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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Caríssimo Brasil,

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Hoje, você perdeu a Copa do Mundo. Entrou, fez um gol e depois, ficou, mais uma vez, achando que já tinha ganho o jogo.


Existe dessa vez, caro Brasil, uma tristeza maior, porque havia um otimismo – via Brics etc. – que você está em seu grande momento histórico-mundial. Mas, apesar disso, os holofotes da Copa estão mais para, por exemplo, Maradona, do que para qualquer brasileiro.


Essas considerações nos fazem refletir sobre o que é você, Brasil, agora.


O jogador extremamente brasileiro Garrincha, que perguntou ao técnico Feola se suas orientações técnicas foram combinadas com o adversário, se tornou emblema do Brasil com jeitinho, do Brasil pouco técnico, mas raçudo. É verdade que essa postura venceu a Copa de 58, mas, com a profissionalização constante dos jogadores e técnicos em todo mundo, houve um grande hiato de vitórias no Brasil, rompida com a ida cada vez mais freqüentes para fora de jogadores, além de, é claro, a evidência de que os campeonatos mundiais lidarm com vetores indesejáveis, como por exemplo, contratos com multinacionais que podem interferir no placar e escalações de jogadores-propaganda, além de posturas “meramente” empresariais da FIFA. Talvez o futebol-arte esteja relegado aos campeonatos de segunda divisão...


O técnico Felipão foi extremamente feliz, ou melhor, Feliz, articulando o jogo de cintura, o improviso, o samba dos brasileiros aliados com apuro técnico. Anunciado por ele que todos os jogadores foram obrigados a ter como livro de cabeceira durante a Copa de 2002, a obra-prima da estratégia “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, levou o livro aos mais vendidos nas suas livrarias, caro Brasil. Adotar essa postura mista, tão brasileira, te levou novamente à vitória. Essa técnica aberta ao improviso, menos moralista (Descartes) e mais ética (Spinoza), permitia, sim, estrelas, mas não permitia estrelas demasiadamente entorpecidas de si (Romário).


Com Dunga, técnico que enfatiza a seriedade extrema e o grupo como entidade unitária, hoje, fracassou. Os jogadores falavam muito em entrevistas, no “grupo” como que em uma lavagem cerebral.


A questão é que o grupo é importante, mas levando em conta as idiossincrasias de cada jogador. Singularidade e multiplicidade. Diferença e ressonância. Como o atrator estranho que vemos na revoada de pássaros. Cada um fazendo o seu próprio vôo, no entanto, cada pássaro otimiza o vôo coletivo, fazendo a revoada, assim como o formigueiro e o enxame, um belíssimo processo de auto-organização, “técnica” tão natural que coexiste com o movimento peculiar.


Meu caro Brasil, os seus “técnicos”, esportivos ou não, tendem a se deslumbrar com a uma possível entrada no “Primeiro Mundo”. Com isso, passa-se cada vez mais a se utilizar das sintaxes deste. Não é disso que você, Brasil, precisa, nem o mundo. O que todos nós precisamos - tal qual Felipão percebeu - é que você se utilize das estratégias milenares que a história oferece, aliadas à singularidade brasileira: improviso, suíngue, alegria. Você deve se orgulhar de ser uma grande novidade mundial-histórica: geológica, biológica (combinação de vários padrões genéticos), artística etc. (ver “Ser-tão Cósmico”). Artística sim! Se, no cinema, com algumas exceções glauberianas, ainda não achamos o nosso frame, em nossa música, ouve-se frequentemente como ela é tão extraordinariamente rica em ritmos, timbres e afetos, nossa literatura é brilhante e nossa pintura, com cores tão extremas, cores-portinari, cores-ostrower...


Essa novidade não é, de maneira alguma, dada a dominação mundial. Devemos eliminar todos os micro e macro fascismos que uma certa política sua, se avizinha. A sua novidade, Brasil, é convidar alegremente, carinhosamente, o mundo ao seu devir-plural.


Por isso, caro Brasil, fique sim, um pouquinho triste pela sua derrota hoje. Mas que ela sirva de alerta, e que tenha algum sabor outro de vitória. No sentido que você, jamais deve abrir mão do que lhe é mais precioso: a sua criatividade diante do abismo. Menos sorrir amarelo diante da pobreza com rodas de pagode ou bailes funk na favela, e mais promover um samba-funk-rock que te comova a construir uma polis-Brasil auto-organizada. Com menos fé em líderes e mais co-evolução simultaneamente espiritual e educacional. E que você saiba se utilizar de cada uma de suas riquezas, articulando-as com riquezas outras, advindas de quaisquer entidade que queira somar rumo a um Cosmos consciente de suas diferenças, de sua pluralidade, enfim, um Cosmos Ético.


De seu cidadão brasileiro e cósmico,

Nelson Job




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