CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 19 de setembro de 2009

ONTOLOGIA ONÍRICA

hermetismo, diferença e ciência em Philip K. Dick



Este texto refere-se ao ciclo "Civilização em Transição"


A teoria modifica a realidade que descreve.

Philip K. Dick


Somos dessa matéria de que os sonhos são feitos.

William Shakespeare


Ele não sabe mais se foi Zhou que sonhou que era uma borboleta, ou se foi uma borboleta que sonhou que era Zhou.

Chuang-tse



http://1.bp.blogspot.com/_WqghKZ10m1E/SHPNsmEN7pI/AAAAAAAAAbU/Hn5bq3y2fjg/s400/The+harbour.jpg

"The Harbour" Jacek Yerka


Nelson Job sonha que está escrevendo este texto. Naquele universo, existe uma carência em relação à teoria dos sonhos. Se o freudismo limitou o sonho ao desejo e ao sujeito, Jung (1961), por sua vez, expande o sonho ao Inconsciente Coletivo, mas não desenvolve uma técnica para lidar com o material onírico que não seja limitada à interpretação. Porém, ele afirma, sem desenvolver que sonho é natureza. O que seria a natureza dos sonhos?


Cornélio Agrippa (2008) em 1531 escreve: “Chamo de sonho, aqui, aquilo que é causado pelas influências celestiais no fantástico espírito, mente ou corpo, se estão todos bem dispostos (...) portanto, não pode haver uma regra comum para todas as interpretações de sonhos”. Não havendo regra para a interpretação de sonhos, como deve-se operar?


O esquizoanalista Félix Guattari (2003), à partir de considerações sobre os sonhos de Kafka, propõe utilizar a “pragmática” kafkaísta do sonho na clínica, enfatizando, ao contrário das “interpretações”, os pontos de singularidade dos sonhos, onde este se torna mais surrealista, para engendrar a partir deles novas formas de existência. Assim, os sonhos não são para ser sobrecodificados, ou seja, não são para se “extrair” uma informação “por trás” de suas imagens, e sim, utilizar tais imagens para impelir a criação de novos sentidos para a vida, ou seja: creditar realidade ao sonho.


Se Agrippa tem como um dos principais inspiradores Hermes Trismegisto, Guattari extrai da Ética espinozista grande influência para a sua esquizoanálise. Vejamos as ressonâncias desses quatro e outros autores.


Hermes Trismegisto é uma figura mítica, cuja realidade é um mistério. O que se pode dizer, baseado em indicadores históricos e esotéricos, que o hermetismo (WESTCOTT-2003) tem a suas bases no Egito Antigo e Mesopotâmia em torno de 1800 aC., tem um desenvolvimento na helenismo e uma grande disseminação na Europa no período medieval. O hermetismo tem como principal conceituação os sete princípios:


O Princípio de MentalismoTudo é mente e a matéria é força mental coagulada.


O Princípio de VibraçãoTudo está em movimento, tudo se move, tudo vibra.


O Princípio de RitmoTudo tem fluxo e refluxo, um movimento para frente e para trás.


O Princípio de PolaridadeTudo tem o seu oposto, o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza.


O Princípio de Correspondência – O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Existem três grandes planos: o físico (matéria, substância etérea e energia), o mental (mineral, elemental, vegetal, animal e hominal) e o espiritual, sendo que os sete princípios se encontram em todos eles.


O Princípio de Causa e EfeitoToda a causa tem o seu efeito. Os estudiosos de hermetismo conhecem os métodos da elevação mental a um plano superior onde tornam-se apenas causadores, e não efeitos.


O Princípio de GêneroTudo tem o seu masculino e o seu feminino. Não devemos aqui fazer uma relação antropocêntrica. Estes princípios se assemelham mais com a complementariedade de yin e yang no Taoísmo.


O hermetismo ressoa na história do pensamento, mas na Idade Média, a santa inquisição tentou eliminar toda a prática pagã. Com isso, o hermetismo se tornou maldito, sobrevivendo nas entrelinhas da filosofia: Plotino, Spinoza, Leibniz e em práticas “ocultas” como a astrologia e a alquimia. Hoje, devido aos estudos de historiadores da ciência como Allen Debus e Betty Jo Teeter Dobbs (COHEN e WESTFALL – 2002) sabemos que a astrologia se desdobrou em química e a astrologia em astronomia. Se o hermetismo ganhou precisão se “transformando” em ciência, perdeu em reflexão, pois os pensadores herméticos relacionavam profundamente o experimento e a reflexão filosófica. Existe um debate entre os estudiosos de Newton sobre o grau de influência que a alquimia exercia nos seus tratados científicos. Os princípios ativos que operam entre as pequenas partículas da matéria na Óptica de Newton são idênticos ao de seus escritos alquímicos. Porém, é na primeira edição do Principia, em 1687 que consta a afirmação mais evidente: “Qualquer corpo pode ser transformado em outro de qualquer natureza, e todos os graus intermediários de qualidades podem ser induzidos nele.” Apesar de Newton ter retirado esta afirmação das edições seguintes, os estudiosos em geral concluem que esta crença se manteve até o fim. (Para uma maior reflexão em relação ao hermetismo e sua contribuição para a ciência, ver "Hermetismo em Aberto").


Uma outra ressonância curiosa com o pensamento hermético é a chamada Filosofia da Diferença. Segundo o filósofo Gilles Deleuze (2006a) essa filosofia pretende “tirar a diferença de seu estado de maldição”; não mais subordinar a diferença à oposição, analogia, semelhança, negação, identidade, ou seja, todos os aspectos da mediação e da representação – assim chegamos à diferença pura. Não é inscrever a diferença no conceito em geral. A diferença é afirmação. A filosofia da diferença não tem pressupostos, é um pensamento sem imagem. Não é uma questão de dado, e sim, de como o dado é dado. (Para uma ampla arbodagem da Filosofia da Diferença, com todos os seus principais autores e conceitos, ver o texto “Devires” e para uma relação dos conceitos de Deleuze como hermetismo do Tarô, vide "Deleuze e o Tarô" ambos neste blog.)


Criticando Platão, que colocava o simulacro como algo menor que as idéias, Deleuze funda um outro conceito de “idéia” em que esta deixa o estatuto da transcendência (mundo das idéias) rumo a uma imanência, bem ao modo espinozista. A idéia faz parte do simulacro e a ontologia de Deleuze é a do simulacro. Os itens do sistema do simulacro, em que “o diferente se refere ao diferente pela própria diferença” são 7. Manuel Delanda (2004), num livro sobre os conceitos de Deleuze e sua interface com uma ciência “menor”- não com a Royal Science - chamado “Intensive Science and Virtual Philosophy”, afirma sobre a lista ontológica de Deleuze que “o virtual, o intensivo e o atual são aspectos de um único mesmo processo, ou diferentes momentos de uma cascata de progressiva diferenciação”.


Vamos citar e conceituar os 7 itens colocando os outros conceitos que se sobrepõem ao longo da obra de Deleuze, segundo Delanda, ou seja, Deleuze utilizou conceitos semelhantes ao longo de sua obra, mas de acordo com cada problema, ele modificava um pouco o conceito, mudando inclusive seu nome. Os termos que vamos eleger para usarmos neste trabalho estarão em negrito, os outros estarão em itálico e, em seqüência, vamos conceituá-los. Precisamos lembrar que os 7 itens fazem parte de um processo de diferenciação em que o virtual é todo o tempo existente e o atual é esse tempo contraído para a ação no sensório motor, como já vimos em Bergson. O intensivo, resumiremos aqui como diferenças que dirigem o fluxo de matéria-energia, sendo que Delanda (1997) nomeia como um só termo: matéria-energia-informação.


Lista Ontológica de Deleuze[1]:


Virtual: (Aion, o subjetivo)


1) Plano de Imanência- (o conjunto de todos os) Corpos sem Órgãos, continuum, plano de consistência: como a “substância” de Spinoza, a diferença pura, a velocidade infinita, onde tudo é totalmente livre. O plano coexiste com o caos e não pode ser pensado sem ele. Deleuze e Guattari (2002) pensam o tempo da filosofia como coexistência de vários planos, sem eliminar o antes e o depois, “o” plano que unifica todos seria o espinozista (substância). O plano é pré-filosófico, lembrando que desde Hume os conceitos (próximo item), que emergem do plano, são coisas. No Taoísmo, seria o “tao”.


2) Multiplicidades- séries disparatadas, conceitos, objetos parciais, eventos ideais, singularidades nomádicas, atributos noemáticos e essências vagas: entendida como substantivo, não como atributo ou adjetivo. Diferença de diferença produzindo divergência e descentramento.


3) Máquinas abstratas- linha de fuga, precursor sombrio, objeto = x, desterritorialização absoluta, nonsense, quase-causa, aleatório, personas conceituais e ponto paradoxal: é o que assegura a comunicação das séries divergentes; é uma criação entre o rígido e o excessivamente livre. Segundo Guattari (1988): “Nem a idéia platônica transcendente, nem a forma aristotélica adjacente a uma matéria amorfa, estas interações desterritorializadas, abstratas ou, mais resumidamente, estas máquinas abstratas, atravessam diversos níveis de realidade, fazem e desfazem estratificações. Não se agarra a um tempo único universal, mas a um plano de consistência, trans-espacial e trans-temporal, que afeta um coeficiente relativo de existência.”


Intensivo:


4) Ressonância- movimentos forçados e ligação mutuamente estimulada. Para Delanda é também o que alguns cientistas chamam de campo morfogenético[2]: um catalizador, o momento da convergência. Gilbert Simondon, autor presente ao longo da obra de Deleuze, é fundamental para compreender o conceito de ressonância: “o que Simondon elabora é toda uma ontologia, segundo a qual o Ser nunca é Uno: pré-individual, ele é mais que metaestável, superposto, simultâneo de si-mesmo; individuado, ele é ainda múltiplo porque ‘polifasado’, ‘fase do devir que conduzirá a novas operações’ (DELEUZE-2006b).


5) Mônadas- auto-organização, dinamismo espaço-temporal, sujeito larval, eu passivo, afectos e pré-atualização: estamos considerando obviamente a conceituação deleuziana de mônadas, desenvolvidas a partir de Leibniz – a mônada como espelho vivo e perpétuo do universo – e Gabriel Tarde. Não podemos perder de vista que este conceito é sobreposto ao de auto-organização, como veremos, para além do vivente, consideramos auto-organizáveis inclusive os seres não-orgânicos.


