CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tripaterapia

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Do maucaratismo à visceralidade
Nelson Job

“Todos estão loucos, neste mundo?
Porque a cabeça da gente é uma só,
e as coisas que há e que estão para haver
são demais de muitas,
muito maiores diferentes,
e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.
Todos os sucedidos acontecendo,
o sentir forte da gente – o que produz os ventos.
Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio, se a gente tem amor (...)
O demônio na rua...
Viver é perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.
Guimarães Rosa


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Não desejo a normalidade nem pro meu pior inimigo. Coisa chata. Vocês podem não me acreditar, mas todo dia essa coisa me aflige. Dá muito trabalho sair dela. Eu saio de casa e abro a porta. Toda vez que me deparo com a porta, a única coisa que penso em fazer é abrií-la e fechá-la. Não me lembro de quando fiz uma reverência para a porta em prol de sua pertinência cósmica. Pra que eu fale sozinho, tenho que forjar uma enorme solidão: tenho que imaginar que não estou ligado ao firmamento, ao solo, ao ar, aos quadros, livros e músicas... aí, não falo com nenhuma pessoa (o dito ser humano). Depois de um certo tempo, com muito esforço, começo a falar sozinho, eu e meus 3332 demônios interiores. Atiçá-los todos ao mesmo tempo é ainda tarefa muito mais árdua.

Também não acredito em desconexão com a realidade, ou seja, inexiste para mim, uma “loucura” que seja passível de ser considerada “errada”. Vejamos: a realidade, seja explicada por Philip K. Dick, ou pela física quântica e sua derivação mais "subjetiva", a consciência quântica, se desdobra em níveis. O que chamamos normalmente por realidade é apenas uma faixa que foi convencionalizada por uma cúpula de poder (de generais, industriais e outros pseudopedagogos) histórica que muda de mãos, estilo, ênfase e (não)localidade ao longo do tempo. Houve um preço histórico a se pagar pelo agenciamento ocidental Parmênides-Aristóteles-Descartes-Kant ao se separar espistemologicamente natureza e cultura. A partir daí, desse processo que culminou em uma atomização do sujeito, a realidade ficou bem curtinha, apesar de todos os quebra-galhos, como a realidade “virtual”. As brechas mais louváveis foram feitas pela arte de um lado e uma filosofia “perdedora” por outro: Heráclito, Spinoza, Leibniz, Bergson... Na virada do século XIX pro XX, os inconscientes freudiano e junguiano, a já citada física quântica e sua matéria em devir coexistente, acrescentaram mais brechas nessa estreita realidade.

A loucura - enquanto desconexão com a realidade - não existe. Existem atratores que lidam com vetores singulares, vetores que alcançam faixas de realidades mais amplas, assim como um cachorro alcança limites auditivos e olfativos mais amplos. Da forma como uma medicina ocular dita a faixa de curvatura da córnea ideal para “ver” direito (os óculos são os adaptadores universais para todos enxergarem de forma idêntica: ditadura ocular), a psiquiatria e a psicologia ditam uma "correta" cosmovisão, e os que não a possuem – ou alcançam uma faixa ampla e tem dificuldade para se adaptar a restrição da espectro de faixa de realidade – tem que usar o óculos sináptico (antipsicóticos) e psicóculos: a maioria das terapias que ditam uma realidade teórica (Édipos, arquétipos, couraças e outros fantasmas) e adaptam seus pacientes. O terapeuta costuma ser um especialista em clonagem: “torne-se, ó paciente, a minha imagem e semelhança neurótica”. E pague pelo direito ao festival de lamúrias semanais e evitação de processos micro-revolucionários, que deixariam o terapeuta sem dormir (!)

Claro que óculos para míopes configuram uma certa - digamos - "necessidade". Não para enxergarem “direito”, mas para enxergarem um mundo construído para aquela curvatura da córnea convencionalizada. Não um instrumento de cura, mas de adaptação e uma adaptação que possa ser opção. Temos toda a história da pintura pra desconstruir as formas de olhar e gerar miopias e astigmatismos-arte das formas, que multiplicam o direito a vários olhares.

Existe também o problema industrial: se não houver l(o)uc(r)os, o que fazer com os remédios, psiquiatras e psicólogos? Todas essas ferramentas são importantes, se utilizadas menos como adaptação contextual, ou melhor, alívio de sofrimento, e mais como lenta forja de uma vida livre, nunca "correção" definitiva. Além disso, várias aposentadorias são pagas a pais ainda jovens para poderem "cuidar" de seus filhos "doentes". A "loucura" dá dinheiro - pra todos os lados.

Mas existe um problema pouquíssimo falado: o maucaratismo do suposto louco. Se não existe loucura (enquanto desconexão com a realidade), existem diversos mau caráter que se fazem de louco para não trabalhar, não ir a escola e não correrem risco sequer que a vida oferece. A maior de todas as loucuras é se fazer de louco. Claro que se um mau caráter é internado em sua juventude, dopado, sofre internações e choques elétricos, ele tem muitas chances se tornar muito limitado. Minha questão é: será que os mecanismos “terapêuticos” estão habilitados para fazer o mau caráter operar em uma sociedade? Para cada candidato a louco, tem um pai candidato a ausente e uma mãe candidata a compor uma simbiose com o filho. Essa estatística turva (admito!) se inverte pra falar de drogados (estes já querem alargar a faixa de realidade por meios radicais: deveriam tentar mais a meditação, a arte etc).

