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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Colecionando Ambientes: acompanhamento terapêutico e perspectivismo

Nelson Job

Fácil?
Não.
Se fosse fácil não valeria a pena fazer.
Essa alteridade é que desafia.
Inventar alguém que não é você mesmo.
Inventar um mundo onde ele se locomova.
Inventar uma Austrália.
J. M. Coetzee




Veremos aqui um caso de Acompanhamento Terapêutico – que não se distingue de qualquer prática clínica em estatuto, seja “de consultório”, seja “de grupo” etc. O AT é uma prática na qual levamos esquizofrênicos, autistas, drogadictos e também alguns auto-proclamados deuses, homens-compressores, excêntricos incompreendidos etc para a rua, incluindo shoppings, praias, cinemas, prostíbulos etc.

A melhor expressão, até então, que diria acertivamente de um AT, foi me dado por um cliente. Eu estava falando em um grupo de estudos cujo grupo de estudos pode ser considerado um fractal ou mônada deste texto, pois serão usados alguns autores e argumentos em comum, além do cliente em questão ser o mesmo. Este cliente, entre outros, estava ouvindo atentamente a leitura do conto de Guimarães Rosa “A Terceira Margem do Rio”, e sua escuta era tomada por vertigens, em alguns momentos da leitura ele soltava uns gemidos e tremia sutilmente o corpo, como se estivesse em uma espécie de montanha-russa literária. Durante o debate do grupo o cliente nos brindou com o seguinte comentário:
-O que me interessa é colecionar ambientes, sair pelos espaços observando as pessoas caminhando, se relacionando, fazendo parte do balé com as coisas à sua volta.

Chamaremos este cliente de Dalí, pois num dos nossos encontros, em sua casa, ele me disse que teria como uma espécie de grande projeto de vida um “surrealismo possível”. Como, além disso, ele é um admirador do pintor ícone do surrealismo, procurei por uma definição deste movimento artístico e me surpreendi com o desdobrar de sentidos que o “colecionador de ambientes” me proporcionara. Vejamos a definição de “surrealismo” encontrada no primeiro “Manifesto do Surrealismo” de André Breton [1962]:
“Automatismo psíquico em estado puro mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral.”

Este surrealismo aplicado à vida é uma potência afirmativa de Dalí, porém uma vida com tais propósitos gera conflitos entre ele e com ele, fabricando solidão, incompreensão e, muitas vezes, agressividade. A intervenção do AT se dá também nestes momentos, nos quais o cliente precisa estabelecer algum diálogo, criando um território em comum, de forma que seja possível a com-vivência entre ele e seus familiares e demais pessoas próximas, sem levar a medidas drásticas como a quase inevitável internação psiquiátrica, procedimento que geralmente deixa seqüelas em todos.

Voltemos à expressão de Dalí “colecionando ambientes”. O ato de colecionar ambientes é compatível com a prática do AT, já que queremos que o cliente tenha novas experiências, conhecendo lugares, sabores, cheiros, incômodos, pessoas, bichos, enfim gentes e coisas. Esta rica expressão pode ser confinada a um psiquiatrização onde a criatividade se perde. Admito que certa psiquiatria ajuda Dalí, mas, para ficarmos no plano dos diagnósticos, daríamos a Dali o de “disfunção lírica”, inspirado no poeta Manuel de Barros (1996) que também versava:
“Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.”

Podemos afirmar que a fala peculiar de Dalí se encontra em um limiar entre o poético e o delirante e, no AT, uma escuta qualificada deve tender a desdobrar o devir poético da sua expressão. Pediremos, uma vez mais, auxílio a Manuel de Barros (1993):
“No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos-
O verbo tem que pegar delírio”

As articulações de Dalí com a poesia de Manuel de Barros se multiplicam. Dalí e eu estávamos tomando café após uma apresentação de chorinho no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, quando observei que todos os executivos sentados à mesa próxima a nossa vestiam ternos azuis. Ele devolveu:
-Não fale mal do azul, não. Eu estudei profundamente o azul e sei que dele saem todas as coisas.
A obra de Manuel de Barros (1996 e 2000) dialoga em vários momentos com o azul:
“Uma violeta me pensou, me encostei no azul de sua tarde.”
E:
“Vi ainda um azul perdão no olho de um mendigo”

Convém lembrar que o analista Wilheim Reich [1927] escreve sobre a visibilidade da energia orgonal que: “a cor da energia orgonal é azul ou azul-cinza.” O orgon, para Reich, seria uma espécie de energia vital que comporia os seres humanos, os animais, as plantas e até a atmosfera. Não é o caso de nos aprofundarmos aqui na teoria reichiana, mas, ao menos para Reich e Dalí, sim, do azul saem todas as coisas. Mais uma vez, Dalí mostra uma estranha perspicácia nas suas vivências, muito difícil de compreender, salvo um ouvido bem atento.

Manuel de Barros continuará a nos dar material para compreender melhor Dalí, tanto no seu estilo, quanto em seu conteúdo “Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam.” (Barros – 2003)

Esta citação de Barros vai encontrar ressonância na filosofia de Gilles Deleuze [1993] quando este diz em seu texto “A Literatura e a Vida”:
“(...) a literatura apresenta já dois aspectos, quando opera uma decomposição ou uma destruição da língua materna, mas também quando opera a invenção de uma nova língua no interior da língua, mediante a criação de sintaxe. ‘A única maneira de defender a língua é atacá-la... Cada escritor é obrigado a fabricar para si sua língua..’.[1]

Tanto Barros como Deleuze estão colocando a sintaxe (ordenação de palavras) como mais importante do que a semântica (significado das palavras). O pensamento destes autores confluem para a fala peculiar de Dalí, que enuncia frases como: “vou chamar esta calça para viajar com a gente.”

Seguindo com Deleuze, o filósofo conceitua uma “gramática barroca” ([1988]), na qual afirma que “o predicado é antes de tudo relação e acontecimento, não atributo.” Segundo o autor, o predicado é ato, movimento, mudança, passagem de um pensamento a outro. Assim, no lugar de “a árvore é verde” ele propõe “a árvore verdeja”, ou seja, a criação de novas sintaxes, onde “verdejar” é a relação que a árvore estabelece com o campo em que ela está inserida. Durante a noite, ela pode não mais verdejar, e sim “escurecer”, sendo assim, o “verde” não é essência”, mas devir.

A gramática barroca de Deleuze me foi muito útil para compreender Dalí no seguinte diálogo:
DALÍ: Que palavra você atualizaria?
NELSON: A conectividade.
DALÍ: A nossa conectividade vai estar sempre doente, devido ao maniqueísmo.
Continuando a conversa com Dalí, me pareceu que o “maniqueísmo” ao qual ele se referiria era o dualismo sujeito-objeto, e o que estava sendo proposto por ele era uma espécie de “conectividade” onde menos Dalí e Nelson conversassem, mas que do conversar emergisse o gerúndio “dalínelsando”, ou seja, uma gramática barroca emergisse entre Dalí e Nelson.

A gramática barroca de Deleuze nos dá material para compreender tanto a peculiar fala de Dalí, como a obra de Manuel de Barros. É óbvio que Dalí se comunica em prosa (prosa poética, é fato), e Manuel de Barros tem poucos textos em prosa, o que me remeteu a um escritor que o próprio poeta reverencia: Guimarães Rosa.

Entrar em contato com a obra de Guimarães Rosa é ser impactado com sintaxes singulares. Especificamente o conto “A Terceira Margem do Rio” (Rosa, 1988) nos é precioso, pois a narrativa ajuda a pensar a história de vida de Dalí; o estilo de prosa – sintaxe - de Guimarães Rosa nos fornece ferramentas para apurar a escuta em relação à fala de Dalí; a “terceira margem” do conto vai nos servir de exemplo para pensar o entre e o perpectivismo, conceitos que nos serão importantes neste texto e o conto foi ouvido (com vertigens) pelo próprio Dalí no grupo de estudos que é fractal a este texto, como já mencionamos.

