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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Entre o modo e o modelo: individuação é para todos?!?

Propostas para uma compreensão criativa à prática dos analistas

Autor: Thiago Bruno Santos


Introdução

Este trabalho é fruto não unicamente de leituras de texto e discussões de idéias, mas compõe quase que exclusivamente minha experiência vivida em passagens tanto na faculdade, quanto nas instituições em que estive trabalhando, e não menos composto de uma multidão (professores, pacientes, colegas de trabalho, amigos e outros que ainda não se apresentaram) que se encontra num passado ainda presente, que resiste à um presente na alegre esperança de uma população sempre por vir (mesmo que nunca venha). Gostaria de tomá-lo como subtítulo por memórias de um intensidade ou memórias de uma afecção, devido à combinação de um apanhado de memórias, sonhos e agora com novas reflexões sobre minha curta, mas valiosa experiência nas práticas de psicologia. Este trabalho é um experimento, não faço questão alguma de estar certo, nem advogo ao que será enunciado como uma verdade, tentarei evitar conflitos desnecessários já que sinto-me livre para errar, e ainda errante apenas sinalizo e indico meu modo de pensar (ou de colocar o pensamento em movimento) na ingênua esperança de só ver como ele pode funcionar. Enfim, como dizia a poeta pouparei-me do desperdício de explicar o ato de brincar....

Trabalho intermediário

"Aqueles, portanto, que julgam que é pela livre decisão da mente que falam, calam, ou fazem qualquer outra coisa, sonham de olhos abertos" (SPINOZA, Baruch. Ética, pág 171)

Jung tem por intenção nos apresentar sua idéia de individuação, a singularidade contida nas individualidades que se afirmam para a existência. Esta trata-se da noção fundamental da psicologia de Jung, se combina com a idéia de que a ilha central da consciência haveria o ego, responsável por funções de motilidade do corpo, a vontade e razão, enquanto que o grande mar de onde advém este ego é a multiplicidade inconsciente. Na primeira metade da vida, a preocupação se na dá no terreno do ego e persona, onde o indivíduo trabalha para conquistar a vida, na segunda metade a morte acena como uma virada na curva que agora declina, na exigência de um trabalho que se dá na conquista da morte, sendo assim o momento crucial onde surgem questões quanto a finitude e o sentido da vida. A tarefa de "tornar o que se é" passaria tanto pela integração da personalidade dissociada, que enxerga o mundo como um excesso de suas projeções (partes de si-mesma que se encontram transferidas e por vezes fusionada no outro, impedindo a percepção das múltiplas tonalidades de cores da alteridade) quanto um processo de diferenciação. Na concepção clássica esta tarefa é a temática central na segunda metade da vida, com a inversão de eixo o ego passaria a segundo plano, pois o impulso a individuação (diferenciação) do Si-mesmo se afirmaria com toda intensidade. Poderíamos radicalizar a questão afirmando que quem se individua é sempre o outro! Jung aponta dois aspectos fundamentais na individuação: "por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro" (JUNG, C.G. O.C. VolXVI/2, pág 101)

A questão da totalidade não corresponde a uma tentativa de alcançar a perfeição com bem diz Jung, mas numa tarefa que implica e convoca o ser por inteiro, no sentido que os alquimistas colocavam: "Ars requerit totum hominem" (a arte requer o homem por inteiro), constando a ocupação ética central de se tornar um individum (sem divisões) psicológico, numa perspectiva que não se trata de viver um individualismo que produza suas próprias leis e as faça valer para todos, mas num caminhar ao mundo em que as diferenças se afirmam e a tarefa consistiria mais em reconhecer estas diferenças do que que unificar toda a multidão numa caixinha apertada da monarquia do Eu, do uno ou de interpretações redutivo-causais. Consequentemente envolve um reconhecimento dos limites subjetivos, afinal, o que pode o eu neste "entre" com o outro?

Como bem Freud chamava, o eu se trata da "parte organizada do isso" este se assenta numa base somática tanto da imagem corporal, quanto do esquema corporal e também foi conhecida como a "mente racional". Esta ilhota dotaria de um certo grau de autonomia assim como sua pretensiosa inclinação a inflação, unilateralidade, narcisismo e possessão por outros complexos. Esta não tão livre liberdade, se vê compreendida em uma participação e implicação subjetiva nas escolhas da vida ao se afirmar como sujeito da consciência, podendo se organizar de tal forma que se salvaguarda das experiências de dissociação e invasão psicótica, como dos efeitos da massificação que constrangem qualquer agitação subjetiva. Ambos os fenômenos segundo Jung, aniquilariam toda individualidade singular e subjetiva que faz resistência tanto a loucura quanto a alienação massificante, pois tanto em um quanto no outro a consciência do eu se diluiria num processo de despedaçamento nocivo à vida. Jung acaba por reconhecer e manter está medida de prudência, quanto ao trabalho de análise para não acelerar num processo nocivo e mutilador. Em diversos momentos de sua obra, ele atenta para manter esta atenção quanto ao que chama de psicose latente, um processo não manifesto de despedaçamento ou cisão subjetiva que pode ser desencadeado no trabalho de análise. O trabalho é uma arte de modulação do fogo no vaso hermético, que se encontra num paradoxo de dirigir-se aos limites da subjetividade, e esvaziamento da certezas do eu, assim como sua relativização necessária (ego imaginal de Hillman), quanto a produção de processo de mortificacio irreversíveis, diz Jung:

O limite do subjetivamente possível tem que ser atingido de qualquer maneira, pois de outra forma o paciente não pode perceber seus próprios limites. Limites arbitrários, porém, de nada valem; os únicos que produzem efeitos são os limites reais. Trata-se a bem dizer de um processo de purificação, em que "omnes superfuitates igne consumuntur" (tudo o que é supérfluo é consumido no fogo), e as realidades fundamentais se manifestam. Existe por acaso coisa mais fundamental que reconhecer: eu sou isto? Surge aqui uma unidade que no entanto é, ou era uma multiplicidade. Não se trata mais do eu antigo, com sua ficção e seu aparato artificial, mas de um outro eu, de um eu objetivo. que por esta razão é melhor designar por Si-mesmo (Selbst). Não se trata mas de escolher entre as ficções a que mais convém, mas de uma série de dura realidades, que juntas formam a cruz que, afinal, cada um de nós tem de carregar, ou formam o destino que somos nós (JUNG, C.G. O.C. VolXVI/2, pág 66).

Da multidão eleva-se uma voz (muitas vezes mais empurrada por muitos que se esbarram do que por vontade própria), como que uma subjetividade (ou modo de subjetivação) consciente de sua inconsciência, um porta voz das múltiplas vozes, um alguém-ponto de apoio com quem se possa dialogar. Se este eu que acontece for tomado por nós como supérfluo se consumiria no fogo, de nosso incêndio particular. Assim impulsionado pela multidão (Si-mesmo) um eu acontece e exige relação, busca encontros, apostamos nisso como condição para trabalho.

Porém Jung tem consciência de que a individuação não se esgota em determinado momento quando se atinge "a numinosa Totalidade", entretanto a totalidade enquanto meta não é o mais importante, diz ele: "A meta só importa enquanto idéia; o essencial porém é o opus (a obra) que conduz à meta, ele dá sentido à vida enquanto esta dura." (JUNG, C.G. O.C. VolXVI/2, pág 67). A obra enquanto vida, ou enquanto obrar uma vida pode-nos aproximar da realização ou efetivação da potência de cada individualidade enquanto dura a existência. Jung deriva das noções da Antiguidade do conhece-te a ti mesmo, e do torna-se o que se é para pensar no modo particular de individuação da cultura ocidental. Entretanto a enfase num estado de consciência para que a individuação aconteça se concentrou e alastrou-se como premissa que não só fundamenta-se no conhecer-se a si mesmo, tanto quanto uma exacerbação de um suposto desenvolvimento da consciência. Caminhando em outra direção que não este excesso de centralização num consciência que se expande, prefiro apostar que com ou sem consciência, individuações não cessam de acontecer, já que adulterar a destinação de uma individualidade a ser o que é, é em grande parte tarefa das neuroses. As diferenças não se esgotam e não se cansam de se afirmar, Deus é definido por seus infinitos atributos diria Spinoza, e assim tanto a massificação quanto a psicose emergidos na indiferenciação segundo Jung, me parecem possuir suas individuações.

Destaco que a multiplicidade inconsciente está em Jung, que por vezes coloca o Si-mesmo como uma multidão, uma composição de muitas individualidades, complexos e personalidades parciais. Assim Si-mesmo já contém tanto a semente da massificação quanto da dissolução na psicose que tanto assombra Jung em seus textos, acredito que por isso seu pensamento muitas vezes desemboca numa unidade integrada que se confunde com o desenvolvimento da consciência e consequentemente como meta da individuação. Individuação do eu neste caso? Haveria então um Si-mesmo individualizante do eu, e um Si-mesmo individuacioanal das relações entre as multiplicidades? Pois acredito que é de um fenômeno de massa que surge este eu, que se diz ser quem quer seja. Assim, já nascemos massificados? Considerando os micro-governos dos complexos, qual seria a boa massificação?

“Modolando” o modelo

"E o melhor de mim é quando nada sei e fabrico não sei o quê." (LISPECTOR, Clarice. Aguá viva, pág 67)

Ao falar sobre crianças um péssimo hábito é bastante freqüente, ainda mais do profissional psicólogo ou analistas em geral, que é a de toma-lá como objeto, seja objeto a ser conhecido, ou o que é mais comum objeto já conhecido, neste sentido já domesticado. Faz-se desaparecer como que por mágica da abstração de que se trata de um outro, uma singularidade e ignoramos a trama de poder que seu discurso endereça, regula e prolifera em torno de sua personagem, a criança. Como diz Foucault, no século XVIII um novo dispositivo de poder que ele chama por sexualidade estava sendo inventado pela sociedade moderna para constituir numa série de relações de força, o sexo e suas supostas forças incontroláveis (instintos, pulsões) que vinculariam os prazeres do corpo. Dispositivo este que tornava possível articular no núcleo da família burguesa ao dispositivo da aliança que trata das formas jurídicas da lei. O importante para o seguimento deste trabalho é a atenção devidamente reservada na produção de um campo de saber não só sobre o sexo da criança, como de todos que adentram o dispositivo analítico.

Propriamente particular a este saber que se formava, foi à partir do século XVIII e XIX que se deu a invenção de personagens novos que surgiam no cenário moderno, a criança pedagogizada em seu sexo, que em sua versão mais conhecida no campo acadêmico de psicologia é a criança perverso polimorfa. Em linhas gerais trata-se de um dispositivo meticulosamente construído pela burguesia naquela época, que permitia uma nova ordenação de poder que vinculava os prazeres do sexo à uma verdade que era arrancada em confissões sobre as práticas sexuais dos componentes da sociedade, vinculando à outras relações de força na época que tentavam regular ao mesmo tempo que incitar ao sexo, formando o que Foucault chama por “scientia sexualis”. Fixando a verdade do sujeito no sexo, se constituía em um poder-saber de ordenação sobre o controle de população, taxas de natalidade, classificação dos perversos, novas modulações do uso de prazeres, o corpo da histérica medicalizado, entre outras. Baseado num saber sobre a verdade de todos, a verdade de seu sexo. De fato a responsabilidade pela instauração deste dispositivo se localizou na família, que era agora responsável tanto por conciliar e transmitir a criança o antigo dispositivo de aliança que vinculava-se e mantinha o poder das formas de lei jurídicas (como o incesto) e o novo dispositivo da sexualidade que incitava ao sexo, assim a família nascia incestuosa, concomitantemente não dando conta de administrar a lei que proibia e a incitação do desejo ao sexo. Assim, a família acabava por recorrer ao mesmo saber que produziu estas novas relações de poder-saber e confinou em seu núcleo à administração destes dispositivos. Recorrendo e apelando aos campos de saber que se constituíram a partir da verdade que forçava a todos a revelar sobre o seu sexo. Os psicólogos, em particular os psicanalistas dentre um dos muitos especialistas deste saber eram acionados, convocados e autorizados a manter a regulação, o bom funcionamento e instauração destes mesmos dispositivos que tornou possível a sua profissão.

Trago Foucault em cena para localizar historicamente que a questão da criança no campo da produção de saberes em nossa sociedade é recente, não é dada desde sempre e não pode ser tomada como natural. De fato a produção deste saber-poder apresenta seus efeitos até hoje, no campo da psicologia que tratamos aqui não haveria de ser diferente, já que ela não é um saber a-histórico. A coniunctio é meta de um esforço diria Jung, assim como a nigredo é produto de um processo que a antecede, não um dado “natural”. Entrarei então na compreensão particular que cabe aqui pensar a psicologia analítica em sua produção no que diz respeito a criança, em especial atentar a este saber que trata (e por assim dizer se cega ao enxergar) a criança em seu discurso como criatura em desenvolvimento da consciência. Tentarei propôr uma desnaturalização da "criança" (que pode se estender a outros que procurem o profissional psi) tomada no próprio pensamento de nossa psicologia.

Acredita-se que um corpo falante em um certo momento em sua articulação com a linguagem comum, se aproprie do significante "eu" para fazer-se representar para si mesmo e a um outro, enquanto sujeito. Acontece por assim dizer uma subtração deste estado ou todo indiferenciado (criança-ambiente familiar misturados em uma participação mistica), e algo de novo se destaca e se diferencia para outros enquanto um eu, fundando com isso um sujeito e um objeto, ou seja uma dimensão subjetiva (que diz respeito a assuntos do ego) e uma dimensão objetiva (que diga respeito a assuntos da realidade externa a este ego). O problema se dá, que ao sustentarmos isto, a consciência do eu (o sujeito da consciência) se crê causadora do mundo a sua volta (poderíamos chamar de narcisismo primário como em Freud), que se percebe como autônomo (independente do mundo, sua vontade o guia e nada o constrange de fora) e livre (liberdade de arbítrio para escolher).

A consciência é um lugar próprio da ilusão, sua participação consiste mas propriamente àquele lugar que recolhe efeitos porém permanece inconsciente das causas, como que numa simples soma de 2+2 poderíamos dizer que a consciência é aquela que fica atrás do sinal de = esperando a solução (4) cair ou surgir enquanto o cálculo acontece sem ela saber e por forças que não lhe são próprias. Enfim, consciência é um resultado de encontros. Assim a consciência não se percebe enquanto efeito, não consegue compreender que ela não causa as coisas do mundo, mas sim que ela é causada por algo que ela própria desconhece, a ilustração que Jung utiliza é a de um mar (indiferenciação) e que dele brotam ilhotas de consciência, a força que causou estas ilhas não é de força própria da ilha, mas de forças externas a ela. Jung definiu que é de natureza da consciência tender para a unilateralidade, sendo assim compensada em seus excessos por causas inconscientes (metáfora muito similar a de Spinoza sobre a ilusão da consciência que acredita-se autônoma, do homem sendo chacoalhado em alto mar pelos ventos).

A consciência se forma nos encontros que temos pelo mundo, o mar é este mundo onde ela brota, a coniunctio menor poderia ser esta vinculação de um eu a um outro. Neste sentido ela é uma força passiva, a consciência é passional e através dela nos encantamos com o mundo, com os sonhos, pessoas ou coisas. Porém é através desta paixão pelo mundo, que o impulso do Si-mesmo poderia se individuar. Si-mesmo aqui é sinônimo de causa ativa (aquilo que não se constrangeria por nada para se causar) já que é responsável pelo impulso a individuação, a consciência do eu seria um efeito deste impulso a consciência (fruto apaixonado) é a possibilidade inicial necessária para a formação de conhecimento, pois ela traz um caráter de apaixonamento pelo mundo. De outra medida descrever o que é o Si-mesmo é uma tarefa complicadíssima, já sendo compreendido por caráter, daimon, spiritus rector, Eros, Logos. Podemos utilizar da provocante idéia de Si-mesmo em Jung, que a coloca como a experiência da derrota do eu, se fazendo necessário pensar no cuidado para não adentrar em um processo nocivo a vida que se individua.

