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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ser-tão Cósmico

entre ficção e o real para além de "Os Sertões" e "Druam"


Nelson Job


Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira

não tem mais os sentidos que o trouxeram até aqui.

Bernardo Carvalho



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"Retirantes" Portinari



O sertão parece ser o território privilegiado para se pensar um imaginário brasileiro. Vamos averiguar essa potência em um viés transdisciplinar:


A virada para o século XX nos traz “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Muito se escreve/fala sobre a obra e seu autor, mas pouco se avança no mistério da perenidade da obra. Raio X do país? Preconceito racial elegante? “Os Sertões” traz uma discussão ainda rara. Euclides da Cunha abre a obra com o capítulo “A terra”: “Terra ignota”, “uma categoria geográfica que Hegel não citou”. Os sertões já são, geologicamente, uma singularidade para o autor. A função do rio Vaza-Barris como agente geológico é revolucionária, a mutação de deserto para flora tropical é uma apoteose “e o sertão é um paraíso...”


Em seguida, “O Homem”: Euclides da Cunha se espanta com o sertanejo: “toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se.” O autor aqui, parece prefigurar Deleuze e Guattari, colocando o sertanejo como artesão do Corpo sem Órgãos. Então, transborda-se Antônio Conselheiro. A figura do homem que, traído pela esposa, vagou pela Bahia se tornando lentamente, por uma “psicose mística”, um eleito do povo para gerar uma resistência inédita em Canudos, “um anacoreta sombrio” que “cresceu tanto que se projetou na história...”. A singularidade também emerge na carne.


Finalmente, Euclides da Cunha se detém em Canudos, o local e o evento. Canudos é uma resistência mais que política, é uma forma de vida, orgânica. Nas palavras do autor: “A campanha de Canudos despontou da convergência espontânea de todas estas forças desvairadas, perdidas nos sertões”. Agora se prefigura o conceito de máquina abstrata.


A chave para se entender a tamanha provocação de “Os Sertões” é justamente esse conceito, criado por Félix Guattari, processado conjuntamente com Gilles Deleuze e desenvolvido de forma brilhante por Manuel Delanda. Esse percurso conceitual pode ser feito no texto “Devires”, neste blog, e no texto do próprio Delanda também traduzido neste blog: “A Geologia da Moral – uma interpretação neo-materialista”.


Ficamos aqui com uma breve explicação: a máquina abstrata para Delanda, é o atrator que conecta os planos geológicos, biológicos e lingüísticos. O funcionamento de várias forças aparentemente aleatórias convergem, se auto-organizando em três níveis: fluxos de magma e seixos convergem-se, originando as camadas geológicas da Terra, fluxos de genes e memes se auto-organizam gerando todas as espécies vivas e pequenos dialetos se combinam, fazendo emergir a língua de uma nação. Exatamente como em “Os Sertões”: a singularidade geológica gera o sertão, que gera vários humanos singulares, que dentre jagunços e sertanejos se destaca Antônio Conselheiro que, através de sua fala que ressoa em muitos, gera a guerra de Canudos, produção lingüística, prática oral que desdobra em ato revolucionário.


O quadro “Os Retirantes”, de Portinari, convoca também a esse devir-sertão: o ato de se retirar, de produção de diferença, de porvir. Em seguida, temos “Grande Sertão: veredas”.


“Sertão não é maligno nem caridoso, mano oh mano!: - ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” Guimarães Rosa realiza em extremo o projeto de Proust alardeado por Deleuze de produzir uma língua estrangeira dentro da própria língua. “Grande Sertão: veredas” é um acontecimento literário-linguístico-teológico. A todo momento, a obra nos traz a dimensão do sertão como uma ontologia fractal, rizomática: “O sertão está em toda parte. (...) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe é no meio da travessia.”


