CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Guerra das Realidades (Nelson Job)

Prelúdio de uma Animanência


Criança: Se o Super-Homem tem capa e voa, então o Batman, que tem capa, voa também?

Nelson: Não, o Batman não voa. Só de Bat-avião.

C: Porquê?

N: Porque o Super-Homem veio de outro planeta, Krypton, e aqui, com os raios do nosso Sol, ele ganha poderes, como o de voar. O Batman é daqui e não tem poderes, a não ser a sua força de vontade e senso de justiça.

C: Isso é tudo de mentirinha, né?

N: Não, é tudo verdade. Na sua cabeça, na minha e de todo mundo que vê ou lê as histórias deles.

C: Na minha testa??????

N: Quando eu digo “na sua cabeça” é quando você tá pensando. O Batman não anda aqui no meio de nós, mas existe no seu pensamento.

C: Não! Não! É de mentira.

N: Deixa eu te mostrar como funciona. Você conhece algum cavalo azul?

C: Não.

N: Então, fecha os olhos e pensa em um cavalo azul.

C: Pensei!!!

N: Agora deixa crescer duas asas nele.

C: Hi! Agora ele tá batendo as asas! E não preciso ficar de olho fechado! Agora ele tá voando!!!

N: Agora você entendeu! O cavalo azul voador não existe aqui, nesta casa, a gente não anda nele. Mas ele existe quando você pensa nele.

C: Entendi!!!



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Ora, se Gregory Bateson pode, eu também posso! Inspirado nos famosos “Metálogos” do antropólogo etc, transcrevi esse minha conversa acima com uma criança de 3 anos como fractal deste texto.

Quando essa criança diz “isso é tudo de mentirinha”, todos os dados estão lançados. Todas as teorias vencedoras e derrotadas na história do pensamento estão em questão e cabe a quem responder repetir a tragédia ocidental ou dar um novo rumo para esta Guerra.

Digamos que eu respondesse que sim, tudo aquilo é mentira. A ficção é mentira. Eu estaria enfatizando os piores aspectos do saber ocidental, afirmando que só a natureza existe e a cultura é da ordem do transcendental, ou pior, não existe ontologicamente. Estaria separando Natureza e Cultura e por conseqüência, corpo e mente, sujeito e objeto, real e imaginário e inevitavelmente, ficção e história. (maiores detalhes desse “separatismo” e de uma filosofia que não opera com essa ênfase, ver “Devires”).

Quando eu digo que os (super)heróis existem no pensamento, estou, com isso, dando um estatuto de realidade para a ficção, uma materialidade, ainda que suave, tênue, para o pensamento, juntando Natureza-Cultura e todas as outras dualidades implicadas.

Uma criança que tem a ela negada desde cedo sua capacidade de fantasiar, ou, ainda que relegada esse fantasiar ao estatuto de “mentira”, é retirada de um cosmos amplo, carregado de possíveis, rumo a um universo pobre, cercado de impossíveis, sem encantamento. Encantar o mundo é uma política, ainda que, muitas vezes, sutil. De um lado, a filosofia “vencedora” do Ocidente, que transcende em vários âmbitos: o pensamento (o platonismo e seu mundo das idéias, o cartesianismo), Deus, deuses (a Escolástica), a experiência direta, ontológica de mundo real (Kant). Nos restaria um mundo do inatingível, a não ser pela ciência, que, a despeito de suas inúmeros ganhos, resulta em um mundo transformado em números. Se Newton era alquimista, seus seguidores aproveitaram uma parte bem limitada do mestre, colocando as equações como operações que se tornaram mundo (ver “Hermetismo em Aberto”). Positivismo. Cientificismo. Funcionalismo: “se funciona, então funciona”.

As conseqüências do mundo desencantado, nós todos conhecemos: drogadição (tentativa química desesperada de encantamento), depressão (visto que a melancolia era o estado anterior ao deslumbramento mágico: no desencantamento, a melancolia degenera em depressão, mundo cinza, cinza, cinza), poluição (se eu não sou Natureza, então, destacado do cosmos formando uma dualidade, eu não me importaria com o que “sobra”: poluição – obviamente a ecologia nasce do reencantamento anímico: Gaia, tanto faz se dos antigos gregos ou de Lovelock) e crise econômica (se de todos os valores, apenas sobra o capital, uma auto-organização se impõe de forma desesperada: a crise é a emergência de uma reviravolta dos valores, tão sonhada por Nietzsche – o Haiti se tornará onipresente? A importância da pessoa não é mais ressoante com a sua conta bancária, visto que ela não existe - ou não existirá? - mas sim o que você faz, como você faz).

Os atravessadores de Deus se espalharam pela história. Se no paganismo mais “primitivo” Deus respirava nas árvores, rios, pedras e onças, do xamã para o papa existe um longo processo de afastamento pela humanidade de Deus, sendo Este apenas acessível a alguns poucos atravessadores: padres, gurus, mestres. Se o Budismo resgatou a nossa possibilidade de encontro direto com o Incomensurável (ver "Êxtase em Devir"), já prefigurado nas linhas do Bhagavad-Gitã; o catolicismo (pela fé) e sua Escolástica (pelo pensamento) tratou de cortar esse elo no Ocidente, assegurados pela Inquisição e sua típica misoginia (ver “A Era do Conjugalismo”) (pela eliminação de bruxas herméticos-pagãs). Estava (quase) garantida a posse do mundo desencantado, com Deus(es) distantes e atravessadores manipuladores ricos e poderosos.

