CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ficção Científica no Metrô

Emanuel Tadeu Borges



Imagine que você está num trem do metrô em movimento. Agora imagine que o trem vai ganhando aceleração até atingir uma velocidade infinita. Tudo ao seu redor, então, se desintegra o trem, as pessoas, os objetos, seu corpo, seus sentimentos, suas idéias, seus pensamentos. Suponhamos que resta algo e chamemos de seu ‘EU’, totalmente esvaziado, sua atenção pura, percorrendo o universo em velocidade infinita. O que ocorreria? O que “VOCÊ” – agora este “ponto de consciência sem identidade” – experimentaria? Ora, se a velocidade é infinita e a única forma de experiência que restou foi a percepção, duas coisas ocorreriam:

VOCÊ ESTARIA EM TODOS OS LUGARES AO MESMO TEMPO.

VOCÊ PERCEBERIA TODAS AS COISAS AO MESMO TEMPO.

UBIQUIDADE E ONISCIÊNCIA.

Chamemos este ponto ideal de percepção de mônada e suponhamos que ela vá desacelerando até atingir uma velocidade compatível com nosso mundo de coisas e com a nossa percepção. Em seguida imaginemo-la revestida de um corpo físico sensível e capaz de agir, de uma entidade emocional organizada, capaz de sentir coerentemente e de uma unidade mental dinâmica, capaz de uma atividade intelectual ordenada. Chamemos esse novo conjunto de personalidade.

A personalidade, ao contrário da mônada, é uma unidade separada, possui uma singularidade, uma identidade e uma localização (é uma individualidade em meio a outras, é dotado de uma diferença em relação a todas as outras coisas, possui um conjunto cumulativo e mutável de aquisições materiais, psicológicas e mentais, ocupa um lugar no espaço e desenvolve uma existência no tempo). A personalidade, enquanto experiência, é diferente da mônada. No entanto, a personalidade nada mais é que a mônada desacelerada e com um revestimento material – o corpo sensível – que possibilita a focalização da atenção no mundo. E em contrapartida, a personalidade é uma entidade percebedora que “carrega” a mônada em seu núcleo, ainda que atue como um foco adequado para a atenção ou consciência em nosso mundo.

No entanto, o ponto de consciência original é a mônada e tudo se dá à partir da variação da velocidade desta, de acordo com seus desígnios. Chamemos a mônada de self.

Quando o self se volta para os conteúdos psíquicos conscientes e para a sensibilidade auto-consciente, ele atua como complexo egóico, experiência objetiva e subjetiva consciente, percepção do “mundo” e identidade do “eu” (“consciência do mundo” e “auto-consciência”). Esse tipo de experiência dá-se por meio das 4 funções psicológicas: sensação, sentimento, pensamento e intuição.

Quando, na experiência objetiva, a consciência do ego se detém na tarefa de assimilar e aplicar os parâmetros coletivos ou sociais, as regras que determinam a interação entre os indivíduos num dado contexto coletivo, ela atua como persona.

Quando busca atuar no âmbito dos conflitos não resolvidos armazenados num nível de sensações, emoções, sentimentos e idéias (memórias vivas, isto é, carregadas de intensidade afetiva) fora do alcance da atenção consciente, o self denomina-se sombra.

Quando realiza um percurso do centro (seu lugar próprio de onisciência e ubiquidade, onde está em velocidade infinita) à periferia (seu lugar de velocidade egóica, isto é, apropriada à atenção objetiva) o self torna-se mensageiro de si mesmo fornecendo uma cosmovisão ou “imagem da totalidade”, na medida da capacidade de apreensão e da necessidade da consciência egóica em seu percurso em direção à (e de identificação com a) consciência sélfica. Isto passa por uma revelação dos conflitos não resolvidos através da repetição da forma das vivências problemáticas, até que se alcance a resolução desses conflitos. Neste processo, os conflitos assumem a forma de uma mulher, para o homem e de um homem para a mulher, na imagem onírica: anima/animus. A imagem da alma, enquanto “parte inconsciente da personalidade”, aparece sob a forma do sexo oposto ou pelo menos com as suas características, na forma de coisas, animais, vegetais ou minerais com a marca do feminino ou do masculino.

No processo de resolução, curiosamente, a imagem de uma mulher divina, ou de um objeto, animal, mineral ou vegetal, de representação simbólica de cunho sagrado, substitui o animus nos sonhos da mulher. E a imagem de um velho sábio, ou um objeto, animal, vegetal ou mineral sagrado, substitui a anima nos sonhos do homem. Este fenômeno – do surgimento da imagem sagrada na psique – exprime a virtual união ou coniunctio misteriosa entre a consciência e o inconsciente, quer dizer, entre o ego e o self. O que era divisão, cisão, conflito, foi unificado, resolvido, apaziguado. O que era 2 fez-se 1. Não mais a oposição entre as polaridades representadas pelos sexos, nem busca da unidade representada pelo desejo.

O HOMEM SAGRADO E A MULHER SAGRADA SÃO SÍMBOLOS DA HARMONIA PERFEITA E DO EQUILÍBRIO ALCANÇADO, DA AUSÊNCIA DE DESEJO E DE NECESSIDADE, POIS NÃO HÁ MAIS ‘FALTA’. REPRESENTAM A CONSECUÇÃO DO ESTADO DE ‘ANDROGINIA’, ONDE NÃO MAIS EXISTE A DIVISÃO ENTRE ‘EU’ E ‘NÃO-EU’.

EU E MEU PAI SOMOS UM”.

Ego, persona, sombra, anima/animus e os diferentes graus de amplitude da “imagem da totalidade” que caracteriza a personalidade em sua totalidade, representadas pelo self, são diferentes velocidades da mônada, proporcionadas pela quantidade de energia psíquica investida, nos diferentes objetos: a “realidade objetiva” (mundo exterior), a “realidade subjetiva” (corpo, mente, emoções, sentimentos), para o ego; os padrões coletivos ou sociais de ação, para a persona; os complexos ou conteúdos do inconsciente pessoal, para a sombra; e os arquétipos ou imagens da totalidade do inconsciente coletivo para o self.

Nenhum comentário: