CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Entre o Mesmo e a Redenção

Nelson Job


How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Bob Dylan



http://fernandaw.files.wordpress.com/2009/08/grete-stern.jpg
"Botella del mar" Grete Stern

Ela chegou em casa. Olhou para os móveis, o corredor, os quadros. Fez um leve esforço para não perceber que os móveis estavam um pouco fora do lugar, o chão, mais limpo e mais arranhado. Pequenos detalhes evidenciam que tudo mudou na sua pequena ausência diária, mas a rotina pode realçar as semelhanças e então, ela se esforça para olhar o Mesmo. Beijou o marido como de costume, os lábios se tocam, mas não se molham, não se contagiam. A filha a abraça com um sorriso. O sorriso é retribuído - não se mostram os dentes. Dá um presentinho de camelô pra filha. Ela se entretem. A empregada diz várias coisas que estão prontas, várias coisas a fazer e, principalmente, várias coisas a se comprar pra casa. Ela diz apenas “tá bem, pode ir” sem registrar nada. Tira os sapatos, solta o cabelo, põe as velhas sandálias confortáveis. Volta-se para o marido:


- Chegou cedo, amor?


É estranho como se pronuncia “amor”. A palavra perdeu o sentido que se desenvolveu nos filmes, nos livros e nas digressões da adolescência. A palavra virou um adjetivo vazio designando uma prisão e sobretudo, uma moral.


Ele responde qualquer coisa, tanto pode ser “é, o chefe me dispensou porque tinha uma reunião com a outra empresa” ou “pedi pra sair mais cedo pra ir ao dentista”. Ela apenas sorri e emenda nas contas a pagar até a próxima semana. Há uma pequena discussão sobre os gastos dela e sobre o comodismo dele, as duas promessas de mudança não serão compridas. Automaticamente, ligam a televisão. Os comentários variam entre como “a novela é chata” e como “o noticiário só dá notícia ruim”.


No jantar, a atenção se volta para a filha, uma boa oportunidade de não se focar na solidão a dois da relação. Mas não há tanto carinho, apenas um sorriso e uma voz calculadamente suave pra suportar a culpa de deixá-la com a empregada.


No filme, ela vê o casal de protagonista fazendo amor. Seus olhos, pela primeira vez no dia, brilham. Olha pro marido, que, entre cochilos, finge acompanhar o filme. Os cochilos do marido permitem que ela se coloque no lugar dos protagonistas junto com seu colega de trabalho. Tem um pequeno êxtase, interrompido pelo brusco ronco do marido. O filme acaba e eles vão pra cama. Com a bolinação do marido, ela pensa em acabar com tudo, se declarar pro colega de trabalho. Aí pensa na filha, na mãe doente e no apartamento que deu tanto trabalho pra conseguir e cede. Mas como vingança, imagina-se a cada estocada, estando junto com o colega, o colega... o colega...


O orgasmo de ambos é rápido, dessincronizado e pouco intenso. A filha acorda e seu choro constante e cada vez mais próximo anuncia que ela chega próximo ao quarto. Ela imagina em convidar a filha pra ficar na cama com eles, recebendo o carinho pós-cópula do casal, formando um tríade pagã, amoral. Uma plena liberdade. O marido, sonolento, pergunta: “quem vai?” - o que a tira de seus delírios pagãos e simultaneamente a faz por a camisola e acolher a filha, se sentindo suja, pois acabara de cometer uma traição a família. De certa forma.


Manhã, o marido já foi embora. Na mesa, as migalhas do pão dele e a mancha que ele, mais uma vez, entornou do café. A empregada chega com 26 minutos atrasados, sem pedir desculpas, com uma leve culpa estampada no olhar esquivo. “Bom dia, dona”.


