CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

OS DESAJUSTADOS

_ Este texto faz parte do ciclo ENTRE devires cinematográficos

Franklin Chang


http://houseofmirthandmovies.files.wordpress.com/2008/09/arnoldeve_marylin.jpg


O filme Os Desajustados, dirigido por John Huston, em 1960, e estrelado por Marilyn Monroe e Clark Gable, foi considerado “maldito”, por ter sido o primeiro e o último feito pelos protagonistas juntos. Logo após as filmagens, Clark Gable faleceu de ataque cardíaco, e um ano após o lançamento do filme, Marilyn morreu aos 36 anos de idade.


Mas, além de maldito, ele passou com o tempo a ser considerado “cult”, sendo constantemente reprisado em cine clubes, bem como na televisão. Creio que isto se deve principalmente por causa do tema principal do filme, que fala da alienação do homem moderno e sua incapacidade de viver em harmonia com a Natureza, tema atual dos dias de hoje, e cada vez mais importante.


A história do filme é baseado num fato real, que Arthur Miller transformou num conto. Enquanto ele esperava pelo seu divórcio no estado de Nevada, passou alguns meses morando numa cabana alugada a beira do lago Pirâmide, que era parte de uma reserva indígena. Ali, conheceu três cowboys, que viviam de caçar cavalos selvagens, para vende-los a uma empresa que processava a carne deles, transformando-se em comida enlatada para cachorros e gatos. Eram pessoas desajustadas, e que viviam a margem da sociedade.


Na época em que decidiu escrever o roteiro, ele estava casado com Marilyn Monroe, já então a mais famosa estrela de Hollywood. Ela estava em crise, lutando contra o estúdio Fox, que só queria que ela trabalhasse em comédias sexy, mas ela resolveu criar sua própria produtora, e exigiu o direito de participar na escolha dos roteiros, diretores e dos papéis que iria representar. Ela tinha o sonho de ser reconhecida como atriz dramática, e para isto foi estudar na escola Actors Studio, fundada por Lee Strasberg. Este propunha aos atores um método de interpretação mais subjetivo, e calcado em emoções e experiências pessoais, sendo para isto necessário que os atores fizessem psicanálise e explorassem seu próprio inconsciente.


Arthur Miller submeteu o roteiro ao diretor John Huston, que aceitou dirigir o filme, em parte porque o roteiro de seu próximo filme, “Freud”, estava atrasado devido ao tipo de roteiro que Sartre estava escrevendo, muito prolixo segundo Huston. Este que já havia dirigido Marilyn no filme “O segredo das jóias”, um filme de 1950, e ela tinha ficado impressionada com o respeito e o modo como conseguia obter uma alta performance de toda a equipe de filmagem. Huston era uma figura mal vista em Hollywood, era considerado rebelde e comunista, apesar de ter ganho dois Oscar. Talvez por isto, ele tenha ido morar na Irlanda, onde criava cavalos e participava da caça à raposa.


Como produtor, Arthur Miller convidou Frank E. Taylor, que nunca tinha produzido um filme, porque sua fama era de intelectual, que só queria filmar contos e romances de grandes escritores, e por isto seus projetos eram invariavelmente recusados. Ele, possibilitou a Huston e Miller, uma liberdade de criação aliada a uma concepção estética e filosófica, raras vezes vista no cinema americano. Também convidou a a famosa agencia de fotógrafos, Magnum para fazer o trabalho de divulgação de fotos com o trabalho em progresso.


Miller, Huston e Taylor escolheram o resto do elenco ideal para eles. Além de Marilyn, que já tinha aceito participar, Clark Gable, aceitou após ouvir de Miller que o filme tratava de um “faroeste oriental”. Intrigado e curioso, ele aceitou, e após ver o copião final, disse ter sido sua melhor interpretação no cinema, isto após mais de trinta anos de trabalho, e quase setenta filmes rodados. Seu apelido entre os colegas era “The King”.


Montgomery Clift, também teve atuação destacada no filme. Ele que viria a ser o protagonista do próximo filme de Huston, dr, Freud, havia sofrido um sério acidente automobilístico, ao bater embriagado seu carro contra uma árvore. Teve então de fazer uma cirurgia plástica para recompor seu rosto, e estava tentando reconstruir sua carreira. Eli Wallach e Telma Ritter, dois coadjuvante que também tiveram atuações destacadas.


