CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Um Clamor ao Popcinema

Acerca da obra cinematográfica de Charlie Kaufman e ressoantes

Nelson Job

Este artigo pertence ao evento ENTRE devires cinematográficos

Advertência à guisa de introdução (mas o contrário também vale):


Este texto foi constituído inspirado no método cut-up de Bourroughs, que por sua vez inspirou os platôs de Deleuze e Guattari que ressoa com a forma de montagem de “A Idade da Terra” de Glauber Rocha. Todos os seus trechos podem ser lidos em qualquer ordem.


“A Idade da Terra” e sua máquina: paradoxo brasileiro em transe



Em “A Idade da Terra” (1980), Glauber Rocha propõe uma evidência da máquina abstrata que compõe o Brasil. Imagens de rituais indígenas se conectam com imagens do carnaval, rituais ancestrais e contemporâneos, que evocam música ritmada com tambores. Dança, sensualidade, transe e a problemática da dominação branca: questões brasileiras que se sobrepõe no tempo – atualizações de um virtual que pedem transformação. O caráter atemporal do filme se radicaliza na quase-montagem: os cinemas poderiam, segundo Glauber, montar os 16 rolos de forma que quisessem. O filme vivo se monta de acordo com o tempo e o espaço. As práticas indígenas se mesclam com as cristãs: a voz de Glauber se ouve: “é possível uma dialética capitalismo-socialismo: estou convencido disso”. Ele afirmaria que este filme só seria compreendido 25 anos depois. Em nosso tempo agora, poderíamos entender “A Idade da Terra” ?


A máquina abstrata brasileira, como nos mostra Glauber, é constituída por um paradoxo, a lei deslegitima a lei: um enunciado coletivo de ordem moral e hipócrita proíbe e as práticas no microcosmo destituem a lei, porém este paradoxo é movido sem ética: como efetivar a emergência ética da língua menor? O Brasil não tem que seguir o rumo europeu-norte-americano, o Brasil tem que criar o seu próprio rumo: “o caminho se faz ao caminhar”. O agenciamento Glauber-Zé Celso-Canudos anuncia: o Brasil que refunde o cristianismo sem o catolicismo e somado às práticas indígenas.


Este máquina abstrata paradoxal da lei que destrói a lei se evidencia no recente fenômeno “Tropa de Elite” (2007): o filme, que faz uma certa apologia às forças policiais e o uso radical do poder para conter o tráfico e a corrupção na polícia é fundamentalmente divulgado pela pirataria do filme meses antes de ser lançado. O macro-discurso da lei é desconstruído pelas micro-práticas. Provavelmente, sem a disseminação viral da pirataria - o discurso moralista de “Tropa de Elite” é divulgado principalmente pelos que são mais criticados no filme – “Tropa” não teria alcançado tanto êxito comercial. O ícone da caveira do BOPE se sobrepõe virtualmente à caveira dos piratas. O paradoxo brasileiro continua e a profecia glauberiana nos inquieta.


Deleuze e seus não-intercessores


Porquê Deleuze não cita alguns autores que poderiam ser seus intercessores na sua investigação sobre o cinema? Vejamos o caso de Jodorowski: em “A Montanha Sagrada” (1973), o diretor, que também é ator e escritor do filme, conta uma viagem através dos planetas, de uma saída do “ego” para uma percepção mais ampla, critica a sociedade consumista-cristã e propõe relações mais intensas entre pessoas e mundo. Pois a questão é justamente esta: Jodorowski nos conta esta “viagem”, mas a realiza pouco através da imagem. Sim, a estética pode ser considerada inovadora, mas a narração ainda é “tradicional”, voz em off, os cortes, os planos etc. Deleuze quer mais do que isso. A “história” a ser contada, para o filósofo, é secundária, e o que é relevante são as relações das imagens cinematográficas. O cinema, dentro de uma perspectiva deleuziana é uma experiência em si, não um registro de uma experiência e esta característica vai se acentuar na imagem-tempo, cinema que tende ao virtual. Jodorowski ainda estaria em um cinema de uma imagem-movimento, baseado no sensório-motor, ainda que o registro seja de uma “viagem” ao virtual. “A Montanha Sagrada” tem, então, um registro semelhante a um pensamento deleuziano, mas não possui uma estética deleuziana.



Vejamos outro caso: O filme “Matrix” dos irmãos Wachowski. A matrix (matriz – uma espécie de Internet dominadora feita e controlada por máquinas oriundas de programas de Inteligência Artificial) do filme seria o “virtual”, pode-se dizer, mas o filme é, apesar de sua inovação estética, ainda centrado em um esquema sensório-motor, um filme de “duelos”. Um filme sobre o virtual, mas que não passa uma experiência imagética de virtual.



Em “Guerra nas Estrelas”, os jedis estão todo o tempo falando em nome da imanência: “a força está em todo lugar...”. Os jedis também não morrem, eles “se tornam parte integrante da força”, ficando até mais poderosos. Os jedis dominam o virtual, mas querem um virtual ético, diferentemente dos sith, seus grandes antagonistas. Darth Vader é o grande avatar das relações entre natureza e cultura: ciborgue que lida com magia sith e tecnologia espacial. Seu percurso jedi-sith-jedi evidencia uma etionandromia heraclitiana, “para além do bem e do mal”. Mas George Lucas faz uma montagem óbvia, clichê, uma direção sofrível, além de colocar os jedis como democratas...


Popcinema


Mas assim como Deleuze clama por uma popfilosofia, o que seria um popcinema da imagem-tempo? Seria a imagem-tempo produtora de um popcinema? O que mais se aproxima de um popcinema é justamente a crise da imagem-movimento, no exemplo que Deleuze nos dá dessa crise: Hitchcock. Porém, Hitchcock nos dá muito pouco sobre o virtual, o que nos permite sugerir que um popcinema nos “moldes” de uma popfilosofia ainda não existisse.


Assim como entendemos uma popfilosofia como uma filosofia de um povo porvir para um povo porvir, que não esteja presa às amarras acadêmicas, que possa ter um amplo alcance e que se agencie com outros saberes que não a filosofia; também nos perguntamos de um cinema que seja de um povo porvir, mas que possa ir além de um gueto “cult”. Um popcinema também se articularia com outras técnicas, outras expressões, além de promover uma experiência do virtual com um alcance minimamente “popular” que pode ser também um povo porvir.


Filmes com essas características começaram a surgir muito recentemente, em termos de história do cinema. Curiosamente existe um nome que está por trás de quase todos eles: Charlie Kaufman, roteirista.


Charlie Kaufman escrevia para seriados até estrear no cinema com “Quero ser John Malkovich” (1999) do diretor Spike Jonze, sendo indicado ao Oscar por melhor roteiro original e ganhando o BAFTA. Depois seguiram os roteiros de “Natureza Humana” (2001) de Michael Gondry, “Adaptação” (2002) novamente com Jonze etc. Um outro filme roteirizado por Kaufman é “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança” de Gondry. Ele é considerado um dos roteiristas mais originais da atualidade e agora, lança um filme como roteirista e diretor: “Synecdoche, New York”, onde o protagonista recria Nova Iorque no teatro e ele, como diretor, põe a sua vida em cena. Porém, os personagens-atores interferem na “vida real” fazendo uma relação de interferência de ficção e realidade.


Os filmes que Kaufman roteiriza são sobre a subjetividade e suas singularidades no contemporâneo. Entre suas principais referências estão Kafka, Beckett e Philip K. Dick. Estes três autores evidenciam a diversidade estranha da obra de Kaufman.


O filme “Quero ser John Malkovich” mostra um homem manipulador de marionetes que acha um buraco em um prédio no qual quem entrasse veria o mundo pela perspectiva do ator John Malkovich, que se interpreta no filme. Em uma das cenas mais cômicas e originais do cinema, o próprio Malkovich entra no citado buraco, e a cena que surge é um restaurante onde todas as pessoas, homens e mulheres de várias idades, têm o rosto do ator e só pronunciam o nome “Malkovich” de várias formas diferentes.



