CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Cultivo Onírico

Jardinagens de uma Ontologia Onírica

Nelson Job

-Em que devo acreditar?(...)
-Em tudo.
Neil Gaiman

http://www.ronchan.net/wordpress/wp-content/gallery/illustration/sandman-baby.jpg

Se você é um sonhador, você tem, de saída, dois problemas: o primeiro - tomar cuidado, muito cuidado – com quem não é um sonhador; o segundo, o que fazer com os seus sonhos.

O sonhador, seu brilho no olhar e seu ar de alegria em poder deslumbrar na vida causa raiva, inveja e desconfiança em quem não é um sonhador. Esse indivíduo triste quer, a todo custo, fazer você agir como ele. Vai dizer que a vida é dura, pra você “voltar pra realidade”, que não há nada melhor do que ter garantia na vida. O não-sonhador quer, sobretudo, ganhar muito dinheiro, fazer o jogo do sistema e passar os “otários” pra trás. O não-sonhador desistiu do que sonha, e realiza o que lhe oferecem, o que o senso comum quer. Ele obedece, se necessário e trapaceia quando pode. As pessoas a sua volta costumam adoecer. Ele tem muito ódio do sonhador, porque o sonhador o faz lembrar do que ele tinha de melhor... e abandonou! Vai debochar do sonhador, vai tentar denegrí-lo, vai tentar fazer de todas as mais terríveis formas que o sonhador desista. Então, o status quo (ou estabilichment ou qualquer outro tipo de normatização) fica tranqüilo. Cuidado, você, sonhador, com essas pessoas. Elas estão em todo lugar e são a maioria. Mas não se sinta sozinho. Depois de muito tempo, eles estão perdendo o jogo.

Com a crise econômica, evidenciaram-se outras crises: a crise do modelo (“Um Milhão de Platôs”), a crise da realidade única (“Tripaterapia”), a crise ambiental (“Climáticas Mudanças”) etc. Enfim, a(s) crise(s) envolvem o fim de um processo iluminista em que o homem tentou ser racionalista demais. A ciência, que nasceu do magia, se desarticulou dessa última, assim como a fé e a emoção se separaram da razão. Ninguém agüenta mais isso, e com “ninguém”, eu estou incluindo o planeta, chame-o de Terra, mas apelide-o de Gaia. Os drogados não cansam de reclamar: “socorro, o mundo tá concreto demais!”. Em todos os lados, clama-se por uma realidade mais ampla, por mais arte, por mais sonho.

O outro problema, sonhador, é o que fazer com o seu sonho. Porque, a questão não é, simplesmente, “tornar o seu sonho realidade”. A questão é mais complexa.

Falemos brevemente de conceituações bergsonianas (detalhes em “Devires”). Existem níveis de realidade (virtual) em que se atualizam com mais consistência e densidade (atual). O tráfego de um para o outro é o intensivo. Conceito brilhante, que diz, entre várias possibilidades, das mudanças de fases cósmicas, tanto a passagem do sólido para o gasoso; o “colapso” quântico de vários estados da partícula em apenas um e o ato de sonhar e lembrar do sonho. Se enfatizarmos radicalmente o atual, ficamos nesse mundo que criticamos, por demais concreto e triste. Se enfatizarmos o virtual, nos deteremos em algo atemporal, quase intangível e de difícil apropriação. Temos que galgar uma (cada vez maior) apreensão do virtual, mas através do intensivo. O intensivo é a chave.

Para nos tornar íntimos do intensivo, é preciso buscar o virtual: a coexistência, o sonho, o atemporal e nos adentrarmos em dimensões para além do ego. Para tanto, existem a arte, a dança, a meditação, a entrega ao amor etc. O estudo, se exercido com a tripa, também ajuda muito. Dizem que Deleuze é um filósofo do virtual. Não creio. Os “filósofos do virtual” são os teólogos e adjacências. Deleuze é, pra mim, um filósofo do intensivo, e nos convida a vários autores que nos ajuda para essa empreitada de apreendermos o intensivo: Bergson faz um viravolta no pensamento (lança o conceito de virtual), faz também uma reviravolta para lançá-lo no atual. Deleuze se preocupa mais com esse ínterim, o intensivo. Sabemos que os conceitos coexistem. Para conceber melhor tal coexistência, é de extrema relevância que nos tornemos, sobretudo, intensivos.

Então você, sonhador, sonhe à vontade. Mas não basta o esforço de “tornar o seu sonho realidade”, ou seja, atualizar. É importante que se conceba também o sonho como aspecto da realidade (“Ontologia Onírica: rumo a um estatuto de realidade dos sonhos”). É saber, que, seja lá qual for o seu sonho, ele é, também real, mas virtual. Ser intensivo é coexistir as dimensões do sonho e do exercício de torná-los “reais”, ou melhor, atuais. Sonhe muito, e saiba que sonhando, você esta expandindo a realidade. Deixe o sonho transbordar pela vigília. Esse é o primeiro passo para sairmos da crise atual, para sairmos da crise do sonho e cultivarmos mundos mais amplos, múltiplos e, sobretudo, alegres.

Um comentário:

Marcelo Braga disse...

Perfeito, muito bom :-D