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quinta-feira, 25 de junho de 2009

“O Mundo em meus Olhos”: Depeche Mode e seus 30 anos de Celebração Negra


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Autor: Nelson Job

“let me take you on a trip
(…)
let me show you the world in my eyes”
(Deixe me te levar numa viagem
(...)
Deixe-me te mostrar o mundo em meus olhos)


single de “World in my Eyes”


Em breve a banda britânica Depeche Mode vai completar 30 anos de estrada. O que permite essa continuidade ao longo dos anos?


O Depeche Mode é a maior banda alternativa do planeta. A sua turnê atual, “Tour of the universe”, vai ser a primeira em grandes estádios. Vejamos as singularidades que permitem os Modes chegarem a esse patamar.

Eles misturam influências diversas, como o ícone da música eletrônica Kraftwerk, principalmente no álbum “Trans Europe Express” com a música “Hall of mirrors”; Johnny Cash, cujos temas preferidos segundo ele próprio, amor, Deus e assassinato também são temas depechemodianos (o cantor já ter regravado um grande sucesso da banda, “Personal Jesus”); e The Clash. A mistura: eletrônico, folk e punk.

No primeiro álbum, “Speak and spell”, o primeiro compositor era Vince Clark, o hit-single , “Just can’t get enough”, tinha mais a sonoridade que Clark manteria após a sua saída, em suas outras bandas, o Yazoo e o Erasure. Para a turnê do álbum seguinte, “A broken frame”, entra o tecladista Alan Wilder, que tinha como característica a participação intensiva na produção dos álbuns, ajudando a dar uma “cara” para o som do Depeche Mode. Martin L. Gore assume a posição de principal compositor, tornando a banda progressivamente mais soturna. Segue “Construction time again” e, em “Some great reward”, com o single “People are people”, O Depeche Mode avança nos EUA. Nesse álbum, o single “Blasphemous rumours” evidencia as letras ousadas de Gore, com seus temas depressivos. O refrão da canção clamava:

“I don't want to start
Any blasphemous rumours
But I think that God's
Got a sick sense of humor
And when I die
I expect to find Him laughing”
(“Não quero começar nenhum rumor blasfemo
mas acho que Deus tem um
senso de humor doentio
e quando morrer,
espero encontrá-lo rindo”)

O visual da banda possuía uma estética pansexual sado-masoquista, alimentada pelo single “Master and servant”. Mas isso iria mudar...

Em seguida, vem “Black Celebration”. Martin considera que, a partir deste álbum, a musicalidade do Depeche Mode encontra uma unidade e a sua imagem também devido às capas, fotos e clips feitos por Anton Corbijn. Este álbum junto com os dois posteriores, “Music for the masses” e “Violator” parecem formar uma trilogia, onde o Depeche Mode define o seus som, sua imagem e seus temas melancólicos, mas que, segundo Martin, sempre buscam uma positividade. Com essa trilogia, o Depeche Mode se torna a maior banda eletrônica do planeta. Se o New Order é o maior em seu tecno-rock e os Pet Shop Boys (ver texto neste blog "Os Pecados dos Pet Shop Boys") se destacam no tecno-pop, os Modes são uma outra coisa, e única: um tecno-blues. Muitos tentam imitar, principalmente na Alemanha, mas o nome que realmente se destaca é o Wolfsheim, principalmente com a belíssima "Künstliche welten".


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Em “Black celebration”, junto à faixa-título, “Stripped” com sua batida algo tribal, remetem a um ritual: a celebração negra e despida da melancolia. O negro é a fase inicial da alquimia (derivada do hermetismo, que falaremos adiante). Depois se segue o branco, o vermelho e o arco-íris. Esse processo alquímico nos convoca para a necessidade da "obra em negro", precisa-se passar por ela para continuar a jornada.