“Quero ser John Malkovich” é um filme que vai além de um perspectivismo, é o perspectivismo do perspectivismo, no qual mostra o “entre” dois pontos de vistas diferentes supostamente de um mesmo “sujeito”. O outrem aqui nunca foi tão familiar e estranho ao mesmo tempo. Se o ponto de vista é onde o sujeito (ou melhor, superjecto em Whitehead) se instala, gerando um mundo, que mundo é gerado quando o ponto de vista “se equivale” ao sujeito? Kaufman nos coloca em um limiar do pensamento, a chave para se descobrir para onde ruma o devir do cinema, a novidade da imagem hoje em dia.


Como ficaria o conceito de imagem-cristal à luz dessa cena de “... Malkovich”? Poderíamos aqui evidenciar a fractalidade* da imagem-cristal: em cada plano existe uma malkovichedade que se diferencia em cada seqüência compondo um Malkovich total ao mesmo tempo em mudança. Se a imagem cristal mistura atual e virtual, em “... Malkovich” temos uma pessoa entrando “atualmente” em sua própria memória virtual, sendo evidenciada na imagem cinematográfica.


Em “Adaptação”, Kaufman se torna personagem do próprio roteiro, que é sobre a sua dificuldade de adaptar um livro para o cinema. O recurso que brinca com a suposta “separação” entre natureza e cultura**, acaba por revelar ao espectador que a arte influencia a vida que influencia a arte como em uma faixa de Moebius: dobras entre natureza e cultura, vida e arte, sujeito e objeto, interior e exterior, vivente e inerte etc.



Em “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”, o roteiro de Kaufman é sobre uma máquina que supostamente retira todas as memórias escolhidas por um cliente. O protagonista masculino retira as memórias de sua ex-namorada e vice-versa e o filme é a travessia para que essa memória não seja totalmente “deletada”. Os personagens correm por cenários que desaparecem, ou cenários de memórias diferentes que se fundem, onde atual e virtual se confundem de uma forma inusitada.



A esperança da neurociência consiste em afirmar que o cérebro é a chave da memória, que abriga toda ela e que o seu estudo vai revelar todas as problemáticas da mente/consciência. Se a neurociência operasse em uma via bergsoniana, a questão seria outra, pois, para Bergson, o cérebro é apenas uma imagem que seleta outras imagens, como uma central de telefone. A memória sendo egressa do tempo “guardado” em si impediria qualquer “deletagem” absoluta, pois esta, no filme, a intervenção se daria apenas no cérebro, o que significa apenas danificar o processo de edição. A desterritorialização de uma suposta memória puramente cerebral resulta em uma reterritoralização da memória egressa do virtual.


Para citar um filme que não seja roteirizado por Kaufman, mas dirigido pelo mesmo francês oriundo de vídeo-clipes do pop europeu, Michael Gondry, “ La Science dês Rêves é um filme com várias características kaufnianas e também um ótimo exemplar de um certo popcinema.



Neste filme, roteirizado pelo próprio, mistura também elementos “identificáveis” da “realidade” pois é autobiográfico e o quarto de adolescência do protagonista foi filmado no que ainda é o quarto de Gondry. Usando técnicas mistas – o diretor utiliza técnicas de animação russa (papel celofone, papel higiênico etc) para as cenas de “delírio” - o filme mostra como deveria ser um popcinema: misturas de técnicas vindas de outras áreas vizinhas ao cinema, no caso, a animação. O “delírio” próprio da animação ilustra o delírio do protagonista, onde a técnica tradicional do cinema mostra o suposto “mundo real”.


Em “La Science dês Rêves”, o protagonista não sabe separar sonho de realidade, criando um mundo de fantasia onde constantemente surgem elementos da realidade e vice-versa. A indistinção entre natureza e cultura, atual e virtual e todos os seus desdobramentos também estão presentes aqui.

Em "Rebobine, por favor", Gondry promove uma grande homenagem ao cinema, fazendo hilários balconistas de locadora refilmarem com baixíssimo orçamento grandes sucessos de Hollywood,

e, recentemente, com a sua contribuição "Interior design" para o filme "Tokyo!", o diretor mostra a falta de sentido na metrópole japonesa fazendo que uma jovem se torne aos poucos uma... cadeira!


http://3.bp.blogspot.com/_M-L97p6XJ7A/Si3DXCqfEYI/AAAAAAAAATg/7utsdRMT6bQ/s1600/tokyo.jpg


Gondry nos obriga a pensar o estatuto do delírio. Deleuze, em sua obra com o clínico Félix Guattari já nos mostrou como a chamada “loucura” é apenas a ditadura da convenção dos socius compondo o que seria uma “normalidade”. O delírio seria uma realidade que não seria compartilhada pela maioria, mas a clínica deveria se preocupar em produzir um entre-mundos, o clínico como diplomata ou xamã (como vemos na obra do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro) de mundos, não eliminador de mundos em prol de apenas um, como os cenários que desaparecem em “Brilho Eterno...”. Um cinema como chamamos aqui de popcinema é a evidência desse entre-mundos, que pode ser chamado também de outrem (Tournier e Deleuze), quarta pessoa do singular, terceiro incluído (lógica) ou terceira margem do rio (Guimarães Rosa). O diretor é o clínico-diplomata-xamã do público, promovendo uma relação entre-mundos.


O cinema pomba-gira de Almodóvar


A psiquiatria, nessa relação clínica-cinema, seria o território do clichê: a química como reprodutora de um mesmo mundo, não permitindo o desdobramento de outros mundos. Não estamos aqui clamando por um ingênuo fim da psiquiatria, mas sugerindo um uso mais ético, onde novas relações entre imagens são permitidas. Mas não apenas a psiquiatria, a psicanálise, que evoca o clichê eu - além do euisso, e/ou Édipo, para recolocar todas as imagens sempre em mesma montagem, assim como o clichê dos imperativos categóricos de Kant sempre dividindo a coisa-em-si na mesma montagem. Se, no ponto de vista de uma antropologia do devir, a psicanálise seria apenas um ritual ocidental ineficaz para conter a pomba-gira - assim chamada “histérica” - evidencia-se, então, um fracasso duplo: as pombas-giras permaneceram e dominaram a psicanálise, falando em seu nome, resultando em um processo histórico de vingança. Eis que o cinema propõe uma clínica ético-estética: o devir pomba-gira do cinema, onde a pomba-gira relaciona-se com o mundo sacudindo-o e fazendo-o sair da rigidez moral: o cinema de Pedro Almodóvar.


Em “Tudo sobre minha mãe”, Almodóvar nos presenteia um filme sobre o devir-mulher, onde todos os personagens são mulheres, inclusive os homens, que são travestis. O personagem Agrado, em um discurso no teatro acompanhado com risadas e palmas pelo público, mostra todas as operações plásticas que fez em seu corpo afirmando que “felicidade é quando se chega mais perto da ilusão”. O transexual como imagem das relações entre natureza e cultura e outras antinomias: agenciamentos silicone-carne, feminino-masculino, devassidão-dignidade etc. Se o freudista é o padre da clínica, Agrado é o Spinoza de Almodóvar.


“Tudo sobre minha mãe” é o título do filme, mas também é o nome que o segundo Esteban dá às suas anotações sobre sua mãe. A peça “Um Bonde Chamado Desejo” foi realizada pelo primeiro Esteban, em outra versão assistida pelo segundo e sua relação monádica/fractal com o filme desdobra no nascimento do terceiro: imagens-cristal.


* - Os fractais foram “descobertos” pelo economista da IBM Benoit Mandelbrot e diz de pequenas partes que compõe um padrão com o todo. Os fractais apareceram em ruídos de comunicação entre computadores, mais podem ser observados nas relações parte-todo da samambaia, nas encostas de praias e até nas pinturas de Pollock, que são anteriores ao advento dos fractais. Deleuze relaciona os fractais com as mônadas de Leibniz.

** -A relação intensa entre natureza e cultura é exposta de forma quase didática no filme “A Rosa Púrpura do Cairo” de Woody Allen, quando o diretor coloca o personagem do filme dentro do filme saindo das telas e encontrando com a fã que repetidas vezes assistia o filme. O fato da personagem ser mais “verdadeira” que o ator gera todo o tipo de situação cômico-dramática em um dos melhores filmes de Allen.

http://www.spiritualityandpractice.com/films/images/photos/purpleroseofcairolrg.jpg

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Geologia da Moral

Uma Interpretação Neo-Materialista*

Manuel Delanda

Tradução: Maria Cristina de Resende (crisilha@hotmail.com)

Revisão técnica: Nelson Job (com agradecimentos especiais a Giovani A. Montesano( giovanimontesano@yahoo.com.br)

Este texto é parte integrante da revista “Ethica. Cadernos acadêmicos”, Vol. 15, pp. 145-163, no. 2, 2008 do Dept. de Filosofia da Universidade Gama Filho.


A distinção entre instituições que emergem de tomadas de decisões centralizadas e descentralizadas, pelos componentes humanos, tem ocupado um estágio central em diversas filosofias contemporâneas. O economista e guru da Inteligência Artificial, Herbert Simon, por exemplo, considera burocracias e mercados como as instituições humanas que melhor incorporam essas duas concepções de controle[1]. Instituições hierárquicas são as mais fáceis de analisar, bem mais do que acontece com a burocracia projetada por alguém de uma alta posição, e a hierarquia, como um todo, tem metas e comportamentos, de maneira que são mais ou menos consistentes com aquelas metas. Mercados, por outro lado, são complicados. Na verdade, o termo “mercado” precisa ser usado com cuidado, porque vem sido muito mal utilizado ao longo do último século por teóricos da esquerda e da direita. Como Simon observa, o termo não se refere ao mundo das corporações, seja monopólios ou oligopólios, uma vez que nessas instituições comerciais as tomadas de decisão são altamente centralizadas e os preços são regulados por comando.


Eu, de fato, limitaria o sentido do termo muito mais para referir, exclusivamente, aqueles fracos agrupamentos de pessoas em um local predefinido na cidade, e não a um disperso grupo de consumidores abastecido por um sistema de intermediário (como quando alguém fala de “mercado” de computadores pessoais). A razão é que, como o historiador Fernand Braudel mostra claramente, somente nos mercados, no primeiro sentido, que nós temos alguma idéia de como as dinâmicas de formação de preços se dão. Em outras palavras, é somente nos mercados rurais e de cidades pequenas que a tomada de decisão descentralizada comanda a auto-regulação dos preços de um jeito que nós possamos entender. Em qualquer outro tipo de mercado, os economistas simplesmente supõem que oferta e demanda conectam-se de um jeito funcional, mas eles não nos dão nenhuma dinâmica específica de como essa conexão é feita. [2] Além do mais, diferentemente da versão idealizada de que mercados são guiados por uma “mão invisível” para alcançar uma distribuição de recursos otimizada, mercados reais não são em nenhum sentido otimizados. Na verdade, como muitas estruturas descentralizadas, auto-organizadas, eles são somente viáveis, desde que não sejam hierárquicos e por isso sem metas, e crescem e se desenvolvem basicamente por fluxo.


A distinção de Herbert Simon entre comandos hierárquicos e mercados descentralizados, pode tornar-se um caso especial de uma dicotomia mais generalizada. Na visão dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, essas categorias mais abstratas, que eles chamam de estratos e agregados autoconsistentes (ou árvores e rizomas), não são tão definidas pelo locus de controle, mas pela natureza dos elementos em que estão conectados. Estratos são compostos por elementos homogêneos enquanto que agregados autoconsistentes, ou para usar o termo que prefiro: redes, elementos heterogêneos articulados como tais. [3] Por exemplo, uma hierarquia militar aloca pessoas de posições internamente homogêneas antes de uní-las a uma série de comandos. Mercados, por outro lado, permitem que uma gama de necessidades e de ofertas heterogêneas venha a ser articulado pelo mecanismo de preço, sem reduzir sua diversidade.


Assim como Simon e Deleuze e Guattari enfatizam, a dicotomia entre hierarquias e mercados, ou mais geralmente falando, entre estratos e malhas, deveria ser entendida puramente em termos relativos. Em primeiro lugar, na realidade é difícil achar casos absolutos dessas duas estruturas: mesmo a maior organização orientada a uma meta, vai ainda mostrar alguma direção em seu crescimento e desenvolvimento, e a maioria dos mercados, mesmo em cidades pequenas, contêm algum elemento hierárquico, mesmo que seja o atacadista que manipula os preços pelo imenso dumping (ou retirada) de quantidades de um produto no (ou do) mercado. Além disso, hierarquias produzem redes que produzem hierarquias. Assim, quando várias burocracias coexistem (governamental, acadêmica, eclesiástica), e na ausência de uma super-hierarquia para coordenar suas interações, todo o grupo de instituições tenderá a formar uma malha de hierarquias, articuladas na sua maioria pelas ligações locais e temporárias. Similarmente, assim como os mercados locais que crescem em tamanho, como aquelas feiras gigantes que surgem periodicamente desde a Idade Média, elas produzem hierarquias comerciais, com um mercado financeiro no topo, um mercado de mercadorias luxuosas mais abaixo e, depois de diversas camadas, um mercado de grãos na base. Uma verdadeira sociedade, então, é formada por uma complexa e mutável mistura desses dois tipos de estruturas, e somente em poucos casos será fácil decidir a que tipo uma dada instituição pertence.


A dicotomia entre estratos e redes pode ser utilmente aplicada em uma ampla variedade de contextos. Por exemplo, a espécie animal pode ser considerada uma instância biológica que exemplifica uma estrutura estratificada, enquanto ecossistemas podem ser tratados como redes. Isso levanta a questão se algumas (ou a maioria) das aplicações desses termos são puramente metafóricos. Há, sem dúvida, algum elemento de metáfora no meu uso dos termos, mas por trás da aparência de analogia linguística, há, acredito, processos físicos comuns por trás da formação da rede real e dos estratos que fazem todos os diferentes usos dos termos quase literais. Esses processos comuns não podem ser capturados sozinhos pela representação lingüística e nós precisamos movê-los para o campo da engenharia de diagramas a fim de especificá-los.


Talvez, um exemplo concreto ajudará a clarear este ponto extremamente crucial. Quando dizemos (assim como os marxistas) que “o conflito de classes é o motor da história”, nós estamos usando a palavra “motor” no sentido puramente metafórico. Todavia, quando dizemos que “um furacão é um motor de vapor”, não estamos simplesmente fazendo uma analogia lingüística: estamos dizendo que furacões expressam o mesmo diagrama usado pelos engenheiros para construir motores a vapor, isto é, que ele contém um reservatório de energia que opera via diferenças termais e que circula energia e materiais por um (assim chamado) Ciclo de Carnot. Deleuze e Guattari usam o termo “máquina abstrata” quando se referem a esse diagrama compartilhado por diferentes agenciamentos físicos. Portanto, poderia existir um “motor abstrato” com diferentes instâncias físicas exemplificadas em objetos tecnológicos e processos atmosféricos naturais.


O que eu gostaria de discutir aqui é que existem também máquinas abstratas por trás de processos de geração de estruturas que produzem como produtos históricos específicos, redes e hierarquias. Vamos começar discutindo o caso de estruturas hierárquicas, e em particular, do estrato social (classes, castas). O termo “stratum social” em si, é claramente uma metáfora, envolvendo a idéia de que somente enquanto estratos geológicos são as camadas de materiais rochosos empilhados um em cima do outro, então, classes e castas são como camadas de materiais humanos em que alguns estão mais altos e outros mais baixos. É possível ir além da metáfora e mostrar que a gênese de ambos, estratos geológicos e sociais, envolve o mesmo engendramento de diagrama? Estratos geológicos (acumulação de rochas sedimentares como arenito ou calcário) são criados por um processo envolvendo (no mínimo) duas operações distintas. Quando alguém olha mais de perto para as camadas de pedra num lado exposto de uma montanha, uma notável característica é que cada camada contém outras camadas, cada uma composta por pequenos seixos que são aproximadamente homogêneos no que diz respeito ao tamanho, forma e composição química. Desde que, na natureza, os seixos não venham em tamanho e forma padronizados, algum tipo de mecanismo de classificação precisa ser envolvido aqui, algum dispositivo específico para se apropriar das qualidades heterogêneas dos seixos e distribuí-las em camadas mais ou menos uniformes.


Geólogos têm descoberto um certo tipo de mecanismo: os rios agem como autênticos computadores hidráulicos (ou pelo menos, máquinas de classificação). Os rios transportam o material rochoso do seu ponto de origem (uma montanha produzida anteriormente como matéria de erosão e desgaste) para o lugar no oceano onde esses materiais acumularão. Nesse processo, os seixos de tamanhos, peso e formas variadas tenderão a reagir diferentemente à água, transportando-os. Essas diferentes reações ao movimento da água são o que classificam os seixos, com os menores alcançando o oceano antes que os maiores, por exemplo. Uma vez que a matéria-prima tenha sido classificada em grupos mais ou menos homogêneos depositados no fundo do oceano (isto é, uma vez eles se tornem sedimentados), uma segunda operação é necessária para transformar esses acúmulos indefinidos de seixos em uma realidade de escala maior: uma rocha sedimentada. Essa operação consiste em consolidar os componentes classificados juntos em uma nova entidade cujas propriedades emergentes, como força absoluta e permeabilidade, não podem ser atribuídas pela soma dos seixos individuais. Essa segunda operação é, certamente, realizada por certas substâncias dissolvidas na água (assim como sílica ou hematita, no caso de arenitos) que penetram no sedimento pelos poros entre os seixos. Ao passo que essa passagem de soluções cristaliza, consolida-se a temporária relação espacial do seixo em uma estrutura “arquitetônica” mais ou menos permanente.[4]


Assim, uma dupla operação, “uma dupla articulação” nos leva de estruturas em uma escala a estruturas em outra escala. Deleuze e Guattari chamam essas duas operações de “conteúdo” e “expressão”, e nos atenta para não confundi-las com a antiga distinção filosófica entre “substâncias” e “formas”. A razão é que cada uma dessas duas articulações envolve substâncias e formas: sedimentação, não é somente sobre acumulação de seixos (substância), mas também sobre classificá-los em camadas uniformes (forma); enquanto a consolidação não só afeta novas ligações arquitetônicas entre seixos (forma), mas também produz uma nova entidade, uma rocha sedimentada (substância). Além disso, essas novas entidades podem acumular e se classificar (como nas camadas alternadas de xistos e arenitos que fizeram as montanhas alpinas) e se tornarem consolidadas quando forças tectônicas causam camadas acumuladas de rocha para dobrar-se e tornar-se uma entidade de escala maior, a montanha. [5]


No modelo proposto por Deleuze e Guattari, essas duas operações constituem uma engendramento de diagrama e então esperaríamos achar essa “máquina abstrata de estratificação”, não somente no mundo da geologia, mas também no organismo e no mundo humano. Por exemplo, de acordo com o neo-darwinismo, as espécies se dão pela acumulação do material genético e dos traços da adaptação anatômica e comportamental que aquelas camadas de material genético produzem quando combinados com o processo de dinâmica não-linear (como a interação das células durante o desenvolvimento de um embrião). Genes, é claro, não se depositam meramente ao acaso, mas ordenados por uma variedade de pressões seletivas que incluem clima, a ação de predadores e parasitas e os efeitos das escolhas do macho e da fêmea durante o acasalamento. Assim, em um sentido bem real, o material genético “sedimenta” assim como os seixos fazem, mesmo se o sistema dinâmico não-linear que promove a operação de classificação seja completamente diferente em detalhes. Além do mais, esses acúmulos indefinidos de genes podem (como areia acumulada) se perder sobre alguma mudança drástica de condições (assim como o princípio da Era Glacial) a menos que eles se tornem consolidados. Essa segunda operação é promovida pelo “isolamento reprodutivo”: quando um dado subgrupo de uma população se torna incapaz de acasalar com o resto (ou como no caso dos cavalos e burros, quando seus descendentes são estéreis). O isolamento reprodutivo age como um “mecanismo de catraca” que conserva a acumulação adaptativa e torna impossível para uma dada população “involuir” para organismos unicelulares. Pela acumulação seletiva e consolidação isolada, os animais e plantas individuais venham formar uma entidade de escala maior: uma nova espécie. [6]


Nós também podemos encontrar essas duas operações (e, por conseguinte, esse diagrama abstrato) na formação de classes sociais. Falamos de “estratos sociais” toda vez que uma dada sociedade apresenta uma variedade de regras diferenciadas para as quais nem todos têm acesso igual, e quando um subgrupo destas regras (aqueles para o qual uma elite predominantemente sozinha tem acesso) envolve a chave do controle dos recursos energéticos e materiais. Enquanto a diferenciação das regras pode ser um efeito espontâneo da intensificação no fluxo de energia pela sociedade (p.e. como quando um Big Man em sociedades pré-Estado age como um intensificador da produção agrícola), a classificação destas regras em posições ao longo de escalas de prestígio, envolve a dinâmica de um grupo específico. Em um modelo, por exemplo, membros de um grupo que tenham adquirido acesso preferencial a algumas regras, começam a adquirir o poder de controlar o acesso fácil a elas, e os princípios desses grupos dominantes para classificar o resto da sociedade em subgrupos começam a cristalizar. “É a partir da cristalização desse princípio de avaliação diferencial e posições sociais, que algumas manifestações específicas de estratificação e posições sociais diferenciam-se – como a segregação de estilos de vida de estratos sociais, o processo de mobilidade entre eles, o declive das hierarquias estratificadas, alguns tipos de estratos da consciência, bem como o grau e intensidade dos conflitos desenvolvidos nos estratos de diferentes sociedades”.[7]


Entretanto, mesmo que algumas sociedades desenvolvam algumas posições desse tipo, nem todas se tornam uma dimensão autônoma da organização social. Em muitas sociedades, a diferenciação das elites não é extensiva (elas não formam um centro enquanto o resto da população forma uma periferia excluída), o excedente não acumula (eles podem ser destruídos em festejos rituais), e relações primordiais (de alianças locais e de parentesco) costumam prevalecer. Então, é preciso uma segunda operação além da simples classificação de pessoas em posições sociais e castas, para então, tornar-se uma entidade separada: o princípio de classificação informal precisa ser dado a uma interpretação teológica e uma definição legal, e as elites precisam se tornar guardiãs e portadoras de uma nova tradição institucionalizada, isto é, a legitimação da mudança e os definidores dos limites da inovação. Em resumo, para transformar uma acumulação indefinida de regras tradicionais (e princípios de acessos a essas regras) numa classe social, esta última precisa se tornar consolidada via codificação teológica e legal. [8]


Meu ponto principal pode, então, ser afirmado da seguinte maneira: rochas sedimentares, espécies e classes sociais (e outras instituições hierárquicas) são todas construções históricas, o produto definitivo dos processos de geração estrutural que toma como seu ponto de partida uma gama heterogênea de matérias primas (seixos, genes e regras), homogeneizando-os por um tipo de operação e depois, resultando nos arranjos uniformes em um estado mais permanente por alguma forma de consolidação. Assim, enquanto alguns elementos se tornam diferentes (p.e. somente instituições humanas, e talvez, espécies biológicas envolvem hierarquias de comando), outros, permanecem o mesmo: a articulação de componentes homogêneos em uma entidade de alta escala. (E tudo isso, sem metáfora).