Individuação em termos de Jung pode ser compreendida como realizar o encontro com a causa ativa que produz novas realidades todos os dias, o Si-mesmo ou os modos infinitos os quais ele pode se manifestar, permitindo uma saída deste momento puramente ilusório (mas de forma alguma menos real), campo onde as projeções são excessivas por serem incapazes de serem recolhidas e compreendidas, não dando margem a novas projeções. Terreno onde a própria realidade da imaginação e da fantasia não se reconhece enquanto fantasia, o terreno de uma "imaginação pura" que se percebe desligada do concreto do corpo. O problema nestes termos com a consciência não é o fato de sempre projetar sua sombra no mundo, mas sim projetar sempre a mesma sombra (mesmo porque a sombra já está lá antes da consciência se dar conta, nestes termos pode-se compreender que o eu advém das sombras). Como a um artista que sempre que pinta em qualquer tela que for a mesma pintura, o fato pode ser que ele não reconheça que as lentes de seus olhos já estão gastas e suas tintas que tingem o mundo, cansadas. Para uma prática de análise que se proponha a trabalhar com inconsciente, transferência, sonhos e etc, a projeção serve de um fato gnosiológico, ou seja de produção de conhecimento, um trabalho na construção de um saber, mas a que serve este saber produzido?

É nessa direção que podemos acompanhar Jung, ao projetar uma compreensão sobre as crianças. Jung considera a criança em estado de desenvolvimento da consciência (assim como o estatuto da criança e do adolescente em sua compreensão de sujeitos de direitos, ressoando desde Kant que pontua que a passagem do homem de sua menoridade da qual ele mesmo é culpado, para maioridade se dá naquele que é capaz de fazer uso de seu entendimento sem um outro que pense por ele, “Sapere Aude!”), por vezes se referia a ela como não tendo uma psique individual. De fato, dizer que ninguém nasce com um eu formado é mais razoável, e seguiríamos compreendendo que este se constituiria ao longo da vida, desenvolvimento não é uma palavra muito boa, pois cogita insinuar que já sabemos como, onde se começa e se acaba este desenvolvimento . Esta discussão se torna acirrada pois responder do que se trata este eu não é tarefa fácil, já que ele na compreensão que estamos seguindo desconhece sua causa. Com isso, se compreende porque Jung diz que ao verificar uma criança neurótica, devemos deixá-la em paz e ir tratar dos pais, já que Jung entende que é na relação com estes pais que esta consciência nascente e apaixonada (pois encantada, espantada e constituída por forças de fora) que está o problema. Pois a criança afirmaria um sintoma cuja causa não pode ser propriamente dela, já que ela é condicionada por está relação com estes primeiros objetos de amor, a "criança-sintoma" indicaria um conflito mais próprio a quem esta no encargo de seus cuidados.

Mas como diz o próprio Jung, a consciência não pode ser tomada ou confundida com a psique, e parece ser exatamente o que ele faz ao dizer que a criança não possui psique individual só por não possuir consciência do eu, então prosseguirei afirmando que apesar da criança não possuir está noção que se diz e se acredita autônoma, dita consciência de eu e a se encontrar num estado a se confundir na indiferenciação (ou participação mística) com aqueles que cuidam dela, ela é portadora de uma psique individual. Faz-se necessário apostar nisto, para que possamos nos encontrar e produzir vínculo com está individualidade, caso contrário nós a tratemos como a um abajur ou a um bebedouro. Uma psique, não a se desenvolver pois com isso pensaríamos num ponto de partida e meta a cumprir, mas como uma potência que se afirma, capaz de vincular-se, relacionar-se e consequentemente como uma vida que resiste a qualquer interpretação, simbolização. Afinal, viver ainda ultrapassa qualquer entendimento?

Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se sabe andar e - milagre - se anda. (LISPECTOR, Clarice. Água viva, pág 62)

Se assim for, justamente por se encontrar viva, criança e adulto não necessitam atingir a maioridade kantiana para entrarem em relação. Até com um abajur quer queira quer não, acontece relação. Vincula-se ou entrega-se ao encontro com um bebedouro antes mesmo de compreendê-lo enquanto objeto. De fato a "coniunctio menor" que for resultado do encontro, é condição necessária para condicioná-lo enquanto objeto, tome o caso do laboratório alquímico, não há motivos para pensarmos que os alquimistas não se misturavam com os elementos que trabalhava, sua língua própria de difícil acesso ao leigo, apresentava um amálgama, combinação ou coniunctio de ambos os corpos em experimentos. Se seguirmos como coloca Jung nesta compreensão "kantiana" da criança, o processo de individuação se trataria de individuação do eu da consciência, assim descartaremos suas colocações na medida que compreendemos sua problemática. É precisamente nesta confusão que podemos perguntar e talvez ultrapassar a questão, que nos indaga: existiria individuação sem consciência do eu? A quem individue sem saber? Como se daria uma consciência desprovida de eu? Se quisermos pensar em individuação que começa desde o nascimento como neste caso, precisamos atentar para uma individuação fora do eixo Ego - Si-mesmo (pois não há um sentimento de si ou Ego), ou talvez considerar o Si-mesmo neste momento como um esforço por consciência necessário para este corpo sem organização subjetiva. E assim o Si-mesmo impulsionando o encontro de corpos, ou como ação própria dos corpos a produzirem outros encontros. Jung assinalava a base somática tanto do ego quanto do Si-mesmo, mas o corpo parecia lhe interessar menos do que o estudo sobre o simbolismo, entretanto não é exclusividade de Jung, pois é curioso como o corpo é pouco pensado ou investido na profissão psi (salvo o trabalho do psicanalista Donald Winnicott sobre mente e psique-soma).

O eu como um resultado é o lugar de ilusão, uma projeção do Si-mesmo no mundo ao mesmo tempo que uma introjeção do mundo na alma. Ao mesmo tempo este sujeito (o eu) é uma invenção filosófica que operaria para dar conta dos fenômenos ou coisas que ele pode conhecer, o sujeito da livre vontade é aquele que teria total acesso manual ao objeto. A leitura das abordagens do inconsciente, apostam que o sujeito pode ter consciência do objeto de seu desejo, mas permanece inconsciente do objeto causa do desejo. Uma noção interessante deste objeto do desejo, desta ilusão própria que acompanha a experiência de si, como uma subjetividade onipotente sobre o objeto, se encontra na compreensão de Winnicott em sua experiência com a primeira infância.

O bebê segundo Winnicott cria o objeto-seio no instante que a mãe-ambiente suficientemente boa o apresenta, este seio que comparece na realidade objetiva dá a sensação ilusória porém necessária para o bebê experimentar seu gesto espontâneo de criar o mundo, ajuda-o a perceber mais tarde uma realidade do não-eu, não-subjetiva. Assim acompanha a percepção e noção de permanência desta realidade, mesmo que o bebê a agrida este pode perceber que sua raiva não destrói o objeto real, esta resistência de uma realidade que insiste em não desaparecer mesmo que afligida por pulsões agressivas, é a mesma de uma realidade que não irá se alterar para atender aos desejos de uma subjetividade seja ela qual for. E ao mesmo tempo dando ao bebê está experiência da ilusão, onde experimenta a primeira possessão do objeto (do seio) e a força criativa para inventar, apaziguando não só as ausências da mãe-ambiente, como permitindo a construção de uma percepção sobre a realidade objetiva. Na falta ou excesso deste seio o bebê sentiria uma ansiedade acompanhada de uma sensação de invasão. Este reino intermediário é considerado por Winnicott como lugar de repouso, mas é importante o reconhecimento de sua natureza ilusória, ou seja da realidade do irreal, é neste espaço que o bebê experimenta sua capacidade de inventar a realidade, e a confiabilidade no ambiente que oferece continência para o excessivo do pulsional. Porém este mesmo sujeito que se percebe com acesso e poder sobre seu objeto, pode ser invasivo e agressivo às novas formas de subjetividade. A experiência de posse do objeto em Winnicott, se trata de um fenômeno transicional que possibilitaria ao sujeito inventar, experimentar o espaço da ilusão e um brincar com imaginação e criatividade transformando a realidade, se mostra necessário por um tempo, onde numa relação saudável com o ambiente o objeto acabaria perdendo sua função (ou na troca por novos objetos, que proporcionem outras experiências de sua realidade), recolhido ao esquecimento naturalmente quando não mais precisasse dele. A criatividade consistiria em inventar o que já existe.