Atual: (Cronus, o objetivo)


6) Molecular e molar- extensões e qualidades, substância e forma, epistratos e paraestratos e célula e espécie: na passagem para o atual, em Deleuze, existe uma dupla articulação que é simultaneamente da ordem da qualidade e da extensão – produz-se, por exemplo, a singularidade de um dado organismo, mas dentro de sua espécie.


7) Centro de Envolvimento- acréscimo de complexidade dos seres vivos: o desdobramento físico-químico, orgânico e cultural sem envolver um evolucionismo teleológico.


Se compararmos os 7 princípios do hermetismo e compararmos com os 7 itens da lista ontológica de Deleuze, veremos que existem entre elas uma profunda ressonância. O termo mônada é hermético e se transforma em conceito deleuziano intensivo, ou seja, passagem entre virtual e atual, o que quer dizer: passagem de níveis de densidade energéticas. O princípio do mentalismo, por exemplo, presente tanto na relação deus-mundo nos estóicos e na conceituação de Plotino que diz que o universo é contemplação, se mostra na substância de Spinoza a sua versão mais imanente: a substância é mente, é deus, é tudo o que existe e se produz. Deleuze vai apenas retirar o absoluto, o eterno para colocar a sua ontologia em um devir selvagem: tudo muda e a mudança muda: não existe nenhuma referencialidade definitiva. Se olharmos a substância de Spinoza pelo olhar deleuziano, Deus é devir!


Como fica esses conceitos herméticos e da diferença quando se relacionam com a ciência? É preciso lembrar que o hermetismo pensava em temas que são hoje objeto da ciência: o cosmos, a matéria, o movimento. Os 7 princípios do hermetismo e os 7 itens da lista ontológica de Deleuze vão encontrar uma profunda ressonância nos seguintes 7 conceitos científicos. A relação entre o princípio hermético da correspondência e os fractais já éfeito por estudiosos contemporâneos do hermetismo (CLANTON - 1997). (Para uma explicação detalhada da física quântica e da consciência quântica ver o texto “Diferenças emaranhadas” neste blog e para a relação conceitual de mônadas, fractais e colapso de onda ver “Fractais quânticos monádicos”.


Energia em velocidade infinita- energia sem forma e sem direção que compõe tudo o que existe. Na energia na concepção de Einstein a energia é matéria densa (ou no hermetismo o mundo físico é mente densa) e, para Delanda, tudo é energia-matéria-informação. A física quântica elimina a hipótese einsteniana que não existe nada mais rápido que a velocidade da luz (GREENE-2005).


Supercordas- a energia começa a vibrar, iniciando um processo de transformação que perpetuará. Na teoria das Supercordas, o universo é uma grande orquestra sem maestro cujas vibrações das ínfimas partes (as supercordas) geram todas as partículas que existem: prótons, nêutrons etc.


Atratores estranhos- forças-energia que envolvem um processo de formação de várias diferentes vibrações. (ver “atrator estranho” no seção “vídeos” da barra lateral deste blog) O termo “atrator estranho” foi cunhado na década de 70 por Ruelle e Takens a partir de observação de redemoinhos de fluidos dentro de redemoinhos, indefinadamente, até chegar na viscosidade do fluido não se identificando mais redemoinhos (GLEICK - 1989). Os autores conseguiram transformar os números em imagens através da sua representação em gráficos de espaço de fase, fornecendo uma visualização para a turbulência: “Os pontos vagueiam tão aleatoriamente, a configuração surge tão etereamente, que é difícil lembrar que a forma é um atrator. Não é apenas uma trajetória qualquer de um sistema dinâmico. É a trajetória para a qual convergem todas as outras trajetórias. É por isso que a escolha das condições iniciais não tem importância”. Uma boa imagem da formação de um atrator estranho seria a nuvem de pássaros – cada um em sua própria trajetória porém o todo é coeso e cada vôo individual otimiza o vôo coletivo – e a espuma se formando na superfície da xícara com café. (Ver texto “A Geologia da moral – uma interpretação neo-materialista” de Manuel Delanda. Nesse texto, Delanda faz a relação entre o conceito de Deleuze e Guattari de máquina abstrata com o atrator estranho da teoria do Caos). (Veja video de "atrator estranho" na seção "vídeos" na barra lateral).


Emaranhamento- a conexão de todo o cosmo evidenciado no item 1, agora conecta atratores de toda a espécie que se co-influenciam. Na física quântica, duas partículas que já entraram em contato alguma vez, podem gerar um estado de emaranhamento em que o que acontece com uma acontece também na outra simultaneamente, porém esse estado é muito delicado. O emaranhamento desmorona o limite da velocidade da luz na teoria da Relatividade.


Quantom- quase-objetos com formas paradoxais que têm características complementares de onda e partícula. “Quantom” é um conceito do físico e filósofo da ciência Mario Bunge (2000) que une os conceitos de onda vários estados quânticos de uma partícula) e partícula colapsada pelos efeitos quânticos em apenas uma “entidade física”. O quantom (ou colapso de onda) Pode-se relacionar-se também com o conceito de fractal na teoria do Caos. (ver “fractais” na barra lateral deste blog na seção “vídeos”).


Partículas- Etapa do processo de auto-organização: moléculas, corpos biológicos, celestiais, linguísticos etc.


Quintessência- as partículas (todos os corpos do item 6), continuam seu processo de devir. A “quintessência” é a instância aceleradora da expansão do universo. Faz parte da matéria escura, conceito misterioso da cosmologia que corresponde a maior parte do universo.


Se relacionarmos os 7 conceitos, na mesma ordem, no hermetismo, na filosofia da diferença e na ciência, veremos que nesses quase 4.000 anos de conhecimento, existe uma profunda relação que, no hermetismo é muito amplo, na ciência, muito específico e na Filosofia da Diferença permite-se fazer o trânsito entre tais saberes. A Filosofia da Diferença é a grande interface entre a sabedoria oculta antiga e a ciência e permite criar um saber mais amplo gerando um diálogo único na história do conhecimento. Já vimos sobre as influências alquímicas de Newton, mas as relações de grandes nomes da ciência com saberdorias antigas vai muito além. Podemos acrescentar também que o famoso físico Niels Bohr, um dos fundadores da física quântica, se entusiasmou com o Taoísmo (AUDOUZE, CASSÉ, CARRIÈRE - 1991), o outro grande fundador Schrödinger (1992) afirmava ser partidário da mente única dos Upanixades, filosofia antiga da Índia e o físico David Bohm, autor da teoria da onda-piloto na física quântica, paticipou de um debate público com Krishnamurti, o filósofo e místico indiano. Assista o vídeo


Na teoria das Supercordas, se concebe hipoteticamente que o universo passou por vários Big Bangs, e cada um deles gera leis da física diferentes, ou seja: um multiverso com universos paralelos diferentes. O físico Roger Penrose e o médico Stuart Hameroff (1996) têm um modelo de consciência quântica que postula um funcionamento quântico no cérebro. O que daria a noção de “consciência de eu” ou “auto-consciência” seria o emaranhamento quântico em várias áreas no cérebro. Descobertas recentes mostram que a fotossíntese, como nas bactérias verdes, envolvem emaranhamento quântico (MOYER - 2009): essa evidência corrobora a hipótese de Penrose e Hameroff.


Suponhamos que o emaranhamento possa acontecer em dois ou mais cérebros. Isso explicaria a sincronicidade de Jung (1991), a telepatia, a intuição etc. Mas, e se houvesse emaranhamento entre cérebros em universos paralelos? E se o meu sonho neste universo for a realidade minha no universo paralelo? O sonho seria o canal de passagem no mutiverso, ganhando um definitivo status de realidade: ontologia onírica! A resposta definitiva para a questão de Chuang-tse (CHENG-2008): ele era sábio em um universo e borboleta no outro...


Nelson Job sonha que está dando uma palestra sobre “ontologia onírca” em um universo paralelo. Lá, a grande questão é a relação do sonho com a literatura.


E quem relacionaria todas essas questões: hermetismo; Taoísmo, filosofia de Plotino, Spinoza, Leibniz, Bergson; teoria da Relatividade, física quântica; universos paralelos; estados múltiplos de consciência... e arte? Creio ter apenas uma resposta: o escritor de ficção científica norte-americano Philip K. Dick.


Philip Kindred Dick (1928-1982) teve uma vida conturbada (AMARAL – 2006), casando-se várias vezes, usando drogas pesadas, alucinógenas, resultando em surtos esquizofrênicos. Estudou da Universidade de Berkeley onde preferia os estudos sobre Pitágoras, Parmênides, Heráclito, os gnósticos, Hume, Spinoza, Leibniz, Bergson entre outros. Philip Dick se considerava um “filósofo ficcional”. Podemos dizer que sua obra é uma versão beat da ficção científica, que até então – década de 50 - era bem comportada, cujos nomes mais famosos eram justamente Arthur Clarke e Isaac Asimov. Philip Dick é um dos maiores nomes da “Nova Onda” da ficção científica, onde já se mostrava influências da contra-cultura dos anos 60. Em seus contos e romances, Dick tinha como temas a realidade e seus simulacros, as relações natureza-cultura, principalmente explicitada na questão homem-máquina. Dick também possuía um recorrente questionamento sobre deus, como veremos no comentário ao seu livro “VALIS”. Seus personagens, em geral, eram homens de classe média baixa, deprimidos, muitas vezes usuários de drogas e seus cenários, apesar de serem futuristas, geralmente retratavam um futuro sombrio e sem excessivos fetiches com naves, alienígenas, lasers etc. Pode-se considerar Philip Dick como o maior precursor da cultura cyberpunk, cujos maiores expoentes são o livro “Neuromancer” de William Gibson, na literatura de ficção científica, que por sua vez inspirou o maior expoente cyberpunk no cinema: o filme “Matrix”. Na música, temos vários grupos que combinam música eletrônica, rock e roupas de couro no cenário musical, que tendem ao underground. Philip Dick é mais conhecido do grande público pelas adaptações cinematográficas de suas obras: “Blade Runner”, “Vingador do futuro”, “Minority Report”, “O Homem Duplo” etc.


http://www.seanax.com/wp-content/uploads/2009/04/bladerunner.jpg
"Blade Runner" Ridley Scott


No conto “A Formiga Elétrica” (DICK – 2002) (ver neste blog, na barra lateral, na seção vídeos: "a formiga elétrica"), que podemos comparar com “A Metamorfose” de Kafka, Garson Poole acorda em um hospital depois de sofrer um acidente e lá é revelado a ele que é uma formiga elétrica, um andróide que é programado para achar que é um ser humano. A partir daí, Poole faz uma série de experimentos com sua “fita de memória” – análoga ao cérebro humano – onde ele volta no tempo, muda cenários e “se desliga” para ser novamente ligado até “morrer”. No ato de sua morte ele pergunta para a sua secretária se ela vai deixar de existir, pois o mundo dele poderia ser falso, quando ele realmente começa a desaparecer e só “os ventos continuam soprando”.


Num dos maiores contos da ficção científica, Philip Dick nos traz uma abordagem perspectivista onde o humano para o andróide é memória e o andróide para o próprio andróide seria humano, pelo menos até a imposição humana de sua “nova” condição. A partir daí, o antigo humano, para os humanos se torna andróide. No mundo que o andróide exprime, em sua morte, todo um mundo morre. Será sua secretária apenas uma memória implantada? E, caso ela fosse apenas uma memória, ela seria real, ou seja, a memória “falsa” teria um estatuto de realidade? E ele próprio, seus sentimentos, suas vivência íntimas?


No livro “VALIS”, Philip Dick (2007) nos apresenta Horselover Fat, cuja revelação divina o leva lentamente à loucura. O nome é um brincadeira com a etimologia de Philip Dick, jogo assumido ao final do livro: “Philip” em grego e “Horselover” em inglês como “amante de cavalos” e “Dick” em alemão e “Fat” em inglês significando “gordo”. O próprio autor é narrador e personagem do romance, onde se revela que o personagem Fat é apenas um delírio dele, uma “personalidade falsa”. VALIS é conceituado logo no início do livro como: “uma perturbação no campo da realidade no qual um vórtice negentrópico automonitorador espontâneo é formado, tendendo progressivamente a subsumir e incorporar seu ambiente em combinações de informações.” Numa obra que combina, como vimos, teoria da informação e teologia, além de Jung, Spinoza, Heráclito, T. S. Eliot, Crick e Watson (relacionando-os com hermetismo), animismo e números de Fibonacci, Dick nos leva a uma jornada onde não sabemos o limiar de ficção e realidade, loucura e sanidade, ciência e religião. Sabendo que o autor realmente relata que teve uma visão divina em 1974 e a relatava em um manuscrito até hoje mantido parcialmente inédito chamado “Exegese” (1995) (ver os quadrinhos : “A experiência religiosa de Philip K. Dick” de Robert Crumb) – tal qual o personagem Horselover Fat. Philip Dick introduz o leitor em seu universo, fazendo-o partilhar de suas angústias em relação a deus, realidade, morte etc.


Se Kafka, no início do século XX confunde a antes confortável separação leitor-obra, colocando personagens com suas inicias como K. ou Joseph K. e trazendo um questionamento dos limites da realidade, da verdade etc e Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges elevam essa idéia a um conceito literário constantemente aplicável, brincando todo o tempo com “a passividade do leitor”, em Dick, a relação ficção-realidade é questionada de várias formas e o que é estilo literário para uns autores, para ele é um desespero, uma inevitabilidade. Em “VALIS”, personagem e escritor são o mesmo e, a partir de relatos biográficos e auto-biográficos sabemos que a “alucinação” sobre VALIS e a escrita de “Exegese”, a internação, a problemática com a realidade são pertencentes ao livro enquanto ficção e à vida de Dick enquanto realidade. Mais ainda: utilizando os pensamentos, oriundos sejam da ciência, filosofia, ocultismo ou religião, ele nos põe a pensar sobre a problemática da realidade com consistência filosófica. Se no magistral artigo “How to Build a Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later”, Philip Dick relaciona a disparidade entre Heráclito (tudo muda) e Parmênides (tudo permanece) para afirmar que a realidade não existe, podemos dizer que a realidade é múltipla, diminuindo um pouco a paranóia proposta por ele. Para Dick , “realidade é tudo que continua quando você deixa de acreditar nela”.


Em um conto claramente inspirado no gnosticismo, “A fé dos nossos pais”, Philip Dick (2002) nos mostra um empregado do governo que recebe uma dose de medicação anti-alucinação e começa a ver que o líder nacional é um monstro sem forma definida. Descobre depois, junto a um grupo subversivo, que outras pessoas que tomam o medicamento vêem o líder de outras formas e a água do país está contaminada de alucinógenos para todos verem apenas o líder, ou seja: para Philip Dick a verdadeira realidade é múltipla, o controle da realidade é para transformá-la em única e a partir daí, manipular as pessoas. O autor considera esse conto, segundo sua “Exegese”, o melhor exemplo em sua obra da solução dos problemas da realidade, ao lado de seu romance “A penúltima verdade” (DICK - 1964) que descreve uma população toda vivendo no subsolo da Terra convivendo com imagens falsas feitas pelo governo, onde se vê uma Terra devastada. Porém a terra está intacta e desfrutada por uma elite. Ele afirma, baseado no filósofo empirista David Hume e em Henri Bergson, que o tempo é múltiplo, coexistente e que as relações de causa e efeito são falsas, o problema e a solução acontecem simultaneamente, então, para alcançar a solução seria toda uma questão de refazer o problema, recriar a realidade. Em “Ubik”, Dick (2009) dá uma definição de um produto comercializável presente em todo aquele (micro)cosmos - um mundo onde as pessoas vivem em animação suspensa, mas em uma realidade própria em que convivem umas com as outras e os vivos “do lado de fora” são vivenciados como deuses ou fantasmas – da seguinte forma: “Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou a verbo e meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu sempre serei”.


A questão das drogas é uma outra grande temática na obra de Dick. Em sua obra-prima “Vazio Infinito”, Philip Dick (1974) nos apresenta Jason Taverner que acorda em um mundo onde ele não existe. Sua namorada, amigos etc não o reconhecem e não existe nenhum registro de sua existência. (Atenção: spoiler!) O enigma se resolve com a explicação da droga KR-3 que altera a percepção cerebral do espaço... ontologicamente. Segundo Dick, “Vazio Infinito” relata uma cena que aconteceria com ele depois, evidenciando mais uma vez a sua experiência VALIS e a coexistência dos tempos.


Em outro romance de Dick (1985), “O homem do castelo alto”, conhecemos uma realidade alternativa onde os alemães ganharam a Segunda Guerra e os EUA estavam habitados por vários japoneses, que eram a elite econômica. Tem-se notícia de um livro pirata, confiscado, cujo autor joga o I Ching para tomar as decisões sobre cada personagem que diz de uma realidade alternativa onde os aliados venceram. Obviamente, Philip Dick (1995) nos relata que o seu livro foi escrito com o auxílio do I Ching e nos sugere jogá-lo para perguntar sobre fatos e coisas que supostamente não existem... Assim como Chuang-tse, Dick estabelece uma relação intrínseca entre universos paralelos!


Penrose e Hameroff, em seu modelo de consciência quântica, afirmam que o sonho possuem pouco colapso de onda (ou, na reconstrução dos autores da física unificada: redução objetiva) em relação à vigília normal, e a meditação budista e as drogas psicotrópicas aumentam em muito os fluxos de colapsos de onda quânticos. Em outras palavras: considerando o colapso de onda como ontológico, já que é um fenômeno físico, o sonho, os processos mentais na meditação e os efeitos de drogas ganham estatuto de (mais) realidade! Diante de tudo isso, o sonho parece ter 3 características: a de ser uma coexistência no tempo – tanto envolvendo o passado e o futuro – uma referência a algum universo paralelo e com algum significado afetivo, talvez o que alimente o emaranhamento, e o que legitima alguma (suave!!!) interpretação. Mas a abordagem do sonho, clínica ou pessoal, diante dessas idéias, devem levar em conta uma ressonância com algo real, mesmo que este “real” tenha uma gradação ínfima.


Nelson Job sonha que está deixando de existir naquele universo, mas em tempo de continuar esta proposta continuamente em outro blog, "Druam", e de dedicar esta jornada a Philip K. Dick, Guimarães Rosa, Arnaldo Baptista, Syd Barret, Spinoza, Nietzsche, Siddarta Gautama, Glauber Rocha e a todos aqueles que vislumbraram coisas grandes demais e fizeram um esforço inigualável para nos relatar algo desta experiência.



http://mandylee.net/wp-content/uploads/2009/07/dave-mckean.-sandman.-001-600x869.jpg
"Sandman" Dave Mckean


Bibliografia

AGRIPPA DE NETTESHEIM, Henrique Cornélio, 2008, Três livros de Filosofia Oculta. 1 ed. Madras editora, São Paulo.

AMARAL, Adriana, 2006, Visões Perigosas – uma arque-genealogia do cyberpunk. 1 ed. Porto Alegre, Editora Sulina.

AUDOUZE, Jean, CASSÉ, Michel, CARRIÈRE, Jean-claude, 1991, Conversas sobre o Invisível - especulações sobre o universo. 1 ed. São Paulo, Ed. Brasiliense.

BUNGE, Mario, 2000, Física e filosofia. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.

CLANTON, Amy, 1997, Art, Science and Wholeness. in: http://www.hermeticgoldendawn.org/hogdframeset.html

CHENG, Anne, História do Pensamento Chinês, Editora Vozes, Petrópolis, 2008.

COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.

DELANDA, Manuel, 1997, A Thousand Years of Nonlinear History., 4 ed. New York, Ed. Swerv.

__________________ 2004, Intensive science and virtual philosophy. 2 ed. Continuum, London.

DELEUZE, Gilles, 2006a, Diferença e Repetição, 2 ed. São Paulo, Graal.

_______________ 2006b , A Ilha Deserta. 1 ed. São Paulo, Ed. Iluminuras.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1992, O que é a filosofia? 1 ed. São Paulo, Ed. 34.

DICK, Philip K., 1964, A penúltima verdade. 1 ed. Portugal Ed. Europa-América.