É relevante o fato de que Guimarães Rosa seja diplomata: seu território literário cria neologismos com línguas estrangeiras ("smart" inglês, se tranforma em "esmarte"). O sertão está entre: entre línguas, entre lugares, entre estilos literários (romance épico, regional, faroeste (?) e cósmico). Assim como o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro ("A Inconstância da Alma Selvagem") coloca o xamã como diplomata cósmico entre as perspectivas nativas amazônicas, Guimarães Rosa é um xamã literário, diplomata cósmico do sertão.


O sertão então, migra para o cinema. Em “Deus e o diabo na terra do sol”, Glauber Rocha inscreve o sertão no cinema mundial e clama por um certo Brasil, cujo clamor atravessará toda a sua obra: Deleuze (“Imagem-tempo”) diria – Glauber quer formar um povo, um povo porvir. O devir-Canudos do Brasil produz mais e mais diferença. Esse povo nunca cessa de se formar: processo. Antônio das Mortes é esse avatar: enantiodromia – de assassino para além.


Pra onde vai o sertão? A literatura se desdobra, conturbando as margens leitor-livro. Se Kafka sugeria tal com-fusão, Italo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno” convoca o leitor, avisando que ele está lendo um livro seu: “deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido.” O leitor ainda vai ser incorporado na obra outras vezes, em função de um “defeito” na brochuras que leva o romance a sustentar “fragmentos’ de outras obras. Em “As cidades invisíveis”, Calvino brinda o leitor com o maior exercício de fundir ficção e filosofia. Jorge Luis Borges em seu conto “O Outro” relata um encontro com ele mesmo, mais velho, em Boston. Em “Borges e eu” termina: “não sei qual dos dois escreve esta página”. “O Aleph”, funda o conto-mônada, sobre uma mônada, o Aleph do título. Borges se assume enquanto tema, e coloca o mundo enquanto tema, fractalmente, em sua obra. Sujeito e mundo, autor e obra se intercambiam na obra do escritor argentino. Também Paul Auster brinca com o leitor, é personagem e trechos do livro são citados enquanto trechos mesmo, em partes do mesmo livro, “A trilogia de Nova York”. Com “Elizabeth Costello”, J. M. Coetzee, cria a sua célebre alter-ego, aparecendo em forma de conto em muitas vezes que o escritor é obrigado a fazer algum discurso. Philip K. Dick dá passos largos nessas proezas de mesclar realidades e pontos de vista, como já analisamos em “Ontologia Onírica”, aqui.


Esses autores, se não mostram claramente que o sertão é uma ubiqüidade, evidenciam a fractalidade autor-obra-leitor.


Então voltemos ao Brasil. Se Borges produziu o conto-mônada, Luiz Ruffato escreveu o romance-monadologia: “Eles eram muitos cavalos”. Assim como Leibniz que descreve a cidade formada por mônadas, Ruffato descreve São Paulo de várias perspectivas: pai-empresário, irmão de traficante etc. Cada perspectiva gera um estilo literário diferente, unificados pelo autor e/ou romance e/ou cidade de São Paulo, como Deus unifica as mônadas. Se o sertão adentra a metrópole com Ruffato, com Bernardo Carvalho ele sai rumo a Amazônia. No grande romance de início de milênio no Brasil, “Nove Noites” relata a história do protagonista que vai atrás dos fatos que levaram o antropólogo (que sabemos real) Buell Quain ao suicídio: “a verdade depende apenas da confiança de quem ouve”. Bernardo Carvalho, nesse romance que é “subornar a própria consciência” avisa, chegando ao final: “A ficção começou no dia em que botei os pés nos Estados Unidos”. E então, essa parte seguinte é “verdadeira”? A anterior é, toda ela, “ficcional”? O trânsito real-ficcional se aprofunda quando o autor coloca uma foto sua, criança, com os índios no Xingu, na orelha de “Nove Noites”. Bernardo Carvalho, que realizou antes um romance perspectivista: “Teatro”, no livro seguinte a "Nove Noites", “Mongólia”, ele leva ao extremo o conceito de freudiano de “estranho familiar (unheimlich)” fazendo o protagonista procurar alguém na Mongólia (agora a foto da orelha é o autor no citado país!), e as evidências parecem levar que o procurado é ele mesmo...


