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sábado, 6 de março de 2010

Um Milhão de Platôs


Por uma transdisciplinaridade radical

Nelson Job


http://www.scootercommunity.com.au/blogs/my_life_as_a_scooter/Evangeline%20Lilly%20Biography.jpg

Evangeline Lilly, a Kate de "Lost"


Chega de ubiqüidades da taxonomia. Chega da domesticação do pensamento, seja na arte, na ciência, na filosofia e na fé.


É verdade, venho convocando muito alguns autores, preciso ainda citar? Hermes Trimegisto, Spinoza, Leibniz, Bergson, Deleuze, Penrose... Se cito Deleuze e sua “tchurma” não é para pertencer a um certo estilo de pensamento. Se cito Deleuze e seus apêndices de autores da diferença é para me inspirar a sair dele. Ele é muito bom nisso, ainda que a maioria faça o contrário em seu nome. Criei o trampolim com o meu “Deleuze e o Tarô”, para citar exemplo recente. Se cito Penrose, não é pra ter um “Sir” entre meus preferidos, mas para me alimentar de uma proposta provisória-experimental-especulativa (precisa mais?) de uma consciência quântica. Se cito Hermes Trimegisto, não é para me alinhar à turba de esquizotéricos, mas para ressoar saberes tão antigos (egípcios, babilônicos) com todos os conceitos mais belos.


Eis que enumeram os inimigos de Deleuze. Hegel? Kant? Besteira. O inimigo de Deleuze é apenas um, o resto deriva desse: o clichê. Sim, pois o clichê permeou todos os aspectos - dos mais ínfimos, aos mais óbvios - de nossas vidas. Pensamos, amamos, apreciamos “arte”, nos drogamos, rezamos etc com clichê. O clichê se tornou a mais terrível ubiqüidade de nossa era. Não que seja fácil eliminá-lo, ou mesmo suavizá-lo. Deleuze evoca o pintor Francis Bacon que evoca Cézanne: ao longo de toda uma obra de diversos quadros, compondo a mais terrível luta contra o clichês, desse embate restam apenas “uma maçã, e um ou dois vasos”. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro já nos lembrou que para os nativos da Amazônia, o inimigo é imanente. Então vale a pena citar o poeta Manuel de Barros (ou seria Freud?): “repetir-repetir: até ficar diferente.” Árdua batalha contra o clichê.


Deleuze é um ótimo exemplo, como já dissemos em “Tripaterapia”. Se ele é pródigo em articular filosofia, literatura, biologia, antropologia, física, pintura, cinema etc, seus asseclas citam os mesmos autores que o filósofo cita, ad nauseum. Quando colocamos o pensamento de Deleuze copulando com conceitos nunca antes articulados por ele – consciência quântica, a literatura de Philip K. Dick, o hermetismo (e por conseqüência, o tarô) etc – é porque assim é a única forma autêntica de se pensar com ele. Atravessando rumo ao novo.


Propomos uma transdisciplinaridade radical. Os conceitos atravessam e são oriundos de “saberes” dos mais diversos: várias filosofias (da diferença, da ciência, e seus desdobramentos religiosos: a filosofia taoísta, budista, hermética). Mas também a ciência em várias vertentes: a “comprovada” (física quântica, teoria do caos), a especulativa (a supercordas e tantas outras teorias da unificação) e todos os tipos de arte, inclusive as “de massa” como os filmes blockbusters (se consistentes), as histórias em quadrinhos, os seriados de TV, como “Lost” - que é transdisciplinar e ótimo exemplo além do clichê televisivo: drama, ficção científica, terror, mistério, suspense e atemporalidades em flashback, flashfoward e tempos paralelos - enfim, arte pop em geral.


Quando se fala em transdisciplinaridade, geralmente se faz multidisciplinaridade: põe-se os saberes lado a lado, sem cópula, sem mistura, sem hibridização. É comum citar Freud com Jung ou Winnicott (clichê!...), mas é raro relacionar Guattari com “Lie to me” ou “The Killers”. Os autores elaboram conceitos cheios de hífen, como o insuportável “bio-psico-socio-eco-antropo-cultural” (chamemos de cartesianismo enrustido) aarrgh! Vício taxonômico, apenas ligado por hífens para saudar uma pseudo inteligência “pós-moderna”: autores que dizem que nosso mundo é fumaça e que nós somos seres a vagar rumos a descobrir aspectos da fumaça.


Vivemos em uma era que evidencia-se as potências transdisciplinares. Bruno Latour já avisou em “Jamais fomos modernos”, mas agora, as crises econômicas, geológicas, e anímicas (depressão, transtornos de todos os gostos e taxonomias psiquiátricas: bipolar, de ansiedade, de pânico: o verdadeiro "transtorno psiquiátrico" é o transtorno que a psiquiatria faz nas vidas humanas pra alimentar a indústria farmacêutica...) anunciam que a crise é transdiciplinar e apenas uma compreensão que atravessa os saberes (incluindo a arte e as filosofias religiosa-místicas) podem apreender bem o fenômeno e buscar alternativas. Alternativas que não são novos modelos econômicos, e sim, uma economia de modelos, ou seja, abandonar o método repetitivo, científico-empírico e desenvolver conceitos mistos que se operam recriando-se a cada problemática.


A mídia vem tentando manter uma suposta tranqüilidade de que apenas o modelo vai ser trocado, como se a crise fosse a de um modelo apenas. Não, a crise é do modelo! A crise é a crise do clichê enquanto estilo. A crise é, sobretudo, da preguiça existencial. Se pulamos da Madonna para Britney Spears, apenas consumimos o novo clone, assim como passamos de “Matrix” para “Avatar”. Então vale lembrar: se Madonna (pop e feminismo), então Amy Winehouse (black, soul, politicamente incorreto). Se “Matrix” (realidade virtual ciberpunk), então “Anticristo” de Lars Von Trier (neo-animismo lírico). “Não só, mas também...”


Sejamos sonhadores ontológicos (“Ontologia Onírica”), sejamos poetas ontológicos: criar, em nossa era, não é uma quimera artística, criar agora é uma potência ecológico-cósmica (ai, esses hífens...)! Saiam de si e criem mundos!

2 comentários:

Cla Leal disse...

Maravilhoso, Nelson!!

Tadeu Borges disse...

Olá Nélson,
O comentário acerca dos precursores ou antecessores do Deleuze, na hist. do pensamento e da arte com relação à luta contra o clichê. Talvez tenhamos aí uma linha quebrada de pensadores e visionários, místicos, "loucos", que acabou por ser reprimida pelo poder. Uma linha que se tornou subterrânea e cujos autores foram perseguidos, indexados, censurados etc. Hume com a noção de crença, Spinoza com a sua postulação da consciência como lugar da ignorância, Bergson desqualificando a memória-lembrança, o instinto e mesmo a inteligência como insuficientes para se pensar a vida, Tarde com sua crítica da imitação e da oposição, em favor da invenção, Castaneda denunciando os fazeres do homem comum, as rotinas do cotidiano que constituem a "história pessoal", Whitehead buscando quebrar o "bom senso" na ciencia, Nietzsche, Proust e Artaud com sua crítica da idéia de "uma boa-vontade" do pensamento, como faculdade que tem acesso, "de direito" à verdade. As cosmologias (Spinoza, Whitehead, Leibniz, Rudhyar) rompendo com o individualismo. A lista é longa.