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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Deleuze e o Tarô


Rascunho rumo a um pensar em êxtase

Nelson Job

Em magia, como em religião e em linguística,
são as idéias inconscientes que agem.
Marcel Mauss

A filosofia “deleuziana” se presta a quê? Se presta a pensar em limiar, a pensar com, sem amarras, sem limites, em ressonância. Deleuze dialogou com vários filósofos clássicos, com a física, a biologia, a antropologia, a literatura, o cinema, a pintura, a psicanálise, a química etc. Em um artigo anterior, “Ontologia Onírica”, nos dedicamos a evidenciar as ressonâncias entre a filosofia da diferença (tendo Deleuze como atrator), a física “pós-newtoniana”, o hermetismo e a literatura de ficção científica pré-cyberpunk. Tais relações permitem uma ressonância mais específica: a relação entre os principais conceitos de Deleuze (e da filosofia da diferença) com os arcanos maiores do tarô.

Sobre o tarô, pouco desenvolveremos. As imagens devem falar por si. Existem inúmeros livros sobre tarô, mas nenhum deles vai fornecer o mais relevante: a relação intensiva e intuitiva com as imagens.

Uma filosofia como a de Deleuze ser relacionada com um saber pagão como o hermetismo, e, por conseqüência, com o tarô, não nos surpreende. Deleuze, em seu texto “Nietzsche e São Paulo, D. H. Lawrence e João de Patmos” faz um belo elogio ao paganismo (simbólico), que possui conexões vivas, em detrimento do judaísmo e cristianismo (alegóricos) com seu amor abstrato (dar sem nada tomar) e o Apocalipse já industrial (que, com o seu “Juízo” - pré kantiano - Final, nos desconecta com o cosmos).

O paganismo é uma relação de êxtase com o cosmos, onde a vida é celebrada. Não nos surpreende que um antropólogo como Eduardo Viveiros de Castro, dado a reviravoltas deleuzianas, relacione o seu trabalho etnográfico (que envolve o xamanismo Yawalapíti e Araweté) com o filósofo neo-platônico Plotino, em seu texto “A Floresta de cristal”. Nele, é formulada uma operação que nos é cara: “Seria preciso apenas trocar a metafísica molar e solar do Um neo-platônico pela metafísica da multiplicidade lunar, estelar e molecular indígena”.

Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase (lembrando que "êxtase" significa literalmente "sair de si mesmo"). Francis Yates, em seu brilhante “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, o considera o verdadeiro iniciador histórico do Hermetismo. Porfírio, seguidor de Plotino, nos diz que seu mestre passou por quatro êxtases em que ele sofria tremores e tinha visões, donde os textos das “Enéadas” derivavam-se a partir de tais êxtases. Deleuze celebra o conceito de “contemplação” em Plotino, que já era uma relação onde sujeito e objeto se misturavam, ainda que com uma transcendência remanescente.

O autor que Deleuze considera o seu “plano de imanência”, Spinoza, também tinha várias influências místicas (a cabala judaica, por exemplo), como afirma Marilena Chauí em sua máquina do tempo “A Nervura do Real”. Vale lembrar que Bergson, outro grande atrator na obra de Deleuze, possui um livro chamado “A Energia Espiritual”, onde afirmava a telepatia e a vida após a morte. As questões de Deleuze seriam místicas, mas não com essa alcunha: mistura de sujeito e objeto, problematização da atomização do eu, conexão intensiva com a Natureza apenas para sair dela rumo ao inominável: o devir contra-natureza e a criação de Corpo sem Órgãos.

Uma relação do tarô com Deleuze já foi feita, sobretudo enfatizando o seu caráter semiótico, por Inna Semetsky. A nossa abordagem é diferente, relacionando conceitos filosóficos. François Jullien - esse um grande autor cujo conjunto de obra é um extensivo trabalho relacionando a filosofia do Ocidente e o pensamento chinês - em seu livro “Figuras da Imanência”, realizou um ótimo estudo relacionando o “I Ching”, antigo livro oracular chinês, com vários conceitos da filosofia da diferença.