______________1974, Vazio Infinito (Flow my tears, the policeman said). 1 ed. Portugal, Publicações Europa-América.

______________ 1985, O homem do castelo alto. 1 ed. São Paulo, Ed. Brasiliense.

______________ 1995, The Shifting Realities of Philip K. Dick - Selected Literary and Philosophical Writings. First Vintage Books Edition.

_____________ 2002, Minority Report – a nova lei. 1 ed. Rio de janeiro, Ed. Record.

_____________ 2007, VALIS. 1 ed. São Paulo, Editora Aleph.

_____________ 2009, Ubik. 1 ed. São Paulo, Editora Aleph.

GLEICK, James, 1989, Caos- A criação de uma Nova Ciência, 9 ed. Rio de janeiro, Ed. Campus.

GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.

GUATTARI, Félix, 1988, O Inconsciente Maquínico – Ensaios de Esquizoanálise. 1 ed. Campinas, Papirus.

________________, Os 65 sonhos. in: Mais! Folha de São Paulo de 16 de fevereiro de 2003.

JUNG, C. G., 1961, Memórias, sonhos, reflexões. 1 ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira.

___________ 1991, Obras completas vol. VIII – A Dinâmica do Inconsciente. 2 ed. Petrópolis, Vozes.

MOYER, Michael, "Poder verde" in: Scientific American Brasil 89, Outubro de 2009.

PENROSE, Roger e HAMEROFF, Stuart,1996, Orchestrated reduction of quantum coherence in brain microtubules: a model of consciouness. 1 ed. in: Hameroff, Kaszniak e Scott (org.) Toward a science of consciousness – the first Tucson discussions and Debates. Massachusetts Bradford Book – The MIT Press.

SCHRODINGER, Erwin, 1977, O que é Vida? 1 ed. São Paulo, Editora Unesp.

SHELDRAKE, Rupert, 1991, O renascimento da natureza. 1 ed. São Paulo, Cultrix.

WESTCOTT, William Wynn (org), 2003, Coletânea Hermética. 1 ed. São Paulo, Madras.



[1] - Segundo Delanda (2004), os itens 4 e 7 estão em sobreposição: 4 – algo de virtual no intensivo e 7- algo de intensivo no atual.

[2] - O conceito de campo morfogenético foi trabalhado, entre outros, pelo biólogo e filósofo Rupert Sheldrake (1997), que afirma que, por uma causação formativa, os seres vivos vão se complexificando e esta complexidade permite que a mesma seja alcançada pelos seres vivos em qualquer lugar uma vez acontecida, em função deste campo. Apesar de algumas evidências, o conceito de campo morfogenético é ainda considerado uma especulação científica. Mas não há garantia na ressonância, pois ela pode estabelecer uma rede que fomenta o nazismo, ou processos libertários, como maio de 68. As potências éticas aqui, são necessárias.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A HISTORIA DO TERROR NA LITERATURA E NO CINEMA – DO INICIO ATÉ OS DIAS ATUAIS

(Um breve resumo)

*-Este texto pertence ao ciclo "Civilização em Transição"

Autora: Sandra Maia


Definição de monstro: do latim monstrum é o nome dado a uma criatura de aspecto aterrorizante.

Geralmente encarna a criatura do mal. Qualquer ser com forma diferente ou desconhecida.


Hoje em dia vivemos sob a pedagogia do terror. O terror e o medo nos são imposto dia a dia. Por vivermos em condição de medo e insegurança apostamos em soluções humano-militares para dar fim a crise que abala grandes metrópoles. Quando deparadas com um enfrentamento herói/vilão sente-se prazer e exercemos o sadismo de forma sublimada. Mesmo que na imaginação, ao vermos um filme de terror assumimos o papel heróico do enfrentamento do mal. É a transformação do medo em coragem, A injeção de adrenalina que nos faltava para virar o herói-salvador.


Para fugirmos da crueldade do dia a dia buscamos nos filmes de terror um conforto. Aquilo não existe, é uma fuga da realidade, onde podemos negar o medo e sermos heróicos.

Freud escreveu em 1922 em "O Futuro de uma ilusão":- "O estado proíbe ao individuo a pratica de atos infratores, não porque deseja aboli-los, mas porque quer monopolizá-los".

Todos queremos ter o controle, mesmo que não saibamos, a ficção nos ajuda nisso.

Todos querem combater os monstros sejam eles fictícios ou reais.

Quem são os monstros?

Podemos chamar de monstros os seriais killers, assassinos famosos, estupradores. Na medicina, as deformidades físicas transformam os seres em monstros, assim como as doenças degenerativas, lepra é um exemplo.


Em 1826 no Egito, na tumba de Hermópolis, o arqueólogo Ettiene Geoffroy Saint-Hilaire descobriu o que ele chamou de um monstro embalsamado. Hoje se sabe que era só uma criança com deformidades físicas. A denominação dada ao estudo das deformidades físicas no séc.XIX era "o estudo dos monstros".

Foucault se referia a palavra para definir os loucos internados em asilos. Hoje em dia chamamos de monstros celebridades do rock, do cinema, da literatura, das artes. São os monstros sagrados, os ícones, desmistificando a palavra monstro.


Os monstros que vamos encarar hoje são os que vieram ao longo do tempo, através da literatura, das lendas, através do tempo no imaginário popular.


Drácula, Lobisomem, monstro da Lagoa Negra, Múmia, O Homem Invisível, o Fantasma da Opera e porque não o Lobo mau, a Bruxa da Branca de Neve ou da Bela Adormecida. Os vilões dos quadrinhos, os E.T.'s de ficção como a Guerra dos Mundos de H.G.Wells, e mais recentemente a Família Adams, Edward Mãos de Tesoura, nos desenhos: o Estranho mundo de Jack, A Noiva Cadáver, no Rock: o Eddie da banda Iron Maiden.

Freud em um artigo de 1919 onde elucidava aspectos da teoria analítica escreveu: “A estranheza do que não é familiar é a chave para tudo aquilo que assusta”.


Muitas pessoas gostam de livros e filmes de terror porque junto com o arrepio que provocam, o espectador se sente a salvo pelo distanciamento entre a imaginação e a realidade.


As crianças de hoje já estão acostumadas com o fantástico. Para elas os monstros fazem parte do mundo que ainda não conhecem, o medo que despertam é necessário para aguçar a imaginação e o raciocínio. É através do medo que chegamos à coragem.


Um filme que ficou famoso na época, hoje considerado cult, pelo tema é FREAKS. Ele nos conta a historia de um grupo circense onde seus protagonistas fazem parte do bizarro. São atores com deformidades reais, congênitas, narrando as desventuras da troupe em confronto com a sociedade. Sem efeitos especiais ou maquiagem ele nos causa mais dor que medo.


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/lb/thumb/0/04/Freaks.jpg/423px-Freaks.jpg


Outro exemplo é o filme A SENTINELA DOS MALDITOS, onde na cena da invasão dos demônios foram usados pessoas com reais deformidades físicas.


Tem origem na mitologia a maior parte dos monstros. Deus Tot era representado por um homem com cabeça de águia, Anúbis tinha cabeça de cachorro, a Medusa tinha serpentes na cabeça, o centauro tinha tronco de homem e patas de cavalo, a Hidra de Lerna varias cabeças de serpente em um corpo de dragão. O Ciclope que faz parte do bestiário medieval. Na bíblia, no livro de Jó cap.40 e 41, o LEVIATÃ é o maior dos monstros aquáticos, Satanás no cap.3 do Gênese. Serpentes marinhas são mencionadas no Livro dos Peixes de 1598. É deste séc. o relato com gravura do primeiro ataque de um Lobisomem. Outros exemplos de monstros mais atuais são: o Pé-Grande, o Monstro do Lago Ness, O Chupa-cabra.


Jung reparou que os temas atípicos que apareciam nos sonhos e fantasias de seus pacientes eram repetições de mitos ou contos de fadas. A esses elementos ele chamou de arquétipos. Esses arquétipos se encontram no inconsciente coletivo. Um desses arquétipos é o do herói. Essa imagem arquetípica é vista como uma experiência emocional daquele que o houve ou vê. Isso nos possibilita a vivencia do nosso mundo interior. Por alguns momentos praticamos a solidariedade, a coragem, o altruísmo.


Os contos ajudam a tirar a carga emocional presente nas pessoas. Eles deixam de olhar seus problemas de forma tão individual. Um exemplo é o filme “O LABIRINTO DO FAUNO” de Guillermo Del Toro. Ele é focado na Espanha de 1944. A protagonista Ofélia, para fugir da sua cruel realidade refugia-se nos contos de fada que lê, vivendo uma heroína em busca de redenção para ela e sua mãe, enfrentando monstros e personagens mitológicos. No Brasil temos o CAIPORA, a MULA SEM CABEÇA, o SACI PERERE.


A LITERATURA DE TERROR

As primeiras historias de terror originaram-se de contos de fadas. Os primeiros contos de fadas vêm da Idade Media. Esses contos eram feitos para adultos e narrados em versos em reuniões sociais, campos, salas de fiar e locais onde adultos se reuniam. Os heróis ou heroínas enfrentavam grandes obstáculos para triunfar contra o mal. Estes contos envolviam magia, metamorfoses, encantamentos, monstros, animais falantes e fadas. Traziam fortes doses de adultério, incestos, canibalismo e mortes hediondas. Em uma das versões mais antigas de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um strip-tease para o lobo, antes de pular na cama com ele.


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/GustaveDore_She_was_astonished_to_see_how_her_grandmother_looked.jpg


Uma das primeiras versões de A Bela Adormecida, o príncipe abusa da princesa enquanto ela dorme e a deixa grávida.


Fadas são entidades fantásticas do folclore europeu ocidental. São mulheres imortais dotadas de grande beleza, com poderes sobrenaturais e que podem interferir na vida dos homens ao seu bel prazer. As fadas também podem ser diabólicas e ai denominadas bruxas, embora as bruxas reais sejam tratadas como megeras feias.

As primeiras referências datam da Idade Media e nas novelas de cavalaria do Ciclo Arturiano, com origens céltico-bretãs. Morgana e Viviana eram exemplos, evidenciando o status das mulheres na cultura celta. Com a cristianização do mundo foi-se perdendo a dimensão de fadas mágicas e sobrenaturais.


As primeiras histórias infantis podem ser creditadas a Charles Perrault que viveu na França do século XVII e vêm acompanhadas de divertidas 'morais', muitas das quais inclusive rimadas". E ele conclui: "os contos de fada possuem muitos atrativos, mas transmitir lições não é um deles".


A transformação dos contos de fadas em literatura infantil (ou sua popularização) só teria mesmo ocorrido no século XIX, graças a mascates que viajavam de um povoado para o outro "vendendo artigos domésticos, partituras e pequenos volumes baratos chamados de chapbooks".Estes chapbooks (ou cheap books, "livros baratos" em inglês), eram vendidos por poucos centavos e continham histórias simplificadas do folclore e contos de fadas tendo sido retiradas as passagens mais fortes, o que lhes facultava o acesso a um público mais amplo e menos sofisticado.


E dele a coletânea “Contos da Mamãe Gansa” que a partir de 1696 com Pele de Asno manifesta a intenção de escrever para crianças. " Vieram ai então as adaptações para A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira, Henrique de Topete e O Pequeno Polegar.


Mais de 100 anos apos, Jacob e Wilhelm Grimm fizeram uma coleta de contos populares e publicaram contos de fadas para crianças e adultos. Principais contos: Pele de Urso, A Bela e a Fera, A Gata Borralheira e João e Maria.


Temos vários exemplos de livros que cutucaram o nosso imaginário através de décadas e até hoje impressionam e servem de argumento á vários filmes:

O CORVO - Edgar Allan Poe foi considerado junto com Julio Verne o mestre da literatura fantástica e de terror. Seus CONTOS DE TERROR impressionam todas as idades e vários filmes foram feitos inspirados em seus livros.

O CASO DE CHARLES DEXTER WARD - H.P.Lovercraft um dos mais lúgubres escritores de terror, considerado por Stephen King como gênio do século 20, criou o NECRONOMICON, ou o livro dos mortos, mencionado em vários filmes de terror, inclusive o clássico Evil Dead de Sam Raimi. Seu primeiro trabalho foi DEGON depois adaptado para o cinema. Varias bandas de rock fizeram homenagens a ele em suas musicas, uma delas Metallica com as musicas The Call Of Cutluhu (faixa instrumental), The Thing That Should Not Be, e All Nightmare Long.


Ficheiro:HPL.jpg


O LIVRO DOS SERES IMAGINARIOS - de Jorge Luis Borges, que aborda os monstros mitológicos: Phoenix, Golem, Dragões.

O BESTIARIO - Julio Cortazar, A maior parte de seus contos foi escrito apos despertar de pesadelos. Michelangelo Antonionni escreveu Blow-up após ler um destes contos -"As barbas do diabo".

O EXORCISTA - de William Peter Blatty, que originou um dos filmes mais impressionantes já vistos.

O BEBÊ DE ROSEMARY - de Ira Levin que deu origem ao filme que apavorou multidões no cinema, dirigido por Romam Polanski, e que também escreveu “Esposas em Conflito” e “Meninos do Brasil”.

O DEMONIO DE GOLGOTA - de Frank de Felitta. São dele também a “As duas vidas de Audrey Rose" com Anthony Hopkins no papel de um pai que crê que a filha de um casal é a reencarnação de sua filha morta. “A Entidade”, outro romance escrito por ele baseado em fatos reais, também virou um emocionante filme sobre uma mulher que é estuprada seguidas vezes por uma entidade maléfica invisível. O roteiro deste filme também foi escrito por ele.

HORROR EM AMYTVILLE - Jay Anson. Sua obra foi vendida como "uma história real", e foi baseada nas experiências narradas por George Lutz e Kathleen Lutz na 112 Ocean Avenue em dezembro de 1975. Os Lutz venderam os direitos do livro a Anson, que tinha adicionado e adaptado alguns dos créditos originais dos Lutz. Foi feito posteriormente um filme do livro, que exemplificou essas adições. O local onde foi construído a casa nunca mais foi habitado.

BRAM STOKER E ANNE RICE - Respectivamente com DRACULA que teve varias adaptações para o cinema e ENTREVISTA COM O VAMPIRO, contando a saga do vampiro Lestat e adaptada para o cinema com Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Bandeiras nos papeis principais.

O ILUMINADO - de Stephen King considerado o mestre supremo atual da literatura de terror, é o escritor que mais tem livros adaptados para filmes no cinema. Começou escrevendo contos para o jornal de sua faculdade no Maine. Ganhou notoriedade como escritor quando sua mulher pegou o romance “Carrie” na lixeira e mandou para uma editora. Depois disso foram só sucessos. Tem 111 adaptações de seus livros nas telonas e telinhas e varias referencias em filmes como LOST, PREMONIÇÃO, DONNIE DARKO, FRIENDS, O PACTO e outros. Sua ultima adaptação O NEVOEIRO, com direção de Frank Darabont foi muito elogiado. Nos mostra como é o comportamento de pessoas em confinamento. Ele não escreve só terror, é um excelentes romancista de suspense e dramas. Tem em seu currículo dramático A ESPERA DE UM MILAGRE, UM SONHO DE LIBERDADE, também dirigidos por Frank Darabont, LEMBRANÇAS DE UM VERÃO, com Anthony Hopkins, MISERY, com James Cann e Caty Bates, Eclipse Total, sobre relacionamento entre mãe e filha, também com Caty Bates. THE KINGDOM HOSPITAL, uma mini-serie de TV escita pelo diretor Lars Von Trier para a TV dinamarquesa foi reescrito a duas mãos por King e Lars. Tem adaptado para a TV uma série baseada no seu livro/filme A HORA DA ZONA MORTA, com o mesmo título. Oito livros seua estão em fase de pré-produção cinematográfica e mais treis serão re-filmagens: CEMITERIO MALDITO, IT e COLHEITA MALDITA.


Ficheiro:Stephen King, Comicon.jpg

O LIVRO DE SANGUE - Clive Barker é escritor, produtorde cinema, pintor e dramaturgo. Ele escreve o que costuma descrever como literatura Fantástica e de horror. Uma de suas maiores adaptações para o cinema é “Hellraiser”, um filme viceralmente tenebroso escrito com a colaboração de Stephen King e Anne Rice.


O CINEMA DE TERROR

Em 1895, os irmãos Lumiere inventam o cinema. E aí surge o primeiro filme L'ARRIVÉ D'UN TRAIN EN GARE. Foi a primeira ilusão visual do cinema. Conta-se que pessoas caíram da cadeira e outras saíram correndo do cinema ao verem a película.


Em 1897, Méliès faz o primeiro filme de terror: THE DEVIL'S CASTLE. Infelizmente nada pode se dizer do filme, pois não restou dele um único fotograma. O SOLAR DO DIABO foi outro filme interpretado pelo próprio diretor onde Lúcifer é combatido com um crucifixo. O primeiro filme de Frankenstein é de 1910 com o ator Charles Ogle, feito em 16 mm e neste mesmo ano foi feito o filme O MEDICO E O MONSTRO dirigido por August Blom.

(Vídeo:)

http://www.youtube.com/watch?v=UiDWmXHR3RQ)


Expressionismo alemão:

O expressionismo foi um movimento que teve seu auge no cinema alemão entre os anos de 1919 e 1933, ou seja, coincidido com o período da República de Weimar (espremido entre os anos do Império Germânico que decaiu depois da 1ª Guerra Mundial e a Alemanha Nazista). Mas porque isso é relevante? Simples, se trata de um período negro, onde o medo, o terror e a violência estavam muito presentes no imaginário germânico. Suas obras combatiam a razão com a fantasia.



Seu auge se deu nos anos 1920, caracterizou-se pela distorção de cenários e personagens, através da maquiagem, dos recursos de fotografia e de outros mecanismos (uso de cores vibrantes e remetentes ao sobrenatural), retorno ao gótico e a oposição a uma sociedade imersa no desolador cenário do racionalismo moderno empregador do trabalho mecânico (com o objetivo de expressar a maneira como os realizadores viam o mundo).


A idéia não era só formar uma nova proposta de postura estética, mas também uma moral de enfrentamento das autoridades (foi por essa razão que os nazistas consideraram o expressionismo uma arte decadente). O Nazismo e a própria Segunda Guerra Mundial vieram a destruir muitas destas obras.


No Cinema:


Com O GABINETE DO Dr. CALIGARI (1920) de Robert Wiene, NOSFERATU (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, uma nova forma de cinema surge, com temas sombrios de suspense policial e mistério em um ambiente urbano, personagens bizarros e assustadores e uma distorção da imagem devido a uma excessiva dramaticidade tanto na atuação quanto na maquiagem e cenografia fantástica de recriação do imaginário humano. A influência dos expressionistas do cinema se fez sentir em Hollywood, tanto na temática quanto na linguagem, inclusive porque muitos dos diretores alemães de então migraram para Hollywood e lá realizaram filmes.O cinema é a forma mais lembrada do expressionismo alemão

O GABINETE DO Dr. CALIGARI (Robert Wiene, 1919)

Possivelmente o pioneiro do movimento, este também é considerado o primeiro filme de terror já feito. O clássico, através de flashbacks, conta a história de um doutor que hipnotiza um jovem e o induz a uma matança generalizada, até ele se recusar a matar uma jovem. O filme é lotado de efeitos surrealistas. Os cenários, ângulos e cenas distorcidas (como por exemplo, no momento que o personagem decide sair de casa e buscar um chapéu - fora da própria cena, nos deixando olhando para o quarto vazio) quebraram com a decupagem (momento da produção, em que se define os planos em que as cenas serão filmadas) clássica e criaram um efeito único e revolucionário, que se tornou parâmetro para uma infinidade de obras posteriores. Para finalizar, o roteiro foi escrito por Fritz Lang, possivelmente o nome de maior destaque do cinema mundial da década de 20, e que você verá em outros filmes aqui citados.


http://graphics8.nytimes.com/images/2006/10/25/arts/25cali.600.jpg


METROPOLIS (Fritz Lang, 1926)

Metrópolis é um filme tão fundamental para a história do cinema que, mesmo já tendo escrito sobre ele aqui, precisava cita-lo novamente para ter minha consciência tranqüila.