Tangiversemos sobre o tema da melancolia. Ela não é exaltada só pelo Depeche Mode na música pop. Temos toda a história do blues, o já citado Johnny Cash, The Smiths, The Cure etc. Na literatura: o romantismo gótico, de certa forma o existencialismo (principalmente na vertente “absurdista” de Albert Camus) etc. Na pintura, Botticelli e Dürer. Nesse último, ressalta o quadro justamente chamado “Melancolia I”:




http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/18/D%C3%BCrer_Melancholia_I.jpg/464px-D%C3%BCrer_Melancholia_I.jpg
"Melancolia I" Dürer

O quadro acima tem uma grande inspiração hermética, a filosofia mística baseada na figura de Hermes Trimegisto. Temos lá o quadrado mágico (todas as somas dão 34), a mulher usa uma coroa de acácias e segura um martelo – símbolos maçônicos – e, a escada e a pedra talhada, são símbolos da iluminação iniciática, complementado pelo arco-íris. Existem outros símbolos e interpretações possíveis, mas vamos bastar por aqui: a melancolia que leva à iluminação. Aristóteles, Paracelso, Agrippa, Jacob Böhme etc eram teóricos entusiastas da relação da melancolia com o aumento das faculdades psíquicas e como encontro com Deus. A partir do século XVII, apesar dos esforços de Spinoza, a melancolia é considerada doença grave.

Voltando ao Depeche Mode, o álbum seguinte, “Music for the masses”, pressagiado pelo título, ganha fama mundial e torna o single “Strangelove” um megahit.




E então vem o minimalista “Violator”.

O álbum tem na capa uma imagem de violeta:

Capa de “Violator”

O duplo violador/violeta expressa bem o tema da banda: dor e beleza. O primeiro single, “Personal Jesus” teve como estratégia de divulgação a pergunta na mídia: “Você quer encontrar o seus Jesus pessoal?” , e em seguida, fornecia um número de telefone que tocava repetidamente a canção, que tinha guitarras e apresentava uma mudança no som da banda, dialogando mais com instrumentos acústicos, sempre junto com os sintetizadores.

“Violator” é o álbum de maior sucesso do Depeche Mode, principalmente pelo segundo single: “Enjoy the silence”. É o maior sucesso da banda e a preferida dos fãs. É comum ver enquetes na internet: “qual a sua música preferida do Depeche Mode depois de ‘Enjoy the silence’?”. Seja no show da banda, seja em festas, ou em pistas de dança tanto de roqueiros alternativos, mauricinhos e ravers, a música é um hino e comove multidões. Qual será a singularidade de “Enjoy the silence”?

Em primeiro lugar, obviamente, a canção é excelente. Mas vejamos outros aspectos:

Na história do Depeche Mode, é comum os álbum trazerem ao menos uma canção mais intimista cantada por Martin Gore e não pelo vocalista principal, Dave Gahan, dono de uma voz mais grave e potente. “Somebody” e “A question of lust” são bons exemplos. “Enjoy the silence” seria uma delas, mas Alan Wilder fez uma linha de baixo sintetizada e deixou a música dançante. Estava pronto o hit, mas Martin só aprovou depois de deixar a versão original registrada no lado B do single. Estava ali toda a potência depechemodiana: o intimismo de Gore, a potência vocal de Gahan, a produção de Wilder e os teclados de Andy Fletcher, além de também ter um tom ritualístico.

A letra começa assim:

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm”
(“Palavras como violência
Quebram o silêncio
Vem destruindo
O meu mundinho
Doloroso para mim
Perfura através de mim
Você não consegue entender
Oh, minha garotinha

Tudo o que eu sempre quis
Tudo o que eu sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são bem desnecessárias
Elas podem só machucar
”)

Martin descreve um silencioso e romântico abraço, as palavras e os ruídos do mundo atrapalham esse momento. O silêncio é extremamente relevante para uma alteração de consciência, seja ritualística ou não. Tanto o Taoísmo - que fala do Tao enquanto um "vazio pleno" (idéia que reaparece na física quântica, o "vazio" quântico possui propriedades) - quanto o Budismo evocam o silêncio medidativo.

No clip, Dave Gahan aparece como um rei que caminha por paisagens belas, gélidas e solitárias.


