CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 19 de setembro de 2009

ONTOLOGIA ONÍRICA

hermetismo, diferença e ciência em Philip K. Dick



Este texto refere-se ao ciclo "Civilização em Transição"


A teoria modifica a realidade que descreve.

Philip K. Dick


Somos dessa matéria de que os sonhos são feitos.

William Shakespeare


Ele não sabe mais se foi Zhou que sonhou que era uma borboleta, ou se foi uma borboleta que sonhou que era Zhou.

Chuang-tse



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"The Harbour" Jacek Yerka


Nelson Job sonha que está escrevendo este texto. Naquele universo, existe uma carência em relação à teoria dos sonhos. Se o freudismo limitou o sonho ao desejo e ao sujeito, Jung (1961), por sua vez, expande o sonho ao Inconsciente Coletivo, mas não desenvolve uma técnica para lidar com o material onírico que não seja limitada à interpretação. Porém, ele afirma, sem desenvolver que sonho é natureza. O que seria a natureza dos sonhos?


Cornélio Agrippa (2008) em 1531 escreve: “Chamo de sonho, aqui, aquilo que é causado pelas influências celestiais no fantástico espírito, mente ou corpo, se estão todos bem dispostos (...) portanto, não pode haver uma regra comum para todas as interpretações de sonhos”. Não havendo regra para a interpretação de sonhos, como deve-se operar?


O esquizoanalista Félix Guattari (2003), à partir de considerações sobre os sonhos de Kafka, propõe utilizar a “pragmática” kafkaísta do sonho na clínica, enfatizando, ao contrário das “interpretações”, os pontos de singularidade dos sonhos, onde este se torna mais surrealista, para engendrar a partir deles novas formas de existência. Assim, os sonhos não são para ser sobrecodificados, ou seja, não são para se “extrair” uma informação “por trás” de suas imagens, e sim, utilizar tais imagens para impelir a criação de novos sentidos para a vida, ou seja: creditar realidade ao sonho.


Se Agrippa tem como um dos principais inspiradores Hermes Trismegisto, Guattari extrai da Ética espinozista grande influência para a sua esquizoanálise. Vejamos as ressonâncias desses quatro e outros autores.


Hermes Trismegisto é uma figura mítica, cuja realidade é um mistério. O que se pode dizer, baseado em indicadores históricos e esotéricos, que o hermetismo (WESTCOTT-2003) tem a suas bases no Egito Antigo e Mesopotâmia em torno de 1800 aC., tem um desenvolvimento na helenismo e uma grande disseminação na Europa no período medieval. O hermetismo tem como principal conceituação os sete princípios:


O Princípio de MentalismoTudo é mente e a matéria é força mental coagulada.


O Princípio de VibraçãoTudo está em movimento, tudo se move, tudo vibra.


O Princípio de RitmoTudo tem fluxo e refluxo, um movimento para frente e para trás.


O Princípio de PolaridadeTudo tem o seu oposto, o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza.


O Princípio de Correspondência – O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Existem três grandes planos: o físico (matéria, substância etérea e energia), o mental (mineral, elemental, vegetal, animal e hominal) e o espiritual, sendo que os sete princípios se encontram em todos eles.


O Princípio de Causa e EfeitoToda a causa tem o seu efeito. Os estudiosos de hermetismo conhecem os métodos da elevação mental a um plano superior onde tornam-se apenas causadores, e não efeitos.


O Princípio de GêneroTudo tem o seu masculino e o seu feminino. Não devemos aqui fazer uma relação antropocêntrica. Estes princípios se assemelham mais com a complementariedade de yin e yang no Taoísmo.