M – O VAMPIRO DE DUSSELDORF (Fritz Lang, 1931)

Do mesmo diretor do magnífico Metrópolis, M, cujo título original (Os Assassinos Estão entre Nós) era um ataque ao nazismo, é baseado na história real, do assassino serial Peter Kuerten - que apesar de não matar crianças, como é mostrado no filme, conseguiu colocar a polícia em estado de alerta, de tal forma que atrapalhavam os mafiosos e delinquentes. Utilizando o som de uma maneira magistral, o clássico também conta com uma narrativa menos cansativa que dos filmes da época e com personagens mais aprofundados do que o normal. E não se trata apenas de um filme de suspense tecnicamente perfeito, também é uma crítica a hipocrisia do homem - na cena em que coloca um assassino julgando outro. Não é a toa que foi o grande responsável pelo exílio do diretor, que foi para os EUA, onde continuaria trabalhando até o final de sua vida.

NOSFERATU (Friedrich Murnau, 1922)

A história dos bastidores desse clássico do terror é tão interessante quanto a própria obra. Baseado no livro Drácula (escrito por Bram Stoker), o filme enfrentou problemas de distribuição por não ter pagado direitos autorais à viúva do autor. Apesar de ter algumas mudanças, como o nome dos personagens e as localidades, o juíz foi inflexível e mandou queimar todas as suas cópias. E quem diria? Se não fosse pela “pirataria”, esse filme seria citado apenas nos livros sobre cinema, já que algumas cópias já estavam em alguns cinemas antes do que deveriam.


Enfim, entre as peculiaridades da obra estavam o vampiro com cara de rato (ao invés da figura sedutora, eternizada anos depois), cenas em espaços abertos (raro em filmes expressionistas) e uma fotografia monocromática (que dá um efeito envelhecido que ajuda na composição da aura de terror) que alterna entre tons de azul e de amarelo (diferenciando noite e dia). Porém, foi a atuação bizarramente perfeita de Max Schreck que eternizou este como o melhor filme de vampiro já feito.


Este filme aborda temas bem interessante para o ponto de vista do ano de 1922, 4 anos após o fim da primeira guerra e a 7 anos da quebra da bolsa de Nova Iorque. A ganância é abordada através do desejo do jovem Hutter de oferecer mais conforto para a sua amada Ellen, que por sua vez é simples e pura.

No decorrer do filme, vários outros temas são recorrentes na narrativa, como a forte crença no sobrenatural, como lobisomens, fantasmas, vampiros etc. Clássico do expressionismo alemão. Mas, sem dúvida, o grande tema do filme é a morte, ou o desejo pelo mórbido, representado por Nosferatu, que é um morto-vivo. Distúrbios psicológicos, poder psíquico, loucura, o desespero e a hipnose também são inseridos na trama. Todas características marcantes dos filmes expressionistas.


O amor incondicional, centrado no casal Hutter e Ellen, apesar de todo o macabrismo do filme, serve como contraponto às sequências horripilantes. Fica claro no filme o discurso de Murnau de autodefesa, quando ele aborda o tema da chamada “praga” vinda de outros lugares da Europa. Temos aí um simbolismo representado pela figura de Nosferatu, onde o diretor expressa o seu temor pelas mazelas que afligem a Europa, um desejo de proteção e resguardado na cultura e pureza do povo alemão. Talvez possamos estar vendo o desenvolvimento do nacionalismo exacerbado na Alemanha pós-primeira guerra, assim como a necessidade da manutenção da “raça ariana” alemã, dois elementos fundamentais do Nazismo, movimento operário, liderado por Hitler, que surgiria anos mais tarde dentro deste país.


A trilha sonora não poderia ser melhor, sem ela o filme perderia parte do seu brilho. Os recursos de ruído de ambientes, como o badalar de relógios, o baterem de asas dos morcegos, acrescentam a tensão e expectativa necessária para este tipo de filme. Para mim, a trilha sonora é um dos elementos mais significativos do envolvimento emocional entre filme e espectador.


Todos esses elementos estéticos compõem com brilhantismo a obra-prima de Murnau, reunindo recursos até então pouco explorados na linguagem do cinema.


O Expressionismo é bem mais antigo que sua aparição no cinema, um exemplo é o quadro de Munch pintado em 1893.


grito.jpg (20759 bytes)


Dizem os psicólogos que essas tendências à loucura, presentes no expressionismo, refletiam a psiquê nacional, em seus desejos implícitos ou inconscientes, prenunciando a insanidade do nazismo.


Finalizado…


Apesar de serem as principais obras do movimento, outros grandes filmes fizeram parte do movimento - como outro clássico de Murnau: “Fausto”. Mas que sirva de estímulo para os curiosos de plantão. Àqueles que se mostrarem inflexíveis, e não quiserem dar uma chance ao cinema alemão, ao menos entendam que essa veneração não é à toa - quase um século após suas produções, as obras aqui abordadas continuam a influenciar e impressionar.


Os Vampiros

O conceito de vampirismo começou com grande expressão na Europa cristã no século XII, com o inglês William de Newburgh através de seu relato sobre vários casos de mortos voltando à vida para aterrorizar e matar as pessoas durante a noite. Comparavam-se estes espíritos malignos às sanguessugas e acreditava-se só haver uma forma de matá-los: desenterrando e queimando seus corpos. Embora esta crença não tenha se prolongado por muito tempo entre os ingleses, difundiu-se por extensas áreas da Europa Oriental nos séculos XVI a XVIII. A Europa Oriental é uma região misteriosa e complexa, tanto política como geograficamente. O termo Europa Oriental é recente, definindo-se basicamente por um critério político, na medida em que abrange os paises do chamado “socialismo real” (antiga Alemanha Oriental, ex Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Iugoslávia, Albânia e a parte européia da extinta URSS), mais a Grécia e parte da Turquia.

Nas regiões eslavas as variações para designar estas criaturas vampirescas eram: vukodlak (extraída da palavra lobisomem, de origem servia), upyr (Rússia) ou vampir (Servia). A maneira de evitar tais criaturas seria usando alho, ao qual tinham aversão, ou como proteção habitual, e acreditava-se que para matá-los seria necessário fincar em seu peito estacas, ou queimá-los.


A palavra vampire (vampiro), originaria do uso sérvio, foi introduzida na língua inglesa quando estas histórias foram publicadas em 1732, no London Journal e no Gentleman’s Magazine, provocando círculo de debates de intelectuais que procuravam uma maneira cientifica de explicar o fato. Ate um abade beneditino, Dom Augustin Calmet, estudioso da Bíblia, se pronunciou sobre o assunto em 1746.


http://2.bp.blogspot.com/_fvMmtgX9Xf0/SrG6ZPlmuJI/AAAAAAAAGOE/F_EUIj7TVsk/s400/Vampiros+-+Dr%C3%A1cula+Christopher+Lee+3.jpg


Um dos casos mais antigos de vampiro e o mais conhecido é o do Conde Vlad Tepes, no séc. XV, na região de Wallachia, na Romênia, também conhecido como Vlad, o empalador. Mandou empalar uma cidade inteira por tentar derruba-lo do trono. Conta-se que suas terras ficaram lavadas pelo sangue de seus inimigos, originando uma lenda de que ele bebia o sangue destes para ganhar mais força e poder.


Ele foi seguido nesta rota sangrenta por Elizabeth Bathory, que fazia passeios noturnos convidando jovens para visitarem seu castelo. Lá chegando bebia-lhes o sangue ou banhava-se nele por acreditar que assim teria vida eterna. Ela viveu entre os anos 1560-1614 o que prova que beber sangue não resolve este problema de longevidade.


Nos anos 1931, a Universal comprou os direitos da obra da Sra. Stocker. Os atores escolhidos já haviam encenado uma versão da peça para os palcos da Broadway durante anos antes, o que serviu de base para o filme. Foram convidados para os testes do papel de Drácula os atores Paul Muni, Conrad Veid e Ian Keith. Mas o papel foi parar nas mãos de um ator húngaro que se tornaria um marco histórico com o Conde: Bela Lugosi.



Estabelecia-se então a figura do vampiro macho, aristocrata, sinistro, de maneiras elegantes e capa negra, longa e esvoaçante.

Neste ano também, o holandês Carl Dreyer lançou o seu Vampyr, criando um cenário assustador com técnicas inovadoras para a época, porém aceito apenas por alguns entusiastas do cinema Em 1958, nos estúdios da Hammer em Londres, um ator inglês de aparência nobre e aristocrática e voz penetrante reviveria a saga do Conde Drácula. Seu nome, Christopher Lee. Seu estilo solene e formal, sua altura e longos caninos brancos contribuíram para retratar com enorme sucesso a imagem sinistra e bela de Drácula. Seu primeiro filme, O Horror de Drácula, trazia como o vingador Van Helsing o ator John Carradine. Os atores se identificaram com seus papeis e repetiram o sucesso nos anos 60 e 70.


A fascinação pelos vampiros inclui aspectos inerentes à condição humana: imortalidade, poder, sexo, violência, impunidade, fascínio pelo misterioso. Por isso arrastam vários adeptos a cultura vampirescas. Existem até hoje reuniões, onde pessoas caracterizadas como vampiros reúnem-se para discutir e celebrar a existência da lenda. Em algumas destas reuniões, chegam a beber sangue de animais representando o sangue humano, acreditando assim conquistarem o poder e a juventude eterna.


No final dos anos 1950, o desgaste natural do cinema de Horror fez com que o gênero enfrentasse perdas significativas de audiência para a televisão. Nesse momento, a nostálgica produtora inglesa de filmes fantásticos "Hammer", que entrou em atividade após a Segunda Guerra Mundial comandada por Michael Carreras e Anthony Hinds, surgiu com a idéia de revitalizar o gênero trazendo novamente às telas do cinema os famosos monstros sagrados "Drácula", "Criatura de Frankenstein", "Múmia", "Fantasma da Ópera", "Lobisomem", entre outros, os quais haviam sido largamente filmados em preto e branco nas décadas anteriores pelo saudoso estúdio americano "Universal", com Boris Karloff, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr., entre outros.



O passar dos anos continua sendo um fenômeno interessante: na virada dos anos 70 para os 80, as redes de televisão brasileira mostravam, toda a semana, a produção de horror da Hammer Films. Record e Bandeirantes, principalmente, mantinham sessões de filmes de terror e figuras como Christopher Lee e Peter Cushing não paravam de passar nas noites de sexta-feira e sábado. Na época eram grandes novidades, tanto quanto os clássicos do Alfred Hitchcock recém liberados para a televisão. O sucesso foi tanto entre a garotada da época que as emissoras chegavam a repetir os mesmos filmes várias e várias vezes, inclusive no mesmo mês.