A filha come o seu Neston, ela toma seu café sem açúcar com leite semi-desnatado e granola. Põe a roupa da academia. Pensa que lá, vai conhecer alguém que valha a pena. Valha realmente a pena. Na despedida, a filha joga um beijo com a mão. Ela sente ternura e raiva. Se sente presa por aquele ato espontâneo, mais aliviada pela filha prendê-la. Todo o esforço, sutil e constante, de se perpetuar o Mesmo naquele lar, vai levar, cedo ou tarde, a uma tristeza que se resolve sozinha e, se demorar, com fluoxetina; uma dor de cabeça que a levaria a começar a ioga, mas sempre acaba com Neosaldina ou em mais uma briga com o marido, e eles vão ficar dias sem se falar, até que coisas práticas, do tipo consulta com o pediatra, o conserto do carro ou a festa na casa daquele casal chato, porém “amigo”, os “obriguem” a voltar a se falar. Porém, a cada momento, a cada linha que se rompe, uma nova rota se propõe. Nesse momento, mais uma vez, tudo pode ser transformado rumo a um lugar desconhecido, o que pode resultar em um imenso e impreciso espectro que vai tanto à uma revitalização da família como à sua dissolução e além. Ou tudo pode ser rebatido ao Mesmo. Sai de casa, ainda com esperança. A cada olhar, uma possível redenção.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Conto interativo: "OPACOS?"

Este conto "Opacos?" é interativo e pode ser acrescentado por quem quiser através dos "comentários", abaixo da postagem. É possível e até provável que os acréscimos sejam adicionados na postagem. A mudança de cores e fontes indicam a mudança de autor que podem ser encontrados no "comentários" do blog.



Estavam ali.

O alto foi o primeiro a falar:

- Quem são vocês, heim?

- Não conheço ninguém aqui...

Assumia a exuberante, olhando para todos e arrumando, nervosa, os cabelos suavemente rebeldes.

- Pô isso aqui tá muito sinistro!

Era a espevitada, um tanto assustada.

- Deve ter uma explicação.

Ponderou o senhor. Olhavam todos para o omisso, que olhava vazio para eles e gesticulava de forma branda com as mãos, tangiversando com o corpo a sua impotência.

- Vamos ver...

O senhor queria tomar a dianteira nas reflexões:

– O que estávamos fazendo antes... mesmo...

- Sei lá, pô!

Respondeu prontamente a espevitada.

- Eu não lembro...

O alto indica uma nesga de ansiedade, mas se segurava:

- ... de nada. Ou quase...

- Gente, eu também não. Então, o que que a gente vai fazer?

Exuberante estava um pouco confusa.

- Ai, putaquiupariu, eu tô fudida!!!

- Larga de ser espevitada, minha filha. Agora o que a gente tem que pensar no que vai fazer.

- Senhor, entendo o que quer dizer, mas não sei nem por onde começar. E aquele ali, então... completamente omisso!

- Cara... sei lá heim... por quê que eu tenho que falar alguma coisa, ô alto?

- Não tô te obrigando, não. Mas... que lugar é esse?

- Define “lugar”, alto. Pô, isso aqui é muito esquisito, muito... coméqui eu vô dizer... é...

- Opaco, espevitada. Isso aqui é muito opaco. Realmente, é até difícil nomear isso aqui de “lugar”.

- Senhor, mas então, a gente... espera? Espera pra ver o que acontece?

- Exuberante...

- Ai, obrigada!...

Ela passava, mais uma vez, a mão nos cabelos.

- Eh!... De nada - sorriu o alto – não acho que devíamos esperar...

- Aimeudeusdocéu, vamo fazer o quê então, porra??!!

Espevitada olhou com uma sugestão de desespero para o omisso. Talvez porque ele não soube lidar com aquele princípio de descontrole, talvez porque ele se comoveu com a situação de espevitada, se pronunciou:

- Sei lá... a gente pode ver se tem alguém aí fora...

- “Fora”? Bom, você está vendo algum “fora” por aqui?

Senhor tinha a voz calma, porém plena de dúvidas.

- Cara... num sei... mas pode ter, né?...

- Na falta de idéia melhor, é alguma coisa que a gente pode fazer.

- OK, alto!

A exuberante parecia alegre em achar o que fazer:

– Vamos chamar então. Tem alguém aí?

Gritou mais alto:

– Tem alguém aí?!!!

Os três (o omisso, não) começaram a bradar ora juntos, ora individualmente, repetidas vezes:

- TEM ALGUÉM AÍ????

Sem pensar duas vezes, a espevitada logo tentou desvendar o mistério. No entanto, mostrou-se ainda mais assustada com o que viu "lá fora".


fotografias de Flávia Da Rin

Neste momento, por sua reação, todos (menos o omisso) se apavoraram e começaram a perder o controle, enquanto tentavam chegar a um consenso em relação ao que poderia ser feito...