E sobre as redes? Deleuze e Guattari também oferecem um diagrama hipotético para este tipo de estrutura, mas seus elementos não são tão claros como aqueles envolvidos na formação dos estratos. Por essa razão, eu começarei a descrição dessa outra máquina abstrata com alguns comentários sobre o que modelos matemáticos e computacionais de redes têm revelado sobre sua formação e comportamento, e depois tentar obter o diagrama engendrado. Talvez, o melhor tipo de estudo das redes é o assim chamado “loop autocatalítico”, uma corrente mais próxima dos processos químicos envolvendo não só auto-estimulação, mas também auto-sustentação, isto é, interconectar uma série de mútuas estimulações entre pares numa estrutura que se reproduz como um todo: um produto que se acumula devido à aceleração catalítica de uma reação química que serve como o catalisador para outra reação novamente, que, por sua vez, gera um produto que catalisa o primeiro. Assim, o loop torna-se auto-sustentável enquanto seu meio ambiente contém matéria-prima suficiente para que as reações químicas procedam.


Francisco Varela e Humberto Maturana, pioneiros no estudo dos loops autocatalíticos (p.e. sua teoria de “autopoeisis”), mencionam duas características gerais desses circuitos fechados: eles são sistemas dinâmicos endógenos que geram seu próprio estado estável (chamado “atratores” ou auto-estados**), e eles crescem e se desenvolvem por fluxo.[9] Um exemplo da primeira característica são algumas reações químicas envolvendo autocatálises (assim como catálises cruzadas) que funcionam como verdadeiros “relógios químicos”, cuja acumulação de materiais de reações alterna cada um em um perfeito intervalo regular. Esse comportamento rítmico não é imposto ao sistema pelo lado de fora, mas gerado espontaneamente de dentro (via um atrator). [10]


A segunda característica mencionada por Varela e Maturana, o crescimento pelo fluxo, pode ser explicada da seguinte forma: no mais simples loop autocatalítico há apenas duas reações, cada um produzindo um catalisador para o outro. Mas, uma vez este básico nó-duplo da rede, estabelecido por eles mesmos, novos nós podem inserir-se na rede, contanto que eles não coloquem em risco sua consistência interna. Assim, novas reações químicas podem aparecer (usando uma omissão prevista de matérias-primas ou até mesmo resíduos do loop original), que catalisa um do original e é catalisado pelo outro, de forma que agora, torna-se uma rede de nó-triplo. A rede agora cresceu, mas numa direção que é, para todas as práticas propostas, “não planejada”. Um novo nó (que apenas aparece para satisfazer alguns requisitos internos de consistência) é aderido e o loop se complexifica, agora, precisamente porque a única restrição era interna, a complexidade não toma lugar para fazer o loop, como um todo, encontrar alguma demanda externa (como a adaptação a uma situação especifica). O ambiente ao redor, como fonte de matéria prima, certamente restringe o crescimento das redes, mas muito mais de uma maneira proscritiva (o que não fazer), do que de uma maneira prescritiva (o que fazer). [11]


A questão agora é se desse e de outro estudo empírico do comportamento das redes, nós podemos obter um processo de geração estrutural que é abstrato o suficiente para operar no mundo da geologia, biologia e sociedade humana. No modelo proposto por Deleuze e Guattari, há três elementos nesse diagrama. Primeiro, um grupo de elementos heterogêneos são agrupados via uma articulação de superposições, isto é, uma interconexão de elementos diversos, mas sobrepostos. (no caso dos loops autocatalíticos, os nós no circuito são unidos aos outros por suas complementaridades funcionais). Segundo, uma classe especial de elementos intercalados é necessária para efetivar esse bloqueio via conexões locais. (No nosso caso, este é o papel representado pelos catalisadores, inserindo-se entre duas outras substâncias químicas para facilitar sua interação). Finalmente, a heterogeneidade integrada deve ser capaz de um padrão estável de comportamento na geração endógena (por exemplo, padrões em um intervalo de tempo e de espaço regulares.) [12] É possível encontrar instâncias desses três elementos em todas as diferentes esferas de realidade?


Além do tipo sedimentado, uma outra grande classe de rochas chamadas “rochas ígneas” (como o granito) que são o resultado de um processo de construção radicalmente diferente. O granito se forma diretamente do magma resfriado, um fluido viscoso feito da diversidade de material fundido. Cada um desses componentes líquidos tem um diferente limiar de cristalização, isto é, cada uma passa pela bifurcação em direção ao estado sólido em um diferente ponto crítico de temperatura. Isso significa que enquanto o magma resfria, seus diferentes elementos vão se separar enquanto eles cristalizam em seqüência, aqueles que solidificam mais cedo servem como containeres para aqueles que adquirem uma forma cristalizada mais tarde. Nessas circunstâncias, o resultado é um complexo agrupamento de cristais heterogêneos que se conectam uns aos outros, e isso é o que dá ao granito sua força superior. [13]


O segundo elemento no diagrama, elementos intercalares, precisa ser definido de forma mais geral do que somente como substâncias catalisadoras, para incluir qualquer coisa que produza articulações locais, de dentro, “densificações, intensificações, reforços, injeções, recheaduras, e como tantos outros atos intercalares”.[14] As reações entre magma líquido e as paredes de um componente já cristalizado, eventos de nucleações dentro do líquido que inicia a próxima cristalização, e até mesmo certos “defeitos” na parte de dentro dos cristais (chamadas “deslocamentos”) que promovem crescimento de dentro, são todos exemplos de elementos intercalares. Finalmente, reações químicas dentro do magma, podem também gerar estados endógenos estáveis.


Quando uma reação como essa, envolvidas por relógios químicos não é movimentada, os intervalos temporais gerados tornam-se intervalos espaciais, formando um belo padrão de espiral e círculos concêntricos que, às vezes, podem ser observados num estado congelado em algumas pedras ígneas.[15]


Assim, granito (tanto quanto uma formação completa de um loop autocatalítico) é um exemplo de uma malha, ou nos termos usados por Deleuze e Guattari, um agregado autoconsistente. Diferente de Varela e Maturana, para quem esse tipo de autoconsistência existe somente no mundo biológico e lingüístico, para Deleuze e Guattari “consistência, justamente, longe de ser reservada a formas vitais complexas, já concerne plenamente o átomo e as partículas as mais elementares”.[16] Portanto, podemos dizer que tanto quanto hierarquias (orgânica ou social) são casos especiais de uma classe mais abstrata, “estrato”, então loops autocatalíticos são casos especiais de “agregados autoconsistentes”. E tanto quanto estrato é definido como uma articulação de elementos homogêneos, (e não incluem características mais específicas de hierarquias, tais como ter uma série de comandos), então agregados autoconsistentes são definidos por suas articulações de elementos heterogêneos e não necessariamente envolvem outras características menos gerais (assim como o crescimento por fluxo ou pela autonomia interna). Vamos agora dar alguns exemplos biológicos e culturais do modo pelo qual a diversidade pode ser articulada em cada via autoconsistente.


Como eu já mencionei, uma espécie (ou mais precisamente, a combinação de genes de uma espécie) é o melhor exemplo de uma estrutura orgânica estratificada. Similarmente, um ecossistema representa uma realização biológica de um agregado autoconsistente. Enquanto uma espécie pode ser uma estrutura muito homogênea (especialmente se as pressões de seleção têm dirigido muitos genes para a fixação), um ecossistema liga-se junto à uma ampla variedade de elementos heterogêneos (animais e plantas de espécies diferentes) que são articulados por meio de conexões, isto é, pela suas complementaridades funcionais. Dado isto, a principal característica de um ecossistema é a circulação de energia e de matéria na forma de alimento, as complementariedades em questão são alimentares: presa-predador ou parasita-hospedeiro são os dois mais comuns acoplamentos funcionais que compõem as teias alimentares. Nessa situação, as relações simbióticas podem atuar como elementos intercalados somando o processo de construção de teias alimentares, com o exemplo mais óbvio sendo a bactéria que vive nas vísceras de muitos animais e que permitem a estes animais digerir seus alimentos. Desde que redes de alimentos também manifestem endogenamente a geração de estados estáveis, todos os três componentes do diagrama abstrato parecem ser compreendidos neste caso.


