CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Amarnifesto

Nelson Job

"Desire is hunger is the fire I breathe"

Patti Smith

"Esse é o ponto.
O amor não é seu ou meu;
ele não é pessoal,
nem uma coisa que pertença a alguém;
o amor não é isso."
Krishnamurti

http://pagesperso-orange.fr/arnet/pages/Spiritualite/entretiens/souzenelle/Souzenelle_fichiers/Souz2-02.jpg
"Reflexo de Kether" Michel Mille

Oi, eu sou o amor. Tô meio puto com a minha situação. Ando na boca de qualquer um, na música de qualquer um, e, putz, na novela de qualquer um. Sou “a coisa que as pessoas mais querem”, mas não fazem quase nada por mim, e fazem quase tudo por, por exemplo, dinheiro, segurança. As pessoas acham que elas amam. Não é bem assim. Eu surjo entre o desejo intenso e profundo de duas ou mais entidades. Eu fico por ali enquanto houver loucura e cultivo das entidades em questão. Sem preconceito com a loucura, heim!? Não tem nada mais lúcido, translúcido, do que a loucura confluindo com o cultivo. Por “loucura” e “cultivo” serem excludentes na cabeça da maioria das pessoas, eu me torno inviável, fora o período da paixão, que tem mais loucura do que cultivo, diga-se de passagem. Aliás: passagem. Esse é um grande problema. Quando eu disse que as pessoas acham que amam, quero dizer que o “eu” não ama outra pessoa. Isso (uma pessoa amar outra) é ontologicamente impossível. As pessoas odeiam outras pessoas. O ódio sou eu, o amor, trans-tornado, densificado ao limite da estagnação. E o ódio mais terrível é quando do voceu sai um “eu”, amedrontado, começando a odiar. Daí, o outro que sobrou, novamente densificado à categoria de “eu”, é tomado de um ódio violento. Não que o ódio seja meu inimigo, pois sou eu mesmo. O problema é outro: todo o tipo de entorpecimento forçado, seja de comida, droga ou poder, manifesta uma preguiça de evocar a minha presença, procurando atalhos viciantes e ineficazes. Com exceção do poder, os outros podem ajudar, mas não são o caminho: eu sou o caminho para mim. Então, eu preciso, também, de coragem. Não reclame de solidão: ela é evidência de que, como diria Lucia, "Você está intoxicado de você". "Solidão", como a palavra evidencia, é um "sólido muito grande". Diminua a densidade, adquira velocidade. Eu, o amor, sou da ordem da passagem, isto é, quando o “eu” se minimiza para imperar o nós, “nós” enquanto uma entidade múltipla de afetos e afetações. O “eu” vira fundo e a relação vira figura. Pois é, se as pessoas soubessem o quanto eu, o amor, tô em tudo quanto é canto... eu sou a ligação de tudo. Aliás tudo vem de mim e as minemas de ódio criam as coisas, aparentemente separadas. Mas costuma existir uma lasquinha de mim que permite a conexão. Em todo o lugar, em todo o tempo, em qualquer acontecência. Então, não fica aí reclamando que a sua vida é sem amor. Porra! Sem amor não teria a “sua vida”. Se você quiser mais amor, a única saída é você abandonar o máximo possível você. Fora isso (se abandonar), o que sobra é a decepção do “eu”, é claro. Toda uma questão de velocidade. Isso é foda, é “a” coisa. Então, por favor, não fica por aí dizendo que você “amou” aquela roupa ou aquele carro. Não fica dizendo o indizível, me vulgarizando. Terríveis são aqueles casais que dizem com certa raiva “Amor, olha as crianças direito aí!!!”. Não apelidem seus cônjuges com o meu nome. Exultem-me em pleno ato. Esperem que eu apareça para dizer o meu nome. Isso não deslegitima o “eu te amo” dito para além do clichê, com intensidade e sinceridade; mas o “eu te amo” não é o fim, nem o ápice, é só o trampolim do “eu te amo” para o “ama-se”, sem “eu” e “você”, mas um entre nós. Mas isso que eu tô falando, não é autoconsciência. Ninguém me “entende”, nem eu mesmo, não sou dessa ordem. Alguns chegaram perto: Spinoza, Guimarães Rosa, Almodóvar, Lou Reed, o budismo, as partículas quânticamente emaranhadas. Pois é: os que sequer falam de mim, chegam, muitas vezes, mais próximo a algum “entendimento” sobre mim do que aqueles que abusam do meu nome. Romeu e Julieta começaram muito bem brigando contra a monarquia em meu nome, mas acabaram muito mau morrendo em meu nome. Puta merda! Não se morre por amor, todo o contrário: amar é vida, engendra vida! Melhor Sartre & Beauvoir, ou até “casais” que não se declaram, como Jagger & Richards. Quando vocês ficarem desesperançados da minha existência, olhem profundamente pros olhos de uma criança. Quanto mais nova melhor. Quando ela sorrir e você sentir um misto de paz e entorpecimento das tripas, saiba que a criança não riu “pra você” nem o entorpecimento e a paz foram por causa da criança, mas o sorriso-paz-entorpecimento são ressonâncias do meu transbordar. Não que eu despreze o coração, mas se eu tiver que escolher um órgão cujas manifestações da minha presença são mais intensas, eu elejo as tripas. Assim como a cor que me identifico mais é o azul, digamos um azul-neon, e não o vermelho. E o fato de que eu, o amor, seja da ordem da passagem, não quer dizer que eu tenha que ser curto. Lembro-te: cultivo. Junto com a loucura. E não existem “jogos de amor”. Eu não jogo. Sou da ordem de outra coisa, de uma Ética. Assim, vocês não podem, talvez, mudar o mundo, mas podem, e devem, mudar o mundo à sua volta.

Tão esperando o quê?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Neo-animismo enquanto religare

confluências entre a filosofia da diferença, ciência e espiritualidade

Palestra no III Colóquio de Filosofia da Religião IFCS/UFRJ outubro-2008

Nelson Job


Nós não somos indivíduos.
Somos estações em uma Mente única.
(...)
Então, ao tentar fugir de Dionísio,
você é possuído de qualquer maneira.
VALIS, Philip K. Dick

O que pretendo fazer hoje aqui é colocar em diálogo a filosofia da diferença - que possui como paradigma, ou melhor, plano de imanência, a filosofia de Spinoza - com a ciência contemporânea, para trazer reflexões sobre a questão do animismo e do religare, colocando esse religare como uma relação intensiva entre natureza e cultura e também, como relação intensiva de filosofia e ciência.

Para tanto, precisamos (re)definir o animismo. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro coloca que a tradição “desanimista” ou moderna, definia o animismo como a “imagem de um mundo onde o objeto é um caso particular do sujeito, ou, onde todo objeto é um sujeito em potência”. No perspectivismo que Viveiros de Castro expõe dos índios da Amazônia, “o Eu é um caso particular do Outro”, em uma “alteridade que se animiza na medida exata que se inimiza”, ou seja, o animismo, é aqui, um processo de diferenciação, como um relacionalismo na diferença, bem ao gosto, por exemplo, de Whitehead. Esse animismo enquanto diferença, somado aos processos de auto-organização evidenciados pela ciência contemporânea, é o que chamarei aqui de neo-animismo.

Gostaria de lembrar que ciência, filosofia, arte e religião estavam juntas, ou melhor, misturadas, antes da febre separatista de saberes que culminou no Iluminismo. Considerando aqui o Hermetismo um saber talvez “surgido”, por assim dizer, no Egito e na Mesopotâmia, ou seja, anterior à fase helenista na Grécia Antiga – onde foi retomado – vários conceitos que se desdobraram e se refletem hoje com caráter filosófico e/ou científico são semelhantes ao Hermetismo, a saber:

. O Princípio do Mentalismo – diz que tudo é mente, e matéria é mente coagulada (é, então, um princípio animista por excelência). Veio a derivar no conceito de substância em Spinoza e energia em Einstein (tudo é energia com variação de velocidade: E=mc2. Einstein era confessadamente espinozista.

. O Princípio da Correspondência – diz que o que está em cima é como o que está embaixo, derivado em Monadologia na filosofia de Leibniz (cujo conceito de mônada, foi retirado do Hermetismo) e que se desdobrou na física quântica em colapso de onda (a equivalência entre mônada e colapso de onda é feita pelo anestesista Stuart Hameroff, que criou um modelo de consciência quântica junto com o físico “Sir” Roger Penrose). Essa idéia também está presente na Teoria do Caos, nos fractais (a relação entre mônadas e fractais é feita por Deleuze). Relacionar Teoria do Caos e física quântica pode soar absurdo para um ouvido cientificamente atento, mas existe uma teoria recente, cunhada de triangulação dinâmica causal, que articula fractais à gravidade quântica e à auto-organização no universo.

. O Princípio de Vibração – diz que tudo está em movimento, tudo vibra, desdobrado no conceito de multiplicidade em Bergson e, na ciência, em uma das teorias da unificação da física quântica com a Teoria da Relatividade chamada Teoria das Supercordas, que especula o universo como uma imensa orquestra de cordas vibrando em diferentes vibrações, gerando assim a sua diversidade de componentes.

Sabemos também que do Hermetismo se desdobraram a Alquimia e a Astrologia, que por sua vez, desdobraram respectivamente em Química e Astronomia. É conhecido o trabalho de Betty Dobbs, que afirma ser a Ótica de Newton totalmente baseada na Alquimia e o conceito de gravidade, parcialmente influenciada por ela. Lembremos que a maior parte dos escritos de Newton eram sobre Alquimia. Já é clichê lembrar o trecho do discurso do economista, hoje “tão em voga”, John Maynard Keynes: “Newton (...) foi o último dos magos”.

O filósofo epicurista Lucrécio, que viveu provavelmente entre 96 e 55 a.C., cunhou o conceito de clinâmen, que é o movimento espontâneo dos átomos de Epicuro. O fato do átomo possuir um movimento espontâneo, já evidencia um caráter animista da obra dos epicuristas. Luiz Pinguelli Rosa considera o clinâmen um precursor do movimento caótico, na física do século XIX e do Princípio da Incerteza, na física quântica.

Spinoza, no século XVII, quando equivale Deus, substância e mente, já está propondo um animismo, se considerarmos Deus enquanto vivo e a mente como estatuto do vivente. Também é uma conceituação que leva à auto-organização, já que todos os processos que Spinoza descreve se dão na e através da substância.

As mônadas de Leibniz são um proto-pan-psiquismo visto que as mônadas possuem percepções. Esse proto-pan-psiquismo, esse vitalismo, vai ser desdobrado mais tarde no conceito de ocasião atual na filosofia orgânica de Whitehead. Manuel Delanda, filósofo mexicano professor da Universidade de Columbia em Nova Iorque, considera a Monadologia de Leibniz um tratado de auto-organização. Muito justo, visto que, para Leibniz, cada mônada é “um espelho vivo e perpétuo do universo”.

James Lovelock, cientista precursor dos movimentos ecológicos, afirma com sua Hipótese Gaia que a biosfera da Terra engendra a sua própria continuidade, em mais um exemplo de um processo de auto-organização. Lynn Margulis, co-autora do conceito, é adepta de Gaia fraca, ou seja, acredita que a teoria não passa disso, um sistema da biosfera, mas Lovelock propõe pensar a Terra como um ser vivo, ou seja, mais uma perspectiva animista. Pesquisas recentes, como a identificação de processos de auto-regulação de incêndio e chuva na floresta amazônica, tendem a reforçar a Hipótese Gaia.

O já citado Manuel Delanda relaciona o conceito de máquina abstrata de Deleuze e Guattari com o de atrator estranho da Teoria do Caos afirmando que a geologia, a biologia e a linguagem fazem parte de uma mesma máquina abstrata: as lavas e seixos se auto-organizam produzindo a geologia da Terra, como as montanhas, por exemplo; os fluxos de genes se auto-organizam nas espécies e os fluxos de dialetos auto-organizam-se na língua de um dado país através de, entre outros fatores, uma gramática. Delanda nos dá um imenso ferramental teórico pra pensar as relações entre natureza e cultura, rompendo as separações entre vivente e não-vivente, máquina e humano etc, apostando na capacidade de mergulharmos na imanência, ou como Deleuze e Guattari chamam, emprestado do dramaturgo Antonin Artaud: criação de corpo sem órgãos. Mas o que é criar corpo sem órgãos senão assumir um certo animismo, um neo-animismo, ou seja, partilhar com toda a imanência, de forma fractal, toda a existência, toda a acontecência!

Na cosmologia atual, existe um conceito intitulado quintessência. A quintessência, oriunda da energia escura, permite que a expansão do universo seja acelerada, mas não destrói nem os átomos, nem a vida, o que sugere que a quintessência é um processo de auto-organização cósmica, assim como a triangulação dinâmica causal que citamos anteriormente.

O físico Lee Smolin, em sua teoria da unificação chamada loops quânticos, também propõe um universo auto-organizado.

Quando afirmamos que tudo é vivo à luz de um neo-animismo, não afirmamos que as coisas são vivas e sim, que todo movimento é vital, mas dentro de um plano de imanência relacionalista, onde só existem relações de relações, ou seja, em uma perspectiva estóica, que afirma que o ser é devir, e que o devir é vida, as relações são vivas.

Em um mundo em crise, seja a crise ecológica, econômica ou, sobretudo, ética, é seminal perguntar: quais os rumos da auto-organização?, ou, quais os rumos da vida, em sua totalidade aberta?

Se o biólogo Jacques Monod afirma que a velha aliança animista (ou velho religare) está morta e propõe uma nova aliança (ou novo religare) que Prigogine e Stengers se propuseram a realizar, afirmo que, no âmbito de tudo que disse aqui, essa nova aliança é inevitavelmente neo-animista. Nosso momento hoje clama para assumirmos o relacionalismo, para nos sensibilizarmos para as ressonâncias, para efetuarmos a ética espinozista, ou seja, produzir o melhor para a rede, para o campo, e deixarmos no fundo, o sujeito e, em relevo, as relações. Aumentar a sensibilidade aos processos de auto-organização, abdicar do nosso chauvinismo orgânico (como diria Delanda) é a chave para os nossos tempos. É a clínica que eu, enquanto psicólogo clínico, autorizo todos os aqui presentes a exercer a partir de agora!