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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Era do Conjugalismo


-->Devir-feminino de Amy Winehouse ao "Anticristo"

Nelson Job

Ela jamais teve certeza se as vozes eram reais,
mas finalmente se convenceu de que tinham sido parte
de uma daquelas situações em que
o real é apenas um conceito a mais.
"Count Zero"

Você tem procurado por toda a matrix,
mas eu tenho olhado para a matrix, a coisa toda.(...)
Continuidade é Continuidade.
Continuidade é o trabalho de Continuidade...
"Mona Lisa Overdrive"
William Gibson



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Feminar. Um verbo chave para os dias de hoje. Não que seja livre de perigos. Estar livre de perigos é algo que já desistimos há muito tempo. De um lado, a terra enquanto Gaia clama por uma co-habitação mais feminina, no sentido da mãe prover os filhos – seus habitantes – se estes a retroalimentam, e não a vampirizem. De outro lado, a com-fusão feminino-mulher. É bem verdade que os agenciamentos vitais, morfogenéticos, biológicos, favorecerem a mulher de ser “feminina”, mas esta suposta facilidade não deve funcionar como garantia.

O maior problema são relações ditas “afetivas” ou “conjugais”, que se tornaram práticas homossexuais masculinas em sua maioria. Não é uma crítica ao “homossexualismo” no sentido genital, e sim, em seu sentido que despreza a alteridade. Com carícias e cópulas que reproduzem as cenas pornográficas, a cópula vem se restringindo a pequenos agenciamentos pênis-vagina, pênia-ânus, pênis-boca. Não mais corpos interagem em um devir-conjugação, mas objetos parciais se intercambiam, quase sem afeto. O orgasmo é efêmero e condicionado ao Eu. Isso quer dizer, retirado do orgasmo toda a sua grandeza taoísta de celebrar o sexo como junção do céu com a terra e se ir muito além do Eu.

Vejamos então, as máscaras do feminino na mulher: Angelina Jolie ressoa bem o estilo desse homossexualismo: mulher que bate-mata-friamente. Mulher que se torna homem para sobreviver em um mundo masculino. Estratégia de combate que torna o solo de Gaia cada vez mais estéril, povoado do mesmo.

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Se uma Isabelle Adjani ou Monica Bellucci remete a um devir-Perséfone, mulher sombria, cujo sofrimento é guardado a sete chaves, gerando uma postura defensiva em relação ao mundo, porém profunda; temos o devir-Hera, a dona de casa amorosa, que cria os filhos e quase torna o marido um deles, digamos, uma Margie Simpson, se tem alguma moral, ou uma Lois Griffin (!), já quase sem moral. De devir-Afrodites, temos aos montes, porém muito poucas que elevam a sedução e a sacralidade do sexo... Mas precisamos de uma outra coisa, todos esses aspectos do feminino são importantes, mas para forjar um amálgama de um novo feminino quintessencial, pois, se usamos os gregos para nos basear, é só para abandoná-los: qual é a figura de feminino que precisamos hoje, visto que os moldes gregos encerram uma Velha Era?



Recentemente, falou-se muito que a ciência decretou que o ponto G não existe. Concordamos com o interessante artigo de Arnaldo Bloch afirmando que o ponto G é coexistentemente quântico. Curioso: a ciência pré-quântica realmente precisa "conter" o devir pra existir: estabeler a repetição de "fenômenos científicos" empiricamente provados. Como o ponto G é móvel, a ciência não consegue achá-lo e cria a ilusão de que ele não existe. Nos apressemos a declarar: devir-feminino torna-se então um pleonasmo! É da ordem do feminino essa porosidade, essa não-localidade!

Existem algumas pistas para se apurar o feminar: o filme-acontecimento “Anticristo”, de Lars Von Trier, nos força a ver com violência, que o masculino racional, travestido de psicólogo comportamental, já deu o que tinha que dar. Por um lado, a queda de Bush mostra que esse patriarcalismo de 6.000, 8.000 anos, está em curva descendente. Um feminino, o que realmente interessa: o do êxtase, foi boicotado pela Inquisição na Idade Média (tema de tese da personagem, cujo temo é considerado “superficial” pelo comportamentalista) e pelo racionalismo, no Iluminismo, em seguida. Este feminino - seja pelos tremores, tsunamis, inundações, furacões etc incessantes de Gaia, seja pelo clamor insandecido de feminino da personagem do filme (que entra em depressão depois da morte do filho e enlouquece de medo da solidão com o marido no bosque) – insiste em ressurgir. Outro problema: re-surgimento. (acerca do filme "Melancholia" de Lars Von Trier, ver "O Fim de tudo o que conhecemos... e `um plus a mais'")

