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terça-feira, 16 de março de 2010

Deus joga dados viciados?


Para uma Filosofia Quântica
Nelson Job

Para esta vida não foi feita
Para ser guardada num cofre.
Guardada dentro dele, a vida
É presença que em tudo explode.
João Cabral de Melo Neto

Deus joga dados viciados.
Joseph Ford

http://www.brianmicklethwait.com/culture/TurnerFire.jpg

Filosofia Quântica: modo de usar
Este texto ressoa principalmente com outros 3: “Diferenças emaranhadas”, onde falamos sobre alguns conceitos principais da física quântica e do modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff; “Fractais quânticos monádicos”, onde estabelecemos as ressonâncias entre os conceitos de mônada, fractal, colapso de onda e o princípio de correspondência do hermetismo e “Ontologia Onírica”, onde todos os princípios do hermetismo são relacionados com conceitos da filosofia da diferença e da ciência pós-newtoniana. Aqui desdobraremos esses temas, pois entendemos que deles emergem uma filosofia quântica. Acrescentaremos aqui apenas a bibliografia que não foi citada nos outros textos.

Outras ressonâncias
Já no fragmento 3 da “Monadologia”, Leibniz diz que na mônada “não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis”. O físico Niels Bohr (2000) diria da “impossibilidade pictórica do formalismo quântico”.

O princípio da incerteza de Heisenberg (2008) diz, em relação à velocidade e posição da partícula, quanto mais se sabe de uma, menos se sabe de outra. No “Ontologia Onírica”, vimos que os conceitos de virtual, intensivo e atual de Bergson correspondem aos conceitos quânticos de onda, colapso de onda e partícula, respectivamente. Na filosofia, do virtual para o atual, quanto mais se ganha densidade, mais se perde velocidade e o contrário serve do atual para o virtual. Além disso, existem atualizações no tempo (a leitura deste texto, o dia de hoje, o tempo da vida do leitor etc) ou no espaço (este quarto, esta cidade, aquele determinado corpo etc).

Bergson se coloca entre o idealismo e realismo, Bohr, comentando os níveis de realidade versados na filosofia, assume que, na física quântica “concepções como realismo e idealismo, não tem lugar na descrição objetiva tal como definimos”.

O conceito de complementaridade onda/partícula de Bohr também vale ser (re)visitado. Primeiramente, “complementaridade”, para Bohr, é algo muito amplo, se dando em: pensamento e sentimento, civilizações ocidentais e orientais, função orgânica e processos químicos etc. Para o físico, a complementaridade se dá em instâncias “mutuamente excludentes”. É nessa questão que se torna relevante reinserir o problema de Mario Bunge. Ele propõe que se troque a idéia de dualidade partícula onda, ou o “colapso de onda” por um conceito que ele nomeia de “quanton”. Apreciamos essa idéia porque Bunge quer denunciar com ela a questão de se usar alcunhas clássicas para nomear os fenômenos quânticos, que são novidades conceituais. O quantom é um objeto que possui características de onda e partícula, se assemelhando ao intensivo de Bergson, que é a passagem entre o atual e o virtual.

Quando dizemos “intensivo”, estamos falando também de dois conceitos, a mônada – como conceituada por Leibniz e transformada por Gabriel Tarde e Deleuze – e a ressonância, sendo a mônada diretamente ligada ao quanton e a ressonância ligada ao emaranhamento quântico, sendo ambos etapas do intensivo. Também o virtual, que é ligado à função de onda, possui outros conceitos inerentes como a imanência, a multiplicidade e máquina abstrata, vistos no “Ontologia Onírica” ressoarem com conceitos oriundos da relatividade e da teoria do caos. Se conceitos filosóficos ressoam simultaneamente com conceitos científicos de 3 físicas pós-newtonianas, tendemos a conceber que a física quântica tem um papel preponderante entre elas. De fato, apostamos que as teorias da unificação envolverão principalmente conceitos quânticos.