O hermetismo ressoa na história do pensamento, mas na Idade Média, a santa inquisição tentou eliminar toda a prática pagã. Com isso, o hermetismo se tornou maldito, sobrevivendo nas entrelinhas da filosofia: Plotino, Spinoza, Leibniz e em práticas “ocultas” como a astrologia e a alquimia. Hoje, devido aos estudos de historiadores da ciência como Allen Debus e Betty Jo Teeter Dobbs (COHEN e WESTFALL – 2002) sabemos que a astrologia se desdobrou em química e a astrologia em astronomia. Se o hermetismo ganhou precisão se “transformando” em ciência, perdeu em reflexão, pois os pensadores herméticos relacionavam profundamente o experimento e a reflexão filosófica. Existe um debate entre os estudiosos de Newton sobre o grau de influência que a alquimia exercia nos seus tratados científicos. Os princípios ativos que operam entre as pequenas partículas da matéria na Óptica de Newton são idênticos ao de seus escritos alquímicos. Porém, é na primeira edição do Principia, em 1687 que consta a afirmação mais evidente: “Qualquer corpo pode ser transformado em outro de qualquer natureza, e todos os graus intermediários de qualidades podem ser induzidos nele.” Apesar de Newton ter retirado esta afirmação das edições seguintes, os estudiosos em geral concluem que esta crença se manteve até o fim. (Para uma maior reflexão em relação ao hermetismo e sua contribuição para a ciência, ver "Hermetismo em Aberto").


Uma outra ressonância curiosa com o pensamento hermético é a chamada Filosofia da Diferença. Segundo o filósofo Gilles Deleuze (2006a) essa filosofia pretende “tirar a diferença de seu estado de maldição”; não mais subordinar a diferença à oposição, analogia, semelhança, negação, identidade, ou seja, todos os aspectos da mediação e da representação – assim chegamos à diferença pura. Não é inscrever a diferença no conceito em geral. A diferença é afirmação. A filosofia da diferença não tem pressupostos, é um pensamento sem imagem. Não é uma questão de dado, e sim, de como o dado é dado. (Para uma ampla arbodagem da Filosofia da Diferença, com todos os seus principais autores e conceitos, ver o texto “Devires” e para uma relação dos conceitos de Deleuze como hermetismo do Tarô, vide "Deleuze e o Tarô" ambos neste blog.)


Criticando Platão, que colocava o simulacro como algo menor que as idéias, Deleuze funda um outro conceito de “idéia” em que esta deixa o estatuto da transcendência (mundo das idéias) rumo a uma imanência, bem ao modo espinozista. A idéia faz parte do simulacro e a ontologia de Deleuze é a do simulacro. Os itens do sistema do simulacro, em que “o diferente se refere ao diferente pela própria diferença” são 7. Manuel Delanda (2004), num livro sobre os conceitos de Deleuze e sua interface com uma ciência “menor”- não com a Royal Science - chamado “Intensive Science and Virtual Philosophy”, afirma sobre a lista ontológica de Deleuze que “o virtual, o intensivo e o atual são aspectos de um único mesmo processo, ou diferentes momentos de uma cascata de progressiva diferenciação”.


Vamos citar e conceituar os 7 itens colocando os outros conceitos que se sobrepõem ao longo da obra de Deleuze, segundo Delanda, ou seja, Deleuze utilizou conceitos semelhantes ao longo de sua obra, mas de acordo com cada problema, ele modificava um pouco o conceito, mudando inclusive seu nome. Os termos que vamos eleger para usarmos neste trabalho estarão em negrito, os outros estarão em itálico e, em seqüência, vamos conceituá-los. Precisamos lembrar que os 7 itens fazem parte de um processo de diferenciação em que o virtual é todo o tempo existente e o atual é esse tempo contraído para a ação no sensório motor, como já vimos em Bergson. O intensivo, resumiremos aqui como diferenças que dirigem o fluxo de matéria-energia, sendo que Delanda (1997) nomeia como um só termo: matéria-energia-informação.


Lista Ontológica de Deleuze[1]:


Virtual: (Aion, o subjetivo)


1) Plano de Imanência- (o conjunto de todos os) Corpos sem Órgãos, continuum, plano de consistência: como a “substância” de Spinoza, a diferença pura, a velocidade infinita, onde tudo é totalmente livre. O plano coexiste com o caos e não pode ser pensado sem ele. Deleuze e Guattari (2002) pensam o tempo da filosofia como coexistência de vários planos, sem eliminar o antes e o depois, “o” plano que unifica todos seria o espinozista (substância). O plano é pré-filosófico, lembrando que desde Hume os conceitos (próximo item), que emergem do plano, são coisas. No Taoísmo, seria o “tao”.