Cena de "Enjoy the silence"
Em uma coletânea de remixes, Shinoda do Link Park faz uma versão da música cujo clip mostra as relações de natureza e cultura, já que executivos numa empresa vêem seus computadores serem invadidos por plantas:

Cena de “Enjoy the silence 2004


Mas a música-hino das almas desoladas ainda encontraria mais um mistério: sua profunda ressonância com o poema-hino das almas desoladas: “The waste land” de T. S. Eliot. Seguem-se trechos selecionados da obra-prima de Eliot:

“Looking into the heart of light, the silence.”
(“Ao inquerir o coração da luz, o silêncio.”)
“The chance of Philomel, by the barbarous king
So rudely forced;"
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(“De Filomena, tão rudemente violada
Pelo bárbaro rei;”)
“And puts a Record on the gramophone.
‘This music crept by me upon the waters’”
(“E põe um disco na vitrola.
‘Esta música ondula junto a mim por sobre as águas’”)
“There is not even silence inthe mountains”
(“ Nem o silêncio vibra nas montanhas”)

Assim como o Princípio do Ritmo, mais uma vez no hermetismo, ou no conceito de máquina abstrata em Deleuze e Guattari, temas em ressonâncias como silêncio, reis, violação e montanhas se encontram no tempo: o que era poema em T. S. Elliot se desdobra em música, letra, álbum e vídeo com o Depeche Mode. Ainda o trecho “Only at nightfall, aethereal rumours”/(“somente ao cair da noite é que eternos rumores”) vai ressoar com “Waiting for the night”, ainda de Violator e todas as referências ao quadro “Jardim das delícias” de Bosch ocultas no poema,

http://www.penwith.co.uk/artofeurope/bosch_garden_earthly_delights.jpg
"Jardim das delícias" Bosch
vão aparecer, de certa forma, no clip de do single de “Walking in my shoes” do álbum seguinte, “Songs of faith and devotion”:

Cena de “Walking in my shoes”

“Violator” ainda teria um terceiro single de muito sucesso, “Policy of true” e um quarto, “World in my eyes”, tema que também remete ao hermetismo, principalmente no Princípio de Correspondência: o que está em cima é o mesmo do que está embaixo, que ressoa com a conceituação que o filósofo Leibniz vai fazer da hermética mônada, “espelho vivo e perpétuo do universo”. O tema é recorrente na história do pensamento: as relações entre o micro e o macro. Também estão presentes na ciência,: a física da teoria do Caos evidencia matematicamente relações na natureza onde o muito pequeno e o muito grande se assemelham : os chamados fractais. (Ver o meu texto: "Fractais quânticos monádicos" neste blog - arquivo do blog: fevereiro). Este tema vai retornar, como veremos, na música "Macro"

Imagem de fractais


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A turbulência da turnê de “Songs of faith and devotion”, as drogas e ressacas vão fazer que Alan saia da banda , Martin tenha uma série de convulsões e Dave quase morra de overdose de heroína. Das cinzas, o agora trio lança “Ultra”, “Exciter”, com a bela canção de ninar “Goodnight lovers” e, em seguida, “Playing the angel”, onde se destaca “Precious”. Na letra de “Macro”, Martin canta temas herméticos-cosmológicos:

“Whispering cosmos
Talking right to me
Unlimited, endless
God breathing through me

See the microcosm
In macrovision
Our bodies moving
With pure precision
One universal
Celebration
One evolution
One creation”
(“Cosmos sussurrante
Falando comigo
Ilimitado, Infinito
Deus respirando através de mim

Veja o microcosmo
Pela macrovisão
Nossos corpos se movendo
Com pura precisão
Uma celebração universal
Uma evolução
Uma criação
”)

Este ano o Depeche Mode lançou seu mais recente álbum, “Sounds of the universe”. Pelo título do álbum, já percebemos que o tema de “Macro” retorna em “Little soul” e em “Perfect”:

“on another world by another star at another place and time
in another state of consciousness in another state of mind
(…)
in a parallel universe that's happening right now”
(“em outro mundo, outra estrela em outro lugar e tempo
em outro estado de consciência em outro estado de espírito
(...)
em um universo paralelo que está acontecendo agora mesmo
”)

Também aparece “Jezebel”, que, de todas as canções depechemodianas de desilusões amorosas, esta aparece com um pouco de maior consciência diante da histérica, no sentido freudiano:

“They call you Jezebel
For what you like to wear
You're morally unwell
They say you never care for me
But what the fail to see is that your games are the key
(…)
Whenever men walk by
They say that they can tell
The longing in your eyes is real
and how you really feel
But they can't see your appeal”
(“Eles te chamam Jezebel
Não importa o que você vista
Você está sendo imoral
Eles dizem que você nunca se importou comigo
Mas o que eles não perceberam é que seus jogos são a chave”
(...)
não importa que um homem passe por você
eles dizem que podem ver
que o desejo nos seus olhos é real
e como você realmente se sente
mas eles não podem ver a sua súplica”)

A “Tour of the universe” tem início, mas no terceiro show, Dave Gahan adoece e é operado. Parece que o caminho tortuoso continua, como uma nova música (quarto single) se auto-explica: “Fragile tension”. Fica a questão: depois de quase 30 anos de carreira, o Depeche Mode vai continuar com os temas melancólicos? A redenção nunca vai chegar? No primeiro single, “Wrong”- cujo clip remete ao filme “Jogos mortais” - parece que Martin faz uma sequência dos que há de pior em sua vida:

“I was born with the wrong sign
In the wrong house
With the wrong ascendancy
I took the wrong road
That led to the wrong tendencies
I was in the wrong place at the wrong time
For the wrong reason and the wrong rhyme
On the wrong day of the wrong week
I used the wrong method with the wrong technique”
(“Eu nasci com o signo errado na casa errada
Com ascendência errada
Eu peguei a estrada errada
Que levou para
As tendências erradas
Eu estava no lugar errado na hora errada
Pela razão errada e a rima errada
No dia errado da semana errada
Usando o método errado com a técnica errada
”)

Mas no final, a letra dá uma pista:

“With the wrong tune played till it sounded right”
(“Com a nota errada tocada até que soe certa”)

Depois desse revisionismo de “Wrong”, com um final que clama uma guinada, eis que a redenção finalmente surge no segundo single, “Peace”. Com uma musicalidade que remete aos anos 80, mas mantendo pitadas do experimentalismo atual da banda, nessa canção o Depeche Mode se mostra otimista, e querendo mostrar isso para o mundo. A celebração negra finalmente consegue seu intento. Segue a letra na íntegra:

“Peace will come to me
Peace will come to me

I’m leaving bitterness behind
This time I’m cleaning up my mind
There is no space for the regrets
I will remember to forget

Just look at me
I am walking of incoming
Look at the frequencies of which I vibrate
I’m going to light up the world

Peace will come to me
Peace will come to me

I’m leaving anger in the past
With all the shadows that it caused
There is radar in my heart
I should have trusted from the start

Just look at me
I am a living act of holiness
Giving all the positive virtues that I possess
I’m going to light up the world

Peace will come to me
(Just wait and see )
Peace will come to me
(It's ment to be)
Peace will come to me
(Just wait and see)
Peace will come to me
It’s inevitability”
(“A paz virá até a mim
a paz virá até a mim
eu estou deixando toda a amargura pra trás
não há lugar para arrependimentos
eu vou me lembrar de perdoar
só olhe pra mim
eu estou a caminho do que virá
veja com que freqüência eu vibro
eu vou iluminar o mundo
A paz virá até a mim
a paz virá até a mim
eu vou deixar a raiva no passado
junto com todas as sombras que eu causei
há um radar no meu coração
eu deveria ter confiado desde o começo
olhe pra mim
eu estou vivendo um ato sagrado
eu estou oferecendo todas as virtudes positivas que eu tenho
eu vou iluminar o mundo
A paz virá até a mim
Espere e veja
a paz virá até a mim
Era pra acontecer
A paz virá até a mim
Espere e verá
a paz virá até a mim
É inevitável”)