada linha que se rompe, uma nova rota se propõe. Nesse momento, mais uma vez, tudo pode ser transformado rumo a um lugar desconhecido, o que pode resultar em um imenso e impreciso espectro que vai tanto à uma revitalização da família como à sua dissolução e além. Ou tudo pode ser rebatido ao Mesmo. Sai de casa, ainda com esperança. A cada olhar, uma possível redenção.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Conto interativo: "OPACOS?"

Este conto "Opacos?" é interativo e pode ser acrescentado por quem quiser através dos "comentários", abaixo da postagem. É possível e até provável que os acréscimos sejam adicionados na postagem. A mudança de cores e fontes indicam a mudança de autor que podem ser encontrados no "comentários" do blog.



Estavam ali.

O alto foi o primeiro a falar:

- Quem são vocês, heim?

- Não conheço ninguém aqui...

Assumia a exuberante, olhando para todos e arrumando, nervosa, os cabelos suavemente rebeldes.

- Pô isso aqui tá muito sinistro!

Era a espevitada, um tanto assustada.

- Deve ter uma explicação.

Ponderou o senhor. Olhavam todos para o omisso, que olhava vazio para eles e gesticulava de forma branda com as mãos, tangiversando com o corpo a sua impotência.

- Vamos ver...

O senhor queria tomar a dianteira nas reflexões:

– O que estávamos fazendo antes... mesmo...

- Sei lá, pô!

Respondeu prontamente a espevitada.

- Eu não lembro...

O alto indica uma nesga de ansiedade, mas se segurava:

- ... de nada. Ou quase...

- Gente, eu também não. Então, o que que a gente vai fazer?

Exuberante estava um pouco confusa.

- Ai, putaquiupariu, eu tô fudida!!!

- Larga de ser espevitada, minha filha. Agora o que a gente tem que pensar no que vai fazer.

- Senhor, entendo o que quer dizer, mas não sei nem por onde começar. E aquele ali, então... completamente omisso!

- Cara... sei lá heim... por quê que eu tenho que falar alguma coisa, ô alto?

- Não tô te obrigando, não. Mas... que lugar é esse?

- Define “lugar”, alto. Pô, isso aqui é muito esquisito, muito... coméqui eu vô dizer... é...

- Opaco, espevitada. Isso aqui é muito opaco. Realmente, é até difícil nomear isso aqui de “lugar”.

- Senhor, mas então, a gente... espera? Espera pra ver o que acontece?

- Exuberante...

- Ai, obrigada!...

Ela passava, mais uma vez, a mão nos cabelos.

- Eh!... De nada - sorriu o alto – não acho que devíamos esperar...

- Aimeudeusdocéu, vamo fazer o quê então, porra??!!

Espevitada olhou com uma sugestão de desespero para o omisso. Talvez porque ele não soube lidar com aquele princípio de descontrole, talvez porque ele se comoveu com a situação de espevitada, se pronunciou:

- Sei lá... a gente pode ver se tem alguém aí fora...

- “Fora”? Bom, você está vendo algum “fora” por aqui?

Senhor tinha a voz calma, porém plena de dúvidas.

- Cara... num sei... mas pode ter, né?...

- Na falta de idéia melhor, é alguma coisa que a gente pode fazer.

- OK, alto!

A exuberante parecia alegre em achar o que fazer:

– Vamos chamar então. Tem alguém aí?

Gritou mais alto:

– Tem alguém aí?!!!

Os três (o omisso, não) começaram a bradar ora juntos, ora individualmente, repetidas vezes:

- TEM ALGUÉM AÍ????

Sem pensar duas vezes, a espevitada logo tentou desvendar o mistério. No entanto, mostrou-se ainda mais assustada com o que viu "lá fora".


fotografias de Flávia Da Rin

Neste momento, por sua reação, todos (menos o omisso) se apavoraram e começaram a perder o controle, enquanto tentavam chegar a um consenso em relação ao que poderia ser feito...




Continua?...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Onibaba [en]

Este texto pertence ao evento ENTRE Devires Cinematográficos

Sandra Maia

Realizado por Shindo Kaneto

Japão, 1964 – 100 min. Anamórfico.

Com: Otawa Nobuko, Yoshimura Jitsuko, Sato Kei, Uno Jukichi, Tonoyama Taiji, Matsumoto Somesho, Kaji Rentaro, Aratani Hosui

drama horror


http://andrewsidea.files.wordpress.com/2009/02/onibaba6.png

Sinopse:

Onibaba é para o realizador Kaneto Shindo - esquerdista e socialista, preocupado em demonstrar as condições dos que muito pouco ou nada têm - o que os meados dos anos 70 e por aí em diante foram para Jean Luc Godard, por exemplo. Em comum entre os dois autores: em Godard há um escape dos temas políticos que percorriam toda a sua obra anterior que, aliás, tinha impulsionado a criação da Nouvelle Vague, por semelhança, em Shindo há uma substituição dum realismo socialista praticado em Hadaka no Shima (The Naked Island) em que a camâra era a consciência poética (e social) daqueles que trabalham como formigas para sobreviverem. Mesmo assim, Shindo (provavelmente como Godard) nunca esqueceu as suas motivações cinéfilas: a prova é que Onibaba, para além de optar um erotismo cerrado pelas pulsões dos corpos femeninos desnudados (como se ao desejo dependesse a vida e preso nisto, o complexo de culpa e o dilema moral) , junta-se-lhe também o carácter de parábola, um conto que tanto une a comercialidade (a componente erótico-sexual que no passado, ainda chocava e aliciava) com um simbolismo metafórico e, acima de tudo, político.