A magia das bruxas queimadas, o pensamento oriental, a filosofia em devir supostamente derrotada e uma ciência ainda emergente e misturada à alquimia hermética de Kepler e Boyle nos levou ao espinozismo. Colocando Deus de volta a Natureza e equivalendo-os à mente, a “Ética” de Spinoza é um trato filosófico-geométrico-hermético, mas sem as limitações do paganismo antigo. Spinoza, e, de outra forma, Leibniz, ambos contra a febre dualista cartesiana, fundam um neo-animismo (ver "Animismo Vivo") um neo-paganismo, reunindo o melhor de dois mundos: uma certa ciência (ainda que hermética), uma certa filosofia (do devir, historicamente “derrotada”) e uma certa magia (sem dogmas, ou, no caso de Leibniz, quase sem dogmas). Ambas as filosofias criam o paralelismo, juntando pensamento e Natureza em um mesmo composto em devir. Leibniz pulula olhares nos cosmos com as mônadas e Spinoza afirma que da substância univocamente desdobram, dentre infinitos atributos, a extensão e o pensamento, em suma: Natureza -Cultura imanentes.

Mas esses dois avatares de um novo pensamento ainda seriam quase esquecidos. Precisariam ainda de uma intempestividade nietzschieniana, uma virtualidade bersgoniana, uma filosofia orgânica de Whitehead, uma ontologia quântica (ver “Diferenças Emaranhadas”) para adquirir a robustez que tem em nossos tempos (ver: "Ontologia Onírica"). A mecânica quântica é um ótimo exemplo de clamor por novas ontologias: de tanto a ciência explorar a matéria tentando aristotelicamente lhe “enquadrar” em alguma taxionomia universal, vem os quanta pra berrarem em todos os ouvidos surdos de ceras-diques no devir que a natureza se vingou do enquadramento: “somos loucos, estamos aqui e, simultaneamente, em todo o Cosmos!”.

Com essas armas podemos tomar parte na Guerra das Realidades. De um lado, o mundo “desanimista”, onde heróis não existem, Deuses carecem de downloads cósmicos hierarquizados, “elitizados” e um pensamento que não afeta a carne. De outro, um mundo (re)encantado, onde, segundo o espinozismo e seus desdobramentos, ser é um e múltiplo, somos todos nós, cuidar de mim é cuidar do mundo, cuidar do outro (que também sou eu) é, obviamente cuidar de mim. E somos Deus. Somos deuses. Somos Cosmos. Somos o Tempo, os tempos e o atemporal. Nossos “eus” são apreendidos como atratores. Nossas armas são nossos conceitos e nossa prática: a de engendrar vida mesmo que seja no desencantamento, reencantando-o. A Guerra das Realidades se dá, como vimos, até em uma simples conversa com uma criança, mas também no trabalho, no lazer, na dança. Sobretudo na dança: “só posso crer em um deus que saiba dançar”, diria Nietzsche.

Mas esses “lados” são só aparentes. A Guerra das Realidades não tem “lado” vencedor ou perderdor. Isso seria recair em mais um dualismo. Ela apenas quer acrescentar no mundo uma polivisão, uma cosmovisão, em detrimento de um pensamento único, desanimista. Queremos povoar e pulular o cosmos de multiplicidade. Não ganhar a Guerra, mas re-movê-la infinitamente. Nesse sentido, Heráclito já havia alertado que não há paz. O desejo de paz é o desejo do pensamento único, estático. Na Guerra das Realidades, o “outro lado” é a Paz da Realidade Única Desanimista. Até podemos adquirir uma certa serenidade, uma serenidade estranha, em devir, rumo ao terceiro gênero de conhecimento cunhado por Spinoza: aumento de potência, alegria e consciência cósmica – amor de Deus por si mesmo (ver “Amarnifesto”).

Claro que toda a luta por “direitos humanos” tem o seu lugar, pelas minorias racials, sexuais e financeiras, mas esta é uma luta que mantém o Pensamento Único. A "raça" é um conceito menor diante até mesmo de uma ciência convencional. O conceito de “raça” não tem consistência científica. A sexualidade também, separada em taxonomias também precisa ser repensada cientificamente (como já é feito em alguns guetos acadêmicos): o homem tem aspectos femininos e a mulher aspectos masculinos – os corpos de cada gênero tendem fisiologicamente ao outro. A oposição "homem X mulher" é uma tolice. As práticas sexuais também: não existem heterossexuais, nem homossexuais: só existem pansexuais - seres que copulam com outros seres: sejam eles humanos, capitalísticos (economistas, bancários, acumuladores que copulam com dinheiro), gastronômicos (glutões de junky, fast, green ou qualquer mais ou menos sofisticada food, cujo prazer sexual advêm obviamente da comida), ficcionais (onanistas, artistas, contempladores que copulam com o imaginário). O freudismo já dizia que a criança nasce perverso-polimorfa. O problema é que a sociedade genitaliza essas crianças. Assumir uma imanência, um devir é assumir um pansexualismo, mas podendo lidar com as tendências (heterossexuais etc) e clamando por uma ética. Nenhuma relação de quaisquer corpos, humanos ou não, deve resultar em destruição, e sim, em conhecimento do terceiro gênero espinosista.

A reencantamento do mundo (falhado pela escola de Frankfurt, mas com um belo legado: a filosofia de Walter Benjamin) tem a sua urgência decretada por todos os cantos onde brotam devires mágicos (“Senhor dos Anéis”, “Harry Potter” etc), vampíricos (“Drácula”, “True Blood” etc), fusões entre magia e ciência (Dr. Destino, “Duna”, “Star Wars”, “Ugly Americans”) e realidades tranfiguradas, multifacetadas (toda a obra de Neil Gaiman e sobretudo, de Philip K. Dick e derivados cyberpunks como “Matrix” [ver “Ontologia Onírica”], no cinema de Charlie Kaufman [ver "Um Clamor ao Popcinema"] e até em “A Origem” [ver “Inserção em ‘A Origem’”]). Quando o filme 3D invade a sala de cinema, se torna mais uma ressonância da urgência de uma presença maior do virtual no atual, de expansão do virtual, do imaginário habitar uma ontologia, de povoar as realidades.

Não assuma “lado”, não acredite nas partes: fractalize-se. Rume em direção ao âmago da imanência, ao âmago do neo-animismo. Pura Animanência. Habite os cosmos, sendo todos nós. A Guerra das Realidades já começou há muito tempo. Adquira consciência dela. Seja Cosmos e Consciência!


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sábado, 30 de outubro de 2010

Hermetismo em Aberto


Ontologias Oníricas entre Magia e Ciência

Nelson Job
"De qualquer maneira, se eu tentasse sanar o atraso,
se virasse a memória do avesso para reconstruir este tempo,
quem iria avalizar a minha perícia?"
O quieto animal da esquina
"ah, não imaginas a confusão de instantes, tudo anda amalgamado em mim,
em mim tudo é pura massa informe, sem face que me distinga entre os demais."

Berkeley em Bellagio
"estou salvo, perdidamente salvo outra vez."
Lorde
João Gilberto Noll

Queremos eliminar a dualidade entre magia e ciência. Essas dualidade, como muitas outras, se solidificaram ao longo da História, gerando uma aparente "verdade". Agora, com auxílio de estudos das últimas décadas, é possível evidenciar que magia e ciência não são "opostas" e sim, um contínuo de saberes que encontram em nossos tempos a possibilidade de se darem as mãos sob uma nova perspectiva, agora compondo com os avanços que geraram a despeito de seu "desencontro" forçado, compondo assim um saber híbrido mais eficaz para compreendermos e agirmos em nossa época.


Entendermos, a princípio, o hermetismo como avatar da magia, principalmente a ocidental, para, em seguida, contemplarmos as obras de Paracelso, Giordano Bruno, Kepler e Newton, exemplos notáveis de conhecimentos oriundos e amalgamados de magia e ciência. Então, estaremos mais aptos a revelar o quanto a ciência moderna é permeada de intuições herméticas.

Hermetismo e os 7 Princípios


O hermetismo é difícil de situar historicamente, em consequência, se torna complexa a precisão do advento de seus principais conceitos. Segundo o médico britânico, coronel, maçom e um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada[1], William Wescott (2003) e o terapeuta, secretário do controverso Aleister Crowley e membro da Aurora Dourada, Francis Regardie (2008), o hermetismo surgiu no período helenístico[2] (323-147 a.C.) baseados em preceitos do Antigo Egito, especificamente, os do deus Thoth, uma divindade lunar que tem a seu cargo a sabedoria, escrita, aprendizagem, magia, medição do tempo etc. Do hermetismo originaram-se a alquimia e astrologia.

Para a historiadora Frances Yates (1964), os textos herméticos iniciam no século II ou III d.C. e não na remota antiguidade, como os magos da Renascença acreditavam. Dentre estes textos, se destacam as “Enéadas” do filósofo egípcio neoplatônico Plotino.

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O hermetismo recebe essa alcunha em função da figura de Hermes Trismegisto. Yates afirma que ele não existiu, já os textos alquímicos medievais colocam o advento de Trismegisto no mais tardar em 1800 a.C. no Antigo Egito. Sua figura se confundiria com o deus Toth, ora aparecendo como o próprio, ora como seu principal seguidor e difusor.

Modernamente, organiza-se os princípios básicos do Hermetismo em sete:
MentalismoTudo é mente e a matéria é força mental coagulada.
VibraçãoTudo está em movimento, tudo se move, tudo vibra.
RitmoTudo tem fluxo e refluxo, um movimento para frente e para trás.
PolaridadeTudo tem o seu oposto, o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza.
Correspondência – O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Existem três grandes planos: o físico (matéria, substância etérea e energia), o mental (mineral, elemental, vegetal, animal e hominal) e o espiritual, sendo que os sete princípios se encontram em todos eles.
Causa e EfeitoToda a causa tem o seu efeito. Os estudiosos do hermetismo conhecem os métodos da elevação mental a um plano superior, onde se tornam apenas causadores, e não efeitos.
GêneroTudo tem o seu masculino e o seu feminino.

Os cientistas magos da Renascença

O hermetismo obteve sua maior popularidade na Idade Média. Apesar do cristianismo[3] ter-se mesclado inicialmente ao hermetismo, na Inquisição, todo tipo de paganismo foi entendido como heresia pela Igreja, sendo seus praticantes convertidos ou condenados. A ciência - que também inicialmente possuía íntimas relações com o hermetismo - com o seu avanço, foi abandonando-o gradativamente.

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Theophrastus Paracelsus Bombast von Honenheim (1493-1541) foi um médico alquimista suíço, muito crítico da medicina de sua época. Segundo o ex-editor da “Nature”, Philip Ball (2009), a concepção de medicina e filosofia de Paracelso baseava-se nos hermetismo e neoplatonismo. Paracelso estudava a natureza para entender o corpo, o que revelava, com tais relações de micro e macro, a presença do Princípio de Correspondência do hermetismo.

Paracelso acreditava nos arcanos, incorpóreos eternos que tem o poder de transmutar os doentes. Esses arcanos combatiam doenças de calor com calor, frio com frio etc., o que veio, posteriormente, a influenciar os homeopatas, da máxima “similar cura similar”.