O narrador de “A Terceira Margem do Rio” morava com seu pai, mãe, um irmão e uma irmã a beira de um rio. Eis que o pai manda construir uma canoa, sai de casa e fica vivendo no rio com a roupa do corpo, vagando com a canoa entre uma margem e outra onde “se desertava para outra sina de existir”. O filho ficava especulando qual seria o motivo da atitude do pai, enquanto seus outros familiares vão pouco a pouco deixando a casa. Ao final do conto ele decide tomar o lugar do pai, refletindo: “Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ou então, todos.” O pai aparentemente aceita a proposta do filho e põe a canoa rumo à margem onde ele se encontra. Arrependido e apavorado, o filho foge, onde o conto termina: “e eu, rio a baixo, rio a fora – o rio.

Para fazermos as articulações entre conto e cliente, vejamos um pouco da história dele: Dalí, algumas vezes, recusa o AT para, segundo ele, “cuidar dos coroas”, postura que seus pais praticamente ignoram. Dalí sofre com o pouco contato que tem com os pais, e suas irmãs, tal qual os irmãos do conto, foram saindo de casa e têm pouca relação com o irmão. A mãe ainda conversa com Dalí, mas através de falas estereotipadas, repetitivas, onde Dalí a acusa de “ter se mudado para a Europa”, o que me sugere uma crítica à mãe devido ao seu comportamento alienado e pouco condizente com o lugar em que vive, a saber, a Zona Norte do Rio de Janeiro. Seu pai, começando a dar sinais de debilitação devido a um câncer, cada vez mais viaja para uma casa na região serrana, ou seja, foi-se com a canoa.

Assim como o narrador do conto, Dalí fica sendo uma espécie de voyeur da situação do pai e o trabalho do AT seria o de potencializar a autonomia do cliente em relação à família de modo que eles possam viajar sem ter que levar Dalí e este possa viver para além da situação familiar, deixando de viver em função do pai.

É chegado o momento de fazermos uma pequena aplicação do conceito de perspectivismo na clínica do AT com Dalí.

O perspectivismo foi elaborado por Leibniz e seguiu-se na história do pensamento via Nietzsche, Gabriel Tarde, Whitehead, Deleuze etc. Nos reportamos ao perspectivismo do antropólogo Eduardo Viveiro de Castro (2002) em seus estudos dos índios na Amazônia.

Uma primeira distinção se faz necessária entre perpectivismo e relativismo. No relativismo nós temos um objeto e várias perspectivas, no perspectivismo, cada ponto de vista, cada ato de olhar gera um mundo, gera uma natureza, sendo assim podemos afirmar que o perspectivismo é um multinaturalismo.

Vejamos um exemplo do cinema, ainda que muito simétrico. No filme “Os Outros”[2], com Nicole Kidman, uma mãe vive com dois filhos que têm uma rara doença que os impossibilita de entrar em contato com luz. Eles estão à espera do pai que estaria na guerra. A filha começa a ter visões de fantasmas, o que preocupa muito a sua mãe. Ao final do filme descobrimos que na verdade a mãe, sabendo da morte do marido, matou os dois filhos e se matou, e os tais fantasmas que a filha via era uma médium que acompanhada pelos novos proprietários da casa, tentava se comunicar com eles, os fantasmas. Num surpreendente perspectivismo, constatamos que, no ponto de vista dos vivos, os fantasmas são os mortos e no ponto de vista dos mortos, os fantasmas são os vivos.

O perspectivismo fala de um maneirismo corporal, ou seja, não um corpo biológico, mas afetos, capacidades, conjunto de modos que singularizam um corpo enquanto habitus. Viveiros de Castro (2002) se pergunta o que um índio tem de afecção-jaguar, por exemplo no ato de caça. No campo da clínica, pergunto-me o que um dito esquizofrênico tem de afecção-coiote, num “surto” onde ele grita (uiva?) para o cosmos.

Lévi-Strauss [1964] nos traz um dos primeiros exemplos de perspectivismo nos registros etnográficos quando relata um mito[3] indígena arekuna sobre a origem dos venenos de pesca, no qual a anta adota uma criança humana, cobrindo-as de carrapatos/pérolas (carrapatos na perspectiva da criança e pérolas na perspectiva da anta).