Há um esquema para o retorno do matriarcalismo. A própria Hipótese Gaia de Lovelock, traz a idéia do planeta ser feminino. Também o crescimento do paganismo: formas de religiosidade do matriarcalismo. Não há nada em se ganhar, seja wiccas ou xamãs, com o retorno, “sagrado” ou não, do feminino matriarcal. Isso apenas seria uma tola etapa em um jogo dual de pseudo-vencedores. “Agora, nos próximos 6.000 anos, quem ‘manda’ é a mulher, heim?!?”. Nada disso. A questão não é quem manda, mas como relacionar sem utilizar o poder.


Um "sintoma" midiático é a interessante e carismática ascenção dos vampiros no cinema, TV e literatura recentemente. Esses personagens "demoníacos-pagãos" se tornaram "éticos" e não sugam sangue humano (ao menos, os bonzinhos) e não morrem em contato com o sol (o "Iluminismo", enquanto pensamento solar, nunca bastou para evitar as trevas). Claro que há uma beleza romântica, ainda que imatura, de, por amor, se dispor a mudar de natureza, o problema que essa "nova natureza" é o vampirismo. As adolescentes apaixonadas por eles sofrem pelo dilema mortal-imortal, chegando até ao pedido de se tornar vampira, enquanto que o amado em questão não quer passar a maldição para a amada: passagem milenar de poder patriarcal para o matriarcal - inevitavelmente acaba em co-vampirismo... A morte apenas é o momento quando um determinado coletivo deixa de acompanhar um processo. O vampiro é aquele que se apega, que tenta replicar infinitamente o pré-momento da morte. Tentativa mórbida de domesticação do devir: o impedimento invitavelmente vampiresco do fato que o devir remete o vivente para o inominável , o incontrolóvel. Agora o bastão desse mórbido controle está sendo passado do vampiro para a vampirizada em pré-vampirização. É preciso um neo-paganismo, um tecnopaganismo que leve em conta os tecno-devires! Como a "Trilogia Sprawl" de William Gibson: cyberespíritos na matrix..


Amy Winehouse também fornece pistas: mulher-fractal do mundo. Quando esteve em profunda crise com álcool e drogas, foi internada. Assim como o mundo entrou em crise, aparentemente “econômica”. Passadas as crises, Gaia e Winehouse tentam se levantar com criatividade. Se a economia se repensa – com muita dificuldade, pois está viciada em modelos, principalmente no duplamente falido homo economicus – Amy se aventura pelo jazz, experimental por natureza, menos pelo soul, que influenciou o álbum anterior. (Acerca da morte de Amy Winehouse, ver: "O Fim de tudo o que conhecemos... e `um plus a mais'")



Tanto Amy quanto a personagem de “Anticristo” nos dão pistas que para ser mulher, enquanto feminina, se sofre. E muito. Os sucessivos solavancos de Gaia e Winehouse mostram que a crise do feminino é geológica, econômica, social, artística. Um atrator estranho feminino se projeta, como Gaia que causa destruição, ou como uma mulher na música ou no cinema que desespera em função do afeto. Se a Inquisição tentou controlar o êxtase místico das feiticeiras, não há quem segure o êxtase de Gaia. Mas, se o retorno do feminino não é a solução, qual é?

Precisamos devir-Gaia. Não ser seu filho, mas ser a Terra, como de forma simplificadora, o filme “Avatar” de Cameron mostra. Curioso fenômeno: avatar blues. A depressão que se segue por não habitarmos o planeta Pandora, cujos habitantes tem uma relação intensiva, uma co-habitação sentida pelos humanóides, animais, plantas etc. Mas a questão é que nós habitamos Pandora: a Terra mostra cada vez mais detalhes de sua auto-organização: seja pelas chuvas em florestas incendiadas, seja por aparecimento de plantas em um local cuja doença é curada por estas plantas. Toda a questão agora é: como fazer para nos sentirmos enquanto Gaia, como tornamos o Eu em segundo plano e as relações cósmicas em primeiro?