Uma série de “coincidências significativas” marcaram este filme, além de ser o ultimo feito por Marilyn Monroe e Clark Gable. Marilyn tinha-o como ídolo, e imaginava quando criança que ele era o seu pai verdadeiro. Então trabalhar com ele seria a realização de um sonho. Ele, na época estava feliz, porque em breve iria ser pai de novo. A cena final do filme parece premonitória, quando ambos decidem ficar juntos e ter um filho, enquanto olhavam para uma estrela no céu que guiava seu caminho. No filme, a estrela indica uma nova vida para o casal, mas a estrela é também símbolo da imortalidade, a condição que ambos atingiram após morrerem, e serem transformados em mitos.


Para Arthur Miller, que tinha voltado ao local de separação de seu primeiro casamento, o filme que ele viu como um presente para Marilyn, acabou naufragando de vez com a frágil relação deles. Para ela, Miller estava expondo demais sua história pessoal, a ponto de mais tarde Frank Taylor dizer que o filme foi na verdade o “testamento espiritual” de Marilyn. Mas aconteceu algo de bom para Miller, porque durante as filmagens ele veio a conhecer sua terceira esposa, a fotógrafa Inge Morath que fazia parte da equipe da Magnum.


Mas, porque este filme virou Cult, e continua até hoje a ser revisto e comentado?


Para mim, é porque Marilyn teve um papel e uma interpretação, que ultrapassou a dimensão pessoal, como se adquirisse no filme também a dimensão mitológica de uma deusa da Natureza.


A trama que poderia parecer um conflito do mundo feminino contra o masculino, e algumas formas possíveis de relação entre homem e mulher, como pai e filha, companheiros, filho e mãe, acaba indo além, porque a protagonista Roslyn- Marilyn adquire uma dimensão mitológica, a do “eterno feminino”. Em duas cenas isto aparece claramente, primeiro quando ela dança a luz do luar em volta de uma árvore, uma verdadeira ode de amor e comunhão com a Natureza. Depois, quando ela luta para salvar os cavalos capturados pelos homens, inclusive um pequeno potro com sua mãe. Ela fica então possuída por uma força quase divina, e a acusa os homens de serem assassinos, mentirosos e cultuadores da morte.


No seu protesto, há uma defesa apaixonada dos cavalos, mas também da Natureza e da vida em geral. Neste momento, ela se transforma na “Anima Mundi”, uma dusa para os alquimistas, um ser divino feminino, que reside na Natureza e é a contraparte da divindade masculina cristã, que vive no céu.


C.G,Jung, nos diz ao longo de sua vasta obra, que esta cisão entre o masculino e o feminino, ou seja, entre o Espírito e a Matéria, é algo muito perigoso para a humanidade, pois ao sermos possuídos pela hubris (orgulho desmedido) em nossa capacidade de dominar a Natureza através da Ciência e da tecnologia, estamos como Fausto fazendo um pacto com Mefistófeles e o preço a ser cobrado é a entrega da alma humana e a morte.


Quando hoje, estamos todos ameaçados por uma crescente destruição da Natureza, em proporções globais, não sabemos o que fazer ou a quem recorrer. De certa forma, nos falta uma figura divina ligada à terra, a quem orar. Para os antigos alquimistas, era preciso reconhecer a existência da divindade na matéria. Porque , só com a ajuda desta dimensão, poderemos construir uma nova cultura , religião no sentido original da palavra re-ligare e sociedade globalizada, como o mundo em que vivemos atualmente.


Finalmente, gostaria de lembrar que as filmagens foram realizadas dentro de uma reserva indígena, um território sagrado, onde viviam os últimos mustangs, os cavalos selvagens que impulsionaram toda a conquista e o desenvolvimento econômico do Oeste americano, mas que acabaram virando comida enlatada. Talvez, eles sejam os verdadeiros heróis do filme, e que podem coexistir com os seres humanos, como os participantes do filme, se houver um reconhecimento afetivo, moral e até espiritual de que somos todos partes integrantes de um todo maior, Gaia, a mãe terra, e a Anima Mundi, um espírito vivo que habita dentro de cada ser vivo do planeta


Marilyn Monroe with Clark Gable in "The Misfits" (1961), ... sfc

.

Nenhum comentário: