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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Glossário de conceitos

Nelson Job



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Animismo
Termo usado para designar crenças pagãs, como o hermetismo, que concebe toda a existência como viva. Alguns pensadores clássicos do ocidente são animistas como Spinoza e Leibniz. O animismo é um conceito escamoteado na história do pensamento, mas muito presente. Em termos atuais, diríamos: não existe nenhuma conceituação consistente para afirmar com precisão onde “começa” e “termina” a vida.


O termo oriundo da Teoria do Caos a partir da análise de turbulência de fluidos. O atrator estranho se dá no gráfico como padrão não-linear, fractal, cuja relação de vários vetores aparentemente aleatórios resultam nesse padrão não-linear, cujo exemplo mais conhecido de atrator estranho é o efeito borboleta. Na filosofia de Deleuze e Guattari, foi precedido pelo conceito de máquina abstrata. Ex: nuvem de pássaros.


Termo de Bergson para falar do uso do sensório-motor no presente que passa, após um processo intensivo de atualização do virtual. Designa ação, uma densificação e uma perda de velocidade.

Termo oriundo da física quântica. Os experimentos em laboratórios não identificam porque o pacote de onda se torna apenas uma partícula. Se convencionou dizer que o observador é que realiza o “colapso”. Essa convenção gera muitos disparates, inclusive a afirmação que o “colapso de onda é científico”. Não. É apenas uma hipótese. Outras hipóteses para a passagem da onda à partícula são a Teoria dos Muitos Mundos, onde cada partícula vai para um mundo diferente, e posteriormente cogitou-se até universos paralelos. Outra teoria é a da decoerência, que implica, entre outros fenômenos, que troca de fótons com o meio torne a onda, partícula. Uma última hipótese seria a da gravitação quântica. Nesse caso, se postula uma gravidade – que, normalmente, não é concebida no nível quântico da matéria – que realizaria o colapso. Tanto a decoerência, quanto a gravidade quântica não necessitariam do observador para se dar. O físico e filósofo da ciência Mario Bunge propõe cunhar um termo único, o “quantom” que teria características não-dualistas tanto da onda, como da partícula.

A característica do ente pensar sobre si mesmo: “quem sou eu?”, “o que eu estou sentindo?” etc. O animismo propõe que tudo no cosmos tenha consciência, mas em gradações diferentes, sendo a consciência humana muito complexa. Vários pensadores ao longo da história do pensamento já se debruçaram sobre a questão, adquirindo importância com Descartes, Spinoza, Leibniz. Roger Penrose e Stuart Hameroff têm um modelo de consciência baseado na física quântica.


Termo oriundo do draturgo Antonin Artaud que foi utilizado por Deleuze em sua filosofia, sendo que o conceito foi se positivando ao longo de sua obra. O Corpo sem Órgãos (CsO) seria um tipo de corpo sem organismo, sem a organização tradicional de uma medicina, de saber totalizante sobre o corpo, uma forma de adquirir velocidade, mesmo parado, de virtualizar, mas evitando a morte. A união de todos os corpos sem órgãos seria a imanência.

O cyberpunk desdobra-se em várias facetas: literatura, cinema, música etc. Podemos identificar como precursor a obra do escritor de ficção-científica Philip K. Dick, que criou em seus livros uma atmosfera sombria, futurista e sobretudo que questionava a realidade. Influenciou o livro "Neuromancer" de William Gibson, que é um marco do cyberpunk, com seus conceitos de cyberespaço, matrix, roupas de couro e óculos escuros, drogas baseadas em estimulantes e clima futurístico-noir. Nos quadrinhos, a grande referência é o mangá "Ghost in the shell" de Masamune Shirow, que discute o surgimento de uma Inteligência Artificial autônoma no cyberespaço, à luz de filosofias zen, entre outras. No cinema, o filme "Blade Runner" de Ridley Scott, baseado em livro de Philip Dick, dita a estética do gênero no cinema. O grande impulso midiático do cyberpunk foi o filme "Matrix" dos irmãos Wachowski, que, influenciado por tudo o que citamos anteriormente, faz uma síntese do conceito.

Termo conhecido e mau digerido. Deve-se seu prenúncio a Heráclito e foi se sofisticando ao longo de toda a história do pensamento ocidental, mas existem relações profundas com o pensamento oriental como a transformação no Taoísmo e, principalmente, a impermanência no budismo. O devir é inconstante, ao contrário do que se costuma dizer. Não existe suporte para o devir porque tudo muda, inclusive a mudança. Não se conhece o devir, porque em seu ato de mudar, já se perdeu qualquer apreensão. O devir é da ordem do inominável, do inapreensível, é uma diferença que se diferencia. É uma contra-natureza.

Leibniz, pensando a diferença, chamava a atenção para o fato que a individualidade envolve o infinito. Segundo Gregory Bateson, a informação é a diferença que gera diferença. Para Deleuze, é preciso não subordinar a diferença a negação, analogia, semelhança, identidade ou oposição, mas dar a diferença um estatuto de afirmação, de diferença pura: não uma questão de dado, mas de como o dado é dado (como diverso).

Einstein criticou certos conceitos da física quântica afirmando que esta previa acontecimentos simultâneos (EPR) que contradiziam um de seus postulados da Relatividade: não existe nada mais rápido que a velocidade da luz. Niels Bohr respondeu que sim, o emaranhamento era uma possibilidade que a física quântica previa. A querela foi parcialmente resolvida com John Bell que deu elementos experimentais para a comprovação do emaranhamento comprovados, entre outros, por Alan Aspect. O emaranhamento quântico constitui uma relação de simultaneidade entre duas partículas separadas em qualquer distância no universo. As comprovações já chegam a quinze quilômetros.

Conceito complexo, que tem bifurcações científicas, filosóficas e místicas. A energia, segundo Einstein, é a matéria em maior velocidade. Para Manuel Delanda, a energia faz parte de um agenciamento que envolve energia-matéria-informação. A energia é a instância que compõe tudo o que existe, em graus diferentes de densidade. Quanto mais denso, menos rápido e vice-versa.

Epistemontologia
Imanência entre epistemologia (estudo do conhecimento) e ontologia. Não se concebe aqui uma separação entre os estudos do ser (que na espistemontologia é devir) e do conhecimento. À luz de um transaber, como é a Ontologia Oníricadevir é adquirir sabedoria, ou seja, conhecimento aplicado à vida.

Epistemontonauta
(Sonhador ontológico) Vortex, atrator, "pessoa", "ente", agenciamento, auto organização de vetores que suscita seu(s) vortex(es) através do apreensão (estudo + vivência) da Vortexologia.

Conceito diferenciado da moral, que é um conjunto de regras a priori de certo e errado. A ética vai adquiri seu esplendor conceitual com Spinoza, que vai concebê-la como um processo, onde há que se engendrar, bons encontros, aumento de potência, alegria. A ética em uma imanência, deve ser o melhor neste todo, não só uma ética para indivíduos.

Conceito oriunda da teoria do Caos. Mandelbrot identificou padrões em ruídos de telefones e a aplicação dessas equações geraram no gráfico belas imagens, onde existem semelhanças entre a pequenas partes constituintes e o todo. Os fractais estão na natureza, como na folha de samambaias e encostas de praias. Deleuze os articula com as mônadas e a teoria hipotética de unificação da Triangulação Dinâmica Causal prevê uma relação da física quântica gravitacional com os fractais.

Pensamento místico com origens historicamente indefinidas. O hermetismo pode ter tido suas bases no Antigo Egito com as crenças em torno do deus Thoth, tendo aparecido enquanto "hermetismo" no período helenístico. O primeiro texto comprovadamente hermético foi as “Enéadas” de Plotino. O hermetismo teve seu período de maior popularidade na Idade Média. A alcunha "hermetismo" se deu em relação a figura de Hermes Trismegisto. Não existem dados históricos suficientes para se afirmar onde e quando ele viveu, se é que ele existiu e se os textos atribuídos a Hermes foi ele mesmo que escreveu. Contudo, acredita-se que o Hermes viveu no Antigo Egito. O hermetismo se organiza modernamente a partir de sete princípios (ressonâncias filosóficas após cada definição entre parenteses): Mentalismo (tudo é mente) imanência, Correspondência (o que está em cima é como o que está embaixo) mônada, Vibração (tudo vibra), Polaridade (tudo é duplo) ressonância, Ritmo (tudo tem fluxo e refluxo) máquina abstrata, Causa e Efeito (todas as causas anteriores contribuem para um efeito, e tudo de acordo com a Lei) e Gênero (conjugalidade dos princípios masculino e feminino). Do hermetismo foi gerada a alquimia (que gerou a química) e a astrologia (que gerou a astronomia). Dentre estudiosos célebres do hermetismo estão Agrippa, Paracelso, Giordano Bruno, Isaac Newton e Leibniz.

O que se define por si. Conceito tornado conhecido com Spinoza, mas com precedentes nos estóicos, por exemplo, e diz de uma equivalência entre Deus, substância e mente. Na imanência, é eliminado o transcedental.

Em Deleuze, é a passagem entre atual e virtual, sendo que o caminho da atual para o atual é diferente do virtual para o atual. A mônada é um exemplo de intensivo.

Conceito de Deleuze e Guattari tido por Manuel Delanda como precursor do conceito de atrator estranho da Teoria da Caos. A máquina abstrata é virtual e tem uma pré-organização atemporal, relacional e não-linear. A partir dela se identificam processos de auto-organizações em vários planos como ao agenciamentos lava-seixos-geologia, genes-espécie, dialetos-língua; todos com comportamentos aparentemente aleatória que se auto-organizam.

Conceito originado nos pitagóricos, emergindo da relação entre cosmogonia e geometria. Foi desenvolvido por inúmeros filósofos, como os neoplatônicos; no hermetismo e sistematizado no séc. XVII por Leibniz. A mônada (de “Mono”: um) é um espelho vivo e perpétuo do universo, indivisível. O que acontece com uma mônada, o universo inteiro se ressente. Gera o perspectivismo, onde cada ato de olhar gera um mundo. Gabriel Tarde, ao final do séc. XIX, vai desenvolver o conceito afirmando que as mônadas são abertas e formam sociedades. Deleuze, na segunda metade do séc. XX, vai articular as mônadas com os fractais da Teoria do Caos, somando os conceitos de Leibniz e Tarde: as mônadas teriam dois andares, como uma casa barroca – o de cima fechado e o de baixo aberto. O conceito vai ser importante também para a filosofia orgânica de Whitehead. O médico Stuart Hameroff vai se utilizar do conceito de mônada ao equivaler com a ocasião atual de Whitehead e redução objetiva: versão do colapso de onda da física quântica que Roger Penrose desenvolve em seus livros sobre consciência quântica, a partir da gravidade quântica.

Estudo do ser enquanto ser. Manuel Delanda propõe o termo “ontologia plana” para designar uma junção da ontologia com a epistemologia (teoria do conhecimento), que seria uma ontologia da imanência, que não separa natureza e cultura.

Ontologia Onírica é um transaber em que são tecidas imanentemente a epistemologia e a ontologia pondo em ressonância a magia, a filosofia, a ciência; sobretudo o Hermetismo, a Filosofia da Diferença, a Física Moderna, principalmente a Mecânica Quântica, a Teoria dos Caos e a cosmologia e a arte. A partir da Ontologia Onírica, o sonho ganha um estatuto de realidade, saindo de um paradigma representacional e o devir selvagem pode criar uma transcendência a posteriori, ou seja, pode-se criar algo  que não sabemos nada: sequer essa transcendência é discreta ou contínua.

Originado em Leibniz, com o seu conceito de mônada, o perspectivismo alcança vários desdobramentos com Nietzsche, Gabriel Tarde e Deleuze. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro vai aplicar o perspectivismo em seus trabalhos etnográficos afirmando que os índios da Amazônia tem o perspectivismo como hábito. Em teoria, cada olhar gera um mundo, e o sujeito é uma sucessão de perspectivas, um processo de alteridade que envilve uma conexão direta com o mundo, ou mundos, que se sobrepõe a cada ato de olhar. O nosso mundo convencionalizado se dá entre perspectivas.

Conceito desenvolvido de forma consistente na filosofia por Whitehead. Desenvolvendo-o a partir da matemática, Whitehead vai conceber a relação como eliminando os termos e os próprios termos são concebidos como relações de relações, indefinadamente, não chegando a uma instãncia pura definitiva. Em Simondon, desenvolve-se na idéia de individuação biológica que precede o indivíduo. A relação, então, é pensada como anterior ao sujeito e objeto, invertendo concepções tradicionais da história do pensamento.

Conceito que aparece de relance em vários filósofos e encontra uma maior sistematização em Gilbert Simondon, sendo desenvolvido por Deleuze. A ressonância é uma relação não-local, uma ação à distância, em que dois ou mais processos de diferenciação entrão em relação para além das dimensões espaço-temporais. Na física quântica vai aparecer como emaranhamento quântico.

