CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 18 de abril de 2010

Êxtase em Devir

meditação e Corpo sem Órgãos


Este texto é sobre o tema do módulo do grupo de estudos Cosmos e Consciência


Nelson Job


Ó Vida Oculta! Vibrante em cada átomo;

Ó Luz Oculta! Brilhando em cada criatura;

Ó Amor Oculto! Abraçando todos na Unidade;

Que cada um se sinta Nela,

Sabendo que ele também é um em todos os outros.

Annie Besant


Instrui-te sobre um pinheiro com um pinheiro,

e sobre um bambu com um bambu.

Matsuo Bashô



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Segundo o professor de estudos religiosos Willard Johnson (1982) “o significado original do termo ‘ioga’ tinha por base uma destreza consumada, que dominamos ao nos preparar para uma aventura ou atividade no mundo, a meta da ‘ioga’.” Preparemo-nos, então, para a aventura:

Existe uma certa egrégora atemporal na filosofia ocidental composta por Plotino, Spinoza e Bergson: estes três autores falam da coexistência do Um e do múltiplo e sua apreensão, promovendo uma interface com o pensamento oriental, tirando a filosofia tradicional do ocidente de seu eixo costumeiro. Através do conceito de Corpo sem Órgãos de Deleuze e Guattari e a prática e conceituação da meditação (ou ioga) advinda do Oriente, estabeleceremos as ressonâncias entre esses campos do saber.


Plotino, filósofo neo-platônico do século III d.C., já começa sacudindo a transcendência platônica, considerando-a inseparável de uma imanência, segundo José Carlos Bacarat Júnior (PLOTINO – 2008). Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase: segundo seu seguidor e biógrafo Porfírio, ele ascendeu ao Uno cerca de quatro vezes, e, a partir dessas experiências, escrevia as “Enéadas”. A concepção plotiniana de contemplação é deveras relevante: une-se sujeito e objeto, Uno e múltiplo, pois o universo observa a si próprio. Nas palavras de Plotino (2002): “a Alma tem de ser una e múltipla, dividida e indivisível, e não devemos acreditar que é impossível uma coisa estar em muitos lugares. Do contrário, a natureza que mantém as coisas todas juntas e as governa não existiria: ela que, abarcando todas as coisas, as mantém unidas e as conduz com sabedoria, sendo ao mesmo tempo múltipla (posto que os seres são múltiplos) e una – a fim de que o princípio de coesão seja uno. Mediante a sua unidade múltipla, a Alma dá a vida a todas as partes, enquanto que, mediante a sua unidade indivisível, as conduz com sabedoria. No caso dos seres desprovidos de Inteligência, o princípio indivisível que o rege imita a inteligência.”


Plotino adverte que o problema é quando as almas, querendo pertencer a si mesmas, afastam-se da origem divina. Bergson (2005), um dos grandes comentaristas de Plotino, comenta que a concepção de consciência plotiniana é totalmente adversa da versão moderna. Adquirir consciência, para Plotino, é se afastar do divino, é uma perda, pois é na inconsciência que se quer chegar, ao Uno. Consciência é exterioridade, é dispensável, instabilidade: é permanecer fora daquilo que se apreende.


Com Spinoza (2008), no século XVII, alcançamos uma outra etapa. Deus se equivale à mente e a substância: imanência. Spinoza enumera três gêneros de conhecimento: opinião ou imaginação – que leva ao falso – razão e conhecimento (noções comuns e idéias adequadas das propriedades das coisas) e ciência intuitiva: através dela Deus ama a si mesmo que é o amor intelectual da mente para com Deus. O espinozismo conclama a intuição como a capacidade única de apreender a imanência, com isso, chega-se à liberdade.