O emaranhamento quântico, que é uma simultaneidade entre partículas, foi criticado por Einstein, mas, como sabemos, Bell, Aspect, entre outros, confirmavam os tais efeitos “fantasmagóricos” do emaranhamento. Tenta-se salvar o postulado da relatividade restrita de que não há nada mais rápido que a velocidade da luz afirmando que na passagem de informação, ainda vale os preceitos einsteinianos. Mas, isso só é possível se se mantêm a separação dos conceitos de energia e informação. Nós apostamos, junto com Manuel Delanda, que energia-informação-matéria são uma mesma instância. Com o emaranhamento, acreditamos que a energia adquire simultaneidade, ubiquidade: o conceito de energia se transforma.

Bohr relata que era uma brincadeira entre ele e Einstein com qual dos dois Spinoza concordaria. Acreditamos que o filósofo concordaria com Einstein, pois acreditamos ser possível fazer a relação entre conversão de matéria em energia com a substância e modos em Spinoza (para maiores detalhes em Spinoza, ver “Devires”). Claro que a relação onda/partícula pode ser se remeter também a substância/modo, porém a ressonância entre Spinoza e Einstein nos parece mais elegante, inclusive, sendo a substância (e, obviamente, em Spinoza, Deus) eterna, tal afirmação alimentaria a posição famosa de Einstein que “Deus não joga dados”. Bohr teria respondido, elegantemente: “Não deve ser tarefa nossa prescrever a deus como Ele deve reger o mundo”. Voltaremos ao problema do "eterno" em relação a um devir (quântico).

Deus joga dados (viciados): devir quântico e fractal
Para nos atermos nessa questão se Deus joga dados, vamos antes fazer um pequeno compêndio das relações entre física quântica e devir.

Heisenberg (1999), já dizia sobre a filosofia de Heráclito: “Se substituirmos a palavra fogo por energia, poderemos quase repetir suas afirmações palavra por palavra, segundo nosso ponto de vista moderno” e “A comparação, muito antiga, entre um ser vivo e uma chama demonstra claramente que os organismos vivos, tal como a chama, constituem uma forma por meio da qual, de certa forma, a matéria flui.”(HEISENBERG – 2008). Bergson (2006) também observou uma potência no advento da física quântica, ainda em 1934: “De fato, as grandes descobertas teóricas desses últimos anos levaram os físicos a supor uma espécie de fusão entre onda e corpúsculo – diríamos entre substância e movimento.” Merleau-Ponty (2000) já dizia que a física clássica é sem devir, pois cada elemento tem o seu lugar objetivo e que a física se tornou bergsoniana com o advento da mecânica quântica. E, finalmente, Prigogine e Stengers (1984): “A história da mecânica quântica, como a de todas as inovações conceituais, é uma história complexa e cheia de imprevistos, a história de uma lógica cujas implicações são descobertas depois que ela própria foi produzida na urgência do diálogo experimental. Não podemos descrever aqui esta história, mas sublinhar apenas a maneira inesperada como ela participa na convergência que, atualmente, tem como resultado renovar a dinâmica e construir a ponte entre essa ciência do ser e o mundo do devir.”

É importante lembrar que o devir está inscrito em uma ontologia fractal, ou monádica: isso quer dizer que, se o devir é louco, ele também é correlacionado. Quando Deleuze postula um devir enquanto contra-natureza, ele lança o devir para uma etapa em que não há referência, mas uma contração ressoa com qualquer outra, fornece “pistas” dos próximos movimentos.

Quando Hameroff articula a redução-objetiva (OR) (o “quanton” de uma suposta gravidade quântica) com a mônada (ou ocasião atual em Whitehead: ver “Devires”), ele está evidenciando que tanto o modelo de consciência quântica quanto a monadologia colocam o sujeito como a posteriori: diria Deleuze que é o sujeito que se instala na mônada, e não o contrário e Penrose e Hameroff afirman que é da seqüência de ORs que emerge o fluxo de consciência. Stapp screscentaria que é o nexus whiteheadiano que mantêm a coerência no fluxo de consciência, acrescentaríamos que é através de um processo de auto-organização: não mais utilizamos a alcunha de “sujeito” e sim, de atrator.

Sabemos que Manuel Delanda articula o conceito de atrator estranho com a máquina abstrata, e esta realiza a atualização geológica, biológica e lingüística em um mesmo processo. Bruzzo e Vimal (2007) acrescentariam que nos neurônios existe um processo caótico de auto-organização, o que acreditamos estar implícito em Delanda quando ele fala de auto-organização lingüística.

Sendo assim, creio que a resposta mais adequada para Einstein seria que Deus joga dados, mas joga dados viciados. “Dados viciados” no sentido em que existe um devir que cria novidades, imprevisibilidades, diferenças, mas em seu bojo está o anúncio do próximo passo: mônada que “é uma continuação natural do seu estado passado, assim também o presente está prenhe do futuro.” Leibniz (2000) também diria que a natureza não dá saltos. E, se o devir, com Deleuze, é contra-natureza, não é através de saltos. O devir é louco, porém, fractal.

A proposição de Einstein gerou debates entre os físicos quânticos. Max Planck era cristão e considerava religião e ciência compatíveis, pois, para ele, eram diferentes domínios de realidade. Bohr tinha reservas em relação à idéia de Deus pessoal e achava o discurso religioso próximo da poesia. Heisenberg acreditava em uma “ordem central”, uno, alma. “Verdade”, para ele, se relaciona com a experiência religiosa e , além disso, o físico criticava o preconceito em relação ao misticismo. Paul Dirac – segundo Bohr, o mais entranho homem a visitar o seu instituto – era completamente contra que ciência e religião dialogassem. Recentemente, se especulou que Dirac poderia ser autista (FARMELO - 2009).

As concepções de Wolfgang Pauli merecem destaque. Acreditava que não havia separação entre ciência e religião. Devido a problema a separação da esposa, morte do pai e alcoolismo, fez terapia com Von Franz que cujas sessões eram supervisionadas por Jung. Este se atraiu tanto pelos sonhos de Pauli que escreveu a primeira a obra alquímica junguiana, “Psicologia e Alquimia”, a partir daqueles relatos oníricos. Ficaram amigos. Nas cartas entre Pauli e Jung (2001) era claro o entusiasmo de Pauli pelos Upanixades (assim como Schrödinger) e por uma psicologia quântica. Eles desenvolveram o conceito junguiano de sincronicidade, apesar de não falarem do emaranhamento quântico – provavelmente pelo fato de Pauli ter falecido em 1958, e as propostas de Bell e Aspect (que popularizaram e deram consistência científica ao emaranhamento) se deram depois, nos anos 60 e 80, respectivamente.

Bohr, Heisenberg e Pauli (em níveis crescentes de entusiasmo) citavam o Taoísmo como uma referência que poderia ressoar com a física quântica. Nas correspondências com Pauli, Jung – que chega a equivaler o átomo quântico com o inconsciente - compara o yin/yang com a dualidade onda/partícula.

Cosmologia e unificação
Louis De Broglie se perguntava sobre o estatuto ontológico da função de onda. A visão estatística, tradicionalmente cooptada pela cúpula de Copenhague, o incomodava, pois concebe partículas saltitantes. David Bohn desenvolveu uma teoria de onda-piloto que desenvolveria suas idéias, mas também não obteve grandes adeptos.

A teoria quântica de campo, que faz concessões à teoria da relatividade, também caminha para uma ontologização quântica maior. PLOTNITSKY relaciona essa teoria quântica de campo com o virtual de Deleuze e Guattari. Faz sentido, porque se a partícula seria uma excitação quantizada no campo, isso se torna análogo ao processo de atualização na filosofia.

Surgem novas teorias que articulam a física quântica, a teoria do caos e cosmologia. A hipótese, antes desconsiderada, de multiverso, ganha cada vez mais adeptos, se especulando agora até sobre como seria vida em outros universos (JENKINS e PERZ). Se anuncia uma grande mudança na física e acreditamos que a filosofia da diferença pode oferecer muito na construção de uma filosofia que possa ajudar a entender essa próxima revolução. Assim como os estudiosos da teoria das supercordas (e outras teorias de unificação) acreditam em uma teoria M que reuniria as diversas versões, todas essas possibilidades devem ser levadas em contas em nos próximos passos conceituais.

É importante levar em conta que a onda é ontológica, mas também gerando consciência, não só no cérebro, como dizem Penrose e Hameroff, mas a consciência como uma ubiquidade no universo, como propõe não só “whiteheadismo modernizado” de Shimony, mas também o princípio de mentalismo no hermetismo, as mônadas de Leibniz e a vida não-orgânica em Deleuze. Heisenberg já falava em uma ubiquidade dos fenômenos quânticos. Novas descobertas mostram emaranhamento quânticos em vegetais corroboram com as possibilidades propostas por Penrose e Hameroff de um cérebro quântico.