Continua?...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Onibaba [en]

Este texto pertence ao evento ENTRE Devires Cinematográficos

Sandra Maia

Realizado por Shindo Kaneto

Japão, 1964 – 100 min. Anamórfico.

Com: Otawa Nobuko, Yoshimura Jitsuko, Sato Kei, Uno Jukichi, Tonoyama Taiji, Matsumoto Somesho, Kaji Rentaro, Aratani Hosui

drama horror


http://andrewsidea.files.wordpress.com/2009/02/onibaba6.png

Sinopse:

Onibaba é para o realizador Kaneto Shindo - esquerdista e socialista, preocupado em demonstrar as condições dos que muito pouco ou nada têm - o que os meados dos anos 70 e por aí em diante foram para Jean Luc Godard, por exemplo. Em comum entre os dois autores: em Godard há um escape dos temas políticos que percorriam toda a sua obra anterior que, aliás, tinha impulsionado a criação da Nouvelle Vague, por semelhança, em Shindo há uma substituição dum realismo socialista praticado em Hadaka no Shima (The Naked Island) em que a camâra era a consciência poética (e social) daqueles que trabalham como formigas para sobreviverem. Mesmo assim, Shindo (provavelmente como Godard) nunca esqueceu as suas motivações cinéfilas: a prova é que Onibaba, para além de optar um erotismo cerrado pelas pulsões dos corpos femeninos desnudados (como se ao desejo dependesse a vida e preso nisto, o complexo de culpa e o dilema moral) , junta-se-lhe também o carácter de parábola, um conto que tanto une a comercialidade (a componente erótico-sexual que no passado, ainda chocava e aliciava) com um simbolismo metafórico e, acima de tudo, político.


Na mitologia japonesa, Onibaba é uma espécie de mulher-demônio. Este filme representa os horrores da guerra e os resultados moralmente nefastos das coisas que se pode fazer para sobreviver durante este período de miséria. Trata-se de uma obra que mescla suspense, fantasia, terror e drama psicológico freudiano (SEXUALIDADE REPRIMIDA) ao relatar a história de duas mulheres tentando sobreviver no interior do Japão devastado pela guerra. A fotografia é suntuosa e elegante, evocando tanto os grandes mestres do cinema japonês quanto os contestadores contemporâneos da nuberu bagu (cineastas emergentes entre os anos 50 e 70). Shindo pode ser considerado, desta forma, um ponto de ligação entre o cinema tradicional de Mizoguchi e Ichikawa e as experimentações de contemporâneos como Masumura e Suzuki, mesmo porque, ele fez roteiros para filmes de todos estes diretores, com sucesso em todos os casos.


No Período Sengoku (Sengoku-jidai ou “Período dos Estados Guerreiros”, de meados do Século XV até ao início do Século XVII.), um conflito pelo poder divide o Japão feudal. A guerra civil que se prolonga por mais de um século tem consequências sérias, sobretudo para os mais pobres: as terras são abandonadas e é difícil obter alimentos. Duas mulheres, sogra (Otawa) e nora (Yoshimura), vivem numa cabana no meio de um canavial, junto a um rio. O seu modo de vida consiste em matar os samurai feridos e moribundos que por ali passam, para trocarem armas e armaduras por comida. Um dia, Hachi (Sato), um vizinho que tinha partido para a guerra com o marido da mulher mais jovem, regressa, pondo em risco a manutenção da economia familiar.


Uma visão curiosa de Onibaba é a razão para a velhinha não querer que a jovem a deixe. Muitos críticos afirmam ver por detrás da fábula o mecanismo do capitalismo: é imperativo não deixar a máquina parar, se se deseja continuar a produzir. Neste submundo intemporal (porque não é por ser medieval que existe um anacronismo) onde a sobrevivência conta mais que tudo o resto, embora com isto não se teçam considerações morais, é necessário não parar, consumir tudo o que aparece por entre os campos assombrados. Com efeito, a velha tenta assustar a jovem. Fala-lhe de pecado, do Inferno como destino para as mulheres solteiras que se relacionam sexualmente com homens. E depois, mascara-se de demónio e - numa sequência memoravelmente tenebrosa, donde o preto e branco faz jus à sua fama dentro do género terror - persegue-a. Após esses momentos realmente fabulosos, donde se constrói um clima ascendente do horror com todos os ingredientes possíveis: paisagem assombradamente silenciosa cortada pelo vento rachando nas finas folhagens, montagem feroz e uma partitura que enfatiza o ambiente verdadeiramente sepulcral, a velha é assaltada por uma maldição. A máscara que usara para censurar o desejo sexual da jovem não consegue sair da sua face. A maldição é a metáfora ideal de um castigo que a melhora. Pois no final, ela sai correndo, com a máscara tirada a sangue, desfigurada, gritando e auto-convencendo-se: "Não sou um demônio, sou um ser-humano."