Na mitologia japonesa, Onibaba é uma espécie de mulher-demônio. Este filme representa os horrores da guerra e os resultados moralmente nefastos das coisas que se pode fazer para sobreviver durante este período de miséria. Trata-se de uma obra que mescla suspense, fantasia, terror e drama psicológico freudiano (SEXUALIDADE REPRIMIDA) ao relatar a história de duas mulheres tentando sobreviver no interior do Japão devastado pela guerra. A fotografia é suntuosa e elegante, evocando tanto os grandes mestres do cinema japonês quanto os contestadores contemporâneos da nuberu bagu (cineastas emergentes entre os anos 50 e 70). Shindo pode ser considerado, desta forma, um ponto de ligação entre o cinema tradicional de Mizoguchi e Ichikawa e as experimentações de contemporâneos como Masumura e Suzuki, mesmo porque, ele fez roteiros para filmes de todos estes diretores, com sucesso em todos os casos.


No Período Sengoku (Sengoku-jidai ou “Período dos Estados Guerreiros”, de meados do Século XV até ao início do Século XVII.), um conflito pelo poder divide o Japão feudal. A guerra civil que se prolonga por mais de um século tem consequências sérias, sobretudo para os mais pobres: as terras são abandonadas e é difícil obter alimentos. Duas mulheres, sogra (Otawa) e nora (Yoshimura), vivem numa cabana no meio de um canavial, junto a um rio. O seu modo de vida consiste em matar os samurai feridos e moribundos que por ali passam, para trocarem armas e armaduras por comida. Um dia, Hachi (Sato), um vizinho que tinha partido para a guerra com o marido da mulher mais jovem, regressa, pondo em risco a manutenção da economia familiar.


Uma visão curiosa de Onibaba é a razão para a velhinha não querer que a jovem a deixe. Muitos críticos afirmam ver por detrás da fábula o mecanismo do capitalismo: é imperativo não deixar a máquina parar, se se deseja continuar a produzir. Neste submundo intemporal (porque não é por ser medieval que existe um anacronismo) onde a sobrevivência conta mais que tudo o resto, embora com isto não se teçam considerações morais, é necessário não parar, consumir tudo o que aparece por entre os campos assombrados. Com efeito, a velha tenta assustar a jovem. Fala-lhe de pecado, do Inferno como destino para as mulheres solteiras que se relacionam sexualmente com homens. E depois, mascara-se de demónio e - numa sequência memoravelmente tenebrosa, donde o preto e branco faz jus à sua fama dentro do género terror - persegue-a. Após esses momentos realmente fabulosos, donde se constrói um clima ascendente do horror com todos os ingredientes possíveis: paisagem assombradamente silenciosa cortada pelo vento rachando nas finas folhagens, montagem feroz e uma partitura que enfatiza o ambiente verdadeiramente sepulcral, a velha é assaltada por uma maldição. A máscara que usara para censurar o desejo sexual da jovem não consegue sair da sua face. A maldição é a metáfora ideal de um castigo que a melhora. Pois no final, ela sai correndo, com a máscara tirada a sangue, desfigurada, gritando e auto-convencendo-se: "Não sou um demônio, sou um ser-humano."


«Onibaba» tem como ponto de partida um texto budista (a vida, a existência e o que se encontra abaixo) com uma moral bem definida. Ainda que mantendo os elementos essenciais desse conto, canalizados no clímax da narrativa, Shindo não faz assentar o filme na moral religiosa — as suas preocupações são terrenas.


A jovem - em vez de desejar sexualmente o vizinho - ia rezar ao grande Deus, para grande descontento da idosa que preferia vê-la trabalhar. Como alguém disse a versão de Shindo é muito pouco espiritual e mais terrena, pretende denunciar também todas as artimanhas espectaculares que a religião usa para educar através do medo: a velha que se veste de demónio, aproveitando-se da ignorância e da tacanhez da jovem, que por sua vez só se amedronta porque sabe o que cometeu. Mas o grito que relembra à velha a sua condição humana, não é intervenção divina, nem muito menos a misericórdia de Buda - como a lenda original queria transmitir. É o prenúncio de uma vida melhor, onde os homens de poder (que não chegam à pobreza mais aguda da sociedade humana, os desfavorecidos, que vivem abaixo das ervas altas) que fazem as guerras e o dinheiro deveriam ser mais justos. No final, e ao afirmar a sua condição, a velha desfigurada materialmente, salta como os passáros que a toda a hora voam (ou melhor, escapam) por entre as ervas, trazendo aos que lutam pela sobrevivência a recordação de tempos melhores.


As noções budistas de que a realidade circundante ao homem é mero embuste serviriam de combustível para lendas, elas mesmas perfeitas narrativas de terror, por sua vez adaptadas para o cinema por Kaneto Shindo, Onibaba (1964) e Kuroneko (1968), transformando-se rapidamente em filmes renovadores das matrizes dos filmes de terror, gênero em constante risco de recair na banalidade.


Sogra e nora atacam soldados para trocar os despojos por alimentos. O regresso de Hachi irá pôr em causa a sociedade.


A premissa do filme indica um dos temas: a sobrevivência em condições extremas. Quando conhecemos as personagens centrais podemos ficar chocados, porquanto mesmo antes de lhes vislumbrarmos os rostos sabemos que são assassinas impiedosas. Mas o desenvolvimento da narrativa, à luz do contexto histórico, dilui o rótulo (“assassinas”). Pomos de parte os juízos que o filme não pretende fazer.


Com a chegada da personagem de Sato Kei, o desejo sexual assume-se como conceito essencial subjacente ao filme. As ervas altas (“suzuki”) preenchem o enquadramento, ondulando, sem parar, de um lado para o outro, agregando uma simbologia: guerra, dualidade, mas também os ímpetos carnais.


A jovem corre ao longo do campo para satisfazer desejos físicos, indiferente a condições atmosféricas e, mais no final do filme, resistindo a outras ameaças. Tal como Shindo nunca reveste com um contorno moral o ato de matar (é um modo de viver), também não se sugerem sentimentos de qualquer espécie entre ela e Hachi (é um modo de se saciarem).


Donos de formas teatrais extremamente estilizadas e complexas – como o teatro nô, kabuki e bunraku –, os japoneses sofisticaram a máscara de seus monstros através da expressividade pura. Essas máscaras, muitas delas de fato assustadoras, constituem – com suas cores, traços, estilização etc. específicos – um dialeto sígnico, fluente para os iniciados e evidente para aqueles que assistem a peça pela primeira vez. Essa excelência na representação por expressões se manteve no cinema: mesmo em alguns episódios da série popular National Kid, com todo seu non sense involuntário, uma máscara de maquiagem branca e negra, destacada pela expressividade do ator, indica claramente ao espectador a presença de um vilão razoavelmente terrível. A estilização persiste como traço por excelência de filmes de terror japoneses modernos: tanto Ringu quanto Ju-on têm seus momentos culminantes quando a aparição se arrasta, de modo anti-natural, para agarrar a presa humana.


Shindo Kaneto afirmou-se socialista e o conceito de luta de classes está presente, ainda que acompanhemos quase exclusivamente pessoas no fundo da pirâmide social (se tal expressão faz sentido numa sociedade desagregada, em ruínas). O tema torna-se mais notório nos momentos em que a sogra contracena com o samurai que esconde o rosto por detrás de uma máscara, mas impregna toda a obra: a situação limiar em que os camponeses se encontram tem origem nos conflitos dos poderosos. O período histórico caracteriza-se também por uma revolta de servos contra senhores (apropriando-se de terras, por exemplo) — algo que não é explicitamente abordado, mas que Shindo deverá ter tido presente.


Kaneto Shindo afirmou-se socialista e o conceito de luta de classes está presente, ainda que acompanhemos quase exclusivamente pessoas no fundo da pirâmide social (se tal expressão faz sentido numa sociedade desagregada, em ruínas). O tema torna-se mais notório nos momentos em que a sogra contracena com o samurai que esconde o rosto por detrás de uma máscara, mas impregna toda a obra: a situação limiar em que os camponeses se encontram tem origem nos conflitos dos poderosos. O período histórico caracteriza-se também por uma revolta de servos contra senhores (apropriando-se de terras, por exemplo) — algo que não é explicitamente abordado, mas que Shindo teria tido presente.


«Onibaba» não se contém na componente formal. A óptima composição scope e a fotografia a preto e branco, pontuada por uma iluminação que ressalta as ânsias e os pulsares dos corpos, aliada à música e ao design sonoro dinâmico, dominado por tambores que exacerbam sentimentos primitivos, tornam o visionamento uma refinada experiência sensorial de grande cinema.


Filme espartano, rodado num cenário minimalista — um rio, ervas altas, cabanas, uma caverna —, num mundo cruel e violento, onde a realização dos instintos primários não deixa espaço para o amor, contém, ainda assim, uma visão optimista sobre a capacidade de sobrevivência da humanidade.


Shindo Kaneto é autor de uma extensa obra que se iniciou ainda nos anos 50 e se prolongou até esta década. Os seus títulos mais conhecidos — no Ocidente, pelo menos — continuam a ser de há quatro décadas ou mais. Aí se inclui «Kuroneko» (1968) e este «Onibaba», já anteriormente disponíveis em edições vídeo (por exemplo via Tartan, no Reino Unido) e "The Naked Island"(1960).


O DIRETOR

Kaneto Shindo iniciou sua carreira no cinema como cinegrafista. Um episódio relata suas experiencias como cinegrafista, sob o perfeccionista diretor Kenji Mizoguchi, está incluído no seu primeiro filme como diretor, Story of my Loving Life.


Shindo tornou-se um cinegrafista de muito sucesso, nos filmes de Kosaburo Yoshimura em Shochiku. No entanto não cedendo as pressões comerciais daquele estúdio, ele resolveu produzir seus proprios filmes na Kindai Eiga Kyokai, ou Sociedade de Filmes Modernos. Só então pode escolher seus roteiros e definir seu estilo.


Shindo, natural de Hiroshima, freqüentemente lida com os efeitos da bomba atômica. Ele descreve sequências da Hiroshima pos guerra em Children of the Atomic Bomb, com base nos relatos de crianças de Hiroshima. Este assunto somente veio a tona após a ocupação americana haver terminado. Mãe centra-se na decisão de uma mulher sobrevivente em se tornar uma mãe após o trauma físico e mental sofrido. Instinto lida com um sobrevivente de meia-idade cuja potência sexual é recuperada pelo amor de uma mulher. Dai go fukuryu-maru é sobre a tragédia dos pescadores expostos a um teste nuclear americano no Pacífico sul. Shindo condena as armas nucleares por causa do enorme sofrimento inflingido a pessoas inocentes, mas também incentiva fortemente a luta pela sobrevivência.


Seu filme mais conhecido internacionalmente, Naked Island, é uma experiencia em que não utiliza qualquer diálogo, mas apenas música. Ele também usa a população local, exceto pelo ator e atriz que interpretam um casal vivendo em uma pequena ilha. Impressiona a dureza da vida agrícola em contraste com a beleza de seu ambiente natural durante todo o ciclo das estações. A alegria, tristeza, raiva e desespero do jovem trabalhador é silenciosa, mas poderosa, expressa em uma forma semi-documental.


