CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os Pecados dos Pet Shop Boys


-->
o pop e a sexualidade
Nelson Job


Nada na história humana,
desde a divinização dos faraós no antigo Egito,
podia comparar-se ao culto da juventude européia
e americana ao rock stars.
Michel Houellebecq

Capa do álbum "Actually"



Sei... Elton John declara que Jesus cristo era gay (e inteligente) e a mídia fica em polvorosa. É certo que Sir Elton já tem uma carreira mais que sólida e pode se aventurar a tais “polêmicas”, mas sendo que ele não é teólogo ou historiador, porquê o barulho? As respostas são inférteis e pouco variáveis: porque “o artista quer aparecer” e/ou “os jornais precisam de polêmica pra vender”.

Se John Lennon já declarou que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo e Madonna lançou o brilhante “Like a prayer” (na época em que ela se dedica ao Jesus Cristo e não ao da Luz – perdão pelo clichê irresistível) o que se evidencia é que a “implicância” do pop com a religiosidade é que ambos competem por devoção. No Ocidente, ao menos, o pop vem vencendo... É no mínimo peculiar que o maior festival de rock-pop em céu aberto do mundo – o Glastonbury - seja feito no Vale de Avalon, na Inglaterra, palco também de lendas druidas.

A música sempre serviu de meio para otimizar os estados de êxtase ritualísticos onde os fiéis entravam em contato com algo além, seja com o mantra, o canto gregoriano etc. O fã do ícone pop entra também em uma espécie de êxtase, idolatrando um "ser". Acredito que a música pop pode ser um instrumento interessante de se chegar ao êxtase com músicas em devir-ritual de êxtase, sem ter que se deparar com os dogmas pré-fixados das religiões. Algumas bandas são mais propícias a proporcionar (com aditivos químicos ou não) estados alterados, como o Pink Floyd, mas o pop transfere isso para as festas, para a celebração, como o Depeche Mode faz (discutidos no texto “O mundo em meus olhos”) em músicas da estirpe de “Stripped” e “Enjoy the silence”. As bandas inglesas tendem para uma certa melancolia: os Modes são mais sombrios e os Pet Shop Boys – cujas músicas mais ritualísticas vão estar em destaque neste texto – são mais debochados e festivos.

A declaração “bombática” de Elton John também diz respeito à sexualidade de Cristo... nada mais pop. Desde os primórdios do rocn’n’roll – vide Elvis “The Pelvis” Presley - o pop está conectado com sexualidade e suas possíveis “transgressões”.

Mas porquê tantas aspas? A sexualidade se transformou em palco de uma interminável logorréia desde o advento da psicanálise. Até um suposto inocente boquete no BBB vira f(e/a)lação nacional...

Freud começou bem afirmando que sexualiade era relação qualquer e afirmando que a criança era perversa polimorfa. Depois se especializou a achar símbolos fálicos em sonhos e disse “ufa!” quando a sociedade (e a psicanálise) controlaram a criança, genitalizando-a, ato copiado à exaustão pela histeria vingadora psicanalítica.

Deleuze e Guattari, em seu poderoso conceito artaudiano, de Corpo sem Órgãos, clamam por uma experimentação corporal no limite, aberto a sensações múltiplas e conexão cósmica.

Mas, para além de freudismos e deleuzismos – esses já preconizados por um êxtase hermético milenar - a grande potência realmente revolucionária (palavra tão utilizada de forma abusiva...) se encontra em uma obra antropológica: “O Gênero da Dádiva” de Marilyn Strathern.

Nessa obra, Strathern fala, sobretudo, do fenômeno do kula nos Hagen, nativos da Melanésia. Espécie de concepção fractal dos nativos pelos seus, com o kula, a venda de um porco se transforma não em um produto que muda de dono, mas que parte desconectável de seu dono se conecta ao novo dono, ou seja: não troca-se a mercadoria, troca-se a perspectiva. O “dono” do porco “permanece o mesmo”, no sentido que, fractalmente, (o dono, sua mulher e filhos que criaram o porco, por exemplo) ele se junta ás partes conectáveis do “novo dono”. Os Hagen têm uma concepção curiosa e transmorfa da sexualiade: não existem homens e mulheres “em si”. O órgão genital só se torna “sexual” no ato do sexo!

O exemplo dos Hagen nos ajuda a pensar o quanto nossas taxonomias sexuais são rígidas. Quando dizemos “heterossexual” ou “homossexual” estamos rotulando pessoas através do que elas supostamente fazem com a sua genitália e inferindo que todo o seu psiquismo orbita em torno dessas práticas genitais. E a vovó “heterossexual” que não transa e não sente mais desejo sexual-genital há vinte anos? Ela almoça, vê TV e nina o netinho “heterossexualmente”? O “homossexual” que é chefe de uma empresa, impiedoso e lucrativo, age nos negócios “homossexualmente”?

Acredito ser mais produtivo pensar em gastronomossexualismo, capitalsexualismo, exibiossexualismo, fazendo valer as crianças perverso-polimorfas, agora crescidinhas, pois como as pessoas comem, ganham dinheiro ou se exibem com sorrisos amarelos “olhem, eu juro que sou feliz” no Orkut etc, dizem muito mais de seu psiquismo do que o que elas fazem com a genitália. Enfim, só existe pansexualismo. E ainda bem que a sociedade vem falhando em nos genitalizar. Se tivermos que escolher alguma alcunha, prefirimos a de "perverso ético", potente, logo, espinozista!

Voltando ao pop, quem se artila entre sexualidade, religião e postura pop com desenvoltura é a dupla eletrônica britânica Pet Shop Boys, ícone maior do tecnopop, que, agora, atingindo o marco de 100 milhões de cópias vendidas, se tornando a dupla musical que mais vendeu em todos os tempos, lançam o ótimo DVD/CD ao vivo “Pandemonium Live”, baseado em um grande show que passou pelo Brasil em quatro cidades. Nesse show, fica registrado uma das melhores características das bandas dos anos 80: a de não se levarem a sério. Durante "Why we can't live togheter?" vemos os dançarinos vestirem-se de prédios de papelão (!) como se fosse apresentação de crianças na escola.

As apresentações ao vivo dos Boys são marcadas pela teatralidade, trocas de roupas cenários, humor e um certo estilo kitch. Raro são instrumentos musicais, com muitas bases pré-gravadas. Não é um show típico de rock, é um show com uma estética artística muito peculiar.

Os Pet Shop Boys sugiram em meados da década de 80, com uma postura irônica bem ao estilo inglês. Se lançam já pelos seus 30 anos de idade, contrariando de saída, o aspecto de “juventude” dos ícones pop em seu início de carreira. O primeiro grande sucesso, “West end girls” já mistura disco com rap, mostrando a versatilidade do duo.

A ironia se evidencia tanto pelo visual, muitas vezes kitch, das capas de álbuns, vídeos e roupas e pelos trocadilhos sugeridos pelos títulos dos álbuns, imaginando os fãs comprando em lojas de discos (elas ainda existem?) por exemplo: “Please” – você tem o disco dos Pet Shop Boys, por favor? “Introspective” – você tem os disco introspectivo dos Pet Shop Boys? Eles trouxeram definitivamente a sofisticação ao pop, com letras elaboradas e trâmites com a literatura, como por exemplo, a citação literal de "Esperando Godot" de Beckett em "A red letter day".

Do imenso repertório do duo eletrônico, não faltam boas canções: da bela melodia de “Suburbia”, passando pelo refrão poderoso de “So Hard” e chegando a “Flamboyant”. Nem experimentalismos, como a associação com ritmos latinos em “Domino Dancing” (talvez o maior sucesso no Brasil), o samba do Olodum em “Se a vida é” e grandes cópulas com a música erudita como ...drunk”, todas registradas ao vivo no álbum “Concrete”. As parcerias também são numerosas e variadas: com Dusty Springfield na excelente “What have i done to deserve this?”; “Disappointed”, Eletronic, “Hello Space Boy”, David Bowie etc. As covers são um capítulo a parte, como “Always on my mind” (cujo vídeo foi extraído do longa com os Boys "It Couldn't Happen Here", de Jack Bond) de Elvis Presley, que fez mais sucesso que o original, se tornando um dos maiores hits da dupla, “Go west” do Village People – cuja versão foi adotado pelo Village em seus shows – e “Where the streets have no name/ Can’t take my eyes off you”, U2/Frank Valli, recentemente, "Viva la vida" do Coldplay etc. Releituras de sua própria obra também surgem, como a versão acústica da clássica “Rent”. Os vídeos também marcam ponto, como o divertido “Heart” (que conta com o “Nosferatu” Ian McKellen) e as computações gráficas de “Can you forgive her?”. Os Pet Shop Boys são requisitados como produtores e remixers, como o feito em “Read my mind”, obra-prima dos Killers - banda que confessa a influência da dupla, como podemos ver o vocalista Brandon Flowers ao lado de Lady Gaga na homenagem aos Boys no Brits Awards de 2009. - com o Blur em "Girls and boys", "Sorry" de Madonna, Lisa Minelli etc. Canções críticas às políticas inglesas começaram a surgir em “Fundamental” como “I’m with stupid” e “Integral. Antes, tal tema aparecia de forma tênue, como na bela "King's Cross" e "London". Até os lados B dos singles, geralmente delegados à sobras dos àlbuns, reservam surpresas, como "Shameless" e "The truck driver and his mate". Em 2009, os Pet Shop Boys lançaram o seus mais recente álbum de inéditas, “Yes”, que é seu melhor disco em 15 anos, onde se destacam a ótima “Pandemonium” e "Did you see me coming?".