«Onibaba» tem como ponto de partida um texto budista (a vida, a existência e o que se encontra abaixo) com uma moral bem definida. Ainda que mantendo os elementos essenciais desse conto, canalizados no clímax da narrativa, Shindo não faz assentar o filme na moral religiosa — as suas preocupações são terrenas.


A jovem - em vez de desejar sexualmente o vizinho - ia rezar ao grande Deus, para grande descontento da idosa que preferia vê-la trabalhar. Como alguém disse a versão de Shindo é muito pouco espiritual e mais terrena, pretende denunciar também todas as artimanhas espectaculares que a religião usa para educar através do medo: a velha que se veste de demónio, aproveitando-se da ignorância e da tacanhez da jovem, que por sua vez só se amedronta porque sabe o que cometeu. Mas o grito que relembra à velha a sua condição humana, não é intervenção divina, nem muito menos a misericórdia de Buda - como a lenda original queria transmitir. É o prenúncio de uma vida melhor, onde os homens de poder (que não chegam à pobreza mais aguda da sociedade humana, os desfavorecidos, que vivem abaixo das ervas altas) que fazem as guerras e o dinheiro deveriam ser mais justos. No final, e ao afirmar a sua condição, a velha desfigurada materialmente, salta como os passáros que a toda a hora voam (ou melhor, escapam) por entre as ervas, trazendo aos que lutam pela sobrevivência a recordação de tempos melhores.


As noções budistas de que a realidade circundante ao homem é mero embuste serviriam de combustível para lendas, elas mesmas perfeitas narrativas de terror, por sua vez adaptadas para o cinema por Kaneto Shindo, Onibaba (1964) e Kuroneko (1968), transformando-se rapidamente em filmes renovadores das matrizes dos filmes de terror, gênero em constante risco de recair na banalidade.


Sogra e nora atacam soldados para trocar os despojos por alimentos. O regresso de Hachi irá pôr em causa a sociedade.


A premissa do filme indica um dos temas: a sobrevivência em condições extremas. Quando conhecemos as personagens centrais podemos ficar chocados, porquanto mesmo antes de lhes vislumbrarmos os rostos sabemos que são assassinas impiedosas. Mas o desenvolvimento da narrativa, à luz do contexto histórico, dilui o rótulo (“assassinas”). Pomos de parte os juízos que o filme não pretende fazer.


Com a chegada da personagem de Sato Kei, o desejo sexual assume-se como conceito essencial subjacente ao filme. As ervas altas (“suzuki”) preenchem o enquadramento, ondulando, sem parar, de um lado para o outro, agregando uma simbologia: guerra, dualidade, mas também os ímpetos carnais.


A jovem corre ao longo do campo para satisfazer desejos físicos, indiferente a condições atmosféricas e, mais no final do filme, resistindo a outras ameaças. Tal como Shindo nunca reveste com um contorno moral o ato de matar (é um modo de viver), também não se sugerem sentimentos de qualquer espécie entre ela e Hachi (é um modo de se saciarem).


Donos de formas teatrais extremamente estilizadas e complexas – como o teatro nô, kabuki e bunraku –, os japoneses sofisticaram a máscara de seus monstros através da expressividade pura. Essas máscaras, muitas delas de fato assustadoras, constituem – com suas cores, traços, estilização etc. específicos – um dialeto sígnico, fluente para os iniciados e evidente para aqueles que assistem a peça pela primeira vez. Essa excelência na representação por expressões se manteve no cinema: mesmo em alguns episódios da série popular National Kid, com todo seu non sense involuntário, uma máscara de maquiagem branca e negra, destacada pela expressividade do ator, indica claramente ao espectador a presença de um vilão razoavelmente terrível. A estilização persiste como traço por excelência de filmes de terror japoneses modernos: tanto Ringu quanto Ju-on têm seus momentos culminantes quando a aparição se arrasta, de modo anti-natural, para agarrar a presa humana.


Shindo Kaneto afirmou-se socialista e o conceito de luta de classes está presente, ainda que acompanhemos quase exclusivamente pessoas no fundo da pirâmide social (se tal expressão faz sentido numa sociedade desagregada, em ruínas). O tema torna-se mais notório nos momentos em que a sogra contracena com o samurai que esconde o rosto por detrás de uma máscara, mas impregna toda a obra: a situação limiar em que os camponeses se encontram tem origem nos conflitos dos poderosos. O período histórico caracteriza-se também por uma revolta de servos contra senhores (apropriando-se de terras, por exemplo) — algo que não é explicitamente abordado, mas que Shindo deverá ter tido presente.


Kaneto Shindo afirmou-se socialista e o conceito de luta de classes está presente, ainda que acompanhemos quase exclusivamente pessoas no fundo da pirâmide social (se tal expressão faz sentido numa sociedade desagregada, em ruínas). O tema torna-se mais notório nos momentos em que a sogra contracena com o samurai que esconde o rosto por detrás de uma máscara, mas impregna toda a obra: a situação limiar em que os camponeses se encontram tem origem nos conflitos dos poderosos. O período histórico caracteriza-se também por uma revolta de servos contra senhores (apropriando-se de terras, por exemplo) — algo que não é explicitamente abordado, mas que Shindo teria tido presente.


«Onibaba» não se contém na componente formal. A óptima composição scope e a fotografia a preto e branco, pontuada por uma iluminação que ressalta as ânsias e os pulsares dos corpos, aliada à música e ao design sonoro dinâmico, dominado por tambores que exacerbam sentimentos primitivos, tornam o visionamento uma refinada experiência sensorial de grande cinema.


Filme espartano, rodado num cenário minimalista — um rio, ervas altas, cabanas, uma caverna —, num mundo cruel e violento, onde a realização dos instintos primários não deixa espaço para o amor, contém, ainda assim, uma visão optimista sobre a capacidade de sobrevivência da humanidade.


Shindo Kaneto é autor de uma extensa obra que se iniciou ainda nos anos 50 e se prolongou até esta década. Os seus títulos mais conhecidos — no Ocidente, pelo menos — continuam a ser de há quatro décadas ou mais. Aí se inclui «Kuroneko» (1968) e este «Onibaba», já anteriormente disponíveis em edições vídeo (por exemplo via Tartan, no Reino Unido) e "The Naked Island"(1960).


O DIRETOR

Kaneto Shindo iniciou sua carreira no cinema como cinegrafista. Um episódio relata suas experiencias como cinegrafista, sob o perfeccionista diretor Kenji Mizoguchi, está incluído no seu primeiro filme como diretor, Story of my Loving Life.


Shindo tornou-se um cinegrafista de muito sucesso, nos filmes de Kosaburo Yoshimura em Shochiku. No entanto não cedendo as pressões comerciais daquele estúdio, ele resolveu produzir seus proprios filmes na Kindai Eiga Kyokai, ou Sociedade de Filmes Modernos. Só então pode escolher seus roteiros e definir seu estilo.


Shindo, natural de Hiroshima, freqüentemente lida com os efeitos da bomba atômica. Ele descreve sequências da Hiroshima pos guerra em Children of the Atomic Bomb, com base nos relatos de crianças de Hiroshima. Este assunto somente veio a tona após a ocupação americana haver terminado. Mãe centra-se na decisão de uma mulher sobrevivente em se tornar uma mãe após o trauma físico e mental sofrido. Instinto lida com um sobrevivente de meia-idade cuja potência sexual é recuperada pelo amor de uma mulher. Dai go fukuryu-maru é sobre a tragédia dos pescadores expostos a um teste nuclear americano no Pacífico sul. Shindo condena as armas nucleares por causa do enorme sofrimento inflingido a pessoas inocentes, mas também incentiva fortemente a luta pela sobrevivência.


Seu filme mais conhecido internacionalmente, Naked Island, é uma experiencia em que não utiliza qualquer diálogo, mas apenas música. Ele também usa a população local, exceto pelo ator e atriz que interpretam um casal vivendo em uma pequena ilha. Impressiona a dureza da vida agrícola em contraste com a beleza de seu ambiente natural durante todo o ciclo das estações. A alegria, tristeza, raiva e desespero do jovem trabalhador é silenciosa, mas poderosa, expressa em uma forma semi-documental.