O homem imobilizado na tentativa de experimentar seu instinto criativo acaba por conhecer somente o lado destrutivo tanto do ambiente quanto de suas pulsões, já que incapaz de reparar ou reconhecer a realidade que ele agrediu, também é incapaz de se preocupar ("concern") com o outro. O homem na impotência de criar (mesmo o que já existe) acaba por dominar, isso se dá quando privados de nossa potência, nos encontramos cegos por uma crença num mundo onde seja todo “eu”. Negação absoluta do mundo como ele é, do não-eu e afirmação de uma consciência passional que acredita ter o mundo em suas mãos. Afirmo que não há relação dissimétrica de supremacia entre esta subjetividade que se crê verdadeira e acima de uma dimensão objetiva. Se sustentarmos que este eu é uma ilusão mesmo assim não o torna menos real pois, tudo que atua é real (Jung pensa no real como uma gradação de eficácia, algo que produz efeitos), sua eficácia consiste como condição de vida do outro e de si mesma, serve como ponto que pode fixar uma existência singular, mas como o próprio Jung diz não se pode confundir com a totalidade da psique. Caso contrário o objeto dominado se torna onipresente, e assim por sermos afetados em demasia por um mesmo objeto constante e fixo, nos compreendemos privados ao não transitar em outras afecções e consequentemente impotentes ou assujeitados. Enquanto o eu ao olhos de nossa psicologia acaba se dramatizando como onipotente, com legal posse em todos os objetos do mundo a seu prazer. Substituir o modelo exemplar de eu (sujeito) por modos de existência (onde o eu é uma delas), nos permite não tratar do eu como aquele que tem total poder sobre os objetos, mas como um modo que se singulariza, ou seja, um modo de se individuar, um acontecimento entre outros.

Proponho como um experimento, ao invés de pensarmo que desde o início habita-se um todo indiferenciado que vai se diferenciando, que nós já diferenciados (e portanto massificados) em demasia desde o nascimento corrêssemos atrás desta indiferenciação quase que necessária para podermos viver. Pois é justamente neste eu que o estado supremo de diferenciação acaba sendo instigado a acontecer e consequentemente desejado em nossa prática. Nada tentou se declarar mais amplo, livre e consciente que o eu (ao exterminar toda experiência de alteridade) e com nada mais viemos sonhando nós analistas, com que se atinja o estágio mais elevado (ex: individuado, maturação genital) que neste eu. E talvez seja justamente o caminho a indiferenciação o caminhar à diferença, no contexto atual. Encontrar o que não se busca, não partir buscando o que se espera procurar, caminhar a indiferenciação com um ingênuo sorriso no rosto, se encontrando com as diferenças produzidas pelo inconsciente e não conduzidas exclusivamente pelo pensamento-dirigido da consciência, experimentar a indiferente produção de inconsciência do Si-mesmo (Talvez a consciência não reconheça sua própria diferença hoje em dia já tão diferenciada, justamente por reconhecer sempre a mesma diferença).

O eu como mais um entre tantos modos de se viver, se reconduziria a uma invenção do Si-mesmo que se compõe em outras relações, que se compõe nas relações, a ação causa de si mesma num trabalho rigoroso em sua produção. Os muitos complexos enquanto modos de existência, ou realidades em potencial poderiam se individuar em diferentes maneiras, que podem coincidir ou não com o eu. Hillman radicaliza ao afirmar várias vezes em seu pensamento que quem individua são as imagens da psique e não o eu. Assim um modo de existir psicótico ou massificado pode apresentar suas individuações, ou suas microscópicas individualidades singulares em cada caso, à um olho de lentes gastas que postula apenas um modo de individuar? Jung ao colocar que na psicose e no indivíduo massificado não se individuam, em meu entender pode dar margem a compreensão de uma individuação quase que exclusivamente como individuação da consciência, e não como realização de um Si-mesmo, daimon ou caráter. De fato, a consciência enquanto lugar de ilusão não é um fator seguro para discriminar o que já é dado como discriminado. Posso entender Jung, que se faz necessário um ponto de diálogo com os muitos outros complexos, mas se pensássemos que o eu é sempre um bom ouvinte não se fazia necessário um analista. O Si-mesmo mesmo em silêncio constrange a suposta onipotência do ego, mas enquanto daimon nos permite um viver mais estético ao indicar uma produção de um vida criativa e ética, e menos moralista e culpabilizadora. A mudança acontece na atitude do eu como diria Jung. O Si-mesmo diz não diretamente para o ego que não se lança a compreender as causas que lhe compõe, e como o que não se compreende se moraliza dizia Deleuze, este ego frustrado infantiliza o mundo e acaba por enxergar tudo como lei que nega-lhes as coisas. Hillman nos fala para enxergar o super-ego como indicador estético, e não como um avaliador ou um juiz rígido que ordena claramente a dimensão do bem e do mal. Diz o autor:

firmaríamos a paz entre o super-ego moralista e o id impulsionado pelo prazer, pondo um fim à guerra crônica entre culpa e cobiça, negação e luxúria, vergonha e desejo. Essas batalhas foram criadas pela teoria terapêutica, não pela psique. A teoria afirma que a a terapia incita ao aperfeiçoamento moral (denominando desenvolvimento da maturidade) em vez de refinamento do prazer. Não há necessidade dessa guerra se imaginarmos o super-ego como um princípio estético e não como princípio moral. Então o id não seria condenado por seus desejos ou dissuadido de seus prazeres, mas seria encorajado, do alto, a buscar mais fantasias férteis e formas superiores (HILLMAN, James e VENTURA, Michael. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior, pág 130)

A problemática a meu ver com a colocação de Hillman se dá quando ele afirma que a teoria inventou esta batalha não a psique, como se a teoria não estivesse no campo da alma, como se a alma não fosse um campo de batalha, mas afinal quando estaríamos fora dela e como se inventariam assim batalhas exteriores a ela? O autor parece pensar uma teoria exterior ao campo da prática, e assim imputa um sentido ou modelo específico da alma falar. Já Jung colocava que uma das grandes radicalidades deste campo psi, era que seu objeto de estudo é o sujeito de todas as ciências. A alma fala por metáforas diz Hillman, ao mesmo tempo que nos oferece o seu modo de como enxergar e escutar corretamente a alma em sua própria narrativa imaginal. Conseguiria ele por este modo dizer quando é ou não ela que fala ou quando é o ego? Entendo que o que Hillman propõe não é produtivo se entendermos enquanto modelo, mas sim enquanto um modo, este modo particular de Hillman ao servir de modelo universal constrange, inibe e agride as novas formas de pensar, por não se abrir a compreender (postula um a priori) outros modos que acontecem sem ser por este viés. Escuta metafórica pode soar muitas vezes como escuta unilateral, que se recusa a escutar o literalismo próprio ao corpo sonoro do que é falado, que se irrita pelo excesso de literalismo dos pacientes, escuta que marca um intervenção analítica “mercurial” mas ao mesmo tempo "uni-literal". Defende-se de tudo e de todos afirmando com suas lentes tão literais quanto as que insiste em denunciar, quem está ou não sendo literal. Que propõe literalmente uma distância afetiva (calcinatio) da imagem trabalhada, mas se recusa a conhecer a potência do "concretismo psicótico" que tanto irrita Hillman, ou seja o literal enquanto esse in anima, uma realidade viva que atua em nós e nem um pouco metafórica. O grande inimigo de Hillman nesta direção que ele aponta passa a ser o próprio ego, a ação do espírito ou o animus, e nesta ótica o rejeitaríamos como a um dejeto desnecessário em seu modo particular de individuação e afirmaríamos justamente por olharmos com as lentes que o próprio ego oferece, que ele é o único que não individua.