Para os Arekuna, na perspectiva da anta ela vê pérolas quando eles vêem carrapatos, ou seja, perspectivismo indígena. Viveiros de Castro (2001) fez uma interessante aplicação do perspectivismo na filosofia aplicada à antropologia, resultando em uma importante “ferramenta” etnográfica. A questão é trazer a filosofia indígena com a ajuda da filosofia ocidental que conceitua o perspectivismo, para ser aplicada por nós, ocidentais.

Trazendo este pensamento para o campo da clínica, podemos observar que imputar o ponto de vista do clínico no ponto de vista do cliente é um desrespeito aos mundos que o cliente cria em cada ato de olhar, ou nas palavras de Dalí, uma “conectividade doente”. O clínico, o acompanhante, autêntico, ético, deve respeitar no seu ponto de vista o cliente no ponto de vista do cliente, para emergir entre estes pontos de vista, uma relação. É nesta emergência, neste entre, nesta relação que se dá a clínica.
Em relação a problematização sobre a desnecessária separação entre natureza e cultura, podemos estar atentos no fato recorrente que, na clínica, o clínico opera na sua natureza e imputando esta na do cliente, respeitando, se muito, a “cultura” do paciente. A “natureza” que clínico e cliente forçosamente “compartilham” devido a uma falta de cuidado do clínico, está cheia de “édipos”, “arquétipos”, “couraças” e até “corpo sem órgãos”. Deixar natureza e cultura do cliente se expressar é uma operação muito mais delicada e cheia de armadilhas do que se pensa, semelhante aos cuidados que um antropólogo (Viveiros de Castro - 2001) deveria ter ao fazer um trabalho etnográfico em uma tribo.

Como fica o delírio, pensado à luz do perspectivismo? O delírio é criação de mundo, mundo gerado por aquele ponto de vista, legítimo, autêntico, real. Se a banana conversa com o cliente, então, naquele ponto de vista a banana realmente fala. A clínica se dá levando em conta este mundo, onde a banana fala. Se o ponto de vista emerge da relação (Viveiros de Castro, 2002) no qual existe um ponto de vista onde a banana é falante, a clínica também emerge da relação, entre mundo do cliente e o meu ou entre uma margem do rio e outra, citando Guimarães Rosa.

A medicação psiquiátrica, deve ser problematizada à luz do perspectivismo, já que ela torna turva o mundo criado no ponto de vista do cliente. A medicação pode acontecer, mas devidamente dosada, modulada, para não turvar mundos, mas torná-los suportáveis, tarefa, talvez, mais difícil, porém, ética.
O AT é uma clínica onde o pensamento do perspectivismo é necessário. “Colecionar ambientes” é, também, criar mundos. A clínica em que acredito é a terceira margem do rio, onde se estabelece uma “conectividade”, um surrealismo possível.

Bibliografia
BARROS, Manuel de (1993) Livro das Ignorãças. Rio de Janeiro: Editora Record
_________________ (1996) Livro Sobre Nada. Rio de Janeiro: Editora Record
_________________ (2000) Ensaios Fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record
_________________ (2003) Memórias Inventadas – A Infância. São Paulo: Editora Iluminuras
BRETON, André [1962] 2001 Manifesto do Surrealismo in Manifestos do Surrealismo. Rio de janeiro: Nau Editora
DELEUZE, Gilles [1988] 2000 A Dobra – Leibniz e o Barroco. Campinas: Papirus Editora
_______________ [1993] 1997 A Literatura e a Vida in: Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34
LÉVI-STRAUSS, Claude [1964] 2004 O Cru e o Cozido. São Paulo: Editora Cosac & Naify Edições
REICH, Wilheim [1927]1994 A Função do Orgasmo. São Paulo: Editora Círculo do Livro
ROSA, João Guimarães (1988) Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo (2001) A propriedade do conceito (inédito)
____________________________ (2002) Perspectivismo e multinaturalismo na América Indígena in: A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify Edições



[1] - Aqui Deleuze cita André Dhôtel em Terres de mémoire.
[2] -“The Others”, 2002, E.U.A. Direção de Alejandro Amenábar. Um outro exemplo de perspectivismo no cinema é “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas – Big Fish”,2003, E.U.A. de Tim Burton.
[3] - Nas Mitológicas: I, “O Cru e o Cozido” M145.