A atmosfera pacífica deste filme contrasta com as obras mais obsessivas de Shindo, como Epitome, Gutter, A tristeza é só para mulheres, Onibaba, e Um canalha. Estes transmitem uma intensidade claustrofóbica, usando apenas alguns espaços pequenos para a ação, com muito close-up de câmera.


Em 1975, a Shindo expressa sua homenagem a sua convivencia com seu mentor, Mizoguchi, em um documentário exclusivo: A vida de um diretor de cinema: Kenji Mizoguchi. Neste filme, ele reuniu muitos relatos interessantes e reais de Mizoguchi, entrevistando pessoas que trabalharam para este mestre. Estas recordações pessoais, juntamente com as seqüências de filmes de Mizoguchi, são um testemunho da grandeza da arte de Mizoguchi, e à sua personalidade intrigante.


Como Mizoguchi, Shindo cria fortes figuras femininas que, por força de seu amor e o poder da sua vontade, tentam"salvar" os seus parceiros masculinos. Enquanto as mulheres Mizoguchi parecem confiar mais em sua compaixão generosa para sustentar os seus homens, as mulheres de Shindo tendem a inspirar e motivar os seus homens por sua própria energia e poder. Na mesma maneira, Shindo com sua própria energia e perseverança manteve a sua visão artística através de quatro décadas de cinema independente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Tratado da Inconstância

uma receita anarco-afetiva

Nelson Job



http://images1.wikia.nocookie.net/uncyclopedia/images/e/ec/Asia_Carrera.jpg

Asia Carrera


Onde você me estereotipar, lá eu me transformarei. Ou talvez em outro lugar. Melhor ainda: se me dão a opção de “ou alguma coisa... ou outra”, é-me dada, nesse exato momento, toda a oportunidade de criar terceiras, quartas e infinitas opções. Dói-me o ouvido. Me empurram para o médico? Ao invéns de me permitir que o médico molde o meu ouvido à sua imagem e semelhança - o ouvido que não pode e não deve ouvir o sussurro do cosmos – prefiro, então, vomitar estas linhas e fazer o ouvido parar de doer e começar a cantar! Tome menos remédio e deixe a dor do corpo te “desertar para outra sina do existir”, como diria Guimarães Rosa. Alerto-me de vários outros fascismos: “é proibido fumar!”, se não fumo, devo odiar quem fuma? Fume-se, ora! “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”: fascismo tipicamente brasileiro. Ainda BEN, Jorge Ben inventou o samba-rock (e um outro Brasil!), misturou com o hermetismo e os alquimistas (sonoros não-puristas) estão chegando... “Isto não é coisa de deus!”: fascismo tipicamente jesuíta. Prefiro Spinoza: se não é de Deus, não existe. Dizem que Jesus morreu na cruz pra me salvar. O que me salvou foi a trepada de Jesus com Maria Madalena. Berro isso antes que o câncer que separa o sagrado do profano e o amor do sexo me consuma também. Melhor a gargalhada que vem da tripa neo-pagã que o hipócrita riso jesuíta. O amor domesticado de Hollywood e da novela das 8 (ou 9?) é fruto do jesuitismo. Prefiro a trepada de Asia Carrera. Sim, atriz pornô, que diferente da “pura sacanagem”, beija e abraça carinhosamente, com alegria, seus cônjuges. Não que ela elimine a sacanagem: muito melhor: Carrera sacaneia a sacanagem! Não é à toa que o QI de Asia é 155, ou seja, ela é o único membro da pornografia que tem QI elevadíssimo. Levar o amor onde ele já não mais deveria existir: subversão anarco-afetiva! Também levo em conta o sorriso suave de Mônica Mattos. A suavidade em meio à orgia. Refunda-se Dioniso com leveza. E deixem as crianças se divertirem, por favor! Elas não têm que comprar a angústia moral de pais sem paternidade, elas não tem que se preocupar com vestibular tão cedo: ao invés de Ritalina para as crianças (melhor seria RITA LEE NA criança), quem sabe, “cocaína” (na ausência de real liberdade e arte) para pais e professores.

sábado, 21 de novembro de 2009

DALD

Desinstituto da Alegria, Liberdade e Devir
Nelson Job






Acreditamos em um desinstituto porque as instituições estão cansadas: a escola não ensina, adestra. O hospital não cura, vicia. O Estado não coordena, controla. O homem não é, foi. Acreditamos em um movimento de ir além da instituição em qualquer nível. Acreditamos no amor, não como um contrato de estabilidade entre duas pessoas, mas amor enquanto mergulho relacional na ressonância profunda do cosmos. Acreditamos na produção de mais e mais alegria, e não na felicidade. A felicidade é apenas a falsa idealização de um suposto estado transcendental que é instituído para gerar a sua contrapartida: a infelicidade, e daí, consumo, adestramento. Acreditamos na liberdade, não como um conjunto de leis que indicam o que se pode ou deve fazer, mas na produção de desejo emergindo de uma ética. Acreditamos no devir, não como uma permanência da mudança, mas em um devir selvagem, em uma mudança que muda em uma total ausência de referências, com atratores efêmeros que sugerem o próximo passo da dança cósmica. Acreditamos na religião, não no conjunto de dogmas, mas no religare de coágulos-descoágulos do cosmos. Acreditamos na criação, não da mente individual, mas na criatividade inconstante de si do cosmos: a arte cósmica. Acreditamos na política, não como práticas de poder, mas na relação ética de atratores do cosmos. E acreditamos, sobretudo, na gargalhada, ainda mais que no riso, na gargalhada que sacode o cosmos, que faz perder o controle e ganhar a graça.



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

OS DESAJUSTADOS

_ Este texto faz parte do ciclo ENTRE devires cinematográficos

Franklin Chang


http://houseofmirthandmovies.files.wordpress.com/2008/09/arnoldeve_marylin.jpg


O filme Os Desajustados, dirigido por John Huston, em 1960, e estrelado por Marilyn Monroe e Clark Gable, foi considerado “maldito”, por ter sido o primeiro e o último feito pelos protagonistas juntos. Logo após as filmagens, Clark Gable faleceu de ataque cardíaco, e um ano após o lançamento do filme, Marilyn morreu aos 36 anos de idade.


Mas, além de maldito, ele passou com o tempo a ser considerado “cult”, sendo constantemente reprisado em cine clubes, bem como na televisão. Creio que isto se deve principalmente por causa do tema principal do filme, que fala da alienação do homem moderno e sua incapacidade de viver em harmonia com a Natureza, tema atual dos dias de hoje, e cada vez mais importante.


A história do filme é baseado num fato real, que Arthur Miller transformou num conto. Enquanto ele esperava pelo seu divórcio no estado de Nevada, passou alguns meses morando numa cabana alugada a beira do lago Pirâmide, que era parte de uma reserva indígena. Ali, conheceu três cowboys, que viviam de caçar cavalos selvagens, para vende-los a uma empresa que processava a carne deles, transformando-se em comida enlatada para cachorros e gatos. Eram pessoas desajustadas, e que viviam a margem da sociedade.


Na época em que decidiu escrever o roteiro, ele estava casado com Marilyn Monroe, já então a mais famosa estrela de Hollywood. Ela estava em crise, lutando contra o estúdio Fox, que só queria que ela trabalhasse em comédias sexy, mas ela resolveu criar sua própria produtora, e exigiu o direito de participar na escolha dos roteiros, diretores e dos papéis que iria representar. Ela tinha o sonho de ser reconhecida como atriz dramática, e para isto foi estudar na escola Actors Studio, fundada por Lee Strasberg. Este propunha aos atores um método de interpretação mais subjetivo, e calcado em emoções e experiências pessoais, sendo para isto necessário que os atores fizessem psicanálise e explorassem seu próprio inconsciente.


Arthur Miller submeteu o roteiro ao diretor John Huston, que aceitou dirigir o filme, em parte porque o roteiro de seu próximo filme, “Freud”, estava atrasado devido ao tipo de roteiro que Sartre estava escrevendo, muito prolixo segundo Huston. Este que já havia dirigido Marilyn no filme “O segredo das jóias”, um filme de 1950, e ela tinha ficado impressionada com o respeito e o modo como conseguia obter uma alta performance de toda a equipe de filmagem. Huston era uma figura mal vista em Hollywood, era considerado rebelde e comunista, apesar de ter ganho dois Oscar. Talvez por isto, ele tenha ido morar na Irlanda, onde criava cavalos e participava da caça à raposa.


Como produtor, Arthur Miller convidou Frank E. Taylor, que nunca tinha produzido um filme, porque sua fama era de intelectual, que só queria filmar contos e romances de grandes escritores, e por isto seus projetos eram invariavelmente recusados. Ele, possibilitou a Huston e Miller, uma liberdade de criação aliada a uma concepção estética e filosófica, raras vezes vista no cinema americano. Também convidou a a famosa agencia de fotógrafos, Magnum para fazer o trabalho de divulgação de fotos com o trabalho em progresso.


Miller, Huston e Taylor escolheram o resto do elenco ideal para eles. Além de Marilyn, que já tinha aceito participar, Clark Gable, aceitou após ouvir de Miller que o filme tratava de um “faroeste oriental”. Intrigado e curioso, ele aceitou, e após ver o copião final, disse ter sido sua melhor interpretação no cinema, isto após mais de trinta anos de trabalho, e quase setenta filmes rodados. Seu apelido entre os colegas era “The King”.


Montgomery Clift, também teve atuação destacada no filme. Ele que viria a ser o protagonista do próximo filme de Huston, dr, Freud, havia sofrido um sério acidente automobilístico, ao bater embriagado seu carro contra uma árvore. Teve então de fazer uma cirurgia plástica para recompor seu rosto, e estava tentando reconstruir sua carreira. Eli Wallach e Telma Ritter, dois coadjuvante que também tiveram atuações destacadas.


Uma série de “coincidências significativas” marcaram este filme, além de ser o ultimo feito por Marilyn Monroe e Clark Gable. Marilyn tinha-o como ídolo, e imaginava quando criança que ele era o seu pai verdadeiro. Então trabalhar com ele seria a realização de um sonho. Ele, na época estava feliz, porque em breve iria ser pai de novo. A cena final do filme parece premonitória, quando ambos decidem ficar juntos e ter um filho, enquanto olhavam para uma estrela no céu que guiava seu caminho. No filme, a estrela indica uma nova vida para o casal, mas a estrela é também símbolo da imortalidade, a condição que ambos atingiram após morrerem, e serem transformados em mitos.


Para Arthur Miller, que tinha voltado ao local de separação de seu primeiro casamento, o filme que ele viu como um presente para Marilyn, acabou naufragando de vez com a frágil relação deles. Para ela, Miller estava expondo demais sua história pessoal, a ponto de mais tarde Frank Taylor dizer que o filme foi na verdade o “testamento espiritual” de Marilyn. Mas aconteceu algo de bom para Miller, porque durante as filmagens ele veio a conhecer sua terceira esposa, a fotógrafa Inge Morath que fazia parte da equipe da Magnum.


Mas, porque este filme virou Cult, e continua até hoje a ser revisto e comentado?


Para mim, é porque Marilyn teve um papel e uma interpretação, que ultrapassou a dimensão pessoal, como se adquirisse no filme também a dimensão mitológica de uma deusa da Natureza.