Seguindo esta direção e exagerando-a ao máximo, poderíamos afirmar que um curso de psicologia tem mais alma que um de educação física? Onde acabaria então o trabalho da alma e começaria o trabalho do corpo? Para este experimento, faz-se necessário dizer que metáforas são coisas da alma e literalismos coisas do corpo, negariam-se assim uma alma literal e um corpo metafórico? Neste sentido possivelmente o curso de psicologia seria uma formação exclusiva de sujeitos senhores do pensamento e da imaginação abstrata de uma metáfora em um corpo morto que não é afetado por nada, ou seja, àqueles que servem a alma. E o curso de educação física seria uma formação exclusiva de senhores do corpo e suas afecções, que por desprovidos de pensamento e alma são completos imbecis e ignorantes por serem demasiadamente literais, ou seja, àqueles que cultuam o corpo. Que dilema entraríamos assim, e quantos psicólogos, filósofos, educadores e intelectuais seriam necessários para auxiliar estes formandos em educação física que não sabem o que fazem, a fazerem o que dizem sem saberem o que não lhes foi dito? Não saber é um veneno afirmam estes profissionais do espírito e da alma! Assim deveríamos desenvolver a consciência destes despossuídos de razão e imaginação para que saibam o que fazem?! Para que saibam fazer alma e metáforas tão desprovidas de corpo, porém jamais tão apaixonada quanto nós. Não seria mais interessante aos analistas, psicólogos, filósofos e todo tipo de intelectuais aprenderem a fazer corpo? Ou antes conhecerem o corpo que já os detêm? A análise em seu termos se afirma como um platonismo para neuróticos!

A briga de Hillman pela primazia da metáfora, me soa tão parecida com a velha briga de Freud e sua psicanálise em seus confrontos iniciais, que para resistir à resistência da sociedade da época utilizou como arma a própria defesa, apontando com suas lanternas analíticas todos os cantos ainda sombrios que a resistência à análise perdurava. Não é notoriedade alguma descobrir ao inventar àquele que resiste à nossa força, contanto que nos seja claro nossa estratégia. Resistir pela resistência e utilizá-la como instrumento de guerra foi e ainda é um dos modos mais comuns de combate neste terreno psicanalítico. Algo como atacar a repressão reprimindo-a, óbvio que com suas sofisticações, refinamentos ou sublimações necessárias. Como se a cada resistência correspondesse a um odor mal cheiroso que perfumássemos com nosso perfume francês. Mas a tirania do modelo continua presente não se afirmando enquanto modo, cabe meditar se isso seria necessário? Para facilitar nossa passagem a maior idade numa perspectiva kantiana, entendemos que a metáfora para Hillman, é o uso da ferramenta conceitual mais afiada de seu próprio pensamento para quem intentar a pensá-lo, sem cair nos literalismos de uma imaginação pura (se é que existe isso). Podemos intuir que Hillman é afetado mais intensamente pela imaginação, mas generalizá-la como propriedade comum da alma é por demais perigoso. Em outros termos, imagem no pensamento de Hillman é um conceito que se recusa enquanto conceito, pois se coloca num fio tênue de um compreensão metafórica (poética-imagética) de um lado e de uma compreensão literal (conceitual-racional) de outra, que com bem viu Giergerich é uma perceptiva que não pode perceber a metáfora no literal. Não se compreenderia nesta perspectiva de Hillman, qual a poesia em se matar touros literalmente.

Porém considerando suas novas lentes a compreender o super-ego percebemos a rica contribuição de Hillman. Se o problema no moralizar é justamente por não se compreender, o que acontece quando se moraliza a própria moral? Possivelmente amputamo-lhes sua própria força produtiva, ou seja sequer seria possível compreende-la por exemplo como um juízo de refinamento estético. A moral não pode ser descartada simplesmente porque não a compreendemos, ou seja porque utilizamos de sua particularidade (ou seu modo de individuar) mesma para fazer o que ela mesma faz, caso contrário a moralizamos. Jung mesmo recomendava prudência quanto a isso, pois ao destruir um valor é importante se assegurar de ter outros para substituí-lo.

A relevância que a psicologia analítica pode oferecer se acompanharmos rigorosamente o curso que vem se desenrolando aqui, diz respeito e acontece somente neste eu, para este eu e no caso exclusivo dos neuróticos. Trabalho que acontece no eu, pois o eu não pode ser percebido como um acontecimento. Pois ao dizer que psicóticos e massificados não individuam, moralizamos um processo da vida e afirmarmos nossa posição que se nega à compreendê-los em suas próprias relações. Neste caso Jung se contraria, pois diz que a consciência brota como ilhotas no caminhar pelo mundo mas ao “legalizar” moralmente o processo de individuação a um grupo seleto de neuróticos (por possuírem consciência durante o processo) ele estaria dizendo que a consciência é produto exclusivamente de culpa, já que sem culpa não haveria está consciência da necessidade de se individuar. Assim só os que sentem-se suficientemente culpados por não adentrarem no ideal da individuação é que desejariam se libertar da escravidão através dela. Está estratégia se mostra tão distante assim da massificação que nós atacamos, por destruir qualquer possibilidade de trabalho para outras individualidades? Isto é uma saída que culmina numa escravidão voluntária sem a tonalidade de eros. Neste caso seria mais interessante ou menos moralista viver um modo de existência psicótico ou massificado, pois estes seriam incapazes justamente de compreender devidamente as "boas intenções" que a individuação dos analistas se colocam a propôr previamente a quem os procure.

O analista nestas condições seriam os mais aptos a avaliar quem está individuando ou não, sendo que enquanto for abordado neste processo totalitarista a funcionar por modelos a individuação é neurótica, ampliar a consciência ou desenvolvê-la neste sentido é alienar-se de si mesmo pois busca a todo custo si mesmo, é afirmar-se enquanto criatura apaixonada e escrava de uma moral externa a si. Temos com isso, um modo onde a neurose é a própria individuação. A solução da individuação é produzir neurose não massificada e anti-psicótica. Os anti-psicóticos não poderiam assim executar metade do nosso trabalho? Já que também afetam diretamente o corpo que não nos interessa enquanto analistas? O inferno dos "individuados" lhes propõe como saída, uma marcha de extermínio das massificações e psicoses. Por medida de prudência particular, prefiro esquecer o céu com os anjinhos da individuação e ficar com Raul Seixas, acreditando que enquanto Freud explica, o Diabo é quem dá os toques. Enfim, é preocupante e perigoso se o analista se colocar como arauto da individuação em defesa deste "além de nada", individuação para não soar como agressividade, não pode ser modelo mas apenas modo.