O tarô, como quase tudo relacionado ao conhecimento antigo, tem um passado incerto. Costuma-se afirmar que tenha se originado no Antigo Egito, com o Hermetismo. Os jogos de carta começaram a se popularizar na Europa no séc XIV e o tarô mais popular – com o qual lidaremos neste texto – conhecido com o Tarô de Marselha, surgiu no final do séc XV, constituído por 22 arcanos maiores, de sentido mais geral e por 56 arcanos menores.

Jogar tarô é mais e menos que realizar um “oráculo”. Mais do que “dizer o futuro”, o tarô realiza o Princípio hermético de Correspondência, a saber: tudo o que está em cima é como o que está embaixo. Desse princípio se desenvolve, por exemplo, a astrologia, que é um embrião da astronomia. O princípio hermético da correspondência é o mais profícuo (e popular, daí um texto apenas para ele: “Fractais quânticos monádicos”) de todos, pois possui ressonância com a teoria do caos (fractais), mecânica quântica (“colapso” de onda) e filosofia, já que o conceito leibniziano de mônada, se origina no hermetismo. Então, jogar tarô é ver o presente, grávido de passado e futuro.

Vamos aos arcanos (para um desdobramento maior dos conceitos, veja texto neste blog- "Devires"):

Deleuze é um autor espinozista, que afirma a coexistência do um e do múltiplo.

O Um:


A Lua no Tarot de Marselha-Camoin

Onde tudo está misturado, imanente. Deve sempre ser pensado em conjução com o múltiplo (o Sol).

O múltiplo:

O Sol no Tarot de Marseille-Kris Hadar

O múltiplo deve ser pensado com substantivo, e não como adjetivo. Aqui aparece todo o mundo visível, mas apenas aparentemente em partes, a separação nunca é total. Deve sempre ser pensado articulado com o Um (a Lua).

Os conceitos de atual, intensivo e virtual de Bergson são extremamente relevantes na obra de Deleuze. Mas o caminho do virtual para o atual não é o mesmo do virtual para o atual. Vejamos as duas diferentes seqüências, lembrando que o os três conceitos coexistem, se interpenetram: existe algo de atual no virtual e vice-versa.

O atual:

O Diabo no Tarot de Marseill-Kris Hadar

O mundo mais denso, de diferenças de gradação, mais lento. O presente.

O intensivo:


A Roda da Fortuna no Tarot de Marseille-Camoin

Passagem do atual para o virtual, onde existem mudanças de fases, perde-se densidade, adquire-se velocidade.


O virtual:


O "Arcano sem Nome", a Morte, no Tarot de Marseille-Camoin

 quA imanência que tende (mais não chega nunca) a zero (zero positivo). Velocidade infinita. Pura energia. Atemporalidade (tempo múltiplo ou coexistência de todos os tempos). Memória cósmica.


Do virtual para o atual:

O virtual:

Os Namorados no Tarot de Marselha-Camoin

Toda a memória, que se guardo no tempo e não no cérebro, como se pensa. O tempo está em si, con-fundido. Diferenças de natureza que no atual se tornarão diferenças de gradação.

O intensivo:


A Torre no Tarot de Marseille-Kris Hadar

Passagem do virtual para o atual. Adquire-se densidade, perde-se velocidade.


O atual:


O Julgamento no Tarot de Marseille-Camoin

Adquire-se forma. Se atualiza a memória através do cérebro, que busca no tempo (virtual) como um editor, uma espécie de “Google”, para agir no sensório-motor, para se realizar a ação. Diferenças de natureza no virtual se tornam diferenças de gradação.


Esses três conceitos se desdobram em sete (segundo Manuel Delanda na obra “Intensive science and virtual philosophy”): virtual, (plano de imanência, multiplicidade e máquina abstrata) intensivo (ressonância e mônada) e atual (molar junto com o molecular e centro de envolvimento). Vejamos esses conceitos nas duas seqüências, a começar do atual para o virtual:

O centro de envolvimento:


A Imperatriz no Tarot de Marselha-Camoin

O aumento de complexidade no cosmos. O engendramento da vida gerando vida.