Deleuze e Guattari, n'"O que é a filosofia?", elaboram as três filhas do caos, as caóides: a arte (variedades sensíveis que emolduram o caos), a filosofia (variações conceituais que se diferenciam do caos) e a ciência (variáveis funcionais que exploram o caos). Acrescentaríamos aqui, uma quarta caóide: a religião enquanto religare (variâncias que se tornam o caos), exercício de imanência. Bernardo Carvalho mostra muito bem, em seu mais recente romance, o contundente "O Filho da Mãe" (dessa vez a editora envia o autor para uma cidade qualquer para desenvolver um romance - Bernardo Carvalho foi para São Petersburgo, Rússia, onde foi assaltado) a caóide arte: ao longo do romance se "emoldura" que as mães geram as guerras. Ao final do livro, quando a criação praticamente se torna conceito, o autor a abandona, pois não mais o interessa, para partir para outras criações, em um futuro romance. Essa postura parece ser sentida como solitária: "Ninguém quer ler o que está por vir, à beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo." Mas sabemos que o sertão está entre, o abismo se desloca. Se for possível algum processo de vizinhança com o romancista, pretendemos, ao menos, armar alguma barraca à beira do abismo. Deleuze, em "A Lógica da Sensação" nos adverte que o aspecto talvez sombrio das pinturas de Francis Bacon devem ser apreendidas com a alegria da transformação operada no Corpo sem Órgãos, transformação alegre que pode envolver alguma dor. Assim com o quadro "Os Retirantes" de Portinari que, se é algo sombrio, é para celebrar o movimento necessário e inevitável de um povo porvir, ainda que com dor. Assim como o nietzscheniano abismo de Bernardo Carvalho.


Para onde mais podemos estender o sertão? No texto “Fractais quânticos monádicos” especulei, através de conceitos físicos e filosóficos, a possibilidade do sonhar nos conduzir a universos paralelos. No novo blog, “Druam”, comecei a escrever em tom que “tende” para o ficcional, temas presentes neste blog de uma outra forma. Muitas vezes influenciado pelos meus sonhos e pelas minhas meditações, escrevo sobre Druam, minha contra-parte no aqui(s), cosmos paralelo que se atualiza na blogosfera como um blog paralelo a este. Assim “Druam” pode ser tanto uma derivação de “dream”, “sonho” em inglês, como um anagrama para a lenda celta de “Madru”. Acontece que, se eu realmente acredito nas relações oníricas entre universos, qual é o estatuto ficcional de “Druam”? Mas, se escrevo em tom que tende ao ficcional, qual é o seu estatuto de “realidade” em "Druam"?


A citada "caóide" religião é tangenciada em "Druam", pois deriva-se também de certas experiências com a meditação, o xamanismo etc. Mas o fato de se tratar, de certa forma, de universos paralelos em emaranhamento quântico - o primeiro conceito, oriundo de uma física especulativa ("ciência fictícia"), o segundo, de uma física compravada em laboratório - coloca "Druam" no âmbito da ficção-científica.


A ficção científica é produção nacional rara no Brasil, “país da saudade”. Mas é necessária, pois o sci-fi ajuda a alavancar rumo a um (povo?) porvir. Mas uma mescla de devir-Philip Dick (idéias sci-fi mirabolantes, quase beat) precisa confluir com um devir-Guimarães Rosa onde a criação lingüística transborda: “Sertão foi feito é pra ser assim: alegrias!”


Com “Druam”, menos pretensão e mais alegria: ser tão cósmico!


Um comentário:

Isadora M. disse...

é o que ser-tão é dentro da gente...

'dorei!