Esse amor intelectual de Deus por si seria a mente humana na perspectiva da eternidade, para Spinoza. Mas é preciso qualificar o que é “eterno” no espinozismo: Marilena Chauí (2000), comentando as questões relativas ao eterno e à duração em Spinoza, escreve: “eternidade e duração não estão referidas ao tempo, mero ens imaginationis: eternidade não é simultaneidade dos tempos, mas existência necessária; duração não é sucessão dos tempos, mas força contínua de perseverar na existência; ambas são atualidade necessária da existência”.


Bergson (1999), pensador da intuição e da duração, quando lança o conceito de virtual ao final do século XIX, promove uma sofisticação nessa corrente. No virtual, energia que tende a ficar cada vez menos densa , ou seja, a se virtualizar, coexistem-se os tempos, passado, presente e futuro e no atual (mais denso, a extensão) existe um presente contraído na duração.


Se em Plotino o devir domestica-se no Uno e em Spinoza, no eterno, em Bergson (2006) ele fica livre em toda a natureza, não havendo nenhum suporte para o devir, visto que tudo está em devir. Já em Deleuze e Guattari (1997), nem a natureza domestica o devir: o devir é contra-natureza. É nesse âmbito que chegamos ao conceito de Corpo sem Órgãos (CsO).


“O grande livro sobre o CsO, não seria a Ética? (...) Os drogados, os masoquistas, os esquizofrênicos, os amantes, todos os CsO prestam homenagem a Espinoza.”, assim, Deleuze e Guattari cunham um de seus conceitos mais importantes e de grande ressonância: o CsO foi extraído do obra do dramaturgo Antonin Artaud e seria uma espécie de corpo sem organização. É uma experimentação intensiva, que tira o corpo de um estado atual rumo a um virtual. Os autores citam a ioga, o Tao, os místicos, o uso de peyote como relatado por Casteneda etc,. como exemplos de criação de CsO. Um problema seria virtualizar demais, gerando um regime de abolição, como o drogado que se torna dependente e, por fim, morre. É preciso prudência, Ética. A soma de todos os CsO seria o campo de imanência, ou a constituição do plano de consistência.


Se a ioga é citada como exemplo de criação de CsO, vamos desdobrar a possibilidade. Para entender o significado de ioga, Willard Johnson nos convida à Índia dos 1500 a.C., quando a ioga é considerada simplesmente um meio de se chegar ao fim. Podemos, segundo o autor, relacionar ioga com a meditação enquanto disciplina depois dos 500 a.C., já relacionada a uma posição confortável, de preferência a posição de lótus, respiração profunda e concentração.


Um objetivo da meditação é o êxtase. Johnson supõe que os primeiros êxtases são contemporâneos à domesticação do fogo, por volta de oitocentos mil anos atrás, acrescentando que a caça e o fato do caçador ter que entrar em sintonia com a caça, já seria um estado medidativo, como o ato físico do sexo com o abandono do orgasmo, alguns traumas (que geram, entre outras consequências, experiências de “fora do corpo”), rituais de cura, como o com plantas psicoativas por índios, a kundalini indiana etc.


O uso do peyote, bem como o da ayahuasca, por índios em seus rituais, são exemplos de êxtase e de criação de CsO. O xamã é um grande criador de CsO. Porém, o uso indiscriminado de substâncias, seja o álcool, cocaína etc. pode levar a um “regime de abolição”, a dependência e a morte. Ético seria a utilização das plantas no âmbito ritualístico, onde há um know-how milenar para a experimentação. Johnson ainda ressalta que em Castaneda, nos livros seguintes à “A Erva do Diabo”, Dom Juan abandona o uso de peyote para utilizar a meditação. Não que a experimentação com drogas como o LSD sejam necessariamente negativas, mas existem campos onde a experiência tem grandes chances de ser mais produtiva. Em uma palavra: prudência.


