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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Neo-animismo enquanto religare

confluências entre a filosofia da diferença, ciência e espiritualidade

Palestra no III Colóquio de Filosofia da Religião IFCS/UFRJ outubro-2008

Nelson Job


Nós não somos indivíduos.
Somos estações em uma Mente única.
(...)
Então, ao tentar fugir de Dionísio,
você é possuído de qualquer maneira.
VALIS, Philip K. Dick

O que pretendo fazer hoje aqui é colocar em diálogo a filosofia da diferença - que possui como paradigma, ou melhor, plano de imanência, a filosofia de Spinoza - com a ciência contemporânea, para trazer reflexões sobre a questão do animismo e do religare, colocando esse religare como uma relação intensiva entre natureza e cultura e também, como relação intensiva de filosofia e ciência.

Para tanto, precisamos (re)definir o animismo. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro coloca que a tradição “desanimista” ou moderna, definia o animismo como a “imagem de um mundo onde o objeto é um caso particular do sujeito, ou, onde todo objeto é um sujeito em potência”. No perspectivismo que Viveiros de Castro expõe dos índios da Amazônia, “o Eu é um caso particular do Outro”, em uma “alteridade que se animiza na medida exata que se inimiza”, ou seja, o animismo, é aqui, um processo de diferenciação, como um relacionalismo na diferença, bem ao gosto, por exemplo, de Whitehead. Esse animismo enquanto diferença, somado aos processos de auto-organização evidenciados pela ciência contemporânea, é o que chamarei aqui de neo-animismo.

Gostaria de lembrar que ciência, filosofia, arte e religião estavam juntas, ou melhor, misturadas, antes da febre separatista de saberes que culminou no Iluminismo. Considerando aqui o Hermetismo um saber talvez “surgido”, por assim dizer, no Egito e na Mesopotâmia, ou seja, anterior à fase helenista na Grécia Antiga – onde foi retomado – vários conceitos que se desdobraram e se refletem hoje com caráter filosófico e/ou científico são semelhantes ao Hermetismo, a saber:

. O Princípio do Mentalismo – diz que tudo é mente, e matéria é mente coagulada (é, então, um princípio animista por excelência). Veio a derivar no conceito de substância em Spinoza e energia em Einstein (tudo é energia com variação de velocidade: E=mc2. Einstein era confessadamente espinozista.

. O Princípio da Correspondência – diz que o que está em cima é como o que está embaixo, derivado em Monadologia na filosofia de Leibniz (cujo conceito de mônada, foi retirado do Hermetismo) e que se desdobrou na física quântica em colapso de onda (a equivalência entre mônada e colapso de onda é feita pelo anestesista Stuart Hameroff, que criou um modelo de consciência quântica junto com o físico “Sir” Roger Penrose). Essa idéia também está presente na Teoria do Caos, nos fractais (a relação entre mônadas e fractais é feita por Deleuze). Relacionar Teoria do Caos e física quântica pode soar absurdo para um ouvido cientificamente atento, mas existe uma teoria recente, cunhada de triangulação dinâmica causal, que articula fractais à gravidade quântica e à auto-organização no universo.

. O Princípio de Vibração – diz que tudo está em movimento, tudo vibra, desdobrado no conceito de multiplicidade em Bergson e, na ciência, em uma das teorias da unificação da física quântica com a Teoria da Relatividade chamada Teoria das Supercordas, que especula o universo como uma imensa orquestra de cordas vibrando em diferentes vibrações, gerando assim a sua diversidade de componentes.

Sabemos também que do Hermetismo se desdobraram a Alquimia e a Astrologia, que por sua vez, desdobraram respectivamente em Química e Astronomia. É conhecido o trabalho de Betty Dobbs, que afirma ser a Ótica de Newton totalmente baseada na Alquimia e o conceito de gravidade, parcialmente influenciada por ela. Lembremos que a maior parte dos escritos de Newton eram sobre Alquimia. Já é clichê lembrar o trecho do discurso do economista, hoje “tão em voga”, John Maynard Keynes: “Newton (...) foi o último dos magos”.

O filósofo epicurista Lucrécio, que viveu provavelmente entre 96 e 55 a.C., cunhou o conceito de clinâmen, que é o movimento espontâneo dos átomos de Epicuro. O fato do átomo possuir um movimento espontâneo, já evidencia um caráter animista da obra dos epicuristas. Luiz Pinguelli Rosa considera o clinâmen um precursor do movimento caótico, na física do século XIX e do Princípio da Incerteza, na física quântica.

