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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PERSONA


Este texto pertence ao evento ENTRE devires cinematográficos

Ana Carolina Grether

http://www.mulholland-drive.net/screencaps/persona_two_faces.jpg


Difícil ressoar em alguma medida com o tom de Ingmar Bergman se não for de maneira visceral. Esse diretor já trazia consigo antes mesmo de sua experiência com o cinema, o desejo de ir além e de transitar no que até então não tinha sido possível. Filho de pastor luterano, sua criação fôra a mais autoritária possível. Os castigos severos e a exposição constrangedora como punição recorrentes devem ter servido de base para seu trabalho no cinema. Em sua autobiografia “Lanterna Mágica” Bergman já nos fornece pistas desse passado/presente que passou a ser constructo sólido para sua vida profissional. Sentimentos como vergonha, ódio, culpa, medo permeiam sua obra do início ao fim. Mas sem medo, Bergman entra de cabeça, explora, disseca e nos apresenta o que há de mais intenso na psiqué humana.


Seus cenários, diálogos e closes quase sempre angustiantes nos remetem a uma sensação de aflição, incômodo mas de compreensão humana.Saber que essas estranhezas, tristezas nos acompanham já é um caminho. E não por acaso ele cria na ficção imagens, falas, personagens e situações que refletem essa atmosfera angustiante mas humana Bergminiana por assim dizer.


Em “Persona”, produção de 1966 , Bergman marca uma fase em sua carreira, por atuar sempre ao lado das mesmas atrizes com quem ainda manteria uma parceria de longos anos. Liv Ullmann, protagonista central que veio a ser uma de suas mulheres surge pela 1a vez no cinema, nesse filme e daí por diante em mais nove longas de Bergman. No entanto sua estréia triunfal em Persona repercute da melhor forma possível. Sua experiência teatral provavelmente lhe rendeu bons frutos. E sua atuação marcou não só sua carreira como as obras de Bergman.


“Persona” poderia ser “confundido” com uma peça de teatro se não fosse a evidência do desejo de Bergman em falar do cinema e suas vicissitudes. De questões como: o filme como fala e o filme que nos fala. Uma fusão efetiva entre o que se objetiva e o que pode se tornar visível através do subjetivismo. Antes da narrativa, a narração, antes do filme, o cinema. “Persona” exprime esse desejo dele, mas juntamente com o foco na sétima arte, as atuações teatrais imperam e ganham força tornando o real ainda mais real, sensível,visceral.


As protagonistas vividas pelas atrizes Liv Ullmann e Bibi Anderson incorporam 2 mulheres que imageticamente e psiquicamente se fundem numa só pessoa, trazendo consigo o martírio infernal da consciência humana, a culpa, a eterna questão de quem somos nós, as máscaras, os desejos velados e revelados.


O prólogo inicial se constitui por imagens que traduzem o filme, a linguagem deste que também pode ser traduzido em meio a toda complexidade, pela famosa fotografia das duas mulheres que na verdade são duas metades de rostos femininos numa única foto.

Uma só imagem e uma só personagem. A atriz que emudece e a enfermeira que fala por ela. Essa montagem de luz e imagem produzem uma visão incômoda, de ordem afinal o rosto possui boca, nariz, olhos etc mas de desarmonia visual. Apesar de concreta ela ganha uma dimensão abstrata. E é dessa forma abstrata que “Persona” vai sendo digerido pelo telespectador, que por sua vez pode se identificar com as situações e angústias vividas pelos personagens mas não pode alcançar o entendimento pleno desse emaranhado de sentimentos e relações humanas quase sempre acausais.


A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Persona foi concebido por Bergman no período em que este se encontrava hospitalizado com pneumonia e se questionava também sobre seu papel de diretor no teatro.

Um comentário:

Anônimo disse...

Carol,

Seu empenho em traduzir a imagem e a fala Bergminiana foi de uma felcidade estupenda. Primeiro porque você abordou assuntos da vida do cineasta Bergman que nem todos tem conhecimento, segundo porque sua leitura desse homem e, portanto, desse ser humano, também fala de nós mesmos, de nossas angústias, de nosso enclausuramento que, entretanto, tem a possibilidade de se expor através das palavras e, no caso dele, se utilizando do recurso da imagem também.
Parabéns pelo belo texto e por me familiarizar com um Bergman que me era desconhecido.
Obrigada,bjs
ap