Eu acabei de mencionar que mercados podem ser considerados exemplos de redes culturais. Em muitas culturas, feiras tradicionalmente permitem o encontro de pessoas com necessidades e ofertas heterogêneas. Combinar demandas complementares (isto é, conectando essas pessoas por suas necessidades e ofertas) é uma operação que é realizada automaticamente pelo mecanismo do preço. (Preços transmitem não só informações sobre o relativo valor monetário de diferentes produtos, mas também incentivam a compra e venda). Tudo que é preciso para esse mecanismo automático funcionar é que os preços caiam diante de uma excessiva oferta e que as quantidades produzidas e oferecidas diminuam quando os preços estão mais baixos.


Claro que, para isso funcionar, os preços precisam se regular e, portanto, precisamos imaginar que não existe um intermediário na cidade que possa manipular os preços pela venda (ou acúmulo) de grandes quantidades de um dado produto no mercado. Na ausência da manipulação de preços, o dinheiro (até mesmo dinheiros primitivos como sal, conchas ou cigarros) realiza a função de elemento intercalar: enquanto que, com a permuta, a possibilidade de duas demandas precisamente combinadas encontrarem-se por acaso é muito pequena, com o dinheiro aquelas chances de encontro tornam-se desnecessárias, e demandas complementares podem encontrar uma a outra a distância, por assim dizer. Finalmente, mercados também parecem gerar estados estáveis endógenos, particularmente quando cidades comerciais formam circuitos de comércios, como pode ser visto no comportamento cíclico dos preços.


Deste modo, tanto quanto rochas sedimentares, espécies biológicas e hierarquias sociais são casos particulares de um sistema estratificado (eles são todos produtos históricos de um processo de dupla articulação), então rochas ígneas, ecossistemas e mercados são agregados autoconsistentes (ou redes), o resultado do agrupamento e conexão de elementos heterogêneos. Essa concepção de uma máquina abstrata bem específica governando uma variedade de processos de estruturas-geradoras não só turva a distinção entre natural e artificial, mas também entre o vivo e o inerte. Isso de fato aponta em direção a uma nova forma de filosofia materialista, em que matéria-energia-primas, através de uma variedade de processos de auto-organização e um intenso poder de morfogênese, gera todas as estruturas que nos cercam. Além do mais, as estruturas geradas deixam de ser a realidade fundamental, e o fluxo de matéria-energia adquire agora esse status especial.


Do ponto de vista da dinâmica não linear do nosso planeta, a fina crosta de rocha em que vivemos e que chamamos nossa terra e lar é, talvez, seu menos importante componente. De fato, se esperássemos tempo suficiente, se pudéssemos observar as dinâmicas planetárias em escalas de tempo geológico, as rochas e montanhas, que definem os mais estáveis e duráveis traços da nossa realidade, dissolver-se-iam dentro do grande fluxo de lava subterrânea da qual elas são feitos, porém temporariamente endurecidas. Logo, é só uma questão de tempo para qualquer rocha ou montanha ser reabsorvida no fluxo auto-organizado de lava levando as dinâmicas da litosfera, essa estrutura geológica representa uma desaceleração local neste fluxo da realidade. É quase como se cada parte do mundo mineral pudesse ser definida especificando sua composição química e sua velocidade do fluxo: muito lento para rochas e mais rápido para lava.


Similarmente, nossos corpos e mentes individuais são mera coagulações ou desaceleração nos fluxos de biomassa, genes, memes e normas. Aqui também, nós poderíamos ser definidos não só pelos materiais que somos temporariamente ligados ou encadeados em nosso corpo orgânico e mentes culturais, assim como pela escala de tempo das operações de ligação. Dada uma escala de tempo suficiente, é o fluxo de biomassa através das teias alimentares que importa, assim como o fluxo de genes através das gerações, e não os corpos e espécies que emergem nesses fluxos. Dada uma escala de tempo longa o suficiente, nossos idiomas também são desacelerações temporárias ou densificações em um fluxo de normas que produzem uma multidão de estruturas diferentes. A visão de mundo abrangente que essa “filosofia geológica” gera pode ser colocada dentro de uma concha pela introdução de alguma terminologia técnica especial.


Primeiro de tudo, o fato das redes e hierarquias ocorrerem em sua maioria em composições, parece ser conveniente ter um rótulo para referir-se a essas combinações mutáveis. Se os componentes hierárquicos da composição dominam sobre os da rede, podemos dizer de uma estrutura altamente estratificada, enquanto a combinação oposta será considerada como aquela com baixo grau de estratificação. Além do mais, desde que redes produzem hierarquias e hierarquias produzem redes, podemos dizer de uma dada composição como processos submetidos à desestratificação assim como reestratificação, assim como suas proporções de componentes homogêneos e heterogêneos mudam. Finalmente, uma vez que, conforme esse modo de observação, que define verdadeiramente, o mundo real não é nem um estrato uniforme nem redes variáveis, mas o não formado e não estruturado fluxo morfogenético dos quais esses dois derivam, também será útil ter um rótulo para esse estado especial de matéria-energia-informação, para essa realidade fluida viva a partir de dentro pelos processos auto-organizadores que constituem uma variedade de vida não-orgânica: o Corpo sem Órgãos (CsO): “O organismo não é o corpo, o CsO, mas um estrato sobre o CsO, quer dizer um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair um trabalho útil (...) o CsO, é ele a realidade glacial sobre o qual vão se formar estes aluviões, sedimentações, coagulação, dobramentos e assentamentos que compõem organismo – e uma significação e um sujeito.” [17]


O rótulo é, em si, é claro, imaterial e insignificante. Podemos também, referir a esse caldeirão de vida não-orgânica por um nome diferente. (Em outro contexto, por exemplo, eu chamaria isso de “phylum maquínico”)[18]. Diferente do nome, entretanto, a referência do rótulo é de extrema importância, desde que o fluxo de lava, biomassa, genes, memes, normas e dinheiro (e muitos outros) são cruciais para a emergência de qualquer estrutura estável que estimamos e valorizamos (ou, pelo contrário, que nos oprimem e nos escravizam). Podemos definir o CsO em termos desse fluxo não-formado e não-estratificado, contanto que mantenhamos em mente que o que conta como não-estratificado em qualquer uma dada escala de tempo e espaço qualquer é inteiramente relativo. O fluxo de genes e biomassa é “não-formado” se os compararmos com um dado organismo individual qualquer, mas eles mesmos têm formas e funções internas. Na verdade, se ao invés de adotar uma perspectiva planetária, nós adotássemos um ponto de vista propriamente cósmico, nosso planeta inteiro (junto com seus fluxos), seria ele mesmo um mero endurecimento provisório no vasto fluxo de plasma que permeia o universo.


A história humana tem envolvido uma variedade de Corpos sem Órgãos. Primeiro, o Sol, aquela esfera gigante de plasma que o fluxo intenso de energia dirige a maioria dos processos de auto-organização no nosso planeta, na forma de um grão e de combustível fóssil, na nossa civilização. Segundo, o corpo de lava “cintos de condutores” (células de convecção) que dirigem placas tectônicas e que são responsáveis pelas maiores características geopolíticas gerais do nosso planeta, assim como a ruptura da Pangéia em nossos atuais continentes, e a subseqüente distribuição de espécies domesticáveis, uma distribuição que beneficiou a Eurásia mais que do que o resto do mundo. Terceiro, o CsO constituído pela dinâmica de acoplagem da Hidrosfera/Atmosfera, e suas vastas variedades de entidades auto-organizadas: furacões, tsunamis, pressões de blocos, ciclones, e os circuitos dos ventos. (A conquista do circuito dos ventos do Atlântico - os Ventos Alísios e os Ventos do Oeste - é o que permitiu a transformação do continente americano em uma vasta zona de oferta para abastecer o crescimento da economia urbana européia). Quarto, o Corpo sem Órgãos genético constituído pelo fluxo mais ou menos livre de genes através de microorganismos (via plasmídios e outros vetores), que diferente de um fluxo genético mais estratificado em animais e plantas, tem evitado o controle humano mesmo depois da criação dos antibióticos. Quinto, aquelas porções de fluxo de energia solar através do ecossistema (carne circulando nas teias alimentares espontâneas) que tem escapado da urbanização, particularmente animais e ervas daninhas ou rizomas (O CsO formado pelas cidades subterrâneas de roedores, por exemplo). Finalmente, nossos idiomas, quando eles formaram dialetos contínuos e circunstanciais em cooperação para remover qualquer pressão estratificada, também formam um CsO, como quando os invasores normandos, impuseram o francês como a língua das elites, permitindo a massa camponesa a criar o idioma inglês, tirado de dentro de uma sopa amórfica das normas germânicas com temperos escandinavos.


Imanente ao CsO é um conjunto de máquinas abstratas, diagramas engendrados capturando as dinâmicas de certos processos de geração de estruturas. Os dois mais comuns podem ser aqueles por trás da formação de estratos e agregados autoconsistentes. Mas existem outros. Por exemplo, quando um dispositivo de classificação é acoplado com a habilidade de replicar com variação, uma nova máquina abstrata emerge, agora, um tipo de sonda (probe head) não-definidora ou dispositivo de pesquisa capaz de explorar um espaço de formas possíveis. Essas máquinas abstratas podem ser vistas como equipadas com “botões” controlando certos parâmetros que, por sua vez, define o estado dinâmico para processos de geração de estruturas, e, portanto, a natureza da geração de estruturas em si. Os parâmetros chaves incluem aqueles controles de força e completude do processo de classificação e do grau da consolidação ou isolamento reprodutivo para a máquina de dupla articulação; ou graus de temperatura, pressão, volume, velocidade, densidade, conectividade que exercem a função de controle de parâmetros gerando os estados estáveis nas redes; ou os índices de mutação e recombinação que definem a velocidade da probe head, assim como a força do fluxo de biomassa e do acoplamento entre espécies co-evoluídas, que definem o tipo de espaço que os aparelhos de pesquisa exploram.


Portanto, usando esses diagramas abstratos para representar o que acontece no CsO é equivalente a usar um sistema de representações em termos de intensidade, desde que em última análise a intensidade de cada parâmetro que determina o tipo de dinâmica envolvida, e portanto, a característica das estruturas que são geradas. De fato, uma maneira de retratar o CsO é como aquele estado “glacial” de matéria-energia-informação, que resulta do desvio de todos esses botões a zero, isto é, o mínimo valor absoluto de intensidade, trazendo toda a produção de formas estruturadas a uma parada.


“Um CsO é feito de tal maneira que ele só pode ser ocupado, povoado por intensidades. Somente as intensidades passam e circulam. Mas o CsO não é uma cena, um lugar, nem mesmo um suporte onde aconteceria algo (...) Ele não é espaço e nem está no espaço, é matéria que ocupará o espaço em tal e qual grau – grau que corresponde às intensidades produzidas. Ele é a matéria intensa e não formada, não estratificada, a matriz intensiva, a intensidade = 0.” [19]


Eu devo terminar agora essa rápida exploração do que uma interpretação neo-materialista da filosofia de Deleuze e Guattari seria. Sem dúvida muitos detalhes foram deixados de fora. Eu gosto de pensar na minha interpretação como um tipo de “patualização” das suas complexas idéias, seguida por uma “criolização” ao longo das linhas originais. Isso, todavia, retém seu espírito básico geológico, uma atitude filosófica que rejeita idéias de progresso não só na história humana, mas na história natural também. O modo de vida das criaturas, de acordo com essa atitude, não são de maneira alguma “melhores” que rochas. De fato, em um mundo não-linear em que o mesmo processo básico de auto-organização ocorre nas esferas mineral, orgânica e cultural, talvez rochas guardem algumas das chaves para entender a humanidade sedimentar, a humanidade incandescente e todas as suas misturas.





* - Este título é uma referência ao platô n. 3 do livro “Mil Platôs” de Deleuze e Guattari: “A Geologia da Moral (quem a Terra pensa que É?)”, que por sua vez, é uma referência ao livro de Nietzsche “A Genealogia da Moral – uma polêmica”. O termo “neo-materialismo” é a corrente filosófica que Manuel Delanda (fílósofo mexicano, professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque) pertence, sendo que o prefixo "neo" é utilizado para se diferenciar do materialismo marxista. Em textos recentes, ele tem utilizado a alcunha de “neo-realismo”. Este texto foi desenvolvido em livro em 1997: “A Thousand years of nonlinear history” Zone Books, New York. (NJ).

** - Eingenstates: termo da física quântica: estado quântico invariável (NJ).



[1] Herbert Simon. The Sciences of the Artificial. (MIT Press, 1994). p. 32-36

[2] Fernand Braudel. The Wheels of Commerce. (Harper and Row, New York, 1986). p. 28-47

Para a idéia de “mão invisível” os economistas simplesmente supõem que procura e oferta se cancelam (isto é, o que o mercado anula), sem sequer especificar a dinâmica que leva a este estado. Veja:

Philip Mirowwsky. More Heat than Light. Economists as Social Physics, Physics as Nature is Economists. (Cambridge University Press, New York 1991). P. 238-241

Mirowsky mostra como a idéia do conceito de “mão invisível” foi formalizada no século dezenove simplesmente copiando a forma do equilíbrio termodinâmico (Portanto, na opinião dele, essa área da física estipula mais calor que luz). Ele também atenta que nas recentes tentativas de aplicar a teoria de Prigogine para a economia, estão fazendo a mesma coisa, por exemplo, supondo a existência de atratores sem especificar exatamente o que é isso que está sendo dissipado (ou seja, apenas energeticamente dissipativo, ou sistemas “de perdas” que têm atratores). Veja:

Philip Mirowky. From Mandelbrot to Chaos in Economic Theory. (In Southern Economic Journal. Vol. 57, October 1990) p. 302

[3] Gilles Deleuze and Félix Guattari. A Thousand Plateaus. (University of Minesota press, Minneapolis, 1987). P. 335.

*- “Mil Platôs 4” Ed. 34, 1997 (tradução de Suely Rolnik), pág. 149-150.

“Se enunciarmos a diferença sob sua forma mais geral, dizemos que ela se instaura entre sistemas estratificados, sistemas de estratificação de um lado e, de outro, conjuntos consistentes, autoconsistentes (...) Há um sistema de estratificação codificado, toda vez que se tem, no sentido horizontal, causalidades lineares entre elementos; no sentido vertical, hierarquias de ordem entre agrupamentos; e, para que tudo se mantenha junto em profundidade, uma sucessão de formas que enquadram, sendo que cada uma informa uma substância e, por sua vez, serve de substância para outra” [p.e. a sucessão de seixos-rochas sedimentares-montanhas revestidas, nota de rodapé # 5, abaixo] (...) “Falaremos ao contrário, de conjuntos de consistência quando nos virmos diante de consolidados de componentes muito heterogêneos, curto-circuitos de ordem ou mesmo causalidades ao avesso, capturas entre materiais e forças de uma outra natureza, em vez de uma sucessão regrada formas-substâncias”.

[4] Harvey Blatt, Gerard Middleton, Raymond Murray. Origin of Sedimentary Rocks. (Prentice Hall, New Jersey, 1972) p. 102 and 353

[5] Gilles Deleuze and Félix Guattari.. A Thousand Plateaus Op. cit. p. 41

*- “Mil Platôs 1” Ed. 34, 1995 (tradução de Célia Pinto Costa), pág. 58.

Na verdade, aqui, Deleuze e Guattari incorretamente caracterizam as duas articulações envolvidas na produção de rochas como uma “sedimentação-dobramento”. A seqüência correta é “sedimentação-cimentação”. Então, numa escala espacial diferente, “acumulação de dobramento de rochas sedimentares cíclicas em montanhas”. Em outras palavras, eles colapsam duas diferentes dupla-articulações (uma utilizando como seu ponto de partida os produtos da precedente) em uma. Eu acredito que essa correção não afeta seus argumentos subjacentes, de fato, fortalece-os.