A trama que poderia parecer um conflito do mundo feminino contra o masculino, e algumas formas possíveis de relação entre homem e mulher, como pai e filha, companheiros, filho e mãe, acaba indo além, porque a protagonista Roslyn- Marilyn adquire uma dimensão mitológica, a do “eterno feminino”. Em duas cenas isto aparece claramente, primeiro quando ela dança a luz do luar em volta de uma árvore, uma verdadeira ode de amor e comunhão com a Natureza. Depois, quando ela luta para salvar os cavalos capturados pelos homens, inclusive um pequeno potro com sua mãe. Ela fica então possuída por uma força quase divina, e a acusa os homens de serem assassinos, mentirosos e cultuadores da morte.


No seu protesto, há uma defesa apaixonada dos cavalos, mas também da Natureza e da vida em geral. Neste momento, ela se transforma na “Anima Mundi”, uma dusa para os alquimistas, um ser divino feminino, que reside na Natureza e é a contraparte da divindade masculina cristã, que vive no céu.


C.G,Jung, nos diz ao longo de sua vasta obra, que esta cisão entre o masculino e o feminino, ou seja, entre o Espírito e a Matéria, é algo muito perigoso para a humanidade, pois ao sermos possuídos pela hubris (orgulho desmedido) em nossa capacidade de dominar a Natureza através da Ciência e da tecnologia, estamos como Fausto fazendo um pacto com Mefistófeles e o preço a ser cobrado é a entrega da alma humana e a morte.


Quando hoje, estamos todos ameaçados por uma crescente destruição da Natureza, em proporções globais, não sabemos o que fazer ou a quem recorrer. De certa forma, nos falta uma figura divina ligada à terra, a quem orar. Para os antigos alquimistas, era preciso reconhecer a existência da divindade na matéria. Porque , só com a ajuda desta dimensão, poderemos construir uma nova cultura , religião no sentido original da palavra re-ligare e sociedade globalizada, como o mundo em que vivemos atualmente.


Finalmente, gostaria de lembrar que as filmagens foram realizadas dentro de uma reserva indígena, um território sagrado, onde viviam os últimos mustangs, os cavalos selvagens que impulsionaram toda a conquista e o desenvolvimento econômico do Oeste americano, mas que acabaram virando comida enlatada. Talvez, eles sejam os verdadeiros heróis do filme, e que podem coexistir com os seres humanos, como os participantes do filme, se houver um reconhecimento afetivo, moral e até espiritual de que somos todos partes integrantes de um todo maior, Gaia, a mãe terra, e a Anima Mundi, um espírito vivo que habita dentro de cada ser vivo do planeta


Marilyn Monroe with Clark Gable in "The Misfits" (1961), ... sfc

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ética em Pesquisa com Seres Humanos: Abordagem da Legislação Brasileira

Este texto pertence ao ciclo "Civilização em transição"

Arminda Lourdes de Azevedo


1 – Conceito de Bioética

Bioética é um neologismo, criado por V.R. Potter, no século passado. Numa definição bem sucinta poderia se dizer que:

“Bioética é o estudo sistemático das condutas humanas na área das ciências da vida, de uma forma geral, bem como na área da atenção à saúde, de modo que tais condutas sejam examinadas à luz de princípios e valores morais de uma forma abrangente e, em especial, à luz dos valores da sociedade onde os fatos, objeto de estudo, se desenrolam”.


2 – Abrangência

A bioética não se restringe ao estudo da ética do profissional de saúde e das áreas humanas, vai muito além. Desta forma abarca questões relacionadas com os valores e princípios éticos que envolvem uma enorme gama de profissionais não só da área da saúde, tais como médicos, veterinários, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, como também profissionais das áreas humanas como sociólogos, antropólogos, além de profissionais das ciências da natureza como biólogos, ambientalistas, ecologistas etc.. Assim, a bioética abrange todos aqueles que estão envolvidos com a vida quer em sua expressão individual ou coletiva.


No que diz respeito à pesquisa, a bioética se aplica tanto às pesquisas biomédicas (pesquisa clínica) como as pesquisas relacionadas com o comportamento humano ou às pesquisas sociais. Não importa se estas pesquisas irão influenciar ou não o tratamento terapêutico, direta ou indiretamente.


A bioética envolve um leque enorme de questões, abordando desde problemas sociais relacionadas à saúde (saúde pública, saúde do trabalhador, controle de natalidade etc.) passando por questões relativas ao uso de animais em pesquisas clínicas, tipo de tratamento dispensado a estes animais até às questões conflitantes a cerca do meio ambiente, tais como emissão de gases tóxicos, descarte de material biomédico contaminado na natureza, agrotóxicos, efeito estufa; enfim todas as questões que colocam em risco a vida do individuo, de um grupo social ou do planeta.


3 – Antecedentes Históricos

Com o desenvolvimento da ciência moderna, dentro de uma visão mecanicista de Newton, surge também um novo modelo de pesquisa em todas as áreas do conhecimento. Ao lado deste modelo de desenvolvimento da ciência, pautado por atitudes mentais bem específicas e em interesses materiais, começa a delinear, dentro de um cenário histórico e sócio cultural, frutos da revolução industrial, uma nova concepção do homem e as noções embrionárias de direito e autonomia individual, que muito mais tarde irão levar ao conceito de direitos humanos.


As primeiras pesquisas envolvendo seres humanos, ainda no século XIX, encaram o homem como objeto e não como sujeito da pesquisa. Os cientistas ainda estão influenciados pelo positivismo cientifico. Entretanto, após as atrocidades cometidas durante a segunda guerra mundial, com os infames experimentos nazistas nos campos de concentração, a comunidade cientifica internacional escreve o Código de Nuremberg, em 1947, que afirma o direito do indivíduo em participar ou não, voluntariamente e livre de qualquer tipo de coação, de uma pesquisa clínica. Antes do início da pesquisa o investigador deve obter o consentimento voluntário do sujeito de pesquisa, informando-o tudo a cerca do que vai ocorrer no experimento e que ele pode retirar seu consentimento a qualquer momento, se assim o desejar. Em 1948, a Associação Médica Mundial que fornece as diretrizes para o comportamento e atos médicos incluiu, em seu código de ética, os postulados de Nuremberg.