A kundalini (enroscada) é a força cósmica adormecida, enroscada dentro de nós, cujas práticas de meditação hinduístas tem como objetivo despertar. O guru da Siddha Yoga (originada na Índia), Swami Muktananda (2000), relata suas experiências na meditação. Nelas, se pode observar todas as ressonâncias com os êxtases xamânicos e o CsO. Para ilustrar suas experiências, ele traduz um poema de Tukaram Maharaj: “minha visão tornou-se divina e a distinção ilusória entre unidade e a dualidade dissipou-se. Desapareceu também a noção de diferença entre espaço, tempo e substância; não há espaço, nem tempo, nem substância; a diversidade não existe. O meu ser apareceu como universo e o universo, que chamamos de realidade objetiva, apareceu como meu Ser. Não existe mundo exterior. Somente o Absoluto existe.”


O budismo se seguiu ao hinduísmo na Índia e teve como ícone maior Siddhartha Gautama, o Buda no auspicioso século V a.C., quando surgiram também Heráclito na Grécia, Confúcio e Lao Tsé na China: o mais pleno zeitgeist do devir, seja nomeado de impermanência ou transformação!


A meditação tem um papel central no budismo. Através dela se chega ao nirvana, ao desapego total. Nas palavras de Paul J. Griffiths (YOSHIRI-2006): “Na tradição budista indiana, a prática da meditação – aqui provisoriamente compreendida como tentativa consciente de alterar de forma sistemática e integral, a experiência perceptiva, cognitiva e afetiva do praticante – está intimamente vinculada tanto a rituais quanto à magia (...) Emprego o termo ‘meditação’ de uma forma ampla, para me referir a toda técnica de alteração da consciência empregada conscientemente e sem o recurso a substâncias químicas externas ao praticante para a produção da alterção desejada (...) De acordo com essa definição, envolver-se numa relação sexual, ouvir Beethoven ou contemplar as boas qualidades do Buda serão todos exemplos de meditação.” No processo de análise obsevacional budista, que envolve a meditação, Griffiths exemplifica diversos desenvolvimentos de poderes mágicos: criação de duplicatas de si mesmo, clariaudição, clarividência, telepatia, a lembrança de vidas anteriores etc. Já Johnson - citando os benefícios do samadhi (quando o objeto da meditação se irradia na consciência destituída de conteúdo usual) enumerados por Pantajali – acrescentaria: conhecimento do cosmo, suspensão da fome e sede, conhecimento sensorial psíquico à distância, domínio da fonte de criação da matéria, onipotência etc. Como diriam Deleuze e Guattari acerca do CsO: “Tudo é possível, sem dúvida”...


Deleuze e Guattari também somam o Tao às possibilidades de CsO. Anne Cheng (2008) coloca que, a partir do século V d.C., o budismo teve grande receptividade na China, principalmente devido aos esforços de Kumârajîva. São grandes as ressonâncias entre budismo e taoísmo, porém o conceito de impermanência não encontrou uma forte aceitação. Para estabelecer uma relação intensa com Spinoza e derivações, talvez o melhor agenciamento seja com Guo Xiang (século I d.C.) com seu imanentismo puro. Nele, o Tao não é origem, mas apenas o nome da espontaneidade dos seres.


A ciência tem estudado a meditação. Recentemente, a neurociência vem confirmando os benefícios da meditação na diminuição do stress etc. No modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff (1996) as Reduções Objetivas (a versão dos colapsos de onda quânticos, na teoria deles) no cérebro são, normalmente, em torno de 0,4 segundos, mas a meditação e outros estados de consciência alterados acelerariam muito a seqüência de Reduções Objetivas. Com isso, Penrose e Hameroff incluem a meditação como potencial acelerador do fluxo de consciência, além de produzir mais realidade, visto que estamos falando de processos físicos, ou seja, a meditação é uma ferramenta para expandir os níveis de realidade, tanto para as religiões, quanto para uma certa ciência especulativa. Hameroff (2002) chega a relacionar a Redução Objetiva com a mônada de Leibniz e os "momentos de experiência budista". É importante lembrar que o vazio quântico é preenchido, assim como os vazio chinês (o Tao) e a maioria das concepções do nirvana budista.