Com o advento do oxigênio de Lavoisier e sua química, diminuiu-se a influência de Paracelso. Ball discute o mito que essa “nova” química seria anti-Paracelso. De acordo com o autor, poderíamos supor que ele aplaudiria a descoberta do oxigênio. A grande perda da química é seu afastamento da filosofia, é o fato dela ter se tornado uma disciplina isolada, paradigma comum no Iluminismo. Paracelso ainda influenciaria a sinfilosofia dos Primeiros Românticos Alemães, ou seja, contribuiria no advento de uma nova filosofia “sinergética” que veio posteriormente influenciar o descobrimento do campo eletro-magnético.

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Giordano Bruno (1548-1600) foi um polêmico frade dominicano italiano, teólogo, filósofo e astrônomo, morto pela Inquisição. Influenciado pelo hermetismo e pelo neoplatonismo, era divulgador da arte da memória, uma técnica mágica de memorização.

Bruno (2008) afirmava no “Tratado da Magia”: “mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir”. Yates (1964) chama atenção para o fato de que o cálculo e a experimentação diferenciavam os magos renascentistas dos gregos antigos e teólogos da Idade Média e que essa disposição de homens como Bruno foi o germe que tornou a ciência tão poderosa.

Giordano Bruno conceberia filosoficamente um universo mutante, anímico, infinito e descentrado; sendo que as duas últimas características foram sustentadas pouco depois por Galileu Galilei. Esse último possuía diplomacia com a Igreja, diferente de Bruno, pois suas idéias pagãs e suas peças debochadas em relação à Igreja o levaram a fogueira em Roma, depois de um cruel processo de julgamento. O historiador da ciência Alexandre Koyré (1979) escreve: “foi Bruno quem pela primeira vez nos apresentou o delineamento, ou o esboço, da cosmologia que se tornou dominante nos últimos dois séculos”.

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Johannes Kepler (1571-1630) foi astrônomo, astrólogo e matemático alemão, que formulou leis da mecânica celeste que viriam ser muito importantes para a física newtoniana. Segundo o teólogo, ex-padre e especialista em geociência James Connor (2005), Kepler obteve grande fama como matemático imperial e como astrólogo, fazendo certeiras previsões, recebendo durante certo tempo a alcunha de profeta. Porém, ele sempre foi ambíguo em relação à astrologia, mas achava-a importante para apurar a astronomia. Sua mecânica foi decisiva para engendrar a de Newton, que tirou a importância da astrologia, relegando-a a guetos.

Kepler obviamente sofreu influência do hermetismo, citando longamente Hermes Trismegisto em sua “Harmonia do Mundo” (YATES-1964). A concepção kepleriana de harmonia era um misto de música, astronomia e, principalmente, geometria. Para ele, a harmonia - uma categoria primária da existência que permitia a experiência do mundo - oferecia acesso à mente de Deus.

Devido à sua peculiar fé luterana, Kepler negou, em sua obra, a concepção de universo infinito de Giordano Bruno e Galileu, utilizando-se de argumentos aristotélicos.

Sua mãe, Katharina – que era dada a costumes pagãos, fazendo poções de curas com ervas, mas não era propriamente uma bruxa – foi condenada e presa pela Inquisição já em idade avançada. Os esforços de Kepler permitiram uma soltura tardia, mas logo após, Katharina faleceu.

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Isaac Newton (1643-1727) foi físico, matemático, astrônomo, alquimista e teólogo. Segundo a historiadora Betty Dobbs (1984), Newton se dedicou principalmente aos estudos da alquimia que foi a principal inspiração para o seu conceito de “força”. É conhecido o discurso de Keynes (2002) dizendo que Newton não foi o primeiro homem da idade da razão, foi o último dos magos.

Na primeira edição do “Principia”, Newton explicitava a sua crença na transmutação da matéria. Com o advento de sua “Óptica”, ele retirou a afirmação do “Principia”, ficando apenas na primeira, considerada obra menor. Se Koyré acredita que Newton deixou de acreditar na transmutação, Dobbs afirmaria que ela está subentendida na obra-prima de Newton. É importante lembrar que Newton era muito influenciado pelos Rosa-Cruzes, e os mestres alquimistas exigiam segredo das descobertas. Koyré (2002) faria ainda uma crítica ao legado de Newton; ele teria posto o “movimento absoluto” no lugar do devir, gerando uma espécie de mudança sem mudança, separando o mundo em dois: o da quantidade, que seria o mundo da ciência e da qualidade, do nosso mundo percebido e experimentado.

Caberia a questão se Newton seria “newtoniano”: não, se alimentarmos a hipótese que Newton realmente acreditava na transmutação da matéria. Assim, Einstein e sua Teoria da Relatividade - que equivaleria matéria e energia - não apontariam o “erro” de Newton, mas recuperaria e desdobraria o Newton oculto.

O Hermetismo presente na Física Moderna

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Com a enorme difusão da física “newtoniana[4]”, a magia vai perdendo espaço na sociedade. Nos resta aqui, brevemente, elencar as ressonâncias com a magia que a ciência guarda, “ocultamente”. Vale lembrar que “ciência oculta” na Renascença, era a ciência do invisível, como seria hoje, por exemplo, a Mecânica Quântica[5] (BALL-2009): o prêmio Nobel Wolfgang Pauli fez psicoterapia supervisonada pelo médico suíço Carl Jung. Este ficou tão impressionado pelos temas alquímicos nos sonhos de Pauli que seu interesse gerou o primeiro livro de Jung (1991) sobre o tema. A amizade entre ambos gerou uma troca profícua de cartas (PAULI e JUNG – 2001) e um estudo profundo entre física e psicologia, culminando no conceito junguiano de sincronicidade (simultaneidade significativas entre inconsciente e o mundo), depois veio a ser corroborado em parte com a comprovação em laboratório do emaranhamento quântico (simultaneidade entre partículas distantes), ambos guardando semelhanças com o Princípio de Polaridade no hermetismo.

O Princípio de Correspondência também tem suas ressonâncias modernas em hipóteses relacionadas a autossimilaridade dos fractais (CLANTON-1997), tanto na cosmologia de Luciano Petronero (GEFTER-2007), em que todo o universo seria fractal, como na Triangulação Dinâmica Causal de Renate Loll (AMBJORN, JURKIEWICZ e LOLL) em que, no nível micro, quântico, a estrutura da matéria apresentaria características fractais. [Detalhes em "Fractais quânticos monádicos"]

A teoria de unificação das Supercordas (GREENE – 2005) - que supõe cordas como a menor partícula do cosmos cujas diferentes vibrações gerariam todas as outras partículas elementares do universo - possui uma imensa semelhança com o Princípio de Vibração.

Cópulas de uma Ontologia Onírica
Como vimos, o hermetismo está vivo e presente de forma "oculta" em vários aspectos da ciência. As confluências entre magia e ciência foram avançadas aqui. Para entender o quanto a filosofia tem um papel "diplomático", ressonante, relevante, vide "Ontologia Onírica". Pois é na Ontologia Onírica que habitamos nosso pensar e viver: amálgama mutante de saberes para além das dualidades, compondo uma transdisciplinaridade radical, que agrega em sua cópula cósmica o estranho, o inominável e o até então inconcebível.

Notas
[1] A Golden Dawn – misto de hermetismo, cristianismo, filosofia, ciência e teosofia - , foi fundada na Inglaterra em 1888 por membros da maçonaria, Fraternidade Rosa-Cruz e Sociedade Teosófica (REGARDIE – 2008).
[2] Segundo o egiptólogo Eric Iversen (1993), as trocas entre Egito e Grécia se originaram entre os séculos VII e VI a.C.
[3] O historiador Raphael Patai (2009) afirma que houve vários alquimistas judeus, dentre eles se destaca Maria, a Judia, que viveu provavelmente no início do século III d.C., criadora do popular processo alquímico, hoje largamente utilizado na culinária, banho-maria.
[4] Entendemos “newtoniana” aqui como algo adverso do Newton pensador.
[5] Prigogine e Stengers (1984) diriam: a Mecânica Quântica constrói a ponte entre essa ciência do ser e o mundo do devir.

Bibliografia
AMBJORN, Jan, JURKIEWICZ, Jerzy e LOLL, Renate “Universo quântico auto-organizado” in: Scientific American 75 ano 06, pp 28-35, 2008.
BALL, Philip, 2009, O Médico do Demônio – Paracelso e o Mundo da Magia e da Ciência Renascentista. 1 ed. Rio de Janeiro, Imago.
BRUNO, Giordano, 2008, Tratado da Magia. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
CLANTON, Amy, 1997, Art, Science and Wholeness. in: http://www.hermeticgoldendawn.org/hogdframeset.html
CONNOR, James A., 2005, A Bruxa de Kepler. 1 ed. Rio de Janeiro, Rocco.
DOBBS, Betty Jo Teeter, 1984, The Fundations of Newtons’s Alchemy or, The Hunting of the Greene Lyon. 1 ed. Cambridge, Cambridge University.
GEFTER, Amanda, 2007, “Is the universe a fractal?” in: http://magickriver.blogspot.com/2007/10/is-universe-fractal-by-amanda-gefter.html
GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.
IVERSEN, Eric, “A Tradição Canônica” in: HARRIS, J. R., O Legado do Egito, 1 ed. Rio de Janeiro, Imago, 1993.
JUNG, Carl Gustav, 1991, Psicologia e Alquimia. 1 ed. Petrópolis, Vozes.
KEYNES, John Maynard, “Newton, o homem” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
KOIRÉ, Alexandre, 1979, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. 1 ed. Rio de janeiro, Forense-universitária.
_______________ “O significado da síntese newtoniana” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
PATAI, Raphael, 2009, Os Alquimistas Judeus. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.
PAULI, Wolfgang e JUNG, C G, 2001, Atom and archetype – The Pauli/Jung Letters 1932-1958. 1 ed, Princeton, Princeton University Press.
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, 1984, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB.
REGARDIE, Israel, 2008, A Golden Dawn – a Aurora Dourada. 1 ed. São Paulo, Madras.
WESTCOTT, William Wynn (org), 2003, Coletânea Hermética. 1 ed. São Paulo, Madras.
YATES, Frances A. 1964, Giordano Bruno e a tradição hermética. 1 ed. São Paulo, Cultrix.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Egrégora Conceitual

das potências clínicas do grupo de estudos
Nelson Job

Se não quero das palavras seu sentido, mas aquilo que carregam realmente, e do incêndio quero o fogo e não a rima, da sombra o escuro e não a posição gramatical (....) então seria melhor apagá-las todas, as palavras, uma a uma, às negras, pequenas aranhas, livrando o dicionário dessa mácula, e beber o que foi tinta até a boca ficar preta, e transformar a tinta em chuva, em tigre.
Nuno Ramos

Não se trata de acreditar nelas cegamente,
basta ler e comparar com as próprias experiências vividas.
Strindberg

http://tzatziki.files.wordpress.com/2006/11/20060509-bansky.jpg?w=490

Trata-se de lutar. A preguiça existencial é, sim, um inimigo. Mas devemos entendê-la como os selvagens (elogio) o fazem, como inimigo imanente, ou seja: a preguiça existencial é minha inimiga, imanente à terra com a qual componho, e luto comigo-ela-preguiça nos tornando mais vida.