Consciência por consciência, qualquer complexo poderia aparecer e se dizer eu, mas que garantias externas e por isso mesmo apaixonadas (pois derivadas de forças externas a si) este que se diz eu, teria que crer ou criar com a sua mais íntima necessidade de certeza? E que garantias violentas em busca de uma verdade de si poderia provocar para afirmar que é quem diz ser? Garantias violentas estas, que unicamente e necessariamente o comprometem diariamente a se violentar por elas. Se afirmar enquanto sujeito da consciência é neurótico nestes termos, mas neurose de um complexo. E acreditar que na certeza de que se é um eu porque dúvida e logo pensa, não nos diz muita coisa. Acredito que a questão central de qualquer complexo que se afirme enquanto eu, para nós analistas não é saber se o eu é o verdadeiro eu que diz ser quem é, mas saber se podemos contar com ele como um ponto estável, a ilha necessária para que um trabalho aconteça, ou como diz Jung para que não precisemos pescar esta subjetividade perdida num caos de inconsciência. Creio mais interessante pensar com Hillman em sua idéia de um Self como comunidade interior, que "convive logo existe", ou seja existências enquanto modos de relação e não em certezas do pensamento. Desistir de partir em uma busca pela certezas da verdade a nosso respeito para abrir-se aos encontros da vida. A pergunta na clínica poderia ser: O que pode o encontro analítico? A individuação seria assim individuação dos próprios modos de vida e não da autonomia do sujeito conscientemente exemplar. Podemos encontrar a indicação mais ética para solucionar estas confusões no próprio Jung, que diz para se tomar cada caso como novo e único. Cabe salientar que além de podermos pensar no modelo enquanto mais um dos muitos modos de existência (ou modos de individuação), pode-se pensar no modo enquanto modelos, por isso considero importante não fazer dos modos um novo modelo exemplar de verdade teórica, pois cairíamos justamente na proposta que estamos propondo a nos afastar, fazendo movimento dos imperativos da moral para uma ética.

Sair do terreno desta individuação subjetiva (“eu”, sujeito) para a individuação dos acontecimentos é como pensa Deleuze:

o que nos interessa são os modos de individuação que já não são os de uma coisa, de uma pessoa ou de uma sujeito: por exemplo, a individuação de uma hora do dia, de uma região, de um clima, de um rio ou de um vento, de um acontecimento. E talvez seja equívoco acreditar na existência das coisas, pessoas ou sujeitos (DELEUZE, Gilles. Conversações, pág 38)

Entre as possíveis compreensões do desejo em psicanálise, podemos encontrar uma imagem de desejo pautada numa castração. A castração enquanto lei que permitiria ao sujeito advir ao simbólico, a linguagem e a cultura. Lacan compreende que: "O inconsciente é a soma dos efeitos da fala, sobre um sujeito, nesse nível em que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante" (LACAN, Jacques. O seminário XI, pág 122), assim a linguagem seria a condição para o sujeito do inconsciente, enquanto que um significante representa o sujeito à outro significante. Entretanto compreender o desejo exclusivamente constitutivo de uma falta estrutural da condição falante como é a humana, pode comprometer meio mundo a uma lei que diz não, que como bem disse Foucault aciona mutuamente um dispositivo de aliança (lei jurídicas e tabu do incesto) à um dispositivo de sexualidade (incitação à práticas e confissões sobre o sexo) ligando desejo à sexo, ou a prazer sexual. Na leitura de Foucault tal como a compreendo, a psicanálise emergiria como tentativa de resposta e solução à uma falha na manutenção e instauração destes dispositivos no núcleo familiar, não é para tanto que Freud esbarrou de frente com o tabu do incesto localizado nos dramas edípicos da família burguesa de seu tempo. Se servindo de uma compreensão de desejo-castração a psicanálise pode cair em modelos exemplares que oferecem-se a administrar e regular no sujeito os efeitos devastadores de um recalque severamente rígido à produzir sintomas neuróticos a torto e a direito, porém se aliando aos dispositivos de poder que implicaram num mesmo dispositivo de poder: sexo, produção de verdade e lei. O poder segundo Foucault sempre foi interpretado como um efeito de lei que proíbe, imobiliza, que nega com um "não" tão rígido quanto a instância super-egóica a torturar e se satisfazer na vida psíquica dos neuróticos, mas o autor afirma que o poder também é produtivo, o poder diz "sim". Como bem pode ser visto na construção deste poder-saber sobre a verdade do sujeito fixada em seu sexo, já que incitava muito mais que reprimia a fazer e a se falar de sexo, e que tornou possível a criação de uma "scientia sexualis" como condição possível de implantação um dispositivo da sexualidade.

Foucault compreende que a psicanálise também interpretou o poder em forma de lei, que transmite e possibilita a entrada de um sujeito na cultura (simbólico) e aciona conjuntamente um dispositivo de sexualidade que vincula desejo-sexo. Sentir-se culpado em ceder de teu desejo, pode-se converter no postulado de um modelo que oferece um ideal de libertação através daquilo que é justamente reprimido. Deleuze nos apresenta que o desejo enquanto falta, é mais uma dos muitos modos de produção de desejo, percebê-lo como único e exclusivo poderia coloca-lo como modelo que agride um paciente, criança, psicótico que não passou pela castração necessariamente e com isso circunscrevemos, reduzimos e instauramos a um mesmo dispositivo de poder que liga lei à desejo, e desejo à desejo sexual. O poder constrange nossa potência para agir dizia Deleuze, por isso ele é sempre uma paixão triste, entregando podemos usar de nossa própria potência para constranger! Impotência para pensar em outras coisas, é uma artifício antigo utilizado nos engenhos das relações dominantes de poder. Enfim, o poder constrange de muitas formas e não apenas através da proibição.

A psicanálise inserida historicamente onde nasceu, de certa forma não deixaria de se informar nos discursos e poderes de sua época. Sequer escaparia inclusive de contribuir na produção de saber no interior destes mesmos dispositivos, que por efeito de um poder dominante inibe a aparição de novos modos de individuação. Há uma face normativa e perigosa nesta prática que queria se acreditar tão neutra em seu início. O problema também sequer passa perto de cultuar a não-idealização nos indivíduos, numa tentativa de implantar outra regra impedindo que se deseje (e por isto mesmo o suscita) ou que se deixe de idealizar, delirar o campo social. Mais interessante que isto, acredito ser nos perguntarmos qual a nossa maneira de delirar este campo? Como deliramos a nossa família? E as nossas práticas? Como deliramos o delírio?

É possível perceber um padrão em nossa cultura que parece se negar à ocupar-se com o sentido da vida e um contra-investimento curioso acaba por acontecer diariamente, de investimentos em excesso de aparelhos e dispositivos tecnológicos de gestão de vida, que podem pelas relações de força que compõem, acabar por abafar outros modos de existência. E assim temos uma vasta preferência por elegemos modelos idéias, leis morais que constrangem e culpabilizam quem deslize para fora desta cama de Procusto, no sentido de reenviar aos sujeitos autônomos suas respectivas responsabilidades. De fato na impossibilidade de inventar, não é incomum de se observar quem se atire de cabeça nestes ideais, em uma demanda desesperada de amor que procura um consolo adequado para poder se culpabilizar ou se aliviar. Desde Nietzsche e Freud não estamos cansados de saber que alguns homem adoram um consolo para se aliviar de sua enorme satisfação com a culpa? O sofrer alegremente também não seria uma realidade por vir? Não nos fazemos protagonistas de nossa história, esperamos um político, uma instituição, grande mestre, super-homem ou Jesus que venha nos representar. Nos recusamos a ação produtiva, o nosso agir criativo que é anterior a qual lei moral. Neste ato não há transgressão pois não há lei prévia que condene nosso gesto espontâneo, diria Winnicott. Falar por representação dizia Deleuze não é o mesmo que falar em nome próprio, que nada tem haver com se tomar como a um eu, se trata de falar por afetos, intensidades, experiências e experimentações. Exercício este que despersonaliza, abre-se a apreensão instantânea de uma multiplicidade ou multidão que é cada indivíduo. Assim falamos do fundo daquilo que não sabemos, do nosso subdesenvolvimento.