2) Multiplicidades- séries disparatadas, conceitos, objetos parciais, eventos ideais, singularidades nomádicas, atributos noemáticos e essências vagas: entendida como substantivo, não como atributo ou adjetivo. Diferença de diferença produzindo divergência e descentramento.


3) Máquinas abstratas- linha de fuga, precursor sombrio, objeto = x, desterritorialização absoluta, nonsense, quase-causa, aleatório, personas conceituais e ponto paradoxal: é o que assegura a comunicação das séries divergentes; é uma criação entre o rígido e o excessivamente livre. Segundo Guattari (1988): “Nem a idéia platônica transcendente, nem a forma aristotélica adjacente a uma matéria amorfa, estas interações desterritorializadas, abstratas ou, mais resumidamente, estas máquinas abstratas, atravessam diversos níveis de realidade, fazem e desfazem estratificações. Não se agarra a um tempo único universal, mas a um plano de consistência, trans-espacial e trans-temporal, que afeta um coeficiente relativo de existência.”


Intensivo:


4) Ressonância- movimentos forçados e ligação mutuamente estimulada. Para Delanda é também o que alguns cientistas chamam de campo morfogenético[2]: um catalizador, o momento da convergência. Gilbert Simondon, autor presente ao longo da obra de Deleuze, é fundamental para compreender o conceito de ressonância: “o que Simondon elabora é toda uma ontologia, segundo a qual o Ser nunca é Uno: pré-individual, ele é mais que metaestável, superposto, simultâneo de si-mesmo; individuado, ele é ainda múltiplo porque ‘polifasado’, ‘fase do devir que conduzirá a novas operações’ (DELEUZE-2006b).


5) Mônadas- auto-organização, dinamismo espaço-temporal, sujeito larval, eu passivo, afectos e pré-atualização: estamos considerando obviamente a conceituação deleuziana de mônadas, desenvolvidas a partir de Leibniz – a mônada como espelho vivo e perpétuo do universo – e Gabriel Tarde. Não podemos perder de vista que este conceito é sobreposto ao de auto-organização, como veremos, para além do vivente, consideramos auto-organizáveis inclusive os seres não-orgânicos.


Atual: (Cronus, o objetivo)


6) Molecular e molar- extensões e qualidades, substância e forma, epistratos e paraestratos e célula e espécie: na passagem para o atual, em Deleuze, existe uma dupla articulação que é simultaneamente da ordem da qualidade e da extensão – produz-se, por exemplo, a singularidade de um dado organismo, mas dentro de sua espécie.


7) Centro de Envolvimento- acréscimo de complexidade dos seres vivos: o desdobramento físico-químico, orgânico e cultural sem envolver um evolucionismo teleológico.


Se compararmos os 7 princípios do hermetismo e compararmos com os 7 itens da lista ontológica de Deleuze, veremos que existem entre elas uma profunda ressonância. O termo mônada é hermético e se transforma em conceito deleuziano intensivo, ou seja, passagem entre virtual e atual, o que quer dizer: passagem de níveis de densidade energéticas. O princípio do mentalismo, por exemplo, presente tanto na relação deus-mundo nos estóicos e na conceituação de Plotino que diz que o universo é contemplação, se mostra na substância de Spinoza a sua versão mais imanente: a substância é mente, é deus, é tudo o que existe e se produz. Deleuze vai apenas retirar o absoluto, o eterno para colocar a sua ontologia em um devir selvagem: tudo muda e a mudança muda: não existe nenhuma referencialidade definitiva. Se olharmos a substância de Spinoza pelo olhar deleuziano, Deus é devir!


Como fica esses conceitos herméticos e da diferença quando se relacionam com a ciência? É preciso lembrar que o hermetismo pensava em temas que são hoje objeto da ciência: o cosmos, a matéria, o movimento. Os 7 princípios do hermetismo e os 7 itens da lista ontológica de Deleuze vão encontrar uma profunda ressonância nos seguintes 7 conceitos científicos. A relação entre o princípio hermético da correspondência e os fractais já éfeito por estudiosos contemporâneos do hermetismo (CLANTON - 1997). (Para uma explicação detalhada da física quântica e da consciência quântica ver o texto “Diferenças emaranhadas” neste blog e para a relação conceitual de mônadas, fractais e colapso de onda ver “Fractais quânticos monádicos”.