Os mais velhos devem se lembrar das sessões Eucalol apresentadas por Boris Karloff com filmes curtos de terror que passavam na TV um dia por semana à noite, ou mesmo a sessão coruja apresentada por Célia Biar e um felpudo gato branco que constantemente traziam perolas do terror, principalmente as sextas-feiras.


Os anos 50 e 60 foram especiais para o cinema fantástico, com centenas de produções de baixo orçamento que apresentaram uma infinidade de divertidos argumentos de horror e ficção científica, criando uma grande variedade de subgêneros dentro dessa temática principal. Existem os filmes que retratam invasões alienígenas ao nosso planeta; aqueles que mostram a aventura do Homem no espaço; os que introduzem insetos gigantes criados por exposição a doses de radiação; os que apresentam monstros enormes ocultos e que são acidentalmente libertados; aqueles que enfocam o fim do mundo numa guerra atômica fatal; os que falam de viagens no tempo e para outras dimensões desconhecidas; os que especulam sobre o futuro da humanidade; e entre muitos outros mais, aqueles que tratam sobre os conhecidos "cientistas loucos" em meio as suas incríveis experiências e que se transformam em monstros devido ao insucesso de seus projetos obscuros.


Surge então Ed Wood, um diretor ousado que se caracterizou em produzir filmes de baixo orçamento com temas de ficção e terror. Queria divertir o publico e teve sua vida contada anos mais tarde em uma produção de Tim Burton com Johnny Depp no papel titulo.


Outro nome que não podemos esquecer surge na Itália, um dos mais produtivos e revolucionários diretores de todos os tempos. Filho de mãe brasileira criou um estilo próprio de cinema. Seu nome: Dario Argento. Mesclando suspense policial com mortes violentas lança O PASSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL quando tinha 29 anos, com colaboração de Enio Morricone. Dele também são: TRAUMA, SUSPIRIA, INFERNO e muitos outros.


Roger Corman é outro que surpreende com a quantidade de filmes já feitos. Com seu primeiro filme O MONSTRO DO FUNDO DO MAR, seguido por A INVASÃO DOS HOMENS LAGOSTA, CONTOS DE TERROR, baseado nas obras de Edgar Allan Poe, O TERROR, DEMENTIA 13, ABELHAS ASSASSINAS, A CASA DO ESPANTO e sua seqüência, MORELLA, CARNOSSAURO, dentre outros 386 filmes, nem todos de terror e ainda com outro em fase de produção, nos assusta com sua imaginação e pode ser considerado o mestre dos filmes trash.


Nos anos 1960 começa com George Romero, um dos mais reverenciados diretores do gênero a saga de zumbis. Reinventando o terror com A NOITE DOS MORTOS-VIVOS de 1968 e O DESPERTAR DOS MORTOS de 1978 e o DIA DOS MORTOS de 1985, uma serie inesquecível de sustos e horrores. A onda de mortos-vivos também leva os quadrinhos para as telas com a série CREEPSHOW, depois adaptada para o cinema.


Em 1969 com o filme “Warrior and the devil” surge John Carpenter. Responsável pela criação de um dos mais famosos monstros do cinema, Michael Mayers, que toma vida em 1978 com HALLOWEEN, só encontra rivais a altura em Jason e Freddy. Dirige um tesouro da filmografia de terror, THE THING com Kurt Russel, que filmaria com ele mais tarde FUGA DE NOVA YORK e FUGA DE LOS ANGELES, reescreve Holloween para Rob Zombie dirirgir.


http://1.bp.blogspot.com/_iYJokNnYRPk/SnL7dQgHllI/AAAAAAAAAHA/rS5jaImAgfw/s400/Michael_Myers3.jpg


Outro diretor de destaque, Abel Ferrara, que já dirigiu um dos re-makes de INVASORES DE CORPOS, está em fase de pré-produção de um novo JECKYLL AND HYDE e já compôs até trilhas sonoras.

Nos anos 1980, graças à maquiagem e introdução de efeitos especiais nos filmes, o gênero terror ressurge conquistando agora o público adolescente. Tob Hooper nos brinda em 1982 com POLTERGEIST, O FENÔMENO. Depois de nos assustar até arrepiar os cabelos, trás as telas O MASSACRE DA SERRA ELETRICA de 1974, também baseado em um assassino real, Ed Gein, que matava as pessoas e fazia roupa para ele com as peles de suas vítimas.


Dois monstros marcariam época então vindo para ficar. Seus nomes: Jason Voheeshttp://seligafranca.files.wordpress.com/2008/10/ultimate_jason_voorhees_1.jpg

e Freddy Kruegger.


http://z.about.com/d/themeparks/1/0/E/l/HHN071.jpg


Os filmes SEXTA-FEIRA 13, primeiro filme do ator Kevin Bacon e A HORA DO PESADELO de Wes Craven, iniciando uma fila de continuações cada qual mais sanguinolenta que a outra. Também de Craven veio A MALDIÇÃO DOS MORTOS VIVOS de 1987, que apesar de tudo era baseado em fatos reais. Um cientista viaja para a América Central em busca da fórmula que transformaria homens em zumbis.

Surgem então vários filmes do gênero, filmes comerciais para fazer bilheteria diante do sucesso conseguido com o publico teen.


Volta o Lobisomem com UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES e sua seqüência UM LOBISOMEM AMERICANO EM PARIS.


Joel Schumacker nos assusta com GAROTOS PERDIDOS de 1987 onde uma família se muda para uma pequena cidade, aterrorizada por um bando de vampiros adolescentes.


David Cronemberg vem em 1982 com VIDEODROME uma mistura de ficção cientifica com horror, sexo, violência e surrealismo. Em 1986 surge com um novo monstro, A MOSCA, desenvolvendo uma idéia anterior já levada as telas com Vincet Price: A MOSCA DA CABEÇA BRANCA.


Mick Garris escreve alguns capítulos para a série Amazing Stories de Spielberg, toma gosto e dirige a continuação A MOSCA 2 e CRIATURAS, lançando em 2005 uma série intitulada Mestres do Horror, onde chama todos os melhores diretores do gênero para que cada uma escreva e dirija um episódio da série. Ano passado, lançando uma nova serie similar sem nome ainda por aqui, FEAR ITSELF.


Um estreante promissor lança com um filme impar no gênero, THE EVIL DEAD. Seu nome: Sam Raimi. Dele são as duas continuações, sendo que a terceira feita num jeito de terror novo, o terrir. Como já diz, terror com estilo cômico. Segue-se o interessante DARKMAN, A VINGANÇA SEM ROSTO. Filme em ritmo de historia em quadrinhos, sem ser uma adaptação de gibi. Atualmente é o responsável por HOMEM-ARANHA e mais recentemente volta à antiga fórmula de terror com ARRASTA-ME PARA O INFERNO, narrando a história de uma bruxa e sua terrível maldição.


Na mesma época de EVIL DEAD, Joe Dante, com produção de Steven Spielberg dirige GREAMLINS, voltado para o público infantil, onde um fofo bichinho que não podia ser molhado, punha todos em risco ao dar origem a criaturas malignas. Começa a idéia de aventura com terror para assustar crianças. Do mesmo diretor viriam também PIRANHAS e NO LIMITE DA REALIDADE.


Logo depois surge CHUCK, O BRINQUEDO ASSASSINO. Um boneco chamado Bonzinho, mas que possuído pelo espírito de um assassino, não faz nem um pouco jus ao nome.


Um diretor mexicano também nos leva a terra da fantasia mesclando o fantástico com o terror, Guillermo Del Toro. Depois de dirigir A ESPINHA DO DIABO, um maravilhoso filme de assombração marcado como pano de fundo pela Guerra espanhola, dirige também Blade 2 e Hellboy. Atualmente com O LABIRINTO DO FAUNO, também passado na Espanha franquista explora os fantasmas de vidas interrompidas pela brutalidade.

Na reciclagem temos o Maravilhoso DRÁCULA de Bran Stoker, dirigido por Francis Ford Copolla em 1994 seguido dois anos depois por FRANKENSTEIN, de Kenneth Branagh e O SEGREDO DE MARY REILLY, de Stephen Frears, adaptação de O MEDICO E O MONSTRO, já levado as telas anteriormente, e A MUMIA, de Sephen Sommers. Essas adaptações impressionaram pelos efeitosa visuais.

Na seqüência veríamos Neil Jordan, com ENTREVISTA COM O VAMPIRO, da obra de Anne Rice, com um elenco estelar: Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas.


EDWARD MÃOS DE TESOURA, apresentado por Tim Burton, com Johnny Depp, arrastaria ao cinema milhares de pessoas por seu terror romântico e que levou inúmeras pessoas as lágrimas. Tim Burton com mão magistral ainda levaria as telas NOIVA CADAVER, para conquistar também o publico infantil com seu gênero sombrio e dramático.


Não podemos deixar de mencionar o nosso maior representante nesse gênero, Zé do Caixão. Jose Mogica Marins é um cineasta de fama internacional, com presença garantida em enciclopédias de todo o mundo; seu principal personagem interpretado por ele mesmo e caracterizado por capa preta e cartola e longas unhas, parece uma mistura de Dracula com Tranca rua. Sua primeira aparição deu-se no filme A MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA, de 1963 seguindo-se de varias outras interpretações.


Atualmente temos um novo nome no cinema de terror. Um nome conhecido por sua banda WHITE ZOMBIE. Robbie Zombie. Com vários filmes no currículo por trilhas sonoras e musicas, é com incrível maestria que ela lança A CASA DOS MIL CORPOS, mas é com sua seqüência que ganha reconhecimento dos fãs, REJEITADOS PELO DIABO. Sua refilmagem de HOLLOWEEN é tão bom ou melhor que o primeiro e já vem ai com sua continuação e um novo projeto de refilmagem, A BOLHA.


Na música, pegando carona nos mortos-vivos vem TRILLER, um clipe musical produzido por Michael Jackson com narração do mestre Vincent Price. Conquistou e conquista até hoje multidões por sua originalidade


Possessão Demoníaca

Demônios são fantasias do imaginário religioso. A religião explica e absolve a pessoa possuída por seus atos infames. Não foi a pessoa que cometeu o erro, foi o demônio. Assim a imagem da pessoa fica preservada. Podemos comparar com um vírus. O vírus do seu computador que corrompe os seus arquivos.