A atmosfera pacífica deste filme contrasta com as obras mais obsessivas de Shindo, como Epitome, Gutter, A tristeza é só para mulheres, Onibaba, e Um canalha. Estes transmitem uma intensidade claustrofóbica, usando apenas alguns espaços pequenos para a ação, com muito close-up de câmera.


Em 1975, a Shindo expressa sua homenagem a sua convivencia com seu mentor, Mizoguchi, em um documentário exclusivo: A vida de um diretor de cinema: Kenji Mizoguchi. Neste filme, ele reuniu muitos relatos interessantes e reais de Mizoguchi, entrevistando pessoas que trabalharam para este mestre. Estas recordações pessoais, juntamente com as seqüências de filmes de Mizoguchi, são um testemunho da grandeza da arte de Mizoguchi, e à sua personalidade intrigante.


Como Mizoguchi, Shindo cria fortes figuras femininas que, por força de seu amor e o poder da sua vontade, tentam"salvar" os seus parceiros masculinos. Enquanto as mulheres Mizoguchi parecem confiar mais em sua compaixão generosa para sustentar os seus homens, as mulheres de Shindo tendem a inspirar e motivar os seus homens por sua própria energia e poder. Na mesma maneira, Shindo com sua própria energia e perseverança manteve a sua visão artística através de quatro décadas de cinema independente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Tratado da Inconstância

uma receita anarco-afetiva

Nelson Job



http://images1.wikia.nocookie.net/uncyclopedia/images/e/ec/Asia_Carrera.jpg

Asia Carrera


Onde você me estereotipar, lá eu me transformarei. Ou talvez em outro lugar. Melhor ainda: se me dão a opção de “ou alguma coisa... ou outra”, é-me dada, nesse exato momento, toda a oportunidade de criar terceiras, quartas e infinitas opções. Dói-me o ouvido. Me empurram para o médico? Ao invéns de me permitir que o médico molde o meu ouvido à sua imagem e semelhança - o ouvido que não pode e não deve ouvir o sussurro do cosmos – prefiro, então, vomitar estas linhas e fazer o ouvido parar de doer e começar a cantar! Tome menos remédio e deixe a dor do corpo te “desertar para outra sina do existir”, como diria Guimarães Rosa. Alerto-me de vários outros fascismos: “é proibido fumar!”, se não fumo, devo odiar quem fuma? Fume-se, ora! “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”: fascismo tipicamente brasileiro. Ainda BEN, Jorge Ben inventou o samba-rock (e um outro Brasil!), misturou com o hermetismo e os alquimistas (sonoros não-puristas) estão chegando... “Isto não é coisa de deus!”: fascismo tipicamente jesuíta. Prefiro Spinoza: se não é de Deus, não existe. Dizem que Jesus morreu na cruz pra me salvar. O que me salvou foi a trepada de Jesus com Maria Madalena. Berro isso antes que o câncer que separa o sagrado do profano e o amor do sexo me consuma também. Melhor a gargalhada que vem da tripa neo-pagã que o hipócrita riso jesuíta. O amor domesticado de Hollywood e da novela das 8 (ou 9?) é fruto do jesuitismo. Prefiro a trepada de Asia Carrera. Sim, atriz pornô, que diferente da “pura sacanagem”, beija e abraça carinhosamente, com alegria, seus cônjuges. Não que ela elimine a sacanagem: muito melhor: Carrera sacaneia a sacanagem! Não é à toa que o QI de Asia é 155, ou seja, ela é o único membro da pornografia que tem QI elevadíssimo. Levar o amor onde ele já não mais deveria existir: subversão anarco-afetiva! Também levo em conta o sorriso suave de Mônica Mattos. A suavidade em meio à orgia. Refunda-se Dioniso com leveza. E deixem as crianças se divertirem, por favor! Elas não têm que comprar a angústia moral de pais sem paternidade, elas não tem que se preocupar com vestibular tão cedo: ao invés de Ritalina para as crianças (melhor seria RITA LEE NA criança), quem sabe, “cocaína” (na ausência de real liberdade e arte) para pais e professores.