Claro que “viver é perigoso”. Mas, fingir loucura para supostamente afugentar o perigo, é uma tarefa das mais prejudiciais para o atrator em questão e seus atratores agenciados (família, vizinhos: socius). As dificuldades de relação, que aparecem fractalmente em pais, irmãos, amigos etc, devem ser trabalhadas por esses serviços “terapêuticos”, não enfiarem o atrator em uma categoria taxonômica politicamente correta (troco toda a obra de Aristóteles por um novo fragmento de Heráclito!) de “usuário”. Então, aparecem todos os monstros já conhecidos: as seitas foucaultianas, nisedasilverianas, a deleuziália etc. Nada contra esses autores (acho que deveria se ler mais Norbert Elias do que Foucault e saber que a Dr. Nise, com toda a sua vanguarda e merecido reconhecimento da “emoção de lidar”, hoje deveria ser acrescida das “novidades”, como o Acompanhamento Terapêutico), mas ainda bem que teremos sempre Marshall Sahlins para nos lembrar que os foucaultianos reclamam de Mcdonald's na China, mas não de restaurantes chineses no Ocidente... Essas seitas, muitas bancadas pelo Estado, travestidas de terapias, humanizam os loucos, sendo que a grande questão seria abandonar a categoria de humano como “central pra um socius”. A esquizofrenia, o autismo, a drogadição clamam pelos devires cósmicos, devir-pedra, devir-planta ou seja, toda uma poesia de Manoel de Barros - bem registrada em documentário (desbiografia) recente. As seitas terapêuticas deveriam promover menos a loucura enquanto “errada, doente, mas digna de respeito”, e mais, se tornando livres-pensadores, a ampliação das faixas de realidade. Mais uma vez, o problema não são os autores originais, mas seus "devotos"...

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A seita deleuziália também é muito curiosa. Longe de ser formada apenas por terapeutas, mas também por filósofos, “artistas” etc, eles, que promovem o autor que, justamente, critica a identidade, que promovem a multiplicidade (desde que todas passem por Deleuze!...) pregam erroneamente o fim do sujeito. Até onde eu sei, Deleuze não prega o budismo (existe uma profícua relação entre o conceito de devir enquanto contra-natureza e a impermanência: não vou aqui analisar as várias escolas budistas, fiquemos, não sem pagar um preço, com o sentido geral) quero dizer, acredito que o budismo e suas práticas sejam ótimos intercessores, mas existe uma diferença: para Deleuze, é importante a coexistência do um e do múltiplo, ou seja, o sujeito coexiste (a posteriori, em devir, devidamente agenciado) com a imanência. A deleuziália quer promover a esquizoanálise como apologia da loucura, como se a esquizofrenia fosse um estágio ideal do inconsciente. Quando Deleuze e Guattari promovem a esquizoanálise como um modelo de inconsciente esquizofrênico, era só uma provocação, no sentido que qualquer alternativa ao modelo neurótico da psicanálise servia, mas depois de uma crítica de Lyotard, eles abandonaram o “modelo” – pois nada tem de devir - mesmo sendo o modelo de uma “usina”, para atravessarem tudo com o rizoma e ir alcançando uma maior maturidade filosófico-clínica. A deleuziália usa a “Ética” de Spinoza para cometerem abusos a uma suposta moral psicanalítica. Entre seus “avanços éticos”, alguns promovem sutilmente o sexo com clientes como atividade terapêutica. Nada mais sórdido: apontem uma pessoa totalmente bem resolvida sexualmente ao ponto de usar tal ato terapeuticamente... A “Ética” é um texto grandioso e complexo tornado brega na mão da deleuziália (e não na mão de Deleuze, que muito respeitava o filósofo polidor de lentes). Também faz com que o mesmo “terapeuta” ou “esquizoanalista” faça a terapia do atrator em questão, mas também do marido/esposa, filhos e outros parentes. O espinosismo degenerado em perversão. A vingança dos perversos: declaram amor a Spinoza e promovem a sua deturpação. Pergunto: quem se declara “esquizoanalista” entendeu bem a jogada? Não era pra transformar a esquizoanálise em mais uma igreja, e sim, usá-la como apenas mais um trampolim para criar E criar E criar... Mas o amor a Spinoza é apenas charme. O verdadeiro amor é a Nietzsche, esse sim, amado incondicionalmente. Existe uma logorréia nietzscheniana no pensamento nacional. Não que ele não tenha o seu valor, (principalmente ao convocar a união do selvagem com o civilizado) mas a deleuziália insiste em desconhecer o aspecto do radicalismo aristocrático nele, denunciado, entre outros, por Domenico Losurdo. O que torna o Deleuze da deleuziália, perneta: se já não há quase nenhum diálogo com a ciência: biologia, física – teoria do Caos, tão presente no obra do filósofo e tão bela, criativa, necessária, a predominância de Bergson e Spinoza na obra mais consistente de Deleuze é substituída por uma ubiqüidade de um Nietzsche imparcial, raso e cegamente aristocrático, afinal, pra deleuziália, se você não lê Deleuze, você não é legal...

Não desejo a normalidade a ninguém. Tampouco uma "loucura". Menos ainda uma “terapia” oriunda de alguma seita. Quero promover aqui e em outras oportunidades a ampliação do real. Para isso, o amor aos autores é ultrapassado pelo amor a experimentar e ousar, se for com perversão, que seja com uma perversão ética: toda terapia consistentemente ética é uma tripaterapia: importa menos o autor, mas se a clínica é exercida menos com conceitos e com mais afeto e vísceras.

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