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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

JUNG E A CHINA: UMA CIVILIZAÇAO EM TRANSIÇAO

Este texto faz parte do ciclo "Civilização em transição"


Autor: Franklin Chang


As origens do povo chinês, são de nômades que se estabeleceram nas planícies do rio Amarelo, e ali se dedicaram à Agricultura e construíram cidades para ali se reunirem e comercializarem seus diferentes produtos. Já os nômades, viviam da caça e do pastoreio, não tendo um local fixo de residência.


Já nos primórdios da civilização chinesa, houveram atritos devido a estes diferentes estilos de vida, que acabaram resultando na construção da Grande Muralha, para separar os civilizados dos bárbaros, os chineses dos estrangeiros.


Ao fim da primeira grande dinastia chinesa, os Han, que governaram a China por quatro séculos, aconteceu uma grande invasão de povos do norte, mongóis e hunos, que trouxeram muito caos e destruição, mas trouxe também algo novo para cultura chinesa: o Budismo e a metafísica indiana.


Na China antiga, existiam duas grandes religiões nativas: o Confucionismo e o Taoísmo. Na gênese de ambas , está o xamanismo, que com seus rituais de propiciação aos espíritos ancestrais, gerou o Confucionismo e os rituais de devoção filial. Já o Taoísmo surgiu do reconhecimento de forças ou energias espirituais na Natureza, que o homem pode se beneficiar, se utilizar sua inteligência para tal.


Quando o Budismo chegou na China, ele utilizou o Taoísmo para poder ser aceito e integrado na cultura chinesa,entre os séculos 3 e 8 DC, já tinha sido plenamente integrado na sociedade chinesa, e ali pelo século 11 DC, surgiu o neo Confucionismo um movimento filosófico de integração entre o Budismo e o Confucionismo. Desta época, surge uma expressão clássica par expressar a grande síntese destas religiões: “ três religiões e um só caminho”.


O Budismo trouxe uma renovação intelectual e espiritual para a cultura chinesa, e trouxe também uma consciência nova, a de ser um povo asiático, unido por uma religião, nascido num país tão grande quanto ela, a Índia.No século 7 DC, a China e a Índia se reconheceram mutuamente como grandes potencias e estreitaram laços comerciais e culturais, com a ajuda de monges budistas que viajavam entre estes países.


O mais conhecido monge, foi o chinês Xuang Zhang, que fez uma peregrinação entre a China e a Índia, que durou ao todo dezessete anos, e que escreveu um livro relatando estas viagem chamado de “Registro das regiões ocidentais durante a grande dinastia Tang”.


A história da China é marcada por uma repetição de abertura e fechamento do país, acompanhada de fortes sentimentos nacionalistas. A última abertura forçada, se deu no século 18 pelas potencias européias, que dominaram a China por cerca de 150 anos. De novo, houve um fechamento nacionalista, com a instauração do regime comunista em 1950.


No momento, a China mantém um sistema híbrido, abertura econômica para o resto do mundo, mas o fechamento político para a sociedade chinesa. Mas, os aspectos mais profundos, das transformações que o país passa atualmente, com uma rápida ocidentalização, ainda nos são desconhecidos.


Neste trabalho gostaria de refletir sobre duas questões fundamentais na cultura chinesa: a questão familiar, e a relação do homem com a natureza. No plano social, a família chinesa passou por uma profunda transformação, desde que o comunismo incentivou a participação da mulher no mercado de trabalho, e o governo implantou a política de um filho por família, para diminuir a pressão de uma superpopulação.


O resultado deste planejamento racional e pragmático, foi ambíguo porque se de um lado a Economia cresceu, e a população cresce mais lentamente, por outro lado, há um desequilíbrio atual entre homens e mulheres, com quarenta milhões a mais de homens solteiros, desesperados para casar e cumprir o dever filial de gerar filhos para manter o nome da família. Hoje já se importam “noivas” de países vizinhos, mas pode um moderno “rapto das sabinas” em breve, e o governo para corrigir esta distorção, mudou o lema de família feliz que agora é: “o bom é ter duas filhas em casa”, prometendo prêmios, e com isto planejando resolver racionalmente esta questão.


A outra grande questão, é a relação do homem urbano com o campesino. No Comunismo antigo, esta proporção era de um para dez, mas hoje ele está próxima de cinqüenta/ cinqüenta. As conseqüências são obvias: um enorme fluxo migratório cria uma pressão desordenada no crescimento das cidades, além dos enormes recursos necessários à construção de casas, estradas, saneamento básico, etc. Hoje, a China é o maior importador do mundo de aço, comento, matérias primas básicas da construção civil.


Isto não seria grande problema para o resto do mundo, se a China dependesse apenas dela mesma, mas como vimos na ultima grande crise da economia global, houve uma retração geral no mundo inteiro, que gerou desemprego , fechamento de fábricas, resultando na retração da ascendente economia chinesa , baseada na exportação de bens manufaturados.


E onde fica o cidadão comum, o indivíduo nisto tudo?


A incerteza econômica gera insegurança, protestos e críticas as governo, que as abafa através da repressão por um grande aparato policial. Junte-se a isto, a dificuldade crescente de casar e formar uma família, que é um dos deveres de todo chinês, mas também um ideal de realização pessoal, e o resultado disto tudo é um indivíduo frustrado e sem perspectivas, a não ser é claro, para aquela parcela, de funcionários estatais e de grandes empresas que atravessaram imunes a crise.


Do ponto de vista psicológico, temos aqui um caso clássico de dissociação psíquica. Jung em seu trabalho “O homem arcaico”, fala que o homem moderno, racional, se dissociou do homem primitivo, que vivia em estado de “participation mystique” com o meio ambiente. Ele escreveu assim:


“A visão materialista dos nossos dias tem uma tendência comum com o pensamento arcaico: ambos levam à conclusão que o indivíduo é uma mera resultante. Mas o materialista é mais radical, porque ele é mais sistemático. O homem arcaico tem a vantagem de ser inconsistente: ele faz uma exceção para a personalidade maná, figuras divinas como heróis e reis, que compartilham a imortalidade dos deuses, ao ingerirem ao alimento da eterna juventude.” ( & 142)


Quando a ideologia proclama que a “religião é o ópio do povo”, e com isto, justifica a destruição de milhares de templos budistas e taoístas e está com isto, eliminando as personalidades manás, os líderes e heróis espirituais do povo. Este maná, foi inicialmente transferido para os líderes comunistas, principalmente Mão Tse Tung, mas hoje, um novo e poderoso deus chegou para dominar a consciência coletiva: o dinheiro.


Ao simplesmente assimilarem os valores capitalistas e pretenderem manter uma ideologia comunista, os líderes chineses caíram numa armadilha, porque essencialmente o capitalismo é uma ideologia voltada para o lucro. Todos são livres para se tornarem ricos, só que na prática, somente uma pequena parcela da população, ou pela educação, ou pela política ou pela herança familiar, tem a oportunidade de realizarem o sonho capitalista: consumo ilimitado para os ricos e vencedores.


Hoje, a questão se tornou de interesse global, afinal a China é a nova locomotiva do mundo, ela faz todas as outras economias andarem mas a um preço alto: o consumo desenfreado de matérias primas, muitas delas próximas do limite de exaustão, além é claro dos graves problemas ambientais de poluição, afinal a China só está atrás dos Estados Unidos no ranking dos países mais poluidores do mundo.


O que é preciso compreender, é que a China sempre fez isto, pois o império chinês sempre fez fluir as riquezas dos países vizinhos para o seu próprio usufruto e crescimento nacional. Este passado glorioso, foi destruído pela invasão bárbara dos ocidentais, mas agora a China ressurgiu como potencia mundial, e para afirmar isto, os Jogos Olímpicos trouxeram um orgulho nacional, que com uma economia ascendente, é motivo de curiosidade geral. Até onde a China irá?


O que não é dito, nem compreendido, é que junto com um forte orgulho nacional, existe um sentimento de revanchismo, contra as potencias que humilharam a China até recentemente, como o Japão, França, Inglaterra e Estados Unidos principalmente. Estamos, em resumo lidando com uma questão da sombra coletiva chinesa.


Jung, no seu trabalho “A luta contra a sombra”, mostrou como as inferioridades acumuladas pelo império alemão, acabaram por gerar o nazismo, o sonho de uma nova ordem,junto com o desejo de poder e de reconhecimento. Paralelamente, o Japão que passou por processo semelhante de regressão psíquica, sonhou com uma nova ordem mundial. Ambos países, passaram por um período de intensa exaltação nacionalista, e o ressurgimento de seus velhos deuses: Wotan na Alemanha, e o deus sol do xintoísmo, encarnado na figura do imperador.


A China atual, está sem raízes espirituais, e totalmente possuída por um deus novo, o dinheiro, que pode ser visto simbolicamente como a ganância desordenada dos bárbaros, que os chineses tanto temiam, por trazerem a destruição de sua civilização. Mas, não estaria a China atual, gerando na profundeza do Inconsciente Coletivo, a expulsão dos bárbaros, e a retomada dos valores mais elevados da civilização chinesa? Ou, ela irá se deixar dominar pelo demônio do poder , e irá fazer de tudo para destronar os Estados Unidos?

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