Contudo, nem as atrocidades nazistas, nem o freio trazido pelo Código de Nuremberg e as normas emanadas pela AMM foram suficientes para por fim a verdadeiros genocídios cometidos em nome da ciência. O preconceito racial, a exploração capitalista e o desrespeito generalizado aos menos favorecidos ainda fazem suas vítimas no pós-guerra do século XX e ainda hoje em pleno século XXI.


Em 1972, torna-se público nos Estados Unidos um estudo que teve início na década de 40, conhecido como Tuskegee Study. O estudo visava observar o curso natural da sífilis e foi realizado exclusivamente com a comunidade negra, no Estado do Alabama (400 indivíduos). Para tanto, usou-se placebo, ainda que em 1945 tenha sido descoberta e comercializada a penicilina, que oferecia a cura completa da doença. O estudo só veio à tona, denunciado por um jornalista, quando os últimos pacientes morreram em conseqüência da sífilis quaternária, que é cruel, pois atinge vários sistemas do corpo humano.


Ainda no final da década de 70, surge nos Estados Unidos o escândalo conhecido como o Willowbrook State School, igualmente denunciado pela imprensa. Nesta instituição, um grupo de cientistas submeteu as crianças carentes ali internadas para ter abrigo e tratamento para suas enfermidades de base, (comprometimento neurológico ou psiquiátrico) ao estudo sobre o curso natural da hepatite B e a resposta imunológica do organismo à doença. O desenho da pesquisa incluía a inoculação, nestas crianças, do próprio vírus vivo da hepatite B., quer diretamente, via endovenosa, quer expondo tais menores ao contágio com crianças já infectadas e doentes. Este episódio é conhecido como o escândalo do Willowbrook State Hospital e teve, na ocasião, uma repercussão internacional. Hoje, este tipo de pesquisa tem sido realizado não mais na América do Norte e sim na África subsaariana, quando recentemente, para testar um medicamento contra AIDS, uma pesquisa foi realizada com mulheres grávidas, onde o grupo controle tomou placebo, quando já se sabe que a transmissão vertical pode ser evitada com o uso do coquetel específico. Isto acarretou a morte de mães e filhos.


Como se pode ver, o mundo capitalista, em matéria de pesquisa clínica, não difere muito dos métodos usados pelos “cientistas nazistas”.


Estes escândalos levaram as autoridades americanas de saúde e a comunidade científica daquele país a criar instruções e procedimentos específicos para avaliar, sob o ponto de vista ético, os protocolos de pesquisa que envolvem seres humanos, bem como a criar comitês institucionais para revisão ética dos projetos e uma Comissão Nacional, com vistas à proteção aos seres humanos envolvidos em pesquisas biomédicas e comportamentais.


Em 1978, o Informe ou Relatório Belmont apresenta os princípios básicos que deveriam nortear a análise e a avaliação dos protocolos de pesquisa. Estas regras, mais tarde irão influenciar a teoria mais conhecida em Bioética, conhecida nos meios acadêmicos como Principialismo e que oferece as diretrizes para a maioria dos comitês independentes de ética, espalhados pelo mundo.


Estes princípios são:

1) Princípio do respeito às pessoas caracterizado pelo reconhecimento da autonomia do indivíduo e pela necessidade de proteção ao sujeito de pesquisa em todas as etapas da pesquisa e após sua conclusão.

2) Princípio de justiça, caracterizado por uma amostra eqüitativa e pelo respeito a todos os direitos do indivíduo, inclusive o de informação do que será realizado no experimento.

3) Princípio da beneficiência e não maleficiência, caracterizado pelo retorno ao individuo e à coletividade e a avaliação da relação risco x benefício.


O Relatório de Belmont é, de fato, o primeiro documento que propõe uma metodologia para a análise e revisão ética dos protocolos de pesquisa.


Após o Informe de Belmont, uma série de marcos regulatórios surgiram com o objetivo de servir de parâmetros para a análise e avaliação ética dos protocolos de pesquisa clínica, tais como o Relatório Nuffield, as pautas do CIOMS e até a própria Declaração de Helsinki, que apesar de ter sido criada na década de sessenta, passou por sucessivas modificações, sendo a última em novembro de 2008, modificações estas realizadas ao sabor dos interesses dos países patrocinadores de pesquisa.


A Legislação Brasileira

O Brasil possui uma das mais avançadas legislações sobre a proteção ao sujeito de pesquisa do mundo. O principal marco regulatório é a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e abrange todo tipo de pesquisa, desde as biomédicas, as comportamentais e até as sociais. Este documento está fundamentado nas declarações e diretrizes internacionais sobre o assunto, bem como tem por base os Acordos Internacionais sobre Direitos Humanos, nos quais o Brasil é país signatário, além é claro na própria legislação brasileira que defende os direitos dos cidadãos, tendo no topo a Constituição Federal de 1988 com suas claúsulas pétreas, que consolida os direitos fundamentais da pessoa humana.