Energia em velocidade infinita- energia sem forma e sem direção que compõe tudo o que existe. Na energia na concepção de Einstein a energia é matéria densa (ou no hermetismo o mundo físico é mente densa) e, para Delanda, tudo é energia-matéria-informação. A física quântica elimina a hipótese einsteniana que não existe nada mais rápido que a velocidade da luz (GREENE-2005).


Supercordas- a energia começa a vibrar, iniciando um processo de transformação que perpetuará. Na teoria das Supercordas, o universo é uma grande orquestra sem maestro cujas vibrações das ínfimas partes (as supercordas) geram todas as partículas que existem: prótons, nêutrons etc.


Atratores estranhos- forças-energia que envolvem um processo de formação de várias diferentes vibrações. (ver “atrator estranho” no seção “vídeos” da barra lateral deste blog) O termo “atrator estranho” foi cunhado na década de 70 por Ruelle e Takens a partir de observação de redemoinhos de fluidos dentro de redemoinhos, indefinadamente, até chegar na viscosidade do fluido não se identificando mais redemoinhos (GLEICK - 1989). Os autores conseguiram transformar os números em imagens através da sua representação em gráficos de espaço de fase, fornecendo uma visualização para a turbulência: “Os pontos vagueiam tão aleatoriamente, a configuração surge tão etereamente, que é difícil lembrar que a forma é um atrator. Não é apenas uma trajetória qualquer de um sistema dinâmico. É a trajetória para a qual convergem todas as outras trajetórias. É por isso que a escolha das condições iniciais não tem importância”. Uma boa imagem da formação de um atrator estranho seria a nuvem de pássaros – cada um em sua própria trajetória porém o todo é coeso e cada vôo individual otimiza o vôo coletivo – e a espuma se formando na superfície da xícara com café. (Ver texto “A Geologia da moral – uma interpretação neo-materialista” de Manuel Delanda. Nesse texto, Delanda faz a relação entre o conceito de Deleuze e Guattari de máquina abstrata com o atrator estranho da teoria do Caos). (Veja video de "atrator estranho" na seção "vídeos" na barra lateral).


Emaranhamento- a conexão de todo o cosmo evidenciado no item 1, agora conecta atratores de toda a espécie que se co-influenciam. Na física quântica, duas partículas que já entraram em contato alguma vez, podem gerar um estado de emaranhamento em que o que acontece com uma acontece também na outra simultaneamente, porém esse estado é muito delicado. O emaranhamento desmorona o limite da velocidade da luz na teoria da Relatividade.


Quantom- quase-objetos com formas paradoxais que têm características complementares de onda e partícula. “Quantom” é um conceito do físico e filósofo da ciência Mario Bunge (2000) que une os conceitos de onda vários estados quânticos de uma partícula) e partícula colapsada pelos efeitos quânticos em apenas uma “entidade física”. O quantom (ou colapso de onda) Pode-se relacionar-se também com o conceito de fractal na teoria do Caos. (ver “fractais” na barra lateral deste blog na seção “vídeos”).


Partículas- Etapa do processo de auto-organização: moléculas, corpos biológicos, celestiais, linguísticos etc.


Quintessência- as partículas (todos os corpos do item 6), continuam seu processo de devir. A “quintessência” é a instância aceleradora da expansão do universo. Faz parte da matéria escura, conceito misterioso da cosmologia que corresponde a maior parte do universo.


Se relacionarmos os 7 conceitos, na mesma ordem, no hermetismo, na filosofia da diferença e na ciência, veremos que nesses quase 4.000 anos de conhecimento, existe uma profunda relação que, no hermetismo é muito amplo, na ciência, muito específico e na Filosofia da Diferença permite-se fazer o trânsito entre tais saberes. A Filosofia da Diferença é a grande interface entre a sabedoria oculta antiga e a ciência e permite criar um saber mais amplo gerando um diálogo único na história do conhecimento. Já vimos sobre as influências alquímicas de Newton, mas as relações de grandes nomes da ciência com saberdorias antigas vai muito além. Podemos acrescentar também que o famoso físico Niels Bohr, um dos fundadores da física quântica, se entusiasmou com o Taoísmo (AUDOUZE, CASSÉ, CARRIÈRE - 1991), o outro grande fundador Schrödinger (1992) afirmava ser partidário da mente única dos Upanixades, filosofia antiga da Índia e o físico David Bohm, autor da teoria da onda-piloto na física quântica, paticipou de um debate público com Krishnamurti, o filósofo e místico indiano. Assista o vídeo


Na teoria das Supercordas, se concebe hipoteticamente que o universo passou por vários Big Bangs, e cada um deles gera leis da física diferentes, ou seja: um multiverso com universos paralelos diferentes. O físico Roger Penrose e o médico Stuart Hameroff (1996) têm um modelo de consciência quântica que postula um funcionamento quântico no cérebro. O que daria a noção de “consciência de eu” ou “auto-consciência” seria o emaranhamento quântico em várias áreas no cérebro. Descobertas recentes mostram que a fotossíntese, como nas bactérias verdes, envolvem emaranhamento quântico (MOYER - 2009): essa evidência corrobora a hipótese de Penrose e Hameroff.


Suponhamos que o emaranhamento possa acontecer em dois ou mais cérebros. Isso explicaria a sincronicidade de Jung (1991), a telepatia, a intuição etc. Mas, e se houvesse emaranhamento entre cérebros em universos paralelos? E se o meu sonho neste universo for a realidade minha no universo paralelo? O sonho seria o canal de passagem no mutiverso, ganhando um definitivo status de realidade: ontologia onírica! A resposta definitiva para a questão de Chuang-tse (CHENG-2008): ele era sábio em um universo e borboleta no outro...


Nelson Job sonha que está dando uma palestra sobre “ontologia onírca” em um universo paralelo. Lá, a grande questão é a relação do sonho com a literatura.


E quem relacionaria todas essas questões: hermetismo; Taoísmo, filosofia de Plotino, Spinoza, Leibniz, Bergson; teoria da Relatividade, física quântica; universos paralelos; estados múltiplos de consciência... e arte? Creio ter apenas uma resposta: o escritor de ficção científica norte-americano Philip K. Dick.


Philip Kindred Dick (1928-1982) teve uma vida conturbada (AMARAL – 2006), casando-se várias vezes, usando drogas pesadas, alucinógenas, resultando em surtos esquizofrênicos. Estudou da Universidade de Berkeley onde preferia os estudos sobre Pitágoras, Parmênides, Heráclito, os gnósticos, Hume, Spinoza, Leibniz, Bergson entre outros. Philip Dick se considerava um “filósofo ficcional”. Podemos dizer que sua obra é uma versão beat da ficção científica, que até então – década de 50 - era bem comportada, cujos nomes mais famosos eram justamente Arthur Clarke e Isaac Asimov. Philip Dick é um dos maiores nomes da “Nova Onda” da ficção científica, onde já se mostrava influências da contra-cultura dos anos 60. Em seus contos e romances, Dick tinha como temas a realidade e seus simulacros, as relações natureza-cultura, principalmente explicitada na questão homem-máquina. Dick também possuía um recorrente questionamento sobre deus, como veremos no comentário ao seu livro “VALIS”. Seus personagens, em geral, eram homens de classe média baixa, deprimidos, muitas vezes usuários de drogas e seus cenários, apesar de serem futuristas, geralmente retratavam um futuro sombrio e sem excessivos fetiches com naves, alienígenas, lasers etc. Pode-se considerar Philip Dick como o maior precursor da cultura cyberpunk, cujos maiores expoentes são o livro “Neuromancer” de William Gibson, na literatura de ficção científica, que por sua vez inspirou o maior expoente cyberpunk no cinema: o filme “Matrix”. Na música, temos vários grupos que combinam música eletrônica, rock e roupas de couro no cenário musical, que tendem ao underground. Philip Dick é mais conhecido do grande público pelas adaptações cinematográficas de suas obras: “Blade Runner”, “Vingador do futuro”, “Minority Report”, “O Homem Duplo” etc.


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"Blade Runner" Ridley Scott


No conto “A Formiga Elétrica” (DICK – 2002) (ver neste blog, na barra lateral, na seção vídeos: "a formiga elétrica"), que podemos comparar com “A Metamorfose” de Kafka, Garson Poole acorda em um hospital depois de sofrer um acidente e lá é revelado a ele que é uma formiga elétrica, um andróide que é programado para achar que é um ser humano. A partir daí, Poole faz uma série de experimentos com sua “fita de memória” – análoga ao cérebro humano – onde ele volta no tempo, muda cenários e “se desliga” para ser novamente ligado até “morrer”. No ato de sua morte ele pergunta para a sua secretária se ela vai deixar de existir, pois o mundo dele poderia ser falso, quando ele realmente começa a desaparecer e só “os ventos continuam soprando”.


Num dos maiores contos da ficção científica, Philip Dick nos traz uma abordagem perspectivista onde o humano para o andróide é memória e o andróide para o próprio andróide seria humano, pelo menos até a imposição humana de sua “nova” condição. A partir daí, o antigo humano, para os humanos se torna andróide. No mundo que o andróide exprime, em sua morte, todo um mundo morre. Será sua secretária apenas uma memória implantada? E, caso ela fosse apenas uma memória, ela seria real, ou seja, a memória “falsa” teria um estatuto de realidade? E ele próprio, seus sentimentos, suas vivência íntimas?


No livro “VALIS”, Philip Dick (2007) nos apresenta Horselover Fat, cuja revelação divina o leva lentamente à loucura. O nome é um brincadeira com a etimologia de Philip Dick, jogo assumido ao final do livro: “Philip” em grego e “Horselover” em inglês como “amante de cavalos” e “Dick” em alemão e “Fat” em inglês significando “gordo”. O próprio autor é narrador e personagem do romance, onde se revela que o personagem Fat é apenas um delírio dele, uma “personalidade falsa”. VALIS é conceituado logo no início do livro como: “uma perturbação no campo da realidade no qual um vórtice negentrópico automonitorador espontâneo é formado, tendendo progressivamente a subsumir e incorporar seu ambiente em combinações de informações.” Numa obra que combina, como vimos, teoria da informação e teologia, além de Jung, Spinoza, Heráclito, T. S. Eliot, Crick e Watson (relacionando-os com hermetismo), animismo e números de Fibonacci, Dick nos leva a uma jornada onde não sabemos o limiar de ficção e realidade, loucura e sanidade, ciência e religião. Sabendo que o autor realmente relata que teve uma visão divina em 1974 e a relatava em um manuscrito até hoje mantido parcialmente inédito chamado “Exegese” (1995) (ver os quadrinhos : “A experiência religiosa de Philip K. Dick” de Robert Crumb) – tal qual o personagem Horselover Fat. Philip Dick introduz o leitor em seu universo, fazendo-o partilhar de suas angústias em relação a deus, realidade, morte etc.


Se Kafka, no início do século XX confunde a antes confortável separação leitor-obra, colocando personagens com suas inicias como K. ou Joseph K. e trazendo um questionamento dos limites da realidade, da verdade etc e Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges elevam essa idéia a um conceito literário constantemente aplicável, brincando todo o tempo com “a passividade do leitor”, em Dick, a relação ficção-realidade é questionada de várias formas e o que é estilo literário para uns autores, para ele é um desespero, uma inevitabilidade. Em “VALIS”, personagem e escritor são o mesmo e, a partir de relatos biográficos e auto-biográficos sabemos que a “alucinação” sobre VALIS e a escrita de “Exegese”, a internação, a problemática com a realidade são pertencentes ao livro enquanto ficção e à vida de Dick enquanto realidade. Mais ainda: utilizando os pensamentos, oriundos sejam da ciência, filosofia, ocultismo ou religião, ele nos põe a pensar sobre a problemática da realidade com consistência filosófica. Se no magistral artigo “How to Build a Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later”, Philip Dick relaciona a disparidade entre Heráclito (tudo muda) e Parmênides (tudo permanece) para afirmar que a realidade não existe, podemos dizer que a realidade é múltipla, diminuindo um pouco a paranóia proposta por ele. Para Dick , “realidade é tudo que continua quando você deixa de acreditar nela”.


Em um conto claramente inspirado no gnosticismo, “A fé dos nossos pais”, Philip Dick (2002) nos mostra um empregado do governo que recebe uma dose de medicação anti-alucinação e começa a ver que o líder nacional é um monstro sem forma definida. Descobre depois, junto a um grupo subversivo, que outras pessoas que tomam o medicamento vêem o líder de outras formas e a água do país está contaminada de alucinógenos para todos verem apenas o líder, ou seja: para Philip Dick a verdadeira realidade é múltipla, o controle da realidade é para transformá-la em única e a partir daí, manipular as pessoas. O autor considera esse conto, segundo sua “Exegese”, o melhor exemplo em sua obra da solução dos problemas da realidade, ao lado de seu romance “A penúltima verdade” (DICK - 1964) que descreve uma população toda vivendo no subsolo da Terra convivendo com imagens falsas feitas pelo governo, onde se vê uma Terra devastada. Porém a terra está intacta e desfrutada por uma elite. Ele afirma, baseado no filósofo empirista David Hume e em Henri Bergson, que o tempo é múltiplo, coexistente e que as relações de causa e efeito são falsas, o problema e a solução acontecem simultaneamente, então, para alcançar a solução seria toda uma questão de refazer o problema, recriar a realidade. Em “Ubik”, Dick (2009) dá uma definição de um produto comercializável presente em todo aquele (micro)cosmos - um mundo onde as pessoas vivem em animação suspensa, mas em uma realidade própria em que convivem umas com as outras e os vivos “do lado de fora” são vivenciados como deuses ou fantasmas – da seguinte forma: “Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou a verbo e meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu sempre serei”.


A questão das drogas é uma outra grande temática na obra de Dick. Em sua obra-prima “Vazio Infinito”, Philip Dick (1974) nos apresenta Jason Taverner que acorda em um mundo onde ele não existe. Sua namorada, amigos etc não o reconhecem e não existe nenhum registro de sua existência. (Atenção: spoiler!) O enigma se resolve com a explicação da droga KR-3 que altera a percepção cerebral do espaço... ontologicamente. Segundo Dick, “Vazio Infinito” relata uma cena que aconteceria com ele depois, evidenciando mais uma vez a sua experiência VALIS e a coexistência dos tempos.


Em outro romance de Dick (1985), “O homem do castelo alto”, conhecemos uma realidade alternativa onde os alemães ganharam a Segunda Guerra e os EUA estavam habitados por vários japoneses, que eram a elite econômica. Tem-se notícia de um livro pirata, confiscado, cujo autor joga o I Ching para tomar as decisões sobre cada personagem que diz de uma realidade alternativa onde os aliados venceram. Obviamente, Philip Dick (1995) nos relata que o seu livro foi escrito com o auxílio do I Ching e nos sugere jogá-lo para perguntar sobre fatos e coisas que supostamente não existem... Assim como Chuang-tse, Dick estabelece uma relação intrínseca entre universos paralelos!


Penrose e Hameroff, em seu modelo de consciência quântica, afirmam que o sonho possuem pouco colapso de onda (ou, na reconstrução dos autores da física unificada: redução objetiva) em relação à vigília normal, e a meditação budista e as drogas psicotrópicas aumentam em muito os fluxos de colapsos de onda quânticos. Em outras palavras: considerando o colapso de onda como ontológico, já que é um fenômeno físico, o sonho, os processos mentais na meditação e os efeitos de drogas ganham estatuto de (mais) realidade! Diante de tudo isso, o sonho parece ter 3 características: a de ser uma coexistência no tempo – tanto envolvendo o passado e o futuro – uma referência a algum universo paralelo e com algum significado afetivo, talvez o que alimente o emaranhamento, e o que legitima alguma (suave!!!) interpretação. Mas a abordagem do sonho, clínica ou pessoal, diante dessas idéias, devem levar em conta uma ressonância com algo real, mesmo que este “real” tenha uma gradação ínfima.


Nelson Job sonha que está deixando de existir naquele universo, mas em tempo de continuar esta proposta continuamente em outro blog, "Druam", e de dedicar esta jornada a Philip K. Dick, Guimarães Rosa, Arnaldo Baptista, Syd Barret, Spinoza, Nietzsche, Siddarta Gautama, Glauber Rocha e a todos aqueles que vislumbraram coisas grandes demais e fizeram um esforço inigualável para nos relatar algo desta experiência.



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"Sandman" Dave Mckean


Bibliografia

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________________, Os 65 sonhos. in: Mais! Folha de São Paulo de 16 de fevereiro de 2003.

JUNG, C. G., 1961, Memórias, sonhos, reflexões. 1 ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira.

___________ 1991, Obras completas vol. VIII – A Dinâmica do Inconsciente. 2 ed. Petrópolis, Vozes.

MOYER, Michael, "Poder verde" in: Scientific American Brasil 89, Outubro de 2009.

PENROSE, Roger e HAMEROFF, Stuart,1996, Orchestrated reduction of quantum coherence in brain microtubules: a model of consciouness. 1 ed. in: Hameroff, Kaszniak e Scott (org.) Toward a science of consciousness – the first Tucson discussions and Debates. Massachusetts Bradford Book – The MIT Press.

SCHRODINGER, Erwin, 1977, O que é Vida? 1 ed. São Paulo, Editora Unesp.

SHELDRAKE, Rupert, 1991, O renascimento da natureza. 1 ed. São Paulo, Cultrix.

WESTCOTT, William Wynn (org), 2003, Coletânea Hermética. 1 ed. São Paulo, Madras.



[1] - Segundo Delanda (2004), os itens 4 e 7 estão em sobreposição: 4 – algo de virtual no intensivo e 7- algo de intensivo no atual.

[2] - O conceito de campo morfogenético foi trabalhado, entre outros, pelo biólogo e filósofo Rupert Sheldrake (1997), que afirma que, por uma causação formativa, os seres vivos vão se complexificando e esta complexidade permite que a mesma seja alcançada pelos seres vivos em qualquer lugar uma vez acontecida, em função deste campo. Apesar de algumas evidências, o conceito de campo morfogenético é ainda considerado uma especulação científica. Mas não há garantia na ressonância, pois ela pode estabelecer uma rede que fomenta o nazismo, ou processos libertários, como maio de 68. As potências éticas aqui, são necessárias.

4 comentários:

Pedro Luiz disse...

Legal o seu texto, Nelson. Agora, os Sete Princípios Herméticos que você cita tem um desenvolvimento bem mais tardio; uma boa teoria do seu surgimento histórico está no link abaixo:
http://marygreer.wordpress.com/2009/10/08/source-of-the-kybalion-in-anna-kingsford%E2%80%99s-hermetic-system/

Nelson Job disse...

Obrigado, Pedro! Eu não explicitei a data dos princípios porque existem discrepâncias: esotéricos como Westcott e Regardie vão dizer que tudo já se dava no Egito,egiptólogos como Eric Iversen vão falar de passagens "culturais" do Egito pra Grécia e a Yates, com seu rigor histórico, coloca tudo mais pra depois. Em breve posto um texto mais detalhado em hermetismo.

José Eduardo Bertoncello (JEB) disse...

Excelente seu artigo sobre PKD. Sem bajulação, realmente excelente. Amplo, dá uma boa geral na obra do PKD. Gostei tanto que recomendei para algumas pessoas como introdução à obra dele, no twitter. Valeu!


Longos dias e belas noites.
Vida longa e próspera.
Tudo ficará bem.

JEB

Nelson Job disse...

Obrigado,JEB! Está em fase de (longa!...) gestação um artigo exclusivamente acerca da vida e obra do Philip K. Dick, enfatizando a contribuição dele pra literatura. Abrç.