CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 15 de agosto de 2009

A ENERGIA SEGUE O PENSAMENTO

Este texto faz parte do ciclo "Civilização em Transição"


Autor: Emanuel Tadeu Borges



A linguagem dévica

A Energia segue o Pensamento.

1) Sincronicidade.

Considerando-se os trabalhos de Anglada e Jung. O primeiro propõe a aplicação da analogia, do princípio hermético, aos fenômenos observáveis na Natureza e no Universo, buscando realizar a experiência de que o Todo é um Grande Organismo constituído de partes que são, por sua vez, também totalidades orgânicas constituídas de partes; e assim por diante, indefinidamente. Esta é a forma de considerar a objetividade a partir do que ela própria oferece e chegar à experiência transcendental que ele denomina intuição ou plano búdico.

Para Jung, a realidade subjetiva, isto é, os fatos da imaginação, as fantasias e as imagens oníricas, devem ser interpretados como fatores simbólicos que fornecem uma visão complementar à mente racional.

Assim, o mundo objetivo, do modo como aparece à experiência comum, revela uma racionalidade que o torna acessível ao entendimento do intelecto. A vida psíquica, por sua vez, se processa segundo um regime diferente, que aparece na imaginação, durante a vigília e nos sonhos, durante o sono, na forma de uma “irracionalidade”, se recorremos a uma definição negativa (“o contrário da racionalidade”). Para que se possa vivenciar o significado do que para Jung é a vida psíquica e não simplesmente opô-la à racionalidade da vida objetiva, é preciso interpretar os seus conteúdos, o seu fluxo imagético, simbolicamente, seguindo-se os princípios do jogo, da poesia, da brincadeira, da expressão espontânea.

O método de interpretação das imagens psíquicas deve rastrear o sentido de seus conteúdos, ou como diz Jung, amplificá-los. Isto se faz relacionando a história pessoal do indivíduo que sonha ou imagina, ou a história coletiva do povo que se exprime nas imagens, com o sentido do símbolo (seu valor universal ou arquetípico). Portanto, na interpretação das imagens da psique, deve-se sempre realizar a mescla do valor universal da imagem, com a vivência histórica – pessoal ou coletiva. É essa a técnica que Jung denominou amplificação.

Por outro lado, a totalidade se oferece, para pensadores como Whitehead, Bergson e Spinoza, como um certo modo de refinar a experiência[1] (o que Deleuze denominou évenement acontecimento ou empirismo transcendental). Ao passo que para Jung, a totalidade aparece como imagem da totalidade a ser interpretada simbolicamente através do cotejamento com a realidade existencial (história pessoal ou coletiva), isto é amplificada.[2] Assim, a totalidade aparece como resultado sempre renovável e mutável dessa amplificação, na medida em que a psique – individual ou coletiva – não cessa de se re-contextualizar em relação à incessante mobilidade e renovação da existência. Em outras palavras, a totalidade, do modo como se exprime nas imagens psíquicas, é uma apresentação compensadora da relação objetiva do indivíduo com a totalidade, do modo como ele nela se insere atualmente: isto é, a compensação psíquica acompanha o desenrolar da experiência, permanentemente se reorientando, no sentido de manter uma complementaridade entre as dimensões inconsciente e o consciente da vida psíquica.

Quanto à sincronicidade, também ela remete a uma concepção cosmológica. Jung a define como o “princípio de conexão a-causal entre a psique e a matéria”. Em seu pensamento parece corresponder a uma ontologia (“filosofia da Natureza ou metafísica). É uma teoria que propõe a unidade não só entre os processos psíquicos dos seres humanos e sua vida objetiva, como também entre matéria e energia – que formariam as polaridades de um continuum – em que os processos físicos no mundo respondem, “acolhendo” ou “refutando”, aos processos psíquicos dos indivíduos e das coletividades (vivos ou inorgânicos)[3]. De tal modo que não há uma cisão entre “sujeito” e “objeto”, entre as consciências ou indivíduos e o mundo. Mas eles se “co-respondem”.

Assim como as imagens na psique respondem à experiência consciente, o mundo “responde”[4] às disposições psíquicas, tanto quanto ao comportamento ou ações dos seres. É deste modo que a existência, a própria vida, aparece como continuum matéria/espírito, em que as duas formas de manifestação são não só comunicantes como intercambiáveis (sendo a matéria, espírito “densificado” e o espírito, matéria “sutilizada”). E justamente estas comunicações entre as expressões da vida – matéria e espírito – são os fenômenos sincronísticos.

2) Ontologia.

Cada indivíduo do Universo, é simultaneamente uma totalidade constituída de partes integradas e uma parte num todo maior.[5] Cada indivíduo é, ainda, uma totalidade envolvida num processo que se caracteriza pela interação entre dois aspectos que atuam incessantemente na Natureza: matéria e espírito. O resultado desse contato ou da interação entre esses aspectos é a consciência.

A consciência de cada indivíduo é incessante, cumulativa e criativa, em suas duas fases ou regimes de operação (consciente e inconsciente), que atuam de vários modos complementares ou compensatóriosJung[6]). No que se refere ao ser humano, os sistemas em oposição são: consciente e inconsciente; vigília sono; racional e irracional; intelecto e imaginação; atividade e contemplação; percepção e ação etc. Aquilo que se nomeia, em diferentes contextos como o Ser, o Todo, a Natureza ou Deus, corresponde à Consciência Global desses processos individuais de consciência (os indivíduos). Portanto, à integração de todos eles num Grande Processo, também incessante, cumulativo e criativo. Assim, os processos individuais (que, aliás, são simultaneamente, processos coletivos, na medida em que são formados por partes constituintes[7]) e sua totalidade (quer dizer, a totalidade de processos individuais que constitui um universo de uma dada grandeza[8]), são ambos evolutivos. Assim sob a aparência exterior, nos níveis moleculares, atômicos e subatômicos, no plano sutil do continuum matéria/energia, está em curso um processo de embelezamento que, segundo Anglada, se traduz nos termos de um refinamento da expressão do espírito através da matéria e vice-versa. ( e

Há, pois, uma evolução concomitante: (1º) matéria/energia – no plano dito inorgânico; ou (2º) corpo/espírito[9] – no plano dos seres ditos orgânicos. Mas em ambos os casos há vida e consciência, ainda que em diferentes graus. Ocorre uma correspondência e um intercâmbio entre ambas as polaridades desse continuum que exprimem duas linhas evolutivas em permanente colaboração, consciente ou não:

Os homens são como que os arquitetos, projetistas ou “mestres de obra” na construção do tecido cósmico. Os construtores ou operários são os devas, que, como diz Anglada, tecem, estruturam e condensam as formas, Guiados pelos “pensamentos, palavras e atos” dos homens. Daí o sentido objetivo da idéia de “pecar pelos pensamentos, palavras e atos”, ou seja, construir formas negativas nos planos mental, emocional ou físico da existência, no ambiente social humano. Ou ao contrário, favoravelmente ao Plano de Deus, desencadear no ambiente tessituras positivas, construtivas, cada vez mais refinadas. Dois princípios técnicos exprimem essa verdade: “O homem é aquilo que pensa em seu coração” e “a energia segue o pensamento”.

Este embelezamento espiritual/material provoca, segundo afirma Anglada, uma intensificação radioativa dos corpos dos indivíduos (o que lembra a alusão, nas escrituras religiosas e místicas, ao “corpo luminoso”, “corpo de diamante”, “corpo glorioso” etc... que caracteriza os homens santos). Temos um interessante paralelo na correlação estabelecida por Platão entre o Belo, o Bom e o Justo, como coroamento da obra filosófica.

Este processo de Embelezamento, bondade ou compaixão e de justiça ou harmonia, forceja suavemente no âmago de toda forma, sob a desordem e injustiça aparentes ou reais.

3) Ontologia da Sincronicidadeconsiderações técnicas.

Cabe aqui uma pequena “questão epistemológica”. Estamos tratando de idéias que escapam à exigência essencial do modelo científico, desde Aristóteles: a “demonstração”. Duvidar ou acreditar? Eis a postura dos Rosacruzes acerca do conhecimento: “O estudante rosacruz é um ponto de interrogação ambulante”, querendo com isso colocar uma atitude ante a questão da verdade: não duvidar nem acreditar em nada. Ora, isso só é possível quando se considera a verdade não como uma finalidade ou objetivo da razão (modelo aristotélico). Esta é a posição de Spinoza acerca da verdade. A verdade, para ele, não é o objeto a ser encontrado pela razão, não é a finalidade da razão. A verdade é o processo da razão, a verdade é o pensamento em processo. Por isso, o que se deve fazer, segundo ele, é fortalecer o entendimento (daí um de seus livros se intitular “Tratado sobre a correção do entendimento” – “intelectus emendatione”: é preciso corrigir o entendimento[10]). Esta definição é corroborada pela afirmação de Castaneda, “definitions chance as knowledge increases”, as definições mudam à medida em que o conhecimento aumenta. Mas como lidar na prática com a relação entre conhecimento e verdade? O Buda tem um discurso acerca desse problema:

Não devemos crer em algo meramente porque seja dito; nem em tradições porque vêm sendo transmitidas desde a antiguidade; nem em rumores; nem em textos de filósofos, porque foram estes que os escreveram; nem em ilusões supostamente inspiradas em nós por um deva (isto é, através de presumível inspiração espiritual); nem em lições obtidas de alguma suposição vaga e casual; nem porque pareça ser uma necessidade análoga; nem devemos crer na mera autoridade de nossos instrutores ou mestres. Entretanto, devemos crer, quando o texto, a doutrina, ou os aforismos forem corroborados pela nossa própria razão e consciência. “Por isso”, disse o Buda ao concluir, “vos ensinei a não crerdes meramente porque ouvistes falar, mas, quando houverdes crido de vossa consciência, então devereis agir de conformidade e intensamente”. (A Doutrina Secreta; vol. III, p. 401)

Segundo a visão esotérica, o desenvolvimento ou evolução da consciência se dá como resultado do processo de experiência existencial, através de etapas de expansão da consciência denominadas iniciações. Ainda segundo esta visão, a humanidade é constituída de quatro tipos básicos de indivíduos, que variam de acordo com o grau de progresso nesta jornada evolutiva: os indivíduos em provação (o homem comum), os aspirantes, os discípulos e os iniciados. È preciso deixar claro que não está implícita, nessa classificação, nenhum tipo de julgamento de valor moral. Cada ser humano é o resultado atual do seu próprio desempenho ou esforço na senda da evolução. Nada é obtido gratuitamente e o grau evolutivo é a recompensa, ou melhor, o resultado objetivo do esforço empreendido. Por trás desse esforço, opera um impulso incessante e inexorável, denominado pelos místicos de todos os tempos, amor e que nada tem a ver com a concepção intelectual e a expressão objetiva desta palavra nos dias atuais.

Vós aviltastes a matéria por não a terem compreendido, por terem abusado de dogmas errôneos. Não viram a que ponto ela poderia e deveria ter se elevado ao mesmo tempo que vós. Vossa obra de Reconciliação implica uma espiritualização da densidade, quer dizer, daquilo que a terra imprime de pesado em vós e em torno de vós.

É uma bela palavra, direis vós... espiritualização! É verdade que não significa grande coisa uma vez que tudo, tudo é fundamentalmente espiritual. Entendo por isso que cada “coisa”, cada ser, cada ato encontra seu princípio no Espírito e sua destinação é retornar ao Espírito... Mesmo aquilo que concebeis como sendo nefasto à Vida, mesmo aquilo que se rebela contra ela!

O agente universal denomina-se Amor. Mesmo quando se disfarça em amor à violência, à dominação e às posses, é sempre Amor. Assim, o que alguns chamam de rebelião da Matéria contra o Espírito, não é nada além de um episódio desejado pela Vida, ela mesma, em sua fabulosa expansão. É um grão de liberdade, quero dizer de experimentação, de exploração de si. A possibilidade de se enganar e errar, eis o mais belo presente que poderia vos ter sido oferecido, pois ele vos obriga a respirar por si mesmos; ele vos força a desenhar seus próprios mapas e a avançar verdadeiramente, talvez lentamente, mas certamente não como autômatos. (Wézak, L’heure de la Réconciliation, p. 40-41)

Eis aqui questão do chamado “livre arbítrio” claramente enunciada. Tornar-se genuinamente nutrido pelas próprias experiências ou como diz Castaneda, “tornar-se um com o conhecimento”. Ora, falou-se do tipo humano “em provação” como o tipo mais simples na escala evolutiva. Mas isso é relativo, na medida em que a questão é o que se é capaz de realizar com o que se tem. E não seria a provação a constante que impulsiona o processo evolutivo, seja qual for o grau de espiritualidade conquistado?

A partir do ponto em que essa jornada já atingiu um grau razoável de consciência, a questão do processo espiritual passa para o âmbito daquilo que Jung definiu como confronto com a sombra. Em termos práticos, o indivíduo parte conscientemente para uma prova terrivelmente difícil: realizar um serviço pela humanidade, no qual deverá necessariamente, em algum nível, se confrontar com a sombra coletiva, inconscientemente vivida pela humanidade em algum campo da vida social[11]. Por exemplo, Betinho, se confrontando com o problema da fome, gerado pela estrutura político-econômica; Luther King, lutando pelos direitos civis e contra o racismo, na sociedade norte-americana nos anos de 1960; Madre Teresa de Calcutá, cuidando dos pobres e doentes nas ruas do mundo; o próprio Anglada lutou contra as forças de Franco, na Guerra Civil espanhola; etc. Esse desafio pode ser enfrentado em não importa que grau de abrangência, isto é, beneficiando um número variado dentre os que sofrem, segundo o problema em foco. Não se trata de um “campeonato” mas do fato de que, a cada vez, uma luz se faz no mundo, num mundo tão obscurecido pelo individualismo. O que importa é que os focos de espiritualização, uns mais fortes outros menos, cintilem e se multipliquem como faróis na escuridão. Progressiva, ainda que lentamente, iluminando o mundo e orientando aqueles que ainda não são capazes de ver.

Dane Rudhyar, sobre esse ponto, cunhou um interessante conceito para se referir ao potencial de serviço espiritual latente em cada ser humano, que denominou grau de avataridade, recorrendo ao termo sânscrito avatâra (literalmente “descenso”[12]) e que significa “encarnação divina”. Admitindo-se que todos os homens são filhos de Deus, isto é, dotados de uma parte espiritual, alma ou como diz Jung, de uma imagem de Deus (inconsciente porém atuante na psique e que tem como função nos relacionar com a totalidade), então todos somos avatares, no sentido de que em algum grau trazemos conosco uma função ligada ao coletivo do qual fazemos parte.

Essencialmente, toda vida é, de certo modo, simbólica. Eventos exteriores revelam seu propósito e função à mente capaz de penetrar as aparências e intuir as subjacentes ordem e significado do Todo. Se o universo inteiro é uma “teofania” – uma manifestação da Harmonia e Poder divinos – então cada ser humano é, potencialmente, a manifestação de um aspecto particular da Alma, que busca incorporar-se em um momento particular do nosso universo visando estabelecer um relacionamento específico com as condições prevalecentes naquele momento e naquele lugar. Cada ser humano é ou pode ser uma “hierofania” – literalmente, uma manifestação “sagrada”. (An Astrological Mandala, Dane Rudhyar; p. 381)

A compreensão plena dessa realidade depende da aquisição de um outro modo de pensar e sentir, decorrente de uma nova faculdade do espírito acessível numa sintonia superior da mente, no chamado plano búdico da atividade mental. Esta faculdade está diretamente relacionada com o coração como órgão espiritual e é progressivamente adquirida com uma disciplina denominada Agni Yoga ou Yoga do Coração. É uma disposição que já aparece ilustrada na obra de Castaneda como caminho com coração (path with heart, no original; e o próprio autor cita a expressão em espanhol, língua que é falada pelo personagem do índio: caminos que tienem corazon):

Para mim só existe percorrer caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração.

Por eles percorro e a única prova que vale a pena é atravessá-los em toda sua extensão. E por eles percorro, olhando, olhando, arquejante.

Em seu livro Introdución al Agni Yoga, Anglada afirma que o plano budhi da consciência é a via do equilíbrio, o yoga do coração e a próxima etapa para a humanidade em termos cognitivos[13]. É também a “via do silêncio”, na medida em que é preciso silenciar a mente para se aceder, progressivamente, a essa forma de compreensão (ainda uma vez aqui, Castaneda, em seu primeiro livro, sugere a técnica de parar o diálogo interno, como exercício inicial visando transformar a percepção do mundo).

A palavra yoga significa “união”[14], o que remete ao termo religere, raiz etimológica de “religião”, significando “consideração cuidadosa do que nos advém, isto é, a nossa experiência” (como indica o discurso do Buda). Segundo Adler ( citado por Lawrence Jaffe) este é o ponto de partida de Jung[15]. A outra interpretação remete a religare e é também bastante sugestiva, pois fala de um “tornar a ligar, restaurar a ligação do que fora desconectado”, ou seja, o homem e a Natureza, o Universo ou Deus. Este sentido está bem próximo da união, como significado de yoga. E remete ao pensamento de Jung acerca da destinação da psique, quer dizer, da experiência humana, através do processo de individuação: reconectar ou reintegrar as duas instâncias psíquicas, consciente e inconsciente (coniunctio) e re-unir o homem ao mundo (unus mundus).

Anglada recoloca em pauta o projeto de reconstrução da vida social, do restabelecimento das “boas relações entre os homens de boa vontade”, como conceitos a serem aplicados ou praticados sistematicamente no cotidiano, pelo maior número possível de pessoas e em escala crescente. E redimensiona, numa base espiritual, a relação entre planejadores e construtores. Os seres humanos, com seus pensamentos, sentimentos, palavras e atos, são os “mestres de obra” na medida em que orientam as tessituras, nos respectivos planos de densidade, realizadas pelos “operários sutis” que retiram (beleza suprema!) da própria substância de seus corpos, o tecido que constitui a estrutura viva das matérias de densidades variadas existentes no Universo (substância perpetuamente renovada por meio de uma autêntica transmutação alquímica do éter encontrado nos interstícios ocultos dessa grande entidade viva e consciente que é o espaço).[16] É desse modo que se realiza a construção dos diferentes planos de atividade da consciência, com seus respectivos “átomos”, cedidos pelas vidas que manifestam o que a ciência denominou “energia”. Acreditar ou não? Essa informação deve ser verificada pela experiência intuitiva[17]. No mínimo, é um belo mito, para uma nova ética.

Compreenda-se bem: há hierarquia entre os “arquitetos humanos” e os “construtores dévicos”, apenas no sentido de uma ordem superior baseada na harmonia (hieros: sagrada; arché: origem: “de origem ou procedência sagrada, espiritualmente autêntica). Não uma relação de mando, opressão, submissão, como no modelo distorcido do mundo dos homens. Não há “luta de classes” mas a mais estrita e fraterna colaboração (a não ser na assim chamada “magia negra”[18]) Na chamada “evolução humano-dévica”, cada forma de consciência deve realizar com total dedicação a atividade a qual é destinada, sua parte no Grande Trabalho, a obra de construção universal (o que Anglada denomina “Magia Organizada Planetária”).

O esoterismo não é uma série de conhecimentos destinados a ampliar nossa mente, a fazer com que sirva a algum conteúdo de conhecimentos esotéricos, para que saibamos que existem os Mestres de Compaixão e Sabedoria, que existem sete dimensões neste espaço universal, que existem Avatares. Tudo isto é muito bonito, analizado do ponto de vista hipotético, daquilo que não se pode comprovar. E aqui chegamos a um ponto em que poderíamos dizer que, às vezes é melhor esquecer um pouco nossos conhecimentos esotéricos para dar lugar a uma visão prática e psicológica da vida. Entendem o que quero dizer? Trata-se de passar para a ação prática, trata-se de converter nosso mundo em algo que até agora não é. E o que ele é? Paradoxalmente, um campo de amor universal, que é o que todos buscamos do fundo do coração. E a idéia básica de nossa conversação, que será compartilhada como sempre, é aquele aforisma esotérico que diz que a energia segue o pensamento, quer dizer, que o pensamento é a chave da energia. Mas poderíamos agregar a este axioma outro axioma não menos importante e mais prático para nossa visão psicológica da vida, que é: a forma é o resultado da energia, quer dizer, que a contração ou a substanciação da energia tem por objetivo criar uma forma, e tudo quanto vemos de objetivo ou de geométrico, se preferirem o termo, não é mais que energia condensada, energia cristalizada por um poder que existe ou que é imanente ao espaço, e que faz com que o pensamento do homem se converta em energia e por um processo de substanciação, se converta em uma forma. Já podemos entrar aqui no problema crucial das formas físicas que o homem criou e está criando constantemente por falta de visão e também porque em seu coração, até agora, não existe a aspiração superior que o eleve às alturas sempiternas, libere-o das necessidades humanas e dêem a ele um ponto de vista mais amplo, mais extenso e portanto, de síntese espiritual. (Anglada, La energia, el Pensamiento y la Forma, pp. 3-4).

4) ENERGIA=MATÉRIA.

Dizia a dra. Nise da Silveira: “A psicologia de Jung está mil anos à frente do nosso tempo. Jung já afirmava, desde o início do século, que matéria e energia é uma só coisa” (Senhora das Imagens – escritos dispersos de Nise da Silveira. Martha Pires Ferreira, org. Cadernos da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2008; p.308; meu grifo).

À partir da idéia de sincronicidade, do modo como foi amplificada, anteriormente neste texto – corpo e psique e também Matéria e Energia como graus de um mesmo continuum pode-se adiantar a seguinte sequência hipotética:

Energia=psique=corpo=Matéria. E utilizando-se as funções psicológicas: Energia=psique=intuição=pensamento=sentimento=sensação/ação= corpo=Matéria.

Jung define a sincronicidade da seguinte maneira: “princípio de conexão a-causal entre a psique e o mundo”.

Relacionando-se outras hipóteses postuladas pela ciência, pode-se lembrar:

(1ª) A correlação funcional entre a psique e o corpo que se define como somatização (esta nomenclatura tem como ponto de partida o corpo: “somatização da psique”; poderia ser igualmente denominada “psicotização” do corpo, se inverter-se o ponto de partida...).

(2ª)Há ainda a descoberta, no âmbito da ciência física (física quântica), da interferência do observador sobre o experimento:

Um experimento da física clássica, conhecido como dupla fenda, adaptado para a então chamada física quântica, deu início a discussões e contestações de ambas as partes na década de 1920. Nesse experimento acontecia algo surpreendente: os elétrons pareciam comportar-se como partículas – com uma trajetória definida – quando sua posição era observada. Mas pareciam comportar-se como ondas, passando ao mesmo tempo por uma fenda e por outra, quando se media apenas a posição final onde apareciam numa tela. (revista Pesquisa FAPESP – Ciência e Tecnologia no Brasil; janeiro de 2009, nº155, p. 69-70.)

Estranhamente, a presença do observador parece interferir na mudança de comportamento da luz (de partícula, passa a se comportar como onda). Seriam os fótons elementos dévicos, ou seja, formas de consciência elementares, microscópicas que reagiriam à presença da consciência observadora? Anglada:

O Espaço, segundo nos é dito ocultamente e a Ciência com o tempo deverá confirmar, é a matriz de todas as criações. Tem uma absoluta capacidade de resposta a todas as vibrações, sejam as que provêm do mais humilde átomo ou do mais glorioso Arcanjo. Isto é assim porque cada tipo de consciência absorve – se assim podemos dizer – uma porção mais ou menos extensa do espaço para verificar dentro da mesma o experimento criador que responda às necessidades da sua vida evolutiva. Por estranho e misterioso que pareça, o espaço fornece “automaticamente e sem esforço” o Éter qualificado, a substância primordial, que cada Centro Criador precisa. (Magia Organizada Planetária. p.27,destaque meu)

O Espaço é como um fluido que responde às vibrações que lhe são lançadas. Como um Sopro que faz ondular sua superfície, ou um Fogo que o faz ferver, ou um Som que o faz vibrar.

No princípio era o Verbo

e o Verbo estava com Deus

e o Verbo era Deus

Tudo foi feito por meio dele

e sem ele nada foi feito. (J, 1:1-3)

Deus emite um mantra sobre Seu Próprio Corpo, o que os místicos denominam “o OM Criador”, e se faz A Luz.

Nous allons feindre pour un instant que nous ne connaissions rien des théories de la matière et des théories de l'esprit, rien des discussions sur la réalité ou l'idéalité du monde extérieur. Me voici donc en présence d'images, au sens le plus vague où l'on puisse prendre ce mot, images perçues quand j'ouvre mes sens, inaperçues quand je les ferme. Toutes ces images agissent et réagissent les unes sur les autres dans toutes leurs parties élémentaires selon des lois constantes, que j'appelle les lois de la nature, et comme la science parfaite de ces lois permettrait sans doute de calculer et de prévoir ce qui se passera dans chacune de ces images, l'avenir des images doit être contenu dans leur présent et n'y rien ajouter de nouveau.

(Vamos fingir por um instante que nada conhecemos das teorias da matéria e do espírito, nada sobre as discussões sobre a realidade ou a idealidade do mundo exterior. Eis-me, pois, em presença de imagens, no mais vago sentido em que se possa tomar essa palavra, imagens percebidas quando abro meus sentidos, impercebidas quando os fecho. Todas essas imagens agem e reagem umas sobre as outras em todas as suas partes elementares, segundo leis constantes, que chamo leis da natureza, e como a ciência perfeita destas leis permitiria, sem dúvida, calcular e prever o que se passaria com cada uma dessas imagens, o porvir das imagens deveria estar contido em seu presente e nada de novo seria adicionado.)

Trata-se do início de Matière et Mémoire de Bergson. Mas poderia ser uma excelente ilustração da Criação, se recorre-se ao pensamento religioso ou do Big-Bang, prefere-se recorrer ao pensamento científico Partículas de luz, imagens, como diz Bergson, percorrendo o espaço em todas as direções, em velocidade infinita, elevadíssima temperatura, focos translúcidos, atravessando-se sem nada reter em si, em interação absoluta[19]. Como se fosse a Argamassa da Criação sendo revolvida antes do início da Construção. “Substanciação Inicial” imposta pelo Verbo. O Despertar das Qualidades Puras.

À medida que o Universo vai se resfriando, é como se esse Poder Formador e Vitalizador, fosse penetrando cada vez mais no íntimo dos elementos e passasse a guiá-los de dentro (Propósito: 1º Aspecto de Deus), sensibilizá-los de dentro (Consciência: 2º Aspecto de Deus) e estimulá-los de dentro (Inteligência: 3º Aspecto de Deus)[20].

A consciência, então, segundo essa hipótese, apareceria em variados graus de manifestação, complexidade e refinamento, em cada indivíduo ou entidade, por toda a natureza. Desde o átomo e aquém deste, a uma galáxia e além (a idéia do Espaço como uma Entidade, proposta na obra de Anglada, o sugere). Cada indivíduo ou entidade no universo é um ser consciente, simultaneamente uma totalidade constituída de partes funcionais (isto é, conscientes em algum nível) e uma parte funcional numa totalidade maior. Este enunciado nada mais é que a aplicação da Lei de Correspondência entre o microcosmo e o macrocosmos ou Axioma de Hermes Trismegistos: “Assim como é em cima é embaixo”. Deste modo, por exemplo, uma célula vive o seu “processo kármico”, quer dizer, desempenha uma função específica no universo onde está inserida (o tecido de um dado órgão do corpo). Ou, como diz Anglada, vive “o experimento criador que responda às necessidades da sua vida evolutiva”. Da mesma forma, a célula é um universo onde se processa um drama kármico entre os elementos funcionais que a integram. E o órgão ao qual esta célula pertence é, por sua vez, uma parte funcional vivendo uma atividade kármica num universo que o inclui – o sistema orgânico ao qual pertence e onde desempenha sua função.

Portanto, todo indivíduo vive um processo de aperfeiçoamento dual:

(1º) Desempenhando a sua função na evolução ou desenvolvimento da vida do universo do qual é parte integrante.

(2º) Evolui, desenvolve-se, aperfeiçoa-se enquanto totalidade/universo, ele próprio, proporcionando condições cada vez mais favoráveis às partes que o constituem, para o cumprimento ou execução de suas respectivas funções.

Assim, há uma correlação constante, consciente ou inconsciente, entre uma totalidade e suas partes funcionais integrantes. Das unidades conscientes em relação ao todo que integram e inversamente, do todo em relação às partes que o compõem.

A prática do princípio esotérico da magia organizada planetária – “A Energia segue o Pensamento” – significa, pois, uma dupla intervenção consciente sobre o organismo que somos e sobre o ambiente em que vivemos. Isto significa que o efeito de um pensamento, palavra ou ato interfere ao mesmo tempo no ser que somos e no mundo em que vivemos. Em cada “ato consciente” – idéia, sentimento, ações – plasmamos o campo energético ou sensível, tanto do nosso ser individual como do universo maior do qual fazemos parte.

Todo o desafio para mente humana dominada pelos preconceitos do racionalismo científico é considerar esta proposição de que energia=matéria, inicialmente como hipótese de trabalho e em seguida testar essa hipótese a partir de técnicas novas que sejam baseadas numa síntese das descobertas da ciência com as investigações do misticismo prático. E por à prova a proposição essencial de que se energia=vida então consciência=vida: A consciência é a inteiração essencial entre o universo que é um indivíduo qualquer da natureza e o Universo maior em que ele se encontra inserido. Em termos de seres humanos, a consciência é a relação essencial entre o universo que somos e o universo em que estamos. Em termos dos seres ditos orgânicos, o vivo[21] só pode ser entendido em sua relação com o meio. Ainda que, cabe lembrar, aqui define-se a vida como consciência, ocorrendo tanto entre os seres ditos “orgânicos” quanto entre os “inorgânicos” (aliás, até essa distinção entre orgânicos e inorgânicos pode ser questionada e já o é no próprio terreno da filosofia, com Whitehead, que identifica sua obra como Filosofia da Natureza ou Filosofia do Organismo).

O passo inicial para uma síntese desejável entre religião prática e ciência seria a dissolução dessa cisão epistemológica e metodológica e isso já começa a ser realizado no campo do pensamento racional, entre a ciência e a filosofia e mais precisamente a metafísica.

Conclusão: Desfazendo a Bifurcação da Natureza.

O equívoco em relação à bifurcação da natureza (Whitehead, em O Conceito de Natureza) está no fato de que, à parte os movimentos atômicos e subatômicos que a ciência moderna foi capaz de verificar com o desenvolvimento tecnológico dos seus instrumentos (e que antes, com Locke, correspondia às propriedades comuns a todas as substâncias materiais, acessíveis aos sentidos da percepção, chamadas qualidades primárias[22]), o que se observa através da percepção são as qualidades variáveis – as qualidades secundárias, que se dizia serem o resultado da “impressão” que a matéria exerce sobre a sensibilidade, daí resultando uma adição psíquica, dita à parte da natureza, isto é, não ontológica. Sendo assim ficam prescritas, as qualidades secundárias, das considerações epistemológicas da ciência.

