CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Entre o Mesmo e a Redenção

Nelson Job


How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Bob Dylan



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"Botella del mar" Grete Stern

Ela chegou em casa. Olhou para os móveis, o corredor, os quadros. Fez um leve esforço para não perceber que os móveis estavam um pouco fora do lugar, o chão, mais limpo e mais arranhado. Pequenos detalhes evidenciam que tudo mudou na sua pequena ausência diária, mas a rotina pode realçar as semelhanças e então, ela se esforça para olhar o Mesmo. Beijou o marido como de costume, os lábios se tocam, mas não se molham, não se contagiam. A filha a abraça com um sorriso. O sorriso é retribuído - não se mostram os dentes. Dá um presentinho de camelô pra filha. Ela se entretem. A empregada diz várias coisas que estão prontas, várias coisas a fazer e, principalmente, várias coisas a se comprar pra casa. Ela diz apenas “tá bem, pode ir” sem registrar nada. Tira os sapatos, solta o cabelo, põe as velhas sandálias confortáveis. Volta-se para o marido:


- Chegou cedo, amor?


É estranho como se pronuncia “amor”. A palavra perdeu o sentido que se desenvolveu nos filmes, nos livros e nas digressões da adolescência. A palavra virou um adjetivo vazio designando uma prisão e sobretudo, uma moral.


Ele responde qualquer coisa, tanto pode ser “é, o chefe me dispensou porque tinha uma reunião com a outra empresa” ou “pedi pra sair mais cedo pra ir ao dentista”. Ela apenas sorri e emenda nas contas a pagar até a próxima semana. Há uma pequena discussão sobre os gastos dela e sobre o comodismo dele, as duas promessas de mudança não serão compridas. Automaticamente, ligam a televisão. Os comentários variam entre como “a novela é chata” e como “o noticiário só dá notícia ruim”.


No jantar, a atenção se volta para a filha, uma boa oportunidade de não se focar na solidão a dois da relação. Mas não há tanto carinho, apenas um sorriso e uma voz calculadamente suave pra suportar a culpa de deixá-la com a empregada.


No filme, ela vê o casal de protagonista fazendo amor. Seus olhos, pela primeira vez no dia, brilham. Olha pro marido, que, entre cochilos, finge acompanhar o filme. Os cochilos do marido permitem que ela se coloque no lugar dos protagonistas junto com seu colega de trabalho. Tem um pequeno êxtase, interrompido pelo brusco ronco do marido. O filme acaba e eles vão pra cama. Com a bolinação do marido, ela pensa em acabar com tudo, se declarar pro colega de trabalho. Aí pensa na filha, na mãe doente e no apartamento que deu tanto trabalho pra conseguir e cede. Mas como vingança, imagina-se a cada estocada, estando junto com o colega, o colega... o colega...


O orgasmo de ambos é rápido, dessincronizado e pouco intenso. A filha acorda e seu choro constante e cada vez mais próximo anuncia que ela chega próximo ao quarto. Ela imagina em convidar a filha pra ficar na cama com eles, recebendo o carinho pós-cópula do casal, formando um tríade pagã, amoral. Uma plena liberdade. O marido, sonolento, pergunta: “quem vai?” - o que a tira de seus delírios pagãos e simultaneamente a faz por a camisola e acolher a filha, se sentindo suja, pois acabara de cometer uma traição a família. De certa forma.


Manhã, o marido já foi embora. Na mesa, as migalhas do pão dele e a mancha que ele, mais uma vez, entornou do café. A empregada chega com 26 minutos atrasados, sem pedir desculpas, com uma leve culpa estampada no olhar esquivo. “Bom dia, dona”.


A filha come o seu Neston, ela toma seu café sem açúcar com leite semi-desnatado e granola. Põe a roupa da academia. Pensa que lá, vai conhecer alguém que valha a pena. Valha realmente a pena. Na despedida, a filha joga um beijo com a mão. Ela sente ternura e raiva. Se sente presa por aquele ato espontâneo, mais aliviada pela filha prendê-la. Todo o esforço, sutil e constante, de se perpetuar o Mesmo naquele lar, vai levar, cedo ou tarde, a uma tristeza que se resolve sozinha e, se demorar, com fluoxetina; uma dor de cabeça que a levaria a começar a ioga, mas sempre acaba com Neosaldina ou em mais uma briga com o marido, e eles vão ficar dias sem se falar, até que coisas práticas, do tipo consulta com o pediatra, o conserto do carro ou a festa na casa daquele casal chato, porém “amigo”, os “obriguem” a voltar a se falar. Porém, a cada momento, a cada linha que se rompe, uma nova rota se propõe. Nesse momento, mais uma vez, tudo pode ser transformado rumo a um lugar desconhecido, o que pode resultar em um imenso e impreciso espectro que vai tanto à uma revitalização da família como à sua dissolução e além. Ou tudo pode ser rebatido ao Mesmo. Sai de casa, ainda com esperança. A cada olhar, uma possível redenção.

Um comentário:

Anônimo disse...

Merci d'avoir un blog interessant