CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Redivivos? (Nelson Job)

(para a versão ficcional deste texto, vá para Druam: “Redivivos!”)


http://truebloodnet.com/wp-content/uploads/2009/05/jessica-hamby.jpg
Deborah Ann Woll

Ah, sim, os vampiros. A partir de agora, ninguém poderá dizer que não existem histórias sobre humanos que transformam vampiros em humanos. Porque já tô um pouco cheio do contrário.


Porquê não bastaria apenas (re)clamar por isso aqui. Porque parece que a ficção está com pouca imaginação e alguém precisava escrever algo que invertesse a lógica. O vampirismo se tornou tão forte que controlou o imaginário a um extremo que impede se pensar uma possibilidade dos mortos-vivos se tornarem vivos. Uma exceção seria o recente filme "Daybreakers", porém, o filme não aconteceu: salvo as imagens iniciais que impressionam, ele não desenvolve bem a trama e, além disso, carece dos tons de romantismo gótico comum ao gênero. Longe de mim exigir estilísticas da narrativas, mas caso você queira ir muito além do clichê - operação necessária , mas terrivelmente difícil - tenha bala na agulha... e continue tentando! Claro que há a tentativa de Basnabas em "Dark Shadows" com suas lágrimas fumegantes ao nascer do sol, e a alma de Angel, em seriado homônimo, além do híbrido de humano e vampiro ao final de "Crepúsculo".


Não que seja possível escrever algo entre o conceito e a ficção, “Amarnifesto” é o amor enquanto personagem-conceito e “Se concebe, então é” é o conceito se tornando conto. Mas agora, parece que as armas precisam ser mais consistentes, em função disso, escrevi o conto "Redivivos!" em que o humano ajuda a vampira amada a se tornar humana novamente.


Mas vamos investigar o motivo do vampirismo se alastrar.


Nada contra história de vampiros. Sou fã de Bram Stoker, Stephen King e Anne Rice, sem citar inúmeros filmes que coincidem com a própria história do cinema, culminando em seu centenário com a obra-prima de Coppola. Mas porquê os vampiros “vegetarianos” de “Crepúsculo”, “Vampire Diaries” e “True Blood” viraram mania, e sempre com a mocinha na eminência em se tornar imortal por amor ao vampiro?


Existe uma beleza nisso (ver “A Era do Conjugalismo”). O vampiro vai contra a sua natureza e, por amor, não suga a amada e com isso, mantêm a alma da possível vítima. A mocinha por sua vez, até se tornaria vampira, e/ou fornece seu sangue com prazer (e dor).


Entendemos que existem adolescentes que clamam por relações mais viscerais, selvagens, mas, ao mesmo tempo, mulheres cedem a sua alma para terem eternidade, ou poderes. Alguém se lembra das executivas pós-80???


O coração das mulheres bate em todos os ritmos (na TPM, talvez possa se dizer que batem em todos os ritmos ao mesmo tempo) e o coração do homem, muitas vezes, bate em um ritmo apenas. É a beleza (e tortuosidades) da relação que permitem a maior ou menor harmonia fazerem esses corações baterem juntos. Mas daí a mulher optar por um coração vampiresco que não bate, é radicalismo (ou preguiça existencial)...


Se “Crepúsculo” e “Vampire Diaries” - a despeito de um certo e inegável charme - são fábulas adolescentes cujos vampiros “vegetarianos” (que sugam, por exemplo, coelhos!) tem doses mínimas de erotismo, tão comum ao gênero, “True Blood”, disparado, o melhor exemplar do gênero, por mostrar a estranha convivência entre humanos e vampiros que “saíram do caixão” e vieram a público depois de japoneses terem sintetizado sangue artificial: a bebida-título que é servida esquentada em micro-ondas em qualquer barzinho. Cheio de personagens interessantes, “True Blood” de destaca por ser uma série farofa-perversa e que tem a melhor personagem (ainda que coadjuvante) de todas as franquias quase-sombrias atuais: a vampira adolescente eternamente virgem Jessica, que é apaixonada, é claro, por um humano. “True Blood” – que tem a melhor abertura e música de todas - está pra “Vampire Diaries” assim como “A Família da Pesada” está para “Os Simpsons”: compõe os breves momentos em que podemos descansar nossas mentes da avassaladora lavagem cerebral do politicamente correto.


Os vampiros são mortos-vivos, tais quais a indústria farmacêutica (com seus ramos ilegais no tráfico de drogas: tudo uma questão de contágio coletivo químico), a “sociedade da informação” com seus vícios em uma vida virtual, através do computador e o pensamento único da economia doente que troca vida por consumo (sim, do nosso sangue vital de horas de empreitadas de trabalho infeliz, feitos quase apenas pra pagar impostos). Sim, nos tornamos vampiros, suga-se nossas vidas através de contágio químico e financeiro. Somos seres-cartão de crédito, seres-celulares, seres-internet, seres-TV a cabo, seres-plano de saúde, que “curam” doenças que a própria sociedade fundada juntamente com o plano de saúde, criou.


Se na ficção já difícil desvampirizar, imagine na “realidade”. A inevitável junção natureza-cultura – capaz de nos reencantar da vampirização coletiva – nos mostra que devemos tornar humanos os vampiros, e nos retornar humanos, ou, desta vez, mais que humanos, seja como Nietzsche quer, seja com as lágrimas na chuva dos replicantes.


O terremoto no Haiti gerou uma onda de neo-escambo. O dinheiro deixa de imperar, mas o trabalho da sua vida, que é valorizado em troca do trabalho, também valorizado olho no olho pelo outro negociador. Vidas pós-turbilhão que se chocam, se misturam e melhor, se contagiam. Vamos nos recontagiar pela vida, e não pela cópia mal feita, meio morta. Deixem os corações e vísceras pulsarem, contagiando o mais morto-vivo dos seres. Uma nova vida, em que as batidas múltiplas dos corações cantem em um festival barroco e cósmico, celebrando o respirar de cada centelha que brilha nos confins dos seres e do universo.


Um comentário:

Anônimo disse...

Como sempre, pensamento intenso, visceral, poético e de profunda reflexão social. E, novamente, como sempre, aprecio as palavras escolhidas (ou não) de maneira a impactar e nos fazer pensar...o que quer dizer essa onda avassaladora de Crepúsculo? Muito bom....como sempre...rsrsrsrsrs.