No entanto, também as qualidades primárias, no âmbito em que as definiu Locke, ainda que invariáveis para todo objeto material, são observáveis através dos cinco sentidos. Bruno Latour expõe esta questão com muita clareza:

Esta situação [o problema da bifurcação da natureza, colocado por Whitehead] que foi plenamente desenvolvido no séc. XVII, foi bem resumida por seu grande historiador da ciência, cujo nome, infelizmente, uma boca francesa é incapaz de pronunciar, Djksterhuis[23]:

“A distinção em questão pode ser definida como um tratamento objetivo das qualidades primárias e um tratamento subjetivo das qualidades secundárias, isto é, as primeiras são consideradas como objetivamente presentes, independente do sujeito percebedor, no corpo físico percebido [isto é, no objeto físico percebido], e as últimas como apenas existindo na consciência da pessoa que percebe. (...) O fato de que as qualidades primárias (tamanho, forma, movimento) são, afinal de contas, apresentadas somente através da percepção sensível, de modo que a própria distinção é realmente fútil, raramente foi levada em conta. O sentimento de que na matemática e na mecânica era possível chegar, aparentemente sem recorrer à experiência sensível e ainda assim com o sentimento de se estar sendo sustentado por evidência suficiente, a um extenso conhecimento das qualidades geométrico-mecânicas, conferiu inevitavelmente às ciências um lugar à parte.”

E acrescenta:

“Enquanto para a ciência a concepção mecanística foi estimulante e produtiva, ela confrontou a filosofia com o difícil problema da verdadeira relação entre o mundo de nossas percepções e sentimentos e o mundo dos processos mecânicos exteriores, de características tão diferentes. As ciências naturais foram colocadas diante da difícil, porém promissora, tarefa de encarregar os sistemas mecânicos de explicar os fatos físicos; a filosofia, por sua vez, teve que resolver o terrível problema de fazer derivar os fenômenos psíquicos dos fenômenos físicos. Não é de se espantar que seus caminhos tenham começado a divergir, que as ciências naturais tenham começado a seguir um caminho próprio, sem se importar muito com a legitimação filosófica em relação ao que estava realizando e que a filosofia tenha se mostrado cada vez menos capaz de preencher, com relação ao estudo da natureza, o papel guia que deveria ter desempenhado numa cooperação ideal entre as faculdades mentais.” (ibid.)

O que ocorre, no entanto, é que quando se observa um objeto qualquer o que dele se apreende (ver o conceito de preensão em Whitehead) é o efeito de um crivo[24] que opera “amarrando” os movimentos moleculares num pacote ontológico. É o que expõe Deleuze, ao discorrer sobre a noção de acontecimento, amplificando-a ao recorrer a Leibniz e Whitehead:

O caos não existe, é uma abstração, porque é inseparável de um crivo que dele faz sair alguma coisa (algo em vez de nada). (...) De um ponto de vista psíquico [isto é, no que se refere à percepção], o caos seria um universal aturdimento, o conjunto de todas as percepções possíveis como outros tantos infinitesimais ou infinitamente pequenos; mas o crivo extrairia dele [desse caos da percepção] diferenciais capazes de se integrarem em percepções reguladas. (Notas do livro de Deleuze acerca dessa questão: p. 133, nota 2 – Michel Serres analisou essa operação do crivo ou da cribatio em Leibniz, I, pp. 107-127: “Haveria dois infraconscientes; o mais profundo seria estruturado como um conjunto qualquer, pura multiplicidade ou possibilidades em geral, mistura aleatória de signos; o menos profundo seria recoberto de esquemas combinatórios dessa multiplicidade, seria já estruturado como uma matemática completa, aritmética, geometria, cálculo infinitesimal...” (p. 111). Serres mostra a oposição profunda entre esse método e o método cartesiano: há uma infinidade de filtros ou de crivos superpostos, desde nossos próprios sentidos até o filtro último para além do qual haveria o caos. O modelo do filtro é a chave das Meditações sobre o conhecimento, a verdade e as idéias; p. 133, nota 3 – Carta a Bourget, março de 1714: “Quando sustento que não há caos, não quero dizer que nosso globo ou outros corpos nunca estiveram num estado de confusão exterior..., mas quero dizer que aquele que tivesse os órgãos sensitivos suficientemente penetrantes para aperceber-se das pequenas partes das coisas encontraria tudo organizado... É impossível que uma criatura seja capaz de tudo penetrar ao mesmo tempo na menor parcela da matéria, pois a subdivisão atual vai ao infinito.”[25]

A partir disso, pode se dizer que a identidade, a diferença; o devir e a permanência são forças concomitantes, isto é, afirmar que não há dominância entre elas mas um jogo que alterna sua preponderância, que é apenas momentânea e que se revela também nas preferências ou escolhas dos vários filósofos, cientistas ou artistas, ora por uma, ora por outra. Alternância esta, aliás, sugerida pela filosofia chinesa no simbolismo do Yin/Yang.

Quando se observa, por exemplo, uma mesa, o que se vê: A turbulência das forças subatômicas, invisíveis aos sentidos, aparentemente estabilizadas pela membrana lisa do tampo, perceptível aos sentidos. Há uma “película” ou um “receptáculo” que envolve as forças moleculares, atômicas e subatômicas, num limite que torna as coisas, indivíduos. Os objetos são “pacotes de quanta de realidade”, por assim dizer, pequenos, médios, grandes ou imensos universos (átomos, moléculas, pedras, animais, montanhas, planetas, sistema solares, galáxias e assim por diante, aquém e além, até “não se sabe onde”). Que os crivos, cada um em sua respectiva dimensão, organizam. Dimensão ontológica (os possíveis de Leibniz), dimensão física, dimensão biológica (a membrana polarizada, da biologia), dimensão psicológica (os diferenciais perceptivos) etc.

Essa distinção entre “perceptível” e “imperceptível” aos sentidos é importantíssima e nos termos de Leibniz, é efeito de uma cribatio que atua na percepção, produzindo a gama de percepções reguladas que constitui aquilo que nos é acessível sensorialmente (o que nos é dado ser capaz de apreender pela sensibilidade). Assim, como no caso das membranas de uma célula em seu meio fisiológico, a sensibilidade, atuando num “meio psicológico”, é uma membrana e como tal possui uma permeabilidade variável. É o que na obra de CastanedaSpinoza se define como potencia de um corpopode” e atualiza se denomina “manipulação da consciência” e na filosofia de (“aquilo que um corpo mais ou menos). A idéia de que a psique possui uma permeabilidade, corresponde ao fato, importantíssimo para a psicologia e a pedagogia, de que o sujeito humano pode ser transformado, ou melhor, pode se transformar em indivíduo (autonomia do indivíduo). Deixa de “ser determinado de fora” (de ser, portanto, “sujeito”, clivado, “reativo”) e torna-se autônomo (passa a ser “indivíduo”: sem divisão; “ativo”). É essa condição que Spinoza denomina liberdade ou beatitude e Jungprocesso de individuação. Na psicologia de Jung, os gradientes de permeabilidade da personalidade são as funções psicológicas, sendo a “válvula principal”, aquela que regula a flexibilidade psicológica, a chamada função inferior, pois é através dela que as demais funções se reorientam, umas com relação às outras, (incluindo a própria função inferior) e em relação à totalidade da personalidade (consciente e inconsciente). Recorrer à função inferior quer dizer acionar aquele modo de relação com a vida que corresponde justamente à característica problemática da personalidade. denomina

Ora, esse mesmo problema, que aparece de várias maneiras, que se manifesta em diferentes planos da realidade e pode ser denominado “a tarefa de unir-se o que se encontrava separado”, o esoterismo, através de Blavatsky, o enuncia como “a Grande Heresia” ou “o engano do individualismo”. Como levar a alma a superar essa ilusão fundamental? Em “A Voz do Silêncio” lê-se:

Deixa que tua Alma se abra ao som de todo grito de dor, do mesmo modo como a flor de lótus se abre para beber o sol da manhã.

Não deixes que o Sol feroz enxugue nenhuma lágrima de dor antes que a tenhas tu enxugado dos olhos sofredores.

Deixa, porém, que cada lágrima humana abrasadora caia em teu coração e aí permaneça, até que a dor que a produziu seja removida.

Essas lágrimas, oh tu de tão misericordioso coração, são os rios que irrigam os campos da caridade imortal. É em tal terreno que cresce a flor noturna de Buda [O grau de Sábio, a “flor de Bodhisattva”], mais difícil de encontrar, mais rara de ver, do que a flor da árvore Vogay. É a semente da libertação do renascimento. Ela isola o Arhat da luta e da luxúria e o conduz pelos campos do Ser até a paz e a bem-aventurança, conhecidas somente na terra do Silêncio e do Não-Ser. (Blavatsky, A Voz do Silêncio, p. 40).

Trata-se da prática da misericórdia ou da compaixão, exercício que leva à mudança do “estado de espírito”, técnica já proposta pelo Cristo: “Amai-vos uns aos outros”. Pode-se propor uma identidade de estados de consciência exprimindo-se de duas maneiras diferentes – o Reino dos Céus e consciência búdica – como conseqüência dessa atitude. Claro que quando se fala em “técnica”, nesse caso, o seu exercício envolve tanto a ação dirigida quanto o sentimento essencial. A sua consecução inclui a participação da mente, do coração e das mãos. A mente intuitiva focaliza, o coração amoroso gera o bálsamo ou pharmakoncompaixão é a consciência capaz de se identificar com aquele que sofre, pois “compadecer-se” significa “padecer junto, sentir o mesmo”. O coração é a sede da vida que se identifica com a consciência, da consciência que se identifica com a vida e é capaz de penetrar no âmago de todas as coisas e entrar em sintonia (“sin-tonia”: “vibra no mesmo tom” ) com a vida que existe no âmago de todas as coisas. espiritual e as mãos canalizam, pois são o instrumento da benção ou da cura pelo amor. Isto ocorre tanto simbólica quanto objetivamente. A mente simboliza a vontade, o coração o amor e a sabedoria, as mãos simbolizam o serviço. Ter misericórdia é ter o coração humilde, isto é, vazio de apegos e desejos, apto a ser preenchido pelo poder do espírito. A Afirma Douglas Baker, em seu livro The Seven Rays – key to the mysteries:

A natureza dos Sete Raios está inextricavelmente entrelaçada com as mais básicas teorias daquele inigualável clássico da sabedoria oculta, A Doutrina Secreta. A mais proeminente dessas teorias é a do Hilozoismo.

Hilo deriva da palavra grega para matéria e – zoismo significa vida. Esta teoria propõe que tudo está vivo – do mais ínfimo átomo à mais grandiosa galáxia. Ainda hoje esta teoria, que representa o panteísmo levada à sua conclusão lógica, constitui um anátema para o biólogo e mesmo os mais diligentes estudantes de esoterismo vacilam diante dela.

A proposição de Mme. Blavatsky surgiu numa época em que a ciência apenas começava a rejeitar o conceito de que os elementos básicos eram formados por diminutas bolas de suas respectivas substâncias... um conceito de Demócrito, postulado há 500 anos A.C. A possibilidade de que átomos pudessem conter vida, ou pior, algum grau de sensciência ou consciência, parecia, então, absurdo e esta posição pouco mudou nos últimos vinte e cinco séculos.

Que os átomos possam estar vivos, pode ainda parecer aos cientistas uma especulação tola, mas há sinais de que um novo pensamento nessa mesma linha pode estar surgindo. O advento do microscópio elétrico e o aparecimento de homens iluminados como o ganhador do Prêmio Nobel, John Howard Northrop, estão lançando uma nova luz sobre o assunto.

