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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Feliz Dia do Despsicólogo

Nelson Job
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Ah, sim, hoje é dia do psicólogo. Muitas pessoas vão para os consultórios, terem suas vidas repartidas entre édipos, arquétipos, couraças de caráter, figuras/fundo e gradações de piores e melhores Corpos sem Órgãos. Seus sonhos serão “decifrados”, seus desejos terão uma causa e suas singularidades serão traduzidas em conceitos europeus.

A psicologia hoje, a despeito de sua origem, é um serviço que entrou nos hospitais, escolas, exércitos, empresas - incluindo times de futebol. O seu objetivo é manter a ordem dessas instituições. A psicologia é regida por instituições de “formação” (leia-se: massificação e manutenção de conceitos) e universidades (cujas ementas são ideologicamente oferecidas como se reparte o tempo em horário eleitoral na TV, ou seja, diretamente proporcional entre a popularidade do autor – e influência principalmente econômica de seus seguidores - e o números de cadeiras disponíveis sobre esses mesmos autores). Os textos desses autores dificilmente serão lidos e sim, a sua versão colonizada, o manual introdutório do professor ou de seu "padrinho". Dificilmente haverá alguma cadeira de Filosofia da Mente. Pergunte pra algum aluno (ou até mesmo profissional) de psicologia sobre a questão extremamente relevante: “o que é a mente?” e ouça o que ele tem a dizer. Provavelmente nada, ou se iniciará uma avalanche “greatest hits” dos termos do “pai” (castrado?) de sua "escola".

Desde os gregos (ou seria desde os egípcios?) o tema “mente” tem sido pensado, e hoje em dia, até por proeminentes cientistas, mas, os cartéis de toda a espécie permitem apenas que os alunos saibam de neurocientistas que especulam (mas especulação em ciência ganha um caráter de quase-verdade, né?) de acordo com os preceitos do velho Sigmund e asseclas derivados. Dado todo mérito que estes merecem, é preciso lembrar que muitas outras considerações houveram e continuaram sendo criadas. Se o kantismo tem se deteriorado em vários setores do saber desde a aurora da Mecânica Quântica no início do século XX, na psicologia e na neurociência, sempre estive em voga.

O psicólogo, chamado à ativa pra gerar saúde mental em seus clientes, em geral promulga um ideal narcísico: torne-se o que eu sou e você se dará bem (ver Tripaterapia). O cliente é iludido com um “trabalho”, em geral adaptativo, em que poucas ou nenhuma questão profunda é realmente trabalhada, e sim, o desdobramento conceitual de cenas do cotidiano que serão revistas de forma que o stress seja menor.

A boa velha assimetria: se o antropólogo tradicionalista imputa a mesma natureza pro nativo de "cultura" diferente (ou seja, “joga com 12”: o antropólogo escolhe a sua natureza e sua cultura, ao índio lhe é reservada apenas sua cultura) (ver: Devires e Colecionando Ambientes). O psicólogo faz operação semelhante: antes do cliente se sentar, ele já teria seus édipos, Ids, arquétipos de Velho Sábio, couraças oculares etc, pouco importando o que ele venha a falar. Ora, se não há espaço para alteridade, não há clínica, ao menos não em seu significado mais relevante: o de clinâmen. (ver Uma Clínica do Clinâmen).

A psicologia: esse “estudo da mente”, mas que não problematiza o seu objeto; produz clínicos que não geram escuta de singularidades, mas rebatimento conceitual. E a mente, objeto hoje degenerado pelo modernismo e seus cartesianos, cujos “sabedores” ainda a separam do corpo, se não for em discurso, o fazem em suas práticas.

Em algum lugar, “clínicos” livre-pensadores que passam com um sorriso de ternura e sarcasmo pelas instituições, que se não se apegam tanto a conceitos - a despeito de sua importância - mas à mais criativa relação, farão que as pessoas à sua volta questionarem suas vidas, suas famílias, sua sociedade, políticas em que se inserem ou lhes oprimem, gerando ações que possam fazer alguma diferença, alguma liberdade, nem que seja de sonhar, (ver Cultivo Onírico) livre das castrações, seja das instituições, seja das interpretoses. A esses clínicos, deve-se desejar, como num encontro com o Chapeleiro Louco (por favor, livre de antipsicóticos), um feliz dia do despsicólogo, a partir de amanhã, talvez?

2 comentários:

José Laerton disse...

Só posso rir diante desse dia. Ou dançar. Não! Não levarei a sério. Uma violência chamada "Cura" nos trouxe até aqui. Em nome da cura aprisiona-se e deforma-se. Despsicologizar a psicologia é uma tarefa de urgência (e clichê).Curar a clínica seria um anacronismo? ...não sei. Desejar um feliz dia do psicólogo é no mínimo risível. Feliz pra quem empreende sua máquina de captura ou pra quem é por ela capturado?

Obrigado por vomitar essa massa negra por mim. Nossos colegas psicólogos padecem um pouco com seus sentidos decrépitos, e fórmulas teóricas ávidas por mães fálicas e pais despotentes.

José Laerton disse...
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