Spinoza, no século XVII, quando equivale Deus, substância e mente, já está propondo um animismo, se considerarmos Deus enquanto vivo e a mente como estatuto do vivente. Também é uma conceituação que leva à auto-organização, já que todos os processos que Spinoza descreve se dão na e através da substância.

As mônadas de Leibniz são um proto-pan-psiquismo visto que as mônadas possuem percepções. Esse proto-pan-psiquismo, esse vitalismo, vai ser desdobrado mais tarde no conceito de ocasião atual na filosofia orgânica de Whitehead. Manuel Delanda, filósofo mexicano professor da Universidade de Columbia em Nova Iorque, considera a Monadologia de Leibniz um tratado de auto-organização. Muito justo, visto que, para Leibniz, cada mônada é “um espelho vivo e perpétuo do universo”.

James Lovelock, cientista precursor dos movimentos ecológicos, afirma com sua Hipótese Gaia que a biosfera da Terra engendra a sua própria continuidade, em mais um exemplo de um processo de auto-organização. Lynn Margulis, co-autora do conceito, é adepta de Gaia fraca, ou seja, acredita que a teoria não passa disso, um sistema da biosfera, mas Lovelock propõe pensar a Terra como um ser vivo, ou seja, mais uma perspectiva animista. Pesquisas recentes, como a identificação de processos de auto-regulação de incêndio e chuva na floresta amazônica, tendem a reforçar a Hipótese Gaia.

O já citado Manuel Delanda relaciona o conceito de máquina abstrata de Deleuze e Guattari com o de atrator estranho da Teoria do Caos afirmando que a geologia, a biologia e a linguagem fazem parte de uma mesma máquina abstrata: as lavas e seixos se auto-organizam produzindo a geologia da Terra, como as montanhas, por exemplo; os fluxos de genes se auto-organizam nas espécies e os fluxos de dialetos auto-organizam-se na língua de um dado país através de, entre outros fatores, uma gramática. Delanda nos dá um imenso ferramental teórico pra pensar as relações entre natureza e cultura, rompendo as separações entre vivente e não-vivente, máquina e humano etc, apostando na capacidade de mergulharmos na imanência, ou como Deleuze e Guattari chamam, emprestado do dramaturgo Antonin Artaud: criação de corpo sem órgãos. Mas o que é criar corpo sem órgãos senão assumir um certo animismo, um neo-animismo, ou seja, partilhar com toda a imanência, de forma fractal, toda a existência, toda a acontecência!

Na cosmologia atual, existe um conceito intitulado quintessência. A quintessência, oriunda da energia escura, permite que a expansão do universo seja acelerada, mas não destrói nem os átomos, nem a vida, o que sugere que a quintessência é um processo de auto-organização cósmica, assim como a triangulação dinâmica causal que citamos anteriormente.

O físico Lee Smolin, em sua teoria da unificação chamada loops quânticos, também propõe um universo auto-organizado.

Quando afirmamos que tudo é vivo à luz de um neo-animismo, não afirmamos que as coisas são vivas e sim, que todo movimento é vital, mas dentro de um plano de imanência relacionalista, onde só existem relações de relações, ou seja, em uma perspectiva estóica, que afirma que o ser é devir, e que o devir é vida, as relações são vivas.

Em um mundo em crise, seja a crise ecológica, econômica ou, sobretudo, ética, é seminal perguntar: quais os rumos da auto-organização?, ou, quais os rumos da vida, em sua totalidade aberta?

Se o biólogo Jacques Monod afirma que a velha aliança animista (ou velho religare) está morta e propõe uma nova aliança (ou novo religare) que Prigogine e Stengers se propuseram a realizar, afirmo que, no âmbito de tudo que disse aqui, essa nova aliança é inevitavelmente neo-animista. Nosso momento hoje clama para assumirmos o relacionalismo, para nos sensibilizarmos para as ressonâncias, para efetuarmos a ética espinozista, ou seja, produzir o melhor para a rede, para o campo, e deixarmos no fundo, o sujeito e, em relevo, as relações. Aumentar a sensibilidade aos processos de auto-organização, abdicar do nosso chauvinismo orgânico (como diria Delanda) é a chave para os nossos tempos. É a clínica que eu, enquanto psicólogo clínico, autorizo todos os aqui presentes a exercer a partir de agora!

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