O molar e molecular:


A Força no Tarô de Marselha-Camoin

A coexistência de dois tipos de organização diferentes, um no nível micro e outra no macro.

A mônada:


A Justiça no Tarot de Marselha-Camoin

A relação intensiva do mais ínfimo com todo o cosmo. O equilíbrio nos universos. Múltiplas perspectivas que geram vários mundos.


A ressonância:

A Temperança no Tarot de Marseille-Camoin

A relação simultânea e harmônica no cosmos de termos diferentes, em diferenciação.

A máquina abstrata:

A Estrela no Tarot de Marseille-Kris Hadar

As várias forças do cosmos em auto-organização se expandindo, se abrindo.

A multiplicidade:
II. La Papesse, A Papisa, no Tarot de Marselha-Camoin

As várias forças do cosmos quase sem as “referências”.

O plano de imanência:


O Mundo no Tarot de Marseille-Camoin

O cosmos em sua instância ínfima e sutil. A soma de todos os Corpos sem Órgãos.

Vejamos, pois, a outra seqüência:

O plano de imanência:


O Louco no Tarô de Marselha-Kris Hadar

Puro devir, donde tudo sai. O impulso vital em cascata. O Corpo sem Órgãos.


A multiplicidade:

O Papa no Tarot de Marselha-Camoin

O devir começa a adquirir força e direção.

A máquina abstrata:

O Mágico no Tarô de Marselha-Camoin

A relação de forças auto-organizada além do tempo e do espaço. A pré-formação.

A ressonância:

O Pendurado no Tarot de Marseille-Camoin

A simultaneidade das forças compondo seres diferentes. A individuação anterior ao indivíduo.

A mônada:

O Ermitão, ou Eremita, no Tarôt de Marseille-Camoin

A concentração das forças do cosmos em uma instância, mas ressoando todo ali. O mundo que emerge de um ponto-de-vista. A pré-atualização.

O molar e o molecular:

O Carro no Tarot de Marselha-Camoin

Duas organizações diferentes que coexistem no indivíduo: uma molecular, lisa, ágil e outra molar, estriada, lenta.

O centro de envolvimento:

O Imperador no Tarot de Marselha-Camoin

O "indivíduo" enquanto processo de individuação em relação com o cosmos em devir.

Não queremos, de forma alguma, restringir o uso do tarô a esses conceitos. Apenas estabelecemos ressonâncias, relações, que podem fazer emergir maiores compreensões de ambos os campos. Tais relações engendram um caminho que permite a filosofia pensar em êxtase, para além de um pensamento domesticado. E já que Deleuze clama ao devir, à criação, sugerirmos um vigésimo terceiro arcano maior: o rizoma, ondes todos os arcanos coexistem, podendo cada um se interconectar com qualquer outro em qualquer sequência!

O rizoma (arcano 22):

http://www.sarcasmosmultiplos.com.br/wp-content/uploads/2008/04/mapa-da-internet-map-positive.jpg

4 comentários:

Taís Madeira disse...

legal! só queria entender melhor porque tais conceitos se relacionam com a carta, pelo menos em algumas, pra mim, não ficou tão óbvio.

abç!

Isadora M. disse...

queria morar no rio de janeiro!

ótimo o texto e as desembocaduras que me causou!

adorei!

Anônimo disse...

Esta última carta não me parece necessária, o rizoma é, foi, será o tempo todo no baralho e fora dele. Entre consulente, leitor, conexões múltiplas deles impulsionadas pelos arquétipos e por um monte de coisa que não se faz nem idéia. Por favor!

Nelson Job disse...

O rizoma é a emergência de um ontologia fractal e como tal, é pertinente que ele esteja presente enquanto carta, fractalmente à todas as outras e, em outro nível, ao mundo. Quando surge o Rizoma para o consulente, deve ser enfatizada a questão das relações intensivas das partes com o todo de forma geral, diferente, por exemplo, do Universo que tende para uma totalidade ou o Eremita que tende para uma interioridade, claro que levando em conta que essa relação interior-exterior enquanto dobra.