Northrop declara:

Certas proteínas, de fato, oferecem a melhor evidência possível da estreita relação entre a química e a vida. Pois, em meio às proteínas existem os vírus, estes estranhos pequenos objetos que às vezes se comportam como se fossem vivos e outras vezes como meras substâncias químicas, inertes numa garrafa como se fossem açúcar ou sal.(...) A Natureza fez uma transição de tal modo gradual, do não-vivo para o vivo, que uma fronteira entre eles é duvidosa e provavelmente não existente. (...) Os cristais são vivos dentro de células e praticam o equivalente da hibernação animal quando fora delas. Estamos proibidos de aplicar a proposição de que todos os cristais estão vivos, meramente porque não possuímos o know-how científico para prová-lo? (p.7-9)



[1] Um método, não meramente formal mas um refinamento da cognição, da sensibilidade, do pensamento. Para Spinoza, o “terceiro gênero de conhecimento” (ou scientia intuitiva); para Bergson, a intuição; para Whitehead, interpretar a realidadeprocesso. como

[2] Isto significa que essas duas linhas de pensamento se complementam como duas maneiras de apreender a totalidade: a “objetiva” – Acontecimento (Deleuze), Substância (Spinoza) e Organismo (Whitehead); e a “psíquica”, de Jung, a imagem da totalidade. Aliás, seriam três, se considerarmos a sincronicidade como a maneira “objetiva” descoberta por Jung para apreender a totalidade.

[3] Pode-se imaginar que os indivíduos inorgânicos, com seu modo peculiar de consciência, interfiram na realidade externa. Pode se supor, por exemplo, que a afinidade química é uma forma de consciência.

[4] Ou como diz Castaneda em O Poder do Silêncio, “o Espírito monta cenários e nos convida a entrar”

[5] Pode-se encontrar esta premissa essencial como fundamento de três obras de magnitude: de Gabriel Tarde (1843-1904), Alfred North Whitehead (1861-1947) e Dane Rudhyar (1895-1985).

[6] Compensatório significa que os dois modos operam de forma virtualmente integrada mais inicialmente “em oposição”, pelo fato de que há uma cisão originária entre eles, que demanda todo um trabalho de integração entre ambas as dinâmicas; o que aponta a tendência do ser originariamente dividido a tornar-se um indivíduo (processo de individuação Jung).

[7] Isto é, os indivíduos são coletividades; por exemplo, um homem é uma coletividade de células, uma pedra, uma coletividade de moléculas etc.

[8] Pois, de certo modo, cada totalidade/indivíduo é um universo de uma dada grandeza.

[9] O corpo é a matéria, do modo como se apresenta nos seres orgânicos e o espírito corresponde à energia, do modo como se manifesta nos seres orgânicos.

[10] E aliás, esse é o objetivo essencial de sua Ética, atingir o “terceiro gênero de conhecimento”, a ciência intuitiva, que propicia, a “potencia da inteligência” ou “a liberdade humana”, como sugere o título do livro V.

[11] Entretanto, confrontar-se com a sombra individual, isto é, com o que afeta o indivíduo, negativa ou positivamente mas é ainda desconhecido, , já é um confronto com algo proveniente do mundo social.

[12] “Encarnação divina. Descenso de algum Deus ou ser glorioso, que ultrapassou a necessidade de renascimento na Terra, no corpo de um simples mortal”, no intuito de auxiliar a humanidade em crise e lançar as bases de uma nova dispensação espiritual. (Glossário Teosófico Blavatsky)

[13] É curioso que essa idéia de uma “progressão cognitiva”, já aparecia em Bergson, quando ele fala da passagem do instintointeligência e desta para a intuição. E também em Spinoza, que fala dos 3 “gêneros de conhecimento”, culminando na intuição como o 3º e mais refinado. para a

[14] “A palavra yoga significa, literalmente, “união” e é usada no sistema Patañjali para designar a união ou harmonia do eu humano, ou inferior, com o Eu divino ou superior, através da prática da meditação. Graças a esta união mística, o homem adquire um domínio completo sobre o corpo e a mente, livra-se de todos os entraves do mundo material e desenvolve certas faculdades psíquicas maravilhosas, latentes na espécie humana e que são a causa de fenômenos estranhos que parecem verdadeiramente sobrenaturais ou milagrosos a todos os que desconhecem sua causa.” (Blavatsky; Glossário Teosófica)

[15] Ver Jaffe, Libertando o coração – Espiritualidade e Psicologia Junguiana, p. 24.

[16] Ver o capítulo “O Espaço é uma entidade”, de Magia Organizada Planetária de Vicente Beltrán Anglada, onde ele afirma que “o Espaço é a matriz de todas as criações” e que “o objetivo da ação criadora é redimir e enobrecer as qualidades da Matéria”.

[17] Um sinal dos textos sérios de esoterismo místico é a indicação de que as idéias não devem ser apenas avaliadas intelectualmente mas, meditadas, quer dizer, verificadas pela intuição e além disso, postas em prática, testadas na experiência.

[18] Aliás, a exploração do homem pelo homem é uma manifestação bem concreta de magia negra, gerando formas deletérias no ambiente social humano (e consequentemente, na relação entre o pensamento e a energia).

[19] Mais tarde, dirá Bergson, surgirá uma imagem de tipo especial que terá a capacidade de reter as outras imagens: é a consciência, ou seja, a vida...

[20] Esta idéia dos 3 Aspectos de Deus é revelada nas obras de Helena Blavatsky e Alice Bayley.

[21] Usamos aqui uma frase de uma aula do professor Cláudio Ulpiano, discutindo o enfoque da biologia da imanência, que rompe com o princípio de que o vivo, pode ser entendido por si só, isto é analiticamente. Esse enfoque diverge da epistemologia herdada de Aristóteles, que pode ser nomeada atributiva, que é calcada na representação (buscar os atributos que definem um objeto) e funda uma ciência afetiva, que procura determinar a potência de um corpo (portanto, no caso da biologia, só pode fazê-lo examinando a relação do ser vivo com seu meio e como ambos se afetam reciprocamente).

[22] Como nota Deleuze, Hume recoloca esta questão de uma outra maneira, atendendo aos interesses do empirismo: “Embora haja coisas menores do que os menores corpos que aparecem aos nossos sentidos, permanece o fato de que não há nada menor do que a impressão que temos desses corpos ou do que a idéia que deles fazemos. [...] A menor idéia, a menor impressão não é um ponto matemático, nem um ponto físico, mas um ponto sensível.” (Cf. Deleuze, Empirismo e subjetividade, p. 100; destaque nosso).

[23] E.J. Djsksterhuis. (1961). The Mechanization of the World Picture from Pythagoras to Newton. Princeton University Press, p. 241.

[24] Ver a esse respeito, Deleuze A Dobra – Leibniz e o barroco, o capítulo “O que é um acontecimento”.

[25] A Dobra – Leibniz e o barroco; p.

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