Já anunciamos em “Tripaterapia e "Feliz Dia do Despsicólogo" os problemas da psicologia de consultório, então, sem delongas: no dispositivo terapeuta-cliente em uma salinha claustro-fóbica de vida, o conceito tende a entrar pela tangente. A preguiça existencial impede que o conceito seja maturado, re-criado. “Ah não, quero é falar da briga que eu tive com a minha namorada, do meu cachorro" etc. O dispositivo do consultório se tornou a versão chique da aspirina: “falo do meu problema e fico bem; até a próxima consulta”. O terapeuta não quer ir fundo na sua vida, devido à preguiça, que ressoa com a preguiça dos clientes: cada um tem a relação terapêutica – devidamente existencialmente preguiçosa - que merece???

Já em “Uma Clínica do Clinâmen” anunciamos que a clínica, clinamen (re)dobra da vida, pode se dar em qualquer lugar, inclusive (provavelmente) fora do consultório. Vamos então proliferar a idéia de que a clínica tem mais chance de engendrar nos grupos de estudos; mas ambos, grupo e consultório, podem, é claro, coexistir...

Pode-se ter alguma preguiça, mas no grupo de estudos o conceito vai surgir de uma forma ou outra, vai ser esmiuçado, re-criado, incriado, mal-criado, desnaturado, maravilhado. E convida-se, em uma boa hipótese, a criar conceitos, mesmo que – e talvez, inevitavelmente – a partir de algum conceito anterior.

No grupo, o sujeito, sujeitinho, adquire mais facilmente o seu devido lugar: uma mera prostração da existência perante às relações. O grupo é relações: de afetos, conceitos, percepções, dores, crises, criações, amores, fé, medo, descrença, música. Brota-se sujeitinhos aqui e ali, devem ser abandonados, deixados a mercê do grupo, e se algum atrator quiser, que aproveite o sujeitinho na saída, pra comprar leite, e, terrivelmente, pra tirar onda na festa que “sabe” tal e tal conceito, tais e tais autores. Mas um atrator, embuído de uma Ética - conceito de sublime relevância a ser povoado no grupo - vai engendrar festa, ressoar a festividade, tarefas maiores, relevantes, que o grupo deve, a cada conversação, cultivar. O grupo enquanto festa, da festa conceitual para quaisquer alegrias. Pois o conceito só serve se aplicado na vida, copulado com a vida!

O atrator do grupo costuma ser um “sujeitinho” específico. Um bom grupo faz o atrator deslocar, de sujeitinho em sujeitinho, compondo um atrator fractal a todos os outros: o grupo de estudos em si. O facilitador ou (palavra terrível) coordenador, foi um sujeitinho que se torna uma força, um vetor do atrator, uma mônada que (trans)forma o grupo. E, de preferência, não (con)forma.

O grupo pode se encontrar em lócus específico, que também pode deslocar - alegria festiva do grupo - estuda-se conceitos na sala, mas também no cinema, no museu, no bar. Pode se deslocar no tempo em horários e durações diferentes, no intuito de alegremente fracassar em seu objetivo, porque só "fracassando" é que se instaura o devir: partindo-se de “A” (qualquer conceito) e esquisitamente não se chega a “B” (conceito qualquer), mas na pantera, na Monica Belluci, no Leonard Cohen, enfim, ao longo da imanência.

O grupo pode ter várias contrações da duração, um encontro, anos, minutos, deslocar atratores, atrair novos atratores, fazer ressonância com outros grupos, com outros saberes, com outros afetos e posturas. Sim, outros saberes, o grupo alegremente se alimenta da filosofia, da física, biologia, psicologia, antropologia, amarelinha, pintura, perversão, capuccino. O grupo é corpo, diz Nietzsche: “o lugar certo é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto é conseqüência disso...”, corpo esse que, é claro, dança: “não se pode excluir a dança, em todas as formas, da educação nobre; saber dançar com os pés, com os conceitos, com as palavras; ainda tenho que dizer que é preciso saber dançar com a pena – que é preciso aprender a escrever?” Então, os conceitos estão na vida, devém vida. A vida é o entre do grupo, que é corpo. Entra-se no grupo pela vida mais esplêndida, mais ética, cultivando o corpo de afetos, sobretudo de alegrias.


O grupo pode se embriagar; Deleuze se interessa pela operação henrymilleriana de se embriagar com o copo d’água: o grupo se embriaga de conceitos. A partir dos conceitos, a embriaguez pode adquirir inúmeros vetores, alterando velocidades e percepções, criando mundos. Cultivar mundos possíveis: tarefa perspectivista maior do grupo de estudos. Destruir o estatuto do impossível. Um grupo de estudos potente é um grupo hermético, é um grupo que engendra magia, assim como Heráclito enumera para quem ele profetiza: "para os errantes noturnos, os magos, os bacantes, as mênades, os mistas. (...) É sem piedade que se iniciam nos mistérios em voga entre os homens" e ainda, Giordano Bruno: "Em filosofia e entre os filósofos, esta palavra mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir": relevância extrema de um pragmatismo conceitual, da aplicação dos conceitos na vida! Onde se declara uma impossibilidade, o grupo de estudos se instaura, com a alegria e ousadia de suas relações micro e macroscópicas, fundando um novo possível.



Grupo de Estudos Coletivo Transaberes: clique AQUI!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Grupo de Estudos: “Devir-intenso, devir –animal, devir-imperceptível” de Deleuze e Guattari

A teoria modifica a realidade que descreve

Philip K. Dick

“Não direi mais eu, não o direi mais nunca, é besta demais.”

Samuel Beckett

“se desertava para outra sina de existir”

Guimarães Rosa


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Turner


Na obra-prima “Mil Platôs”, Deleuze e Guattari apresentam a sua grande contribuição para a história do pensamento: um novo conceito de devir. Participando de uma egrégora da filosofia que é composta pelos estóicos, Spinoza, Nietzsche, Bergson etc, eles elevam o devir a sua potência máxima, contra-Natureza. Os desdobramentos de tal empreendimento implicam em micro-revoluções na clínica (esquizoanálise), nas ciências e na arte. Com uma abordagem transdisciplinar (única possível para apreender tal conceito), neste módulo vamos mergulhar no inominável exercício de engendrar devires.


O Grupo de Estudos Cosmos e Consciência acontece às terças, das 19 às 21:00, em uma casa no Largo dos Leões. O Grupo é aberto para interessados em entrar em ressonâncias com os mais diversos devires. O atrator do grupo é Nelson Job (Psicólogo, doutorando em História da Ciência das Técnicas e Epistemologia/UFRJ e coordenador de grupos de estudo). O Grupo é pago de acordo com as possibilidades do participante. O primeiro encontro (aula aberta) é cortesia.


Início deste módulo: 05 de outubro de 2010.


. Download do texto "Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível" de Deleuze e Guattari, platô n. 10 do "Mil Platôs vol. 04": AQUI!


. Texto sobre as potências clínicas do grupo de estudos: "A Egrégora Conceitual"


Outras informações: nelsonjob1@yahoo.com.br


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domingo, 12 de setembro de 2010

Cosmologia e Transaberes (Nelson Job)

da ciência sitiada à um pensamento livre

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“Esta é a equação: oferta + procura + magia. E o que é magia? Magia é épica e também é sexo, bruma dionisíaca e jogo.”

Roberto Bolaño


A ciência está sitiada. De um lado, a indústria farmacêutica dita as normas de pesquisas em remédios e tratamentos médicos; de outro, a física se orienta pelos financiamentos estatais e empresariais em que o pragmatismo, a serventia óbvia e previsível minimizam a necessidade de liberdade do pesquisador. A ciência sitiada é o dique de um devir transaber livre.


É só olhar a volta – com boa vontade – que observamos micro-novidades (ou nem tanto) pulularem: perguntem a um pesquisador de câncer que não tenha o seu nome viciado em papers - que são importantes para currículos, mas que quase ninguém lê - ele vai dizer, meio ressabiado, que quando membros da equipe estão de mau humor, com problemas pessoais etc., o tecido canceroso em estudo tem mais chance de proliferar. Mas essas evidências não entram nos papers, pois a indústria teria a sua resposta única para todos os males – a química – posta em questão.


Também é notória a questão da neurociência. Para ela, o cérebro “comanda” a mente. Tal postura convoca a ciência a operar o cérebro e invadi-lo com as químicas mais destrutivas. E se a neurociência ao menos desconfiasse da existência do virtual bergsoniano? (ver Devires). Aí, o que acontece no cérebro seria apenas uma evidência do virtual sendo acessado. Mais uma vez, respostas químicas não bastam. Então, lidar com o virtual geraria uma outra ciência, que o filósofo Manuel DeLanda (2004) chamaria de uma ciência menor.


A solução “única” química vem adquirindo uma indesejada consistência, o que culmina em seu fractal ressonante no cinema blockbuster: é conhecida a cena em Morpheus oferece a Neo a possibilidade da pílula azul (ficar na mesma) ou da vermelha (conhecer os desígnios da Matrix). Até em um filme com contornos revolucionários a solução possível parte da química...


Claro, existem linhas de fuga. A cosmologia apresenta algumas delas.


“um valor, pensou ele quando tornou a ficar sozinho, sempre é aproximado, não existe número correto, só os nazistas acreditavam no número correto e os coletores de impostos (que Deus acabe com eles), os numerologistas que liam o destino por três vinténs acreditavam no número correto. Os cientistas, pelo contrário, sabiam que todo número é apenas aproximado. Os grandes físicos, os grandes matemáticos, os grandes químicos e os editores sabiam que a gente transita no escuro.”

R. B.


O físico cosmólogo brasileiro Mário Novello é pródigo em apresentar facetas da cosmologia que comungam com a liberdade de pensamento, apesar de (ninguém ficará surpreso) ser uma cosmologia muitas vezes marginal – de qualquer forma, cada vez menos marginal.


Novello (2010) e alguns outros (BOJOWALD – 2008), sucitam a hipótese de um universo eterno em oposição ao modelo do Big Bang. O Big Bang, hipótese majoritária, é provavelmente acolhida em função de seu convite a um ponto zero do universo, tão comum no pensamento ocidental. No processual, majoritário em uma filosofia oriental e marginal no Ocidente, não existem “pontos zeros”, mas gradações em contínuo devir. O Big Bang também serve a uma mitologia cristã (“haja luz!”): o precursor do conceito foi justamente criado por um padre belga, G. Lemaître, com seu modelo cosmológico do “átomo primordial”.


“Não se trata de acreditar – disse Ansky - , trata-se de compreender e depois de mudar.”

R. B.


O modelo do universo eterno (bouncing) é, segundo Novello (2006) compatível com a filosofia de Heráclito, porque é também dinâmico. Poderíamos ir além e relacionar o universo eterno com o pensamento de Spinoza (2008), pois a filosofia espinozista parte de uma substância imutável como modos dinâmicos, em devir.