A Resolução 196 cria o Sistema CEP-CONEP, diretamente atrelado ao Conselho Nacional de Saúde. Este sistema é responsável pela revisão e aprovação do ponto de vista ético de todo e qualquer projeto de pesquisa que envolva seres humanos. Tem também a seu cargo acompanhar e fiscalizar o cumprimento fiel dos protocolos aprovados. Os CEP’s ou Comitês Independentes tem caráter institucional e a CONEP (Comissão Nacional) é a instância de recurso, além de ter como competência a coordenação do sistema, a aprovação de novos comitês e a proposição de normas de atuação do sistema, que aprimorem o sistema. Tanto os CEP’s como a CONEP são organismos transdisciplinares, compostos por diversos profissionais de saúde, além de advogados, sociólogos, teólogos, filósofos, além é claro, da participação obrigatória de pelo menos um representante dos usuários, com participação ativa e voz em todas as decisões. Os membros dos comitês são eleitos por um período de três anos, podendo ser reconduzidos. Entretanto, todo o comitê e a CONEP deverão ter seus quadros renovados em 50% de três em três anos. O trabalho é totalmente voluntário, considerado como serviço de alta relevância para o país, uma vez que o sistema está vinculado a um Conselho Nacional, que é órgão consultivo máximo em determinada área e obrigatoriamente deve contar com experts e com membros da sociedade civil.


A Resolução 196 foi estruturada dentro da Teoria Principialista da Bioética, embora Resoluções posteriores do CNS tenham, cada vez mais, aproximado nosso conjunto de normas da Carta dos Direitos Humanos da ONU, que é a tendência atual, dentro da Bioética.

O principialismo que norteou a Resolução 196 pode ser observado nos seguintes pontos abordados por este documento legal:


1) Princípio do Respeito aos sujeitos de Pesquisa: COMPLETA AUTONOMIA E PROTEÇÃO

a) Obrigatoriedade de Termo de Consentimento livre e esclarecido (TCLE) que deve ser dado por escrito, pelo sujeito da pesquisa ou seu representante legal, que esteja em pleno gozo de sua autonomia e direitos. Este documento deve ser livre de vícios, coação, intimidação, dependência, subordinação de qualquer natureza e deve conter em linguagem absolutamente accessível ao nível de escolaridade do individuo, todas as informações relativas à pesquisa tais como natureza, objetivos, métodos, possíveis incômodos ou riscos, ainda que mínimos como também os benefícios previstos, grau de segurança da pesquisa, garantia de receber o melhor tratamento disponível durante e após a realização da pesquisa e que não terá qualquer prejuízo em seu tratamento caso não deseje participar do protocolo, podendo inclusive, retirar-se da pesquisa a qualquer tempo, sem qualquer prejuízo em seu tratamento. O pesquisador principal deverá responder a todas as perguntas sobre a pesquisa, bem como fornecer seu telefone ou de seus auxiliares, de modo que o sujeito da pesquisa possa ter acesso aos responsáveis sempre que necessário. O telefone do CEP que aprovou a pesquisa deve também constar do TCLE, para que o individuo possa ter acesso para efetuar qualquer denúncia relativa ao não cumprimento do Termo.

b) Previsão de ressarcimento das despesas decorrentes da participação na pesquisa.

c) Indenização em caso de dano decorrente da participação na pesquisa.

d) Proteção a grupos vulneráveis (crianças, mulheres grávidas, indígenas, pessoas privadas de liberdade quer internas em instituições prisionais ou cautelares, pessoas com transtornos mentais etc..)

e) Garantia de sigilo, confidencialidade, privacidade, proteção à imagem e garantia de não ser estigmatizada.

2) Princípio da Beneficiência e Não Maleficiência

a) Ponderação entre os prováveis riscos e benefícios (imediatos, potenciais, individuais ou coletivos).

b) Projeto de pesquisa com desenho e metodologia adequada à comprovação da hipótese ou testagem do fármaco ou procedimento.

c) Compromisso em maximizar os benefícios e minimizar possíveis riscos.

d) Garantia de que danos serão evitados (não maleficiência) e caso ocorram serão devidamente indenizados.

e) Exigência de cobertura securitária para o caso de possíveis danos.

3) Princípio de Justiça

a) Relevância social da pesquisa.

b) Distribuição eqüitativa da amostra.

c) Retorno dos resultados e benefícios para o indivíduo e para

comunidade.

d) Acesso aos produtos, fármacos, procedimentos testados mesmo após a realização da pesquisa, caso isto tenha beneficiado o sujeito da pesquisa.

e) Garantia aos sujeitos de pesquisa de condições dignas de acompanhamento, tratamento ou orientação, durante e após a conclusão da pesquisa.

f) Garantia de contato permanente com o pesquisador principal ou pesquisador auxiliar para os casos de emergência ou duvidas.

g) Acesso ao CEP para tirar qualquer dúvida ou denúncia de não cumprimento dos termos do TCLE.


Além da Resolução 196/96, principal marco regulatório para avaliação ética dos protocolos de pesquisa com seres humanos no país, existem outras resoluções complementares sobre projetos específicos, tais como as que tratam da operacionalização dos CEP’s e da CONEP; as pesquisas que abordam o uso de novos fármacos e que envolvam o uso, transporte e encaminhamento para fora do país de material biológico; pesquisas coordenadas do exterior ou com participação estrangeira; pesquisas proibindo o uso de placebo quando houver tratamento médico conhecido e já comprovado; pesquisas envolvendo reprodução assistida, manipulação de gametas, embriões, feto, medicina fetal, anticoncepção. Há também uma resolução específica para pesquisas envolvendo povos indígenas, bem como outra para pesquisas na área de genética humana e células embrionárias, além de portarias de outros órgãos do MS, como a ANVISA.


Toda legislação brasileira sobre ética em pesquisa envolvendo seres humanos encontra-se disponível no site do Conselho Nacional de Saúde, cujo endereço eletrônico www.conselho.saude.gov.br , clicando no item comissões e escolhendo CONEP