Vamos destacar 2 canções das melhores dos Pet Shop Boys que merecem relevância:

It’s a sin” é, merecidamente, o maior sucesso do duo. A música é sensacional, a melodia inesquecível, a letra poderosíssima. A canção inicia com uma referência ao concerto de Saint Preux, tem um clássico som de trovão e termina com uma oração em latim “Confiteor”: “... mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.”. Sabemos que o vocalista e letrista Neil Tennant foi educado em um regime católico ortodoxo, algo traumatizante para um jovem com a sexualiade “em torção”. O incrível vídeo da música encena uma inquisição na Idade Média, onde se faz referência aos sete pecados capitais – contando com uma Geena Davis encarnando a “luxúria” – numa referencialidade rara no pop. Derek Jarman - cineasta cult importante para a imagem do duo - também fez sua versão de vídeo para telão em projeção de shows dos Boys para "It's a sin". Em uma versão ao vivo, durante a apresentação, uma backing vocal vestida de freira (holandesa!!?) começa a introduzir “I will survive” de Gloria Gaynor em “It’s a sin” tirando a roupa e mostrando por baixo um vestido sexy preto brilhante. Subversão pop! A letra é confessional:
(Twenty seconds and counting...
T minus fifteen seconds, guidance is okay
you are not at all)
When I look back upon my life
It's always with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

At school they taught me how to be
So pure in thought and word and deed
They didn't quite succeed
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

Father, forgive me, I tried not to do it
Turned over a new leaf, then tore right through it
Whatever you taught me, I didn't believe it
Father, you fought me, 'cause I didn't care
And I still don't understand

So I look back upon my life
Forever with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to - it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin

(Confiteor Deo omnipotenti vobis fratres, quia peccavi nimis cogitatione,
verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa)
(Zero!)

Podemos entender a letra de “It’a a Sin” como uma crítica à intolerância católica ao homossexualismo, mas o sucesso do single evidencia suas potências mais amplas: podemos ouvir as palavras de Tennant em “It’s a Sin” como um libelo contra todo e qualquer tipo de intolerância. Félix Guattari, em seu road book “Micropolíticas”, com Suely Rolnik, afirmava que, se ele compõe com os grupos homossexuais, não é para legitimar o "indivíduo homossexual", mas para legitimar a prática homossexual como uma prática possível dentre várias.

As referências às bruxarias já dão o tom suficiente para remeter “It’s a Sin” à maior música de tom ritualístico dos Boys. O rock'n'roll e o pop, com suas extravagâncias, relação com drogas e o hábito de levarem multidões ao êxtase, ressoam com a ritualística pagã da bruxaria, ou - para usar um termo menos dado ao pejorativo - hermetismo. Ambos possuem a característica de estarem `a margem da população que segue uma "norma", abrigando de forma descentralizada os outsiders. Claro que hoje, época de práticas híbridas, muito do rock e do pop se tornam maistream... "para além do bem e do mal".

O destreino da crítica tenta relegar os Pet Shop Boys a alcunha de "banda gay" (como por exemplo o Village People e o Soft Cell – que realmente influenciou a dupla), mas o principal compositor da dupla, Chris Lowe, numa clássica canção da dupla, “Paninaro”, ele (raramente!) canta: “girls, boys, arts, pleasure.Perversos éticos do pop ...

Left my own devices” é uma das maiores obras do pop em termos de grandiosidade. Na canção, observamos influências claras de ópera, música clássica erudita, pop, música eletrônica e rap, todos fundidos e harmônicos em um só single, produzido por Trevor Horn. A canção tem um aspecto psicodélico, Neil canta: "Che Guevara and Debussy to a disco beat" em uma frase emblemática que resume o espírito dessa música. “Left...” é uma máquina abstrata, como diriam Deleuze e Guattari, onde várias forças herogêneas se auto-organizam, evidenciando a ritualística de “Left...”: compor forças. A canção é uma ótima música, que invadiu os hit parades e pistas de dança do mundo inteiro.

Depois de realizarem o musical "Closer to heaven" e de terem composto uma trilha para o clássico russo "O Encouraçado Potemkin" de Eiseinstein, os Pet Shop Boys se preparam agora para musicar um balé. A multifacetação não cessa, em devir:




3 comentários:

Cla Leal disse...

Nelson, sendo você também um grande pop star, só posso te dizer uma coisa: "Every time I see you falling, I get down on my kness and pray!"
Seu texto me levou diretamente ao nosso ritual festivo e, por isso, utilizo aqui esse trecho para declarar minha devoção a você!!
beijos

Ander disse...

Maravilha, wonderfull, gorgeous. Grande explanação sobre esta grande banda. Como um oitentista, meus cumprimentos. Ouvir as canções dessa época é viajar em uma musicalidade transcendente.

ADEMAR AMANCIO disse...

Nota dez pra matéria.Valeu.