Demônios, vírus, nomes diferentes para a mesma coisa.


H.P.Lovercraft conseguia descrever um monstro demoníaco como ninguém. Em suas descrições do INOMINÁVEL, como ele classificava estas criaturas, podia-se sentir um arrepio na espinha pelo medo causado. Nos filmes feitos baseados em seus livros era difícil passar esta sensação.


Um dos melhores filmes do gênero possessão é O EXORCISTA. Todo o terror de uma mãe ao ver sua filha possuída pelo demônio está ali, palpável. E as duvidas do padre em enfrentar o exorcismo também.


http://www.confrariadecinema.com.br/img/cena/pequeno/O-Exorcista-8.jpg


Outros bons exemplos, NO LIMITE DA REALIDADE, onde a loucura serve de base entre o imaginário e a realidade, a ficção - cientifica O ENIGMA DO HORIZONTE onde o mal está no espaço a procura de suas vítimas, um filme realmente assustador. O EXORCISMO DE EMILY ROSE nos conta a historia de uma menina possuída por algo maligno e que coloca um padre diante da lei sobre sua conduta no caso do exorcismo. Baseada em fatos reais.


A série televisiva “Apparitions” ainda sem nome em português, da BBC, nos mostra um padre responsável por exorcismos em luta contra o mal permanentemente.

Outra serie de TV, SUPERNATURAL, tem como caçadores de demônios dois irmãos incansáveis, indo de cidade em cidade perseguindo-os para expulsa-los e evitarem assim o domínio do mal sobre a terra.


O TERROR QUEM VEM DO ESPAÇO

Ataques do outro mundo, monstros interplanetários, a ficção também assusta.


Nos anos 1951 vem uma leva de filmes de ficção de carona com a transmissão radiofônica de Orson Wells do clássico GUERRA DOS MUNDOS de W.G.Wells. Graças a um trote narrado com interpretação convincente daquele que era um dos maiores atores de todos os tempos, uma ondA de pânico generalizou-se pelos EUA, causando até suicídios.


Levada aos cinemas com o mesmo título do livro, GUERRA DOS MUNDOS foi indicada a três Oscars e recentemente refilmada com produção de Steven Spielberg tendo Tom Cruise no papel principal. Da mesma época temos o clássico O DIA EM QUE A TERRA PAROU, também refilmado recentemente com Keanu Reeves,

http://metalinguisticoeu.files.wordpress.com/2009/01/dia3.jpg


A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO, VAMPIROS DE ALMAS, outro clássico refilmado varias outras vezes com o título de INVASORES DE CORPOS tendo sua mais recente refilmagem com Daniel Craig e Nicole Kidman chamada de A INVASÃO, A BOLHA ASSASSINA COM Steve MacQueen que teve uma refilmagem em 1988, e provavelmente deve vir com outra agora dirigida por Robbie Zombie.


George Lucas, em 1977 começa com sua saga STAR WARS, com um sem numero de monstros a brincar com o público mostrando sua incrível imaginação e capacidade técnica.


Em 1979, Ridley Scott dirigiu ALIEN, O 8º. PASSAGEIRO. Sucesso inegável de critica e publico, teve mais 3 sequencias, sendo que a segunda foi o que mais se pode qualificar como a melhor seqüência de todas, chamada ALIENS, O RESGATE.


EU, ROBÔ, O HOMEM BICENTENARIO e A.I.-INTELIGENCIA ARTIFICIAL, são outra mostra de terror-ficção. O terror que a tecnologia domine o mundo e como iríamos revidar.

Na onda de ficção catástrofe, além de causas naturais como TERREMOTO, O DIA SEGUINTE, IMPACTO PROFUNDO, temos os novos PRESSÁGIOS e em brave 2012, sobre a destruição do nosso planeta.


O HORROR ORIENTAL

A literatura oriental de terror é povoada por lendas e fantasmas de antepassados. Alguns vingativos, outros em busca de redenção, outros apenas apegados ao terreno. São entidades quase corpóreas. No pós-guerra essa literatura volta com força para relaxar dos horrores da guerra.


A primeira obra-prima pós-guerra é chamada YOTSUYA E NABESHIMA KAYBIO DEN (O GATO FANTASMA DE NABESHIMA).No cinema podemos ver o belíssimo KWAIDAN, sobre o fantasma de Yotsuya e que foi refilmado mais de vinte vezes.


Outra historia que volta de tempos em tempos é a de BOTANDORO, sobre a paixão de um homem por uma mulher fantasma.


O primeiro filme fantástico a ser visto no Ocidente foi CONTOS DA LUA VAGA (Uguetsu Monogatari, 1953) de Kenji Misogushi.


Em 1954 surge GODZILLA (Gojira), a produção mais cara para a época, dirigido por Inoshiro Honda, que cdepois se associou a Akira Kurosawa e que viria a ser co-diretor de todos os seus filmes a partir de Kaguemusha em 1980.


No final dos anos 80, Nabuo Nakagawa realizou JIGOKU, uma nova versão para YOTSUYA de 1959. Neste filme ele retorna a sua origem teatral, uma história sobre karma e vingança. Este filme influenciou Zé do Caixão a fazer “ESTA NOITE ENCARNAREI NO SEU CADAVER” em 1966. Nesta mesma época seria feito KWAIDAN SAMURI OTOKO (O Fantasma do Corcunda), demonstrando influencia do horror gótico italiano.

Em 1964 mais dois filmes fizeram sucesso no Ocidente: KWAIDAN-AS QUATRO FACES DO MEDO (de Masaki Kobaiashi) baseado em quatro contos do irlandês naturalizado japonês Lafcadio Hearn, e ONIBABA-A MULHER DEMONIO (de Kaneto Shindo),


http://www.lib.washington.edu/media/criterion/images/onibaba.jpg


drama psicológico e que só mostra elementos fantásticos nos 10 minutos finais do filme, ambos belíssimas e imperdíveis obras do cinema japonês.


http://images.amazon.com/images/P/B00004W3HF.01.LZZZZZZZ.jpg


Em 1990 surge o escândalo do cinema oriental retratado pela série GUINEA PIG. Charlie Sheen classificou esses filmes como SNUFF e eles foram banidos dos EUA. Eram extremamente GORE.


SHIRYO NO WANA (Evil Dead Trap), de 1988, de Toshiharu Ikeda, influenciado por Dario Argento e David Cronenberg, trás de volta a fase de assassinatos brutais e horror venéreo, do tipo snuff movies.


Nos anos 1990 surgem a explosão RINGU e JU-ON. A imagem de RINGU do poço é em homenagem ao filme ONIBABA. Ringu, baseado no livro de Koji Suzuki, sobre fantasmas vingativos, refilmado depois como THE RING (O CHAMADO) nos apresenta Sadako, no original, Samara na versão americana uma das personagens que entraria para a galeria das grandes vilãs da historia. Em 2000 chega JU-ON de Takashi Shimizu, que ganhou refilmagem como O GRITO em 2004 nos EUA, estrelado por Sarah Michelle-Gelar, com direção do próprio Shimizu.


http://www.weirdwildrealm.com/filmimages/ringu.jpg


Dentre os famosos orientais vistos e distribuídos no ocidente temos um dos maiores diretores do cinema gore de todos os tempos: Takashi Miike. Seu AUDITION (Odishon, 1999) quebrou recordes de bilheteria em todas as sessões onde foi exibido. Outros vieram com grande sucesso: ICHI,THE KILLER, VISITOR Q., e um filme para a serie Mestres do Horror, produzida por Mick Garris MARCAS DO TERROR que teve sua reprodução proibida nos EUA. Nos anos 2000, é lançado VERSUS de Ryuki Litamura que é uma mistura de zumbis com samurais no gênero Matrix. Um dos filmes mais originais dessa época é BATTLE ROYALE, do falecido Kinji Fukasaku, uma espécie de reality sho assassino, onde um grupo de estudantes é levado sem opção para uma ilha e presos por colares destrutivos, obrigados a se matarem. Deste game fantástico só poderia sair um sobrevivente. Os distribuidores ocidentais se recusaram a lançar algo com tamanha violência entre adolescentes. O filme ficou fora das prateleiras por um bom tempo ajudando assim a que se tornasse um clássico cult.


Outro diretor que não pode se esquecido é Kiyoshi Kurosawa, que dirigiu KAIRO (2001), lançado regravado nos EUA como PULSE, e KÔREI, para TV com nome de SEANCE.


Após quatro meses do lançamento de RINGU, vem dos cinemas orientais YEOGO KOEDAN (Corredor de Suspiros), do coreano do sul Ky Yung-Park. Para surpresa de todos o filme foi considerado ótimo e teve duas seqüências, MEMENTO MORI e WISHING STARS.


A fama dos filmes coreanos era péssima e para surpresa de todos, apareceram uma serie de filmes bons vindos de lá, com destaque para JIAN GUI (2002), lançado como A Herança, dos irmãos Pong, usando a mitologia budista como pano de fundo, similar ao que foi feito em 1999 por M.Nihgt Shyamalan em “O Sexto Sentido”. Sua continuação VISÕES, foi lançado no Brasil em 2004.


Nesse mesmo ano foi lançado RINGU VIRUS de King Dong-Bin, uma versão autorizada de RINGU, já que devido a guerra na Coréia, os filmes japoneses não poderiam mais ser lançados lá.


Depois vieram PHONE (2001) de Bejeong-ki Ahn e A TALE OF TWO SISTERS (2003) com referencias a OS INOCENTES de 1966 de Jack Clayton com Débora Kerr, um clássico do terror americano, e A INOCENTE FACE DO TERROR, de Robert Mulligan de 1972.


Enquanto isso, de Hong Kong, Lo Chi Leung nos brinda com INNER SENSES (2002) e KOMA (2004), um tributo do cinema chinês aos mestres Brian De Palma e Dario Argento.


É isso, sei que pulei vários mestres e filmes, mas por ai já da para ter uma idéia do que é o terror e sua origem. Afinal, não há o que temer nas telas ou nos livros. Isso tudo faz parte do nosso imaginário. Quando os superamos somos heróis de nós mesmos. O verdadeiro terror está no nosso dia a dia, lá fora nos aguardando e nos espreitando nas ruas. Nossos medos interiores. E esse é o monstro mais difícil de conviver. O terror criado por nós mesmos e que nos passa quase invisível.