Johnson conta que Pochang Huai-hai, budista chinês do século VIII d.C., apresentou aos seus seguidores o kung-an, o enigma de procurar o boi dentro de nós. Existem conjuntos de imagem que ilustram essa busca, ( ver abaixo) envolvendo, entre outras etapas: ser dominado pelo boi, dominar o boi, encontrar o vazio, e finalmente, encontrar o Buda sorridente. O estereótipo de quem pratica meditação pode ser de alguém sisudo, cuja prática é sofrida. Mas, o objetivo da meditação, chamemos de êxtase, iluminação etc., é um caminho rumo à alegria suprema. Spinoza concordaria, dizendo que o aumento de potência através dos bons encontros, que ele chama de alegria, é o objetivo da sua “Ética”. Bergson (2004) afirma que “para produzir efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura (...) O cômico é inconsciente.” Deleuze e Guattari: “Acontece que existe uma alegria imanente ao desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa (...) O CsO é desejo, é ele e por ele que se deseja.”


Finalmente, gostaríamos de acrescentar que este texto sobre meditação, face à meditação, deve ser esquecido. Esquecido no sentido que tudo que foi lido aqui é somente o trampolim, a respiração profunda que antecede o porvir na meditação: ferramenta formidável do devir, êxtase que é da ordem do inominável. Ficamos, então, com Marguerite Yourcenar (1968), que nos traz seu personagem Zênon, alquimista e filósofo ressoando em profunda meditação: “Agora, em favor de um exame mais percuciente, renunciara temporariamente aos próprios conceitos; retinha o espírito, como retém a respiração, para melhor ouvir o ruído das rodas que giram tão depressa que não percebe estarem elas girando.”


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Bibliografia

BERGSON, Henri, 1999, Matéria e memória – ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2004, O Riso – Ensaio sobre a Significação da Comicidade. 2 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2005, Cursos sobre a Filosofia Grega. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2006, O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

BESANT, Annie, 1950, The union of all faiths – in common act of worship. 1 ed. Madras, The Theosophical Publishing House.

CHAUÍ, Marilena, 2000, A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. 1 ed. Companhia das Letras, São Paulo.

CHENG, Anne, História do Pensamento Chinês, Editora Vozes, Petrópolis, 2008.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1996, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 3. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

_______________________________ 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

HAMEROFF, Stuart, Consciousness, Whitehead and quantum computation in the brain: panprotopsychism meets the physics of fundamental spacetime geometry. 2002 in: http://www.quantumconsciousness.org/

JOHNSON, Willard, 1982, Do xamanismo à ciência – Uma história da meditação. 1 ed. Ed. Cultrix, São Paulo.

MUKTANANDA, Swami, 2000, Jogo da Consciência – Uma autobiografia espiritual. 1 ed. Siddha Yoga Dham Brasil, Rio de Janeiro.

PENROSE, Roger e HAMEROFF, Stuart, 1996, Orchestrated reduction of quantum coherence in brain microtubules: a model of consciouness. 1 ed. in: Hameroff, Kaszniak e Scott (org.) Toward a science of consciousness – the first Tucson discussions and Debates. Massachusetts Bradford Book – The MIT Press.

PLOTINO, 2002, Tratado das Enéadas. 1 ed. Polar Editorial, São Paulo.

_________ 2008, Enéada III. 8 [30]. 1 ed. Ed. Unicamp, Campinas.

SPINOZA, Benedictus de, 2008, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica.

YOSHIRI, Takeushi (org.), 2006, A Espiritualidade budista – Índia, Sudeste Asiático, Tibete e China Primitiva. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.

YOURCENAR, Marguerite,1968, A Obra em Negro. 1 ed. Ed. Nova fronteira, Rio de Janeiro.

5 comentários:

Anônimo disse...

Menos que um comentário, só uma questão....gostaria de saber como vc(s) pensa(m) o corpo psicótico e autista, e modos de trabalho possíveis com os mesmos para além de especialidades...porém sem desconsiderar a diferença de cada um deles. Tentando fugir tanto quanto se esquivar de considerações puramente psicopatologicas e considerações de saúde da OMS, apesar dos termos surgirem deste campo no trabalho com eles...Então, como devir um pensamento ético com eles "sem eles" me aparenta um absurdo com estou propondo aqui (com isso,acho até que respondi minha pergunta)...mas enfim, mantenho a questão, talvez algo possa se produzir no meio disso.

Obrigado

Thiago

Nelson Job disse...

Thiago,
Uma questão pode ser mais que um comentário... Acredito que o autismo, como todo diagnóstico, é uma taxonomia psiquiátrica que nunca dá conta das singularidades do cliente em questão. Porém, posso compreender que certas características enumeradas para designar "autismo" formem um atrator para que a gente possa partir de algo. Os "autistas", pra mim, NÃO vivem em um mundo próprio, apenas tem outras ferramentas - nada usuais - para lidar com o(s) mundo(s). A melhor forma de lidar com um "autista" seria entrar em estado meditativo COM ele. Assim como o caçador entra em ressonância com a caça, o terapeuta deve entrar em ressonância profunda com o cliente. Maiores detalhes neste blog no meu texto: "Colecionando ambientes: Acompanhamento Terapêutico e perspectivismo".
Nelson Job

Isadora M. disse...

seus rizomas são sempre magníficos. e extremamente instrutivos.

hábraços,

i

Thiago disse...

Valeu Nelson, já tinha lido seu artigo anteriormente. Só pra situar um pouco, está questão posta tem lá seu fragmento de história...a algumas semanas acompanho no CAPS onde trabalho um menino com diagnóstico de autistmo, não verbaliza nada compreensível para mim e outros da equipe, ao mesmo tempo que realiza um repetidamente um gesto de arrancar algumas folhas de uma planta de Boldo e de uma pequena árvore. Demonstrava um mal estar ao ser interrompido neste fazer por alguém, e causava um mal estar em nós da equipe que entendia aquilo como “destruição” e não como uma produção singular do mesmo. Passando por supervisão moderamos nosso olhar negativizante sobre o fazer dele com as plantas, e pensamos uma possível substituição de objeto....enfim, conversando com uma técnica da equipe que está lá a anos, descobri um antigo objeto de interesse dele. Copinhos de guaravita, os quais ficava dando petelecos e parecia se interessar/ afetar pelo som que se produzia. Passei a guardar estes copos e “coleciona-los” como um oferta/ convite a um “jogo” quando ele retornasse, bem sei que não sei bem o que aconteceu, ele aceitou a substitução de objeto tranquilamente...ficava amassando-o e dando seus petelecos no copo, por vezes jogava no chão ou dava pra mim...eu por minha vez desamassava o copo e devolvia a ele. Ainda neste espaço de tempo, ele chutou e participou de um jogo coletivo de futebol a sua maneira, se abriu a encontros outros fora de sua enigmática repetição. Sei que foi um acontecimento supreendente pois nunca antes ele havia aceitado participar de um jogo como este. O esforço maior que percebi em nossa intervenção foi ter que se abrir com ele a um encontro, e se despir de um certo trabalho e olhar que se tinha, me é difícil de elaborar e expressar como se deu está diferença, por enquanto só consigo narrá-la...e se irá se repetir não se sabe. Mas algo ali se passou...

Obrigado
Thiago

Nelson Job disse...

Que ótimo, Thiago! A comunicação com autistas é um processo tortuoso, mas fascinante. As ferramentas necessárias você já tem: experimentação, estudo e intuição. Aproveito para recomendar a ótima animação "Mary & Max", atualmente em cartaz, sobre uma longa amizade através de cartas de uma garotinha e um adulto portador de síndrome de Asperger. Uma das mais belas visões de uma singularidade mental.