Conceito oriundo da botânica: sistema de radículas que se atravessam, não sabendo de qual árvore se originou. Deleuze e Guattari o trabalharam em sua filosofia, propondo um pensamento papa além da estrutura: a estrutura emerge contextualmente no rizoma. Cada ponto pode se comunicar com qualquer outro e a convegência de rizomas pode gerar um tubérculo, ou seja, mais atualizado, lento densificado. O rizoma tem precedentes em Gregory Bateson e Jung. Ex: sites da Internet que se intercomunicam, rede neuronal, mapas aeroviários etc.

Termo cunhado por Jung a a partir de seus estudos sobre hermetismo, parapsicologia e física quântica. Foi importante para Jung se encorajar a escrever sobre o tema que o assolava há anos, sua amizade com o físico Wolfgang Pauli, ambos adeptos de uma articulação da psicologia com a física quântica. A experiência-chave clínica de Jung foi quando uma paciente resistente sua lhe contou um sonho sobre um escaravelho dourado e ao mesmo tempo aparece na sala um besouro com traços amarelados. A sincronicidade fala de uma coincidência significativa, sem passagem de energia (como no emaranhamento quântico) no tempo e no espaço.

Transcendência a posteriori
A transcendência a posteriori é um conceito do campo conceitual Ontologia Onírica. Ela é uma possibilidade do devir selvagem, sem diques. Um devir que é de fato imprevisível, pode criar inclusive uma transcendência, que emerge de uma imanência. Essa transcendência a posteriori não tem nada em comum com as transcendências e Trancendentais a priori da filosofia ocidental. Não é uma trancendência platônica (mundo das ideias), escolástica (Deus católico), kantiana (imperativos categóricos) nem um não-ser neoplatônico. Acerca da transcendência a posteriori, nada se sabe: se   ela é dualista, discreta (em oposição a um contínuo), se ela está em oposição a uma imanência, apenas sabemos que emerge de uma imanência, não necessariamente nela.

Transaber
O transaber é o saber concebido como imanente à vida. Todo saber é um transaber, no sentido que eleva a sabedoria. Os transaberes abandonam a transdisciplinaridade,  em função de que a transdisciplinaridade está comprometida ainda com a disciplina, epistemologia que quer disciplinar, axiomatizar a ontologia. O transaber é da ordem de uma epistemontologia, como a Ontologia Onírica.


Entendemos por transdisciplinaridade radical a articulação de vários saberes oriundos das mais diversas fontes: filosofia (incluindo o hermetismo e as filosofias orientais como o budismo e o taoísmo), as ciências (inclusive as especulativas, como a teoria das supercordas e a consciência quântica) e as artes (como também as manifestações da arte pop e "de massa"): ou seja, nenhum saber é previamente desconsiderado. Essa articulação produz uma relação entre os saberes gerando um híbrido, que emerge dos vetores de saberes utilizados. A transdisciplinaridade radical é superada pelos transaberes.


Termo de Bergson para falar do processo da memória e da coexistência e multiplicidade do tempo na experiência cotidiana. Vai se atualizar no “presente” (ou o tempo que passa agora) no atual. Podemos dizer que o virtual é a energia tornada menos e menos densa, ao limite da intangibilidade, mas sem se tornar intangível.

Vortexologia
A Vortexologia é um transaber oriundo da Ontologia Onírica, uma conexão de transaberes. O vortex emerge das relações de forças em devires mais selvagens em torno de um atrator, sendo formado por vortexes formando vortexes. O vortex é ubíquo, autossimilar, coexistente, dinâmico, relacional, transespaçotemporal e instável, podendo transcender a posteriori. A Vortexologia consiste nas seguintes instâncias: a arte evidencia o vortex, a ciência modela o vortex, a filosofia explica o vortex, a magia conjura o vortex, a meditação intensifica o vortex, a Ética cultiva o vortex, o amor multiplica o vortex. A Ontologia Onírica vive o vortex, de forma que todas esses saberes sejam imanentes entre si na Vortexologia. O vortex elimina as dualidades nos saberes, ele emerge da imanência entre natureza e cultura. Ex: a "relação entre sujeito e objeto" é um vortex, formado pelo "sujeito" que é vortex, formado por vortexes que forma vortexes e o "objeto" que, por sua vez, é formado por vortexes, compondo vortexes.

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