Entretanto, somos responsáveis enquanto psicólogos e analistas por instaurar um dispositivo de poder dominante, preocupados na sua manutenção diária. O modelo normativo que propomos é apagar todas as falhas, produzir homens sem sombras, em movimentos que se propõem uma conscientização às custas de uma colonização do inconsciente que visa esgotá-lo em sua potência, inventar uma norma coletiva para justificar nosso desamparo, que nos permita domar os atos falhos que nos acontecem, reconduzir a libido à lei ou ao sexo, reduzir o desejo à organizações do poder com a micro-família burguesa, des-complexar a psique, preencher (completar) nossa potência para agir e com isso inibindo-a ou diminuindo-a diria Spinoza, e tudo isto à serviço do rebanho, do sacerdote, da moral e do niilismo passivo diria Niezstche. Todos tem complexos dizia Jung, mas ele trazia uma "boa nova" afirmando que nem todo mundo sabia era que eles também podem nos ter, que são ineducáveis e são os mesmos que no teste de associação de palavras eram conhecidos por "falhas de reação", pois frustravam as intenções do interlocutor e do próprio objetivo do teste. Um teste e seu objetivo frustrados pelo inconsciente, como gerenciar tudo que nos escapa? Ora, se tudo isto não se trata das questões de como pegar e manusear livremente na mão do homem a vida e a morte que sempre escapam por entre nossos dedos? Aceitar a castração assim como a morte, não denegar a angústia que daí advém como nossa realidade mais provável desde o instante que começamos a respirar, partindo de onde for em um trânsito de devir a aceitar a tarefa e implicação na produção da própria vida, inventá-la e não reconduzi-la aos modelos biomédicos, ou psicanalíticos que nos programa detalhadamente o que é a vida. Acredito que estes dispositivos e tecnologias podem se ocupar e oferecer coisas mais interessantes a vida, do que tentar circunscrever a vida num jogo de poder dominante.

Destacarei agora colocações de Jung muito interessantes ao se tratar das crianças, quando faz indicações importantes à professores e educadores, já que consideramos que a escola em nossa sociedade é uma das primeiras vinculações desta "consciência" que emerge fora do círculo de quem cuidava dela. A escola é pensada como campo de relação social da criança como muitos outros, assim Jung pontua que mais importante que entupir a cabeça das crianças com conteúdos e conhecimentos desnecessários, é atentar para as vinculações que ela faz neste ambiente, com o professor e outros alunos, etc. Levar adiante a antiga idéia de que a escola precisaria estar disposta a aprender com o aluno e não somente ensinar, sair da dissimetria entre sujeito e objeto, ir para a mundanidade das relações onde o outro nunca se reduz ao mesmo, onde a escola não suporia conhecer a verdade sobre a criança que recebe a priori, (talvez ambos se divirtam mais com uma "verdade inventada") e com isso manter continuamente um questionar em como acolher, receber ou hospedar bem estes alunos, formando bons vínculos para o viver desta criança. Uma boa relação implica uma confiança necessária com este outro, para que a criança não se sinta ameaçada ou invadida, oferecer um espaço que permita criar possibilidades para a produção do novo sem culpa ou ansiedades de despedaçamento. Jung indica não partir de uma lei genérica para dar conta da existência singular que se encontra a caminho da escola, mas para se haver constantemente com a questão de como receber este outro, a dinâmica central para o autor se dá no plano das relações. Preocupações éticas em reconhecer a vida que adentra pelas portas da sala, uma cuidadosa atenção para este momento da criança, e não agredi-la com leis morais ou entupindo-as com conhecimentos com os quais se depositam num arquivo vazio. Deleuze fala que se os alunos fossem efetivamente escutados por professores, educadores, coordenadores e até pais, ao invés de infantiliza-los como se faz geralmente, seria suficiente para explodir o sistema de ensino como o conhecemos.

Mas estaríamos dispostos a abrir mão deste “narcisismo de fraldas” que nos apegamos e não cessamos de enxergar nas mínimas deficiências da consciência não-desenvolvida da criança? Que insiste em infantilizar a criança, patologizar a infância, e normatizar em modelos para um futuro não massificado e nem louco. Não é pra menos que o CID-10 pode ser lido tanto como anúncio do apocalipse patológico eminente quanto o amparo necessário que nos indique a nossa patologia por normas, sofremos do anseio por uma patologia que normatize, nossa necessidade por modelos e que se apóiam em nossas lentes gastas para não enxergarmos em nós mesmos estas pesadas verdades que são incapazes de serem acompanhadas de uma risada. (Obs: As considerações da psicologia sobre a criança, acabam no auxílio de fundamentar e articular cientificamente desde a década de 80 os "novos" sujeitos de direito proposto pelo ECA, com todas as novas e antigas relações de poder aí implicadas que não se mostram interessantes em ser ignoradas pelos profissionais psi. As almas também são jogos de poder.)

Recorte do campo - Uma paciente com diagnóstico de autista, que não se comunica verbalmente é tratada como um "peso", um "fantoche" que é conduzido a realizar as tarefas de "sujeito" por outros que se colocam em seus cuidados, dentre estes destaco higiene pessoal (tomar banho, escovar dentes), alimentação (sentavam-na de frente a um prato, porém ela era guiada tal qual uma marionete para se alimentar) por se fazerem mais ilustrativos as minhas intenções. Em discussões com a equipe geral da instituição, não era incomum perceber advindo de técnicos que não trabalhavam com a paciente, uma certa imprudência "teórica-ética" que tencionava a condicionar nossas percepções, dentre as discussões mais irrelevantes e improdutivas sobre a impossibilidade da instituição de se esforçar por compreender o "caso" em questão, abordaram como temática central a velha questão que por vezes se reedita em psicanálise: se há ou não sujeito no autismo ou na psicose infantil (nesta perspectiva o dito sujeito estaria fora da linguagem e do discurso, portanto faz-se necessário imaginar, que estávamos sempre a falar de outra criatura que não a que constantemente "especulamos" abordar).

Compreendia-se todo ato em questão da paciente, como condicionamento e aprendizagem e se tornava inútil qualquer abordagem em defesa de um “sujeito com direitos” do ECA à um autismo. Mesmo a questão de um sujeito com direito convertido em dever de se limpar e se alimentar por nossas mãos, era agitação de pouca mobilização. Enfim, nossa impotência não confessada enquanto equipe jamais foi tema a merecer trabalho, ao contrário transtornava nossa ambicionada ação em perceber um nada mais que uma autista-objeto-de-alguns e para alguns. A autista em questão fora e era forjada para se fixar na posição de objeto, e nós éramos seus “arquitetos” ou espectadores de um objeto que se move em direção à coisas, já que este era um sujeito efeito de linguagem, de nossa fala agenciada a nossa percepção. Falar produzia esta realidade.

A penalidade da consciência em questão fugiu a nossa desatenciosa "jurisprudência", assim em uma breve percepção ao re-pensar o caso, me lembro que a “paciente-bebedouro” "gostava" de puxar o cabelo dos outros, e era atraída por biscoitos de chocolate. De acordo com a dinâmica pulsional a atuar no psiquismo humano, isto denunciava uma "prova" essencial para se aparentar um sujeito do desejo, já que se efetivava a passagem de um suposto plano das "necessidades instintivas" para o plano pulsional desejante. Havia singularidade nesta relação biscoito-cabelo-autista? Esta "inutilidade nada evidente" para quem convivia com ela diariamente não passava despercebido (sequer para suas cuidadoras cujo laço era mais intenso), mas dificilmente era fator de meditação por nós enquanto acadêmicos do saber sobre o desejo. Por impotência em nosso esforço por compreender optamos por moralizar, o diagnóstico servindo como evidência da moral em nossa profissão. Entretanto, indiferente a nossa posição teórica-ofensiva, a paciente continuava sua vida diária com menos afetos que um carrapato. Afetos em individuação, que acionavam outros agenciamentos. Certa vez, uma cuidadora se afastou da equipe por um tempo, e era possível perceber uma inquietação da paciente, no retorno da cuidadora somente em escutar sua voz esboçou um sorriso, em seu corpo intensamente afetado numa dança estranha. Este é exemplo curioso de tratamento caduco atual que se realiza em algumas práticas.

Infantilizar a criança é nosso meio mais ordinário (e portanto infantil) de lidar com as potências que nos atravessam. Estaríamos realmente capacitados a escutar a criança para que sua fala mate a escola como a conhecemos? Permitindo assim que destrua a escuta que escutamos? As perguntas que uma criança faz a um adulto neurótico são questões filosóficas, espirituais e carregadas de intensidades. A criança pergunta por afetos, suas perguntas explodem a linguagem (ou levam-na a seu limite, sua borda) e incitam ao pensar e imaginar livremente. Ela fala dos professores não enquanto aluno como estamos habituados a enxergar, mas como um cachorro, como um passarinho ou um drogado. Fala intempestiva e “mal-dita” à nossos ouvidos, desprezam os conhecimentos que professores tem a lhe passar, forçam-lhes a ir além do que sabem ou do que sabem poder saber. Numa linguagem kantiana, afirmaria que elas atingem a maioridade desde cedo (ou antes mesmo da adultez) por ousarem saber. São as primeiras a terem esta audácia cara-de-pau de saber. Quem mais produz o desejo de saber senão elas? Desprezam este amor infantilizador que temos a lhe oferecer, querem outra coisa que nos é impossível de dar ao mesmo que tempo que se doam a intensas relações afetivas. Como coloca Nietzsche, nem todos conseguem ser esponjas para lidar com corações transbordantes.

Ao colocar este modelo de individuação como "necessidade natural" de cada um, neste mundo em que os objetos de mercado operam para produzir esta mesma necessidade de consumo, podemos contribuir para uma lógica que desejamos escapar. O "dever de se individuar" pode se converter no direito de cumprir uma lei que não nos diga respeito, este algo em vida ao qual não se tem escolha pode se converter em algo que constranja a vida, impossibilidade de ação produtiva aliançado à imutabilidade e impotência entretanto sob os belos signos de realização do Si-mesmo, destino, caráter, daimon ou estratégia de mercado. Realizamos o imperativo de realizá-lo. Por um "sutil" e "inocente" desvio na compreensão deste conceito, podemos atender e produzir demandas em nossa sociedade de consumo assim como desta subjetividade que tem por tarefa sustentar o mercado que a alimenta. Tudo pode preencher este ideal individuacional ao qual não temos escolha. Podemos tanto pensar que estamos fora de uma natureza "culturalmente" humana, em dívida com todos por não preencher este ideal e a espera da punição adequada por nosso crime de se atrever a ir contra o exemplar modelo individuacional (mais consciente e metafórico-simbólico), se aproximando daqueles marginais incivilizados e literais da psicose e da massificação, ou podemos nos perguntar que necessidades externas são estas que não nos dizem respeito que a prática de análise "má educada" porém com "boas intenções" tende a nos incitar? Nestes termos uma das melhores práticas para se viver com saúde é reconhecer a individuação onde ela se manifeste justamente para se manter longe dela, entrar em uma dieta prudente quanto a suas cestas básicas da sobrevivência exemplar.

Na linguagem do dia-a-dia geralmente utilizamos a palavra "educação" como sinônimo de bons modos que acreditamos que se devam por direito ter na sociedade civil, porém é com estas "virtudes anti-viciosas" dos "bons modos" que talvez necessitássemos corromper inicialmente, colocá-las entre aspas e pensar a educação não mais enquanto os bons modos da vida, mas como em modos bons para o viver. A colocação de Jung para os pedagogos e educadores pode muito bem servir à nossa educação enquanto psicólogos e analistas, que tanto moralizamos e circunscrevemos em dispositivos de poder não só a criança, como o adolescente, o psicótico, a mulher, a família e tudo o mais que pudermos encaixotar aí, impedindo e nos cegando à produção espontânea da psique de novas formas de existência. Precisamos de uma leve dose de humildade como prudência necessária para abandonar nosso narcisismo de fraldas, deixando os modelos de desenvolvimento da consciência conquistar seu esquecimento e afirmar que não sabemos de antemão como se individuar, sequer talvez saibamos o que é individuação. A alma fala como ela quiser, não como nós preferimos escutá-la, seja tratando-se de metáforas ou literalismos ou com consciência ou sem ela, tudo isto trata de uma questão a se refletir com mais cuidado e atenção do que tem sido dada, afinal a que serve e vem servindo insistir com tudo isto? Para que a individuação se desligue de um poder-saber que instaura a reprodução de um desenvolvimento da consciência para os não-massificados e anti-psicóticos (uma individuação à serviço dos psicotrópicos?), talvez seja mais interessante que pensemos nela como uma questão de modo e não de modelo. Modos completamente diferentes de se individuar, ou modos semelhantes de se individuar e não um modelo único que privilegie a consciência ou uma fala mais metafórica, pois inclusive estes que são tomados como modelos são apenas modos de individuação entre outros. Como Hillman diz sua clínica potencializa a excentricidade, derivada da noção de Jung de individuação, mas como é possível que só um autor verifique a ousadia da proposta de Jung?

A proposta de se pensar individuação enquanto modos sequer é idéia minha, e muito menos recente, pois para aos atentos as micro-intensidades do texto de Jung pode-se ler que o mesmo aponta este sentido:

não se visa o "individualismo", mas unicamente uma forma de estabelecer a condição prévia indispensável a todo ato responsável, que é que cada qual se conheça a si mesmo e sua própria maneira de ser, e que tenha coragem de assumi-la. O homem só passa a ser responsável e capaz de agir, quando existe a seu modo (grifo meu), se não, não passaria de uma "maria-vai-com-as-outras", ou de um moleque de recados, sem personalidade própria. (JUNG, C.G. O.C. Vol. XVI/1, pág 24).

Jung reconhece individualidades em individuação em vários momentos de sua obra, e a idéia que a individuação pode e resiste a cura analítica também está presente em Jung:

Se é que "cura" significa tornar sadio um doente, cura significa transformação. Sempre que possível, isto é, no caso de a personalidade do doente não ser sacrificada em demasia, ele deve ser transformado terapeuticamente. Mas quando um doente reconhece que a cura por transformação significaria renunciar demais à sua personalidade, o médico pode e deve renunciar à modificação, ou seja, à vontade de curar. Neste caso deve recusar o tratamento, ou acomodar-se ao método dialético. Este último caso acontece mais frequentemente do que se pensa. Em minha clínica particular sempre tenho um número considerável de pessoas muito cultas e inteligentes, de individualidade marcante, que por motivos éticos resistiram fortemente a qualquer tentativa séria de mutação. Em todos esses casos, o médico deve deixar aberto o caminho individual da cura, e neste caso o processo terapêutico não acarretará nenhuma transformação da personalidade, mas será um processo, chamado de individuação. Isto significa que o paciente se torna aquilo que ele é. Na pior das hipóteses poderá aceitar sua neurose, porque entendeu o sentido da sua doença. Vários doentes me confessaram que aprenderam a ver com gratidão os seus sintomas neuróticos, pois estes, como barômetro, sempre lhes mostraram quando e onde se tinham desviado do seu caminho individual, ou quando e onde coisas importantes tinham ficado inconscientes. (JUNG, C.G. O.C. Vol. XVI/1, pág 8)

Individuação nestes termos além de resistência a análise modelar, é a cura apontada pela alma do ar vicioso e viciante que infecciona os corpos que desafiam a cama de Procusto, e se arriscam a encontrar seu modo de existência particular. Já dizia Jung que o analista humildemente deve ter em mente que "Nem tudo pode e deve ser curado." (JUNG, C.G. O.C. Vol. XVI/2, pág 121)

Vale lembrar que toda idéia de educação e ou correção de um fato unilateral, ou nocivo para a vida de um indivíduo no pensamento de Jung é efetivada unicamente através de sonhos, memórias, fantasias e desejos. Quem indica a cura é Eros e a Alma, diria Hillman. O educador nunca é o analista, por motivos éticos como sinaliza Jung, se existe algo que insinue uma necessidade de uma mudança de atitude está vem exclusivamente de disposição do inconsciente. Em certos momentos os próprios sonhos de Jung o guiavam na direção de sua clínica, o mesmo já chegou a relatar seus sonhos à pacientes. Sua solução criativa proposta na idéia de individuação, implica tanto individuação como uma árdua tarefa de se tornar quem se é, e um respeito ao processo ou modo criativo de qualquer um que se apresente.

Bibliografia

HILLMAN, James e VENTURA, Michael. 1995. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior. Summus editorial.

LISPECTOR, Clarice. 1998. Aguá viva. Rocco.

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