As teorias devem ter uma relação paradoxal com o mistério. Quando Deleuze clama por um devir contra-natureza, devir selvagem, nos parece estar indo mais um direção ao mistério do que os trancedentais de Kant e o eterno em Spinoza. Dizer de um eterno, seja uno, Deus e/ou imanência, parece servir para dar conta de uma aparente angústia: “alguma base vai estar sempre lá, dando conta de tudo, ufa...”. O mistério está em avançar no conhecimento mas não saber "onde vai dar", ou melhor, não saber nem se as categorias de espaço, tempo, natureza, (im)permanência vão fazer sentido. O devir, sendo uma convocação ao inominável : tentar dizê-lo - eis o paradoxo.

Cada filosofia tenta puxar as discussões da física quântica para si. Heisenberg relata uma conversa com a neokantiana Grete Hermann. O filósofo Carl Friedrich disse a ela, polidamente, que o a priori de Kant fica “relativizado” com a física quântica. Heinseberg afirmou para a filósofa que a nova física é baseada em fenômenos obervacionais. As problematizações quânticas que os físicos adeptos dela evocam, fazem Schrödinger afirmar que Kant se torna obsoleto. A questão é que as relações entre física e filosofia (e demais saberes) produzem outro saber, seria pequeno reduzir o quântico a uma determinada filosofia. Apostamos que a filosofia da diferença pode contribuir muito, mas também o hermetismo, a antropologia simétrica, os devaneios (será?) literários e filosóficos de Philip K. Dick etc.

Não podemos nos dar ao luxo de construir mais diques no devir. A física quântica (e seus desdobramentos cosmológicos: quintessência, universos paralelos etc.) conclama a uma fluição na matéria, um devir ontológico. Sobre os diques no devir (expressão feliz de Gabriel Tarde), já sabemos o suficiente: a permanência em Parmênides, o imutável mundo das idéias em Platão, a taxonomia em Aristóteles, a trancendência cristã, o mecanicismo em Descartes, os imperativos categóricos em Kant, a normatização social (sociedade de controle em Deleuze, politicamente correto etc), a domesticação da ciência, como a de Sokal e Bricmont etc. Se acreditamos que o sonho nos conduz a universos paralelos (ontologia onírica!), é porque uma certa ciência, uma ciência menor, como diria Delanda, dá braços a outros saberes e germina ousadia: uma filosofia quântica que engendra novos cenários, novos conceitos, novas alegrias e novos e (a/o)ntológicos sonhos em devir!

Bibliografia Complementar
ALBERT, David Z e GALCHEN, Rikva, “Uma ameaça insuspeita à relatividade restrita” in: Scientific American Brasil 83, pp 28-35.
BERGSON, Henri, 2006, O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
BOHR, Niels, Física atômica e conhecimento humano. 1 ed. Rio de Janeiro, 2000, Contraponto.
BRUZZO, Angela Alessia e VIMAL, Ram Lakhan Pandey, Self: an adaptive pressure arising from auto-organization, chaotic dynamics and neural darwinism. 2007, in: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18181268
FARMELO, Graham, The Strangest Man: The Hidden Life of Paul Dirac, Quantum Genius. 1 ed. London, 2009, Ed. Faber and Faber Limited.
HEISENBERG, Werner, Física e Filosofia. 4 ed. Brasília, 1999, Edições Humanidades.
____________________ A parte e o todo. 1 ed. Rio de janeiro, 2008, Contraponto.
JENKINS, Alejandro e PERZ, Gilad, “A busca pela vida na estranheza do multiverso” in: Scientific American Brasil 93, pp 24-31.
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm, Novos ensaios sobre o entendimento humano. 1ed. São Paulo, 2000, Nova Cultural
MARLEAU-PONTY, Maurice, 2000, A Natureza. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
PAULI, Wolfgang e JUNG, C G, Atom and archetype – The Pauli/Jung Letters 1932-1958. 1 ed, Princeton, 2001, Princeton University Press.
PLOTNITSKY, Arkady, Chaosmologies: quantum field theory, chaos and thought in Deleuze and Guattaris What is philosophy?
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, 1984, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB.

Um comentário:

Anônimo disse...

thanks for this nice post 111213