[6] Niles Eldridge. Macroevolutionary Dynamic. Species, Niches and adaptative Peaks. (MacGraw Hill, New York 1989) p. 127

[7] S. N. Eisendstadt. Continuities and Changes in Systems of Stratification. In Stability and social Change. Bernard Barbder and Alex Inkeles, eds. (Little Brown, Boston 1971). p. 65

[8] ibid. p 66-71.

[9] Humberto R. Maturana and Francisco J. Varela. The Tree of Knowledge. The biological Roots of Human Understanding. (Shambhala, Boston 1992). p. 47 and 115.

Outros pesquisadores têm descoberto que, assim como o loop acrescenta novos nós, ele pode alcançar um limiar crítico de complexidade passando por uma bifurcação, uma transição rumo à um novo estado cuja complexificação se acelera. Desde que os estados cuja fase de transição não os conduza de modo algum “diretamente” ou “progressivamente”, mudando e desenvolvendo por bifurcações cruzadas, é outro modo de crescimento por fluxo.

[10] Ilya Prigogine and Isabelle Stengers. Order out of Chaos. op.cit.. p. 147

[11] Francisco J. Varela. Two Principles of Self-Organization. In Self-Organization and Management of Social Sytems. H. Ulrich, G.J.B. Probst eds. (Springer Verlag, Berlin 1984) p. 27

[12] Gilles Deleuze and Félix Guattari. A Thousand Plateaus. op.cit. p.329

*- “Mil Platôs 4” pág. 140.

[13] Michael Bisacre. Encyclopedia of the Earthis Resources. (Exeter Books, New York 1984). p. 79

[14] Gilles Deleuze and Félix Guattari. ibid. p. 328

*- Mil Platôs 4, pág. 139-140.

Os autores constantemente se referem às catálises em suas teorias de redes, como estruturas (rizomas, espaços lisos, etc.). Eles tendem às vezes a ver a catálise em termos de um tipo específico (embora muito importante) de catálise: as enzimas alostéricas descobertas por Jaques Monod, que é como catálises programáveis, com duas cabeças:

“...é aquilo que faz com que heterogêneos mantenham-se juntos sem deixar de ser heterogêneos (...) são osciladores, sintetizadores intercalares de duas cabeças pelo menos”. Ibid. 329.

*- “Mil Platôs 4” pág. 141.

O que é preciso aqui é marcar a noção de uma “catálise” mais abstrata, então que as funções específicas de uma catálise química (para apresentar atos do reconhecimento via mecanismo de chave e fechadura, para acelerar ou desacelerar as reações químicas) não são o que importam, mas uma noção mais geral de crescimento por ajuda “de dentro” ou “pelo entre”. Um passo a essa direção tem sido dado pelo Arthur Iberall (um pioneiro na aplicação de idéias das dinâmicas não lineares para a história humana), pela definição, atividade catalítica como a habilidade de forçar um sistema dinâmico de um atrator a outro. No caso de uma catálise química o sistema dinâmico seria a molécula alvo (aquela a ser catalisada) e os dois estados estáveis seriam seus estados “não- reativos” e “reativos”, de forma que, pela troca deles de um pelo outro, a catálise acelera a reação.

Veja:

Arthur Iberall and Harry Soodak. A Physics for Complex Systems. In Self-Organizing Systems. The Emergence of Order. Eugene Yates ed. (Plenum Press, New York 1987). p. 509

Em outra parte, Iberall nota que neste sentido, eventos e deslocamentos por nucleação podem ser considerados para envolver “atos de catálises”. Nucleação refere-se ao processo que as estruturas que aparecem depois de uma fase de transição (cristais logo depois da bifurcação para o estado sólido, por exemplo) consolida e cresce, como oposto para reverter ao estado anterior. (pelo cruzamento da bifurcação na direção oposta). Tipicamente, algo tem que catalisar o crescimento da estrutura para uma massa crítica (limiar nuclear) depois que o crescimento pode proceder mais ou menos espontaneamente. Esse “algo” pode ser qualquer coisa, de uma partícula de poeira a um defeito no container em que a cristalização está acontecendo. Se alguém, cuidadosamente, remove todas as partículas e defeitos, ele pode, de fato, resfriar um líquido além do ponto de bifurcação sem que a cristalização ocorra. (Eventualmente, mesmo que resfriássemos ainda mais, até mesmo uma flutuação térmica microscópica pode atuar como catalisador e desencadear a nucleação). Deslocamentos, por outro lado, são defeitos de direção sem que o corpo do crescimento dos cristais que os ajudam a crescer pelo armazenamento de energia mecânica no seu não-alinhamento (portanto não-equilíbrio) na composição dos átomos. Esse armazenamento de energia permite a eles promover o crescimento de cristais pela queda da nucleação nos pontos iniciais. Então, nesse sentido abstrato de “catálises” os eventos intercalares envolvidos na criação de rochas ígneas são do tipo de geração de redes. Sobre isso veja:

Arthur Iberall. Toward a General Science of Viable systems. (McGrall-Hill, 1972). p. 208

Mas, podemos ir mais além. Definido desse modo, “catálises” torna-se uma operação abstrata de verdade: qualquer coisa que troque um sistema dinâmico (uma interação populacional de moléculas, formigas, humanos ou instituições) de um estado estável a outro, é, nesse sentido, literalmente uma catálise. Portanto, podemos usar essa definição não somente para mover da química (o campo de aplicação literal do termo) para a física sem metáfora, mas também para a biologia, sociologia, lingüística. Cidades e instituições, por exemplo, podem ser instâncias exemplares dessa operação na amplitude que ela surge sob a forma de fluxo de matéria-energia e processos de tomada de decisão, mas quando reagem de volta nesse fluxo e processos para restringi-los numa variedade de meios (estimulando-os ou inibindo-os). Por outro lado, como Iberall mesmo observa, a restrição da catálise pode combinar uma com a outra e formam linguagem como sistemas. Outro físico, Howerd Patee, tem ido além na elaboração de enzimas (catálises orgânicas) como restrições sintáticas, operando em um mundo semântico definido pelos seus estados estáveis.

Sobre catálises biológicas como restrições sintáticas, veja:

Howard Patte. Instabilities and Information in Biological Self-Organization. In Self-Organization Systems. Op. ed. p. 334

[15] Gregoire Nicolis and Ilya Prigogine. Exploring Complexity. (W.H. Freeman, New York 1989). p. 29

[16] Gilles Deleuze and Félix Guattari. ibid. p. 335

*- “Mil Platôs 4, pag. 149.

[17] Gilles Deleuze e Félix Guattari.. op. cit. p.159

*- “Mil Platôs 3” Ed. 34, 1996 (tradução de Aurélio Guerra Neto), pág. 21.

[18] Enquanto o termo “Corpo sem Órgãos” foi primeiramente usado no contexto filosófico por Deleuze (emprestado de Artaud), o quase sinônimo “phylum maquínico” parece ter sido cunhado e primeiramente usado por Guattari, em:

Félix Guattari. The Plane of Consistency. In Molecular Revolution. (Penguin Books, New York 1984). p. 120

Eu não afirmo que os dois termos são estritamente sinônimos (ainda que eu mesmo use-os desse modo). Particularmente, o que parece estar acontecendo é que esses filósofos ao invés de construir uma teoria estão tentando criar uma rede de teorias, isto é, um grupo de sobreposições parciais de teorias. Portanto, conceitos-(próximo a sinônimo)-chave (CsO, phylum, espaços lisos, rizoma) não coincidam exatamente em significado, mas são levemente deslocados de outro para criar esse efeito de sobreposição. Os pontos que permanecem é que são as referências desses rótulos que importam e não rótulos em si.

*- De Landa desenvolve o tema da sobreposição de conceitos na obra de Deleuze no apêndice do seu livro de 2002: “Intensive science and virtual philosophy”, Continuum, New York. (NJ)

[19] ibid. p. 153

*- “Mil Platôs 3”, pág. 13.