A substância de Spinoza, concebida em sua “Ética”, apreende um terceiro gênero de conhecimento que seria o do amor de Deus (equivalente à substância) por si mesmo, o conhecimento imanente. Veremos em breve o quanto a física está tomada por noções semelhantes a essa, que envolvem totalidade. Aqui cabe uma relação com a lógica hiperdialética ou quinquitária, assim chamado por Luiz Sergio Coelho de Sampaio (2002). Essa lógica envolve as lógicas: da identidade ou do mesmo (Parmênides), dialética (Platão), clássica ou da dupla diferença (Aristóteles), da diferença ou do outro (Heráclito) e inclui ela própria. A lógica hiperdialética impele a uma ressignificação cósmica em que ser e pensar são o mesmo. Ela seria, então, “onto-lógica”, uma lógica do amar, prenunciada pelo romance (escrito ou filmado), onde se relacionam escritores e leitores formando um ente virtual andrógino.


“A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo, e sobretudo é conhecimento de perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada (...) Numa palavra: o melhor é a experiência.”

R. B.


Se o universo é uma totalidade – o “tudo que existe”, o universo eterno é também uma totalidade temporal. As questões de totalidade estão permeando a física, como facilmente notamos ao constatar o monumental investimento – financeiro e intelectual – no Grande Colísor de Hádrons, onde se espera identificar o campo de Higgs (GREENE – 2005), campo que permeia todo o universo, sendo que todas as massas das partículas são formadas a partir do atrito com ele. Se preferimos o conceito de vazio quântico (vazio pleno oriundo da Mecânica Quântica, diferente do vácuo, ou vazio absoluto), é por achar tal conceito mais amplo e de acordo com a filosofia da diferença, em que apostamos.


“Só na desordem somos concebíveis”

R. B.


Assim, chegamos a um passo além do imutável espinozista, no devir contra-Natureza de Deleuze e Guattari (1997). Aqui, o universo eterno ganharia cores intempestivas, não sendo mais “eterno” no sentido que sempre existiu e sempre existirá, mas que existe, simplesmente, sem “compromissos” com a prioris e a posterioris. Novello (1988) considera a possibilidade do universo ser governado pela bifurcação, oriunda de matemática criado por Poincaré, cujo desdobramento mais conhecido é a teoria do Caos. Em um universo assim - em que comungo que seja o nosso -, “as causas do mundo não estão no mundo”, pois, as mudanças acarretadas anteriormente mudam o universo de tal forma, incluindo suas leis, de maneira que não se possa re-conhecer nele seu antecedente. Em outras palavras: puro devir.


“O mundo inteiro é uma coincidência (...) A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos expostos por nossa própria natureza. A coincidência não obedece a leis, e se obedece, nós a desconhecemos.”

R. B.


Também podemos conceber a idéia de que no universo, podem coexistir leis da física diferentes em diferentes lugares. As hipóteses de universos paralelos (GREENE – 2005) - de Hugh Evertett III à teoria das Supercordas – expugam a diferença “pra fora” (como se faz a exaustão no pensamento ocidental), ou seja, para outros universos com leis da física diferentes das do “nosso”. O que se observa em nossa ínfima porção do universo, usualmente é extendida para a totalidade. Mas, é preciso perguntar, “e se não for assim?” Novello (1988) ainda lembra a teoria de Buracos Brancos, em que se pode criar nova matéria no universo, de forma imprevisível e aleatória.


Todas as questões elencadas acima estão de acordo com uma pensamento em devir assim, clamamos por uma cosmologia, por uma ciência que abarque todas elas. Mas ainda é preciso explicitar um grande fetiche da física: a conservação de energia da primeira lei da termodinâmica, que diz que a energia do universo não pode ser criada nem destruída, apenas transformada. Tamara Davis (2010) afirma: “quando tentamos entender se o Universo como um todo conserva energia, encaramos uma limitação fundamental, porque não há um valor único que possamos atribuir a algo chamado ‘a energia do Universo’ (...) o Universo não viola a conservação da energia. O Universo está fora da jurisdição dessa lei.”


Em uma ontologia que postula o devir que pode se tornar qualquer coisa, deixando inclusive de ser Natureza, podendo deixar inclusive de “ser”, não permiteria que houvesse essa “lei de conservação”, sequer lei alguma. Claro que muitas das leis que identificamos, podem ser concebidas como contextuais, como fazendo parte de um processo, cujo rumo é da ordem do inominável.


“O estilo era estranho, a escrita era clara e por ocasiões até transparente, mas a maneira como se sucediam as histórias não levava a lugar nenhum: só restavam crianças, seus pais, alguns vizinhos e no fim, na realidade, a única coisa que restava era a natureza, uma natureza que pouco a pouco ia se desfazendo num caldeirão fervendo até desaparecer totalmente.”

R. B.


Bibliografia

BOJOWALD, Martin, “Relatos de um Universo Oscilante” in: Scientific American Brasil 78, pp 30-35, 2008.

BOLAÑO, Roberto, 2010, 2666. 1 ed. Companhia das letras, São Paulo.

DAVIS, TAMARA M., “O Universo está perdendo energia?” in: Scientific American Brasil 99, pp 26-33, 2010.

DELANDA, Manuel, 2004, Intensive science and virtual philosophy. 2 ed. Continuum, London.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.

NOVELLO, Mário, 1988, Cosmos e Contexto. 1 ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro.

______________ 2006, O que é cosmologia? 1 ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.

______________ 2010, Do Big Bang ao Universo Eterno. 1 ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.

SAMPAIO, L. S. C., 2002, Filosofia da Cultura – Brasil: luxo ou originalidade. 1. ed. Editora Agora da Ilha, Rio de Janeiro.

SPINOZA, Benedictus de, 2008, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica.