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sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre o filme “Amor à flor da pele” (In the mood for love): direção de Wong Kar Way

Este texto pertence ao evento ENTRE devires cinematográficos


Ricardo Kubrusly

riskuby@gmail.com


http://www.coffeecoffeeandmorecoffee.com/archives/in%20the%20mood%20for%20love.jpg


Diz-se poetas aos que não fazem sentido. Amor in the mood for Love, filme poema à flor da pele, se constrói em vários níveis de poesia. Quando o concreto se perde, poesia, quando o sério, distraído, sonha, poesia e quando perfeito, em cada detalhe do amor que esconde e mostra, enfim a obra transparece: perfeito como um poema. Àqueles que perderam rumo, poetas, os desesperados, poetas, poetas pelos corredores vermelhos, pelas chuvas e cabelos, poetas nos detalhes dos vestidos, da primeira à última cena, pelas cores pelas falas e pelos silêncios.

Do Tempo


Como falar do tempo se o tempo, silencioso, se nega a conversar comigo. Se quando grito que ele passa, ele fica e quando o imobilizo, escapa. Não pelos dedos, oh metáfora líquida, ou pelos pensamentos que sempre e nunca nada seguram. Escapa no corpo eletrizado, pelos pelos finíssimos no interminável da pessoa, que à-toamente ao corpo se recolhe.


Como falar do tempo, se o giro ensurdecido das palavras no acelerado movimento em que se encontram os corações apaixonados, não existe para além de um sentimento que se cala, não existe como voz que fala, não existe como dança, como sonharam os corpos em cada um dos pensamentos. Como falar do tempo, como não falar do tempo?


Como exigir que a matemática o descreva entre o confuso das ideias distraídas, como exigir das equações seus números infinitos? Qual geometria um beijo, um beijo sempre adiado, qual álgebra o sustenta? Como falar do tempo, enquanto a física se esquiva e a filosofia se repete? Como construir poemas senão sobre o que não existe?


Do Amor

É ali, na contraluz dos acontecimentos, na solidão pétrea de um eu para consigo que o amor se estabelece. Em cada passo solitário, nos degraus impossíveis entre o corpo e seus níveis, entre cabeças, entre o virar lentíssimo dos rostos, no abismo alongado dos pescoços.


É na escada que tudo acontece. E o que acontece é pouco, o que acontece é nada. Nada de verbo ou carne, nada que sue ou estremeça, nada que a palavra dite ou que o mistério ordene. Nada além de solidões desencontradas que as cores delicadas nos revelam.


É a ilusão do amor que nós sentimos ao ver, pelas frestas desencontradas dos apressados segundos, nos imóveis minutos os sentimentos que nunca se revelam. São gotas de destinos mínimos, emolduradas por lâmpadas perdidas, focos latinos por onde os sonhos se desaparecem.


Não existe, é claro, o que o amor procura em sua busca. Disso sabem os que amam. Mas por que insistem, por que caminham lada a lado como se houvesse, oh geometria, um infinito, enfim, de possibilidades. Por que ensaiar futuros que se distanciam? ... e repeti-los como se o tempo ali aprisionado não fosse apenas parte de seus próprios caprichos, como se uma saída existisse e pela repetição surgisse, como se o relógio imóvel não fosse além de uma fotografia?


Das Luzes e dos Sons


São cores as cores com as quais construímos nossos mundos, em cada conversa, nas esperas, nos cantos e delas, de suas delicadezas, dos riscos sutis dos seus cabelos, seus movimentos, seus ermos, suas sombras e seus novelos, de suas palavras silenciadas, aqui, não cantarei seus silêncios. Nesta tarde sem qualidades, não descreverei sons, ruídos, interferências, a música onde o amor se insinua, seus intervalos breves, os espelhos, as palmas das mãos que se tocam, aqui, nesta tarde sem qualidades, espiando a vida onde o amor acontece, não cantarei seus silêncios, não louvarei seus caprichos.


Dos ocos e dos segredos


Olhar o passado como se brumas, como se fogueiras, guardá-los distante e perto, como se brumas, como se fogueiras e não refazer caminhos. Criar no verbo a fórmula substantiva esse deixar-se em vozes mutiladas e ver na pedra e em pedra transformado o que era vento e em vida breve se deitava. As águas, os acontecimentos, enfim no esquecimento das palavras. O que não tem segredos ao amor não se destina, nos ocos nos remorsos nas poeiras, coberto pela lama dos desmaios, quando os segundos se apressam em apagar seus rastros e a pedra marca o último instante no imóvel tempo. O que não tem segredos ao amor não se destina.


Sobre a persistência do amor

... e foram condenados

pelo riso fácil que traziam ao cruzar as ruas molhadas pelas chuvas

pelos passos e pelas aventuras que jorravam de suas cabeças esvoaçantes

pela morte que traziam consigo

Ela que em sua permanência

deixara-os de lado enquanto a lua

rasgando folhas

acontecia

Guardiã das tensões que se esparramavam pelos cantos do mundo

dos portais que se abriam sugando velocidades prateadas

dos que corriam apressados em descaminhos

engolindo às pressas o pouco de vida que alcançavam

dos que em filas enormes permaneciam

atentos e

atentos e

atentos

...

Um comentário:

Regina Dantas disse...

Eis um poeta que dá vida ao silêncio e as cores da busca pelo amor.