Se isso implica em um devir-feminino, não implica em um retorno ao matriarcalismo, mas em uma era de conjugalismo, sem preponderância de masculino ou feminino. É bem verdade que o patriarcalismo sugiu junto com o advento do manejamento do ferro. A produção de armas gerou a escravização e a produção em vários níveis de hierarquias do mais forte sobre o mais fraco. Mas foi o matriarcal que gerou o desejo do patriarcal: colocando em termos simples:
Homem: - Eu quero ir para a Lua.
Mulher: - Não, descubra a sua lua interior!
Então, o Homem gerou ciência, poder etc e foi à Lua. Tanto a ciência, como o paganismo animista místico da matriarcalismo são importantes e não-excludentes. É preciso levar ambos em conta, pois os dois isolados geram, no caso do misticismo, dogma, repetição e no caso da ciência, poder exarcebado, poluição, em suma, desconexão da humanidade com o cosmo: supremacia do Eu. Descobrir a lua interior e conhecer a Lua em si são ambas tarefas dignas, que ressoam profundamente, fazendo uma relação fractal de micro e macro: interação ciência e misticismo.

O catolicismo e sua prática mais perversa, o jesuitismo (disseminar o cristianismo eliminando as práticas sociais da sociedade dominada) reverbera bem a questão: Cristo, que vive em função da mãe em nome de um pai que ele não conhece. Seu pai mortal também tem que suportar o fato de não tê-lo inseminado. Além disso, Cristo não vai poder ter esposa, apenas elevar a mãe na hora da morte. Esse masculino assustado pelo matriarcalismo (uma certa Maria-mãe) enraivecido pela perda do poder gera o homem que se esconde no laboratório para “manipuilar” a Natureza. Projeto que hoje, mais uma vez, aos solavancos, se mostra parcialmente infeliz. Parcialmente porque a ciência trouxe belezas também, ao seu modo: belezas quânticas, fractais, astronômicas... E, assim como, se existem traumas cristãos (sexuais, transcendentes) existem potências crísticas (tolerância, amor).

O conjugalismo é entre ciência e misticismo, natureza e cultura, sujeito e objeto e masculino e feminino. como no Tai-chi, complementariedade yin-yang. É ir além das dualidades é abdicar do poder. O controle absoluto que se exerce no pensamento é a separação de natureza e cultura! Está na literatura (separação leitor-livro) e nas artes em geral e nas relações que acreditam que o outro não pode ser intensamente acessado, a não ser por indícios: tristeza propriamente kantiana. Acreditamos ainda, infelizmente, estarmos separados do cosmos, acreditamos no atomismo do Eu. É preciso lembrar das potências já alcançadas de grandes precursores na arte, cujas obras tranformaram profundamente seu porvir: o barroco juntando quadro e contemplador, Kafka, livro e leitor e Hitchcock "incluindo" o espectador no filme, prefigurando inúmeras rosas púrpuras do Cairo. Se concebermos a junção de natureza e cultura, e por consequência, a abdicação de todas as dualidades, inclusive a de tempo e espaço, estaremos mais próximos de uma era de conjugalismo.

http://c2.api.ning.com/files/aGL8DXVjIyzdtzq2DP03KlHfQeNnNzvCb**CdOH2mMNcNk0pGGHOcY-Ceb4FyzuLc6h8FOcSWtjtM*LyTonYX*mD72*jx*CZ/Tao_YinYangEarth2.jpg

Para um desdobramento deste texto, ver:

Um comentário:

Carol Grether disse...

Muito legal o texto :)Poderia ter sido enviado por outra pessoa e ocultado o autor. Posso garantir que no ato eu lembraria de você, dos encontros, do grupo mas mais especialmente de você. Parece uma tradução das suas idéias todas, das que você passa pra gente, diga-se de passagem com tanta generosidade.
Preciso ler de novo pra digerir e me ater mais as linhas desse texto, já que a cada informação eu vou remetendo a outras séries de coisas que por sua vez vão abrindo caminhos e quando eu vejo estou viajando. Muito bom isso!
O Anti Cristo é um acontecimento mesmo né? Nao diria nem cinematográfico só, mas um acontecimento.

valeu
beijos