CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 12 de setembro de 2010

Cosmologia e Transaberes (Nelson Job)

da ciência sitiada à um pensamento livre

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“Esta é a equação: oferta + procura + magia. E o que é magia? Magia é épica e também é sexo, bruma dionisíaca e jogo.”

Roberto Bolaño


A ciência está sitiada. De um lado, a indústria farmacêutica dita as normas de pesquisas em remédios e tratamentos médicos; de outro, a física se orienta pelos financiamentos estatais e empresariais em que o pragmatismo, a serventia óbvia e previsível minimizam a necessidade de liberdade do pesquisador. A ciência sitiada é o dique de um devir transaber livre.


É só olhar a volta – com boa vontade – que observamos micro-novidades (ou nem tanto) pulularem: perguntem a um pesquisador de câncer que não tenha o seu nome viciado em papers - que são importantes para currículos, mas que quase ninguém lê - ele vai dizer, meio ressabiado, que quando membros da equipe estão de mau humor, com problemas pessoais etc., o tecido canceroso em estudo tem mais chance de proliferar. Mas essas evidências não entram nos papers, pois a indústria teria a sua resposta única para todos os males – a química – posta em questão.


Também é notória a questão da neurociência. Para ela, o cérebro “comanda” a mente. Tal postura convoca a ciência a operar o cérebro e invadi-lo com as químicas mais destrutivas. E se a neurociência ao menos desconfiasse da existência do virtual bergsoniano? (ver Devires). Aí, o que acontece no cérebro seria apenas uma evidência do virtual sendo acessado. Mais uma vez, respostas químicas não bastam. Então, lidar com o virtual geraria uma outra ciência, que o filósofo Manuel DeLanda (2004) chamaria de uma ciência menor.


A solução “única” química vem adquirindo uma indesejada consistência, o que culmina em seu fractal ressonante no cinema blockbuster: é conhecida a cena em Morpheus oferece a Neo a possibilidade da pílula azul (ficar na mesma) ou da vermelha (conhecer os desígnios da Matrix). Até em um filme com contornos revolucionários a solução possível parte da química...


Claro, existem linhas de fuga. A cosmologia apresenta algumas delas.


“um valor, pensou ele quando tornou a ficar sozinho, sempre é aproximado, não existe número correto, só os nazistas acreditavam no número correto e os coletores de impostos (que Deus acabe com eles), os numerologistas que liam o destino por três vinténs acreditavam no número correto. Os cientistas, pelo contrário, sabiam que todo número é apenas aproximado. Os grandes físicos, os grandes matemáticos, os grandes químicos e os editores sabiam que a gente transita no escuro.”

R. B.


O físico cosmólogo brasileiro Mário Novello é pródigo em apresentar facetas da cosmologia que comungam com a liberdade de pensamento, apesar de (ninguém ficará surpreso) ser uma cosmologia muitas vezes marginal – de qualquer forma, cada vez menos marginal.


Novello (2010) e alguns outros (BOJOWALD – 2008), sucitam a hipótese de um universo eterno em oposição ao modelo do Big Bang. O Big Bang, hipótese majoritária, é provavelmente acolhida em função de seu convite a um ponto zero do universo, tão comum no pensamento ocidental. No processual, majoritário em uma filosofia oriental e marginal no Ocidente, não existem “pontos zeros”, mas gradações em contínuo devir. O Big Bang também serve a uma mitologia cristã (“haja luz!”): o precursor do conceito foi justamente criado por um padre belga, G. Lemaître, com seu modelo cosmológico do “átomo primordial”.


“Não se trata de acreditar – disse Ansky - , trata-se de compreender e depois de mudar.”

R. B.


O modelo do universo eterno (bouncing) é, segundo Novello (2006) compatível com a filosofia de Heráclito, porque é também dinâmico. Poderíamos ir além e relacionar o universo eterno com o pensamento de Spinoza (2008), pois a filosofia espinozista parte de uma substância imutável como modos dinâmicos, em devir.


A substância de Spinoza, concebida em sua “Ética”, apreende um terceiro gênero de conhecimento que seria o do amor de Deus (equivalente à substância) por si mesmo, o conhecimento imanente. Veremos em breve o quanto a física está tomada por noções semelhantes a essa, que envolvem totalidade. Aqui cabe uma relação com a lógica hiperdialética ou quinquitária, assim chamado por Luiz Sergio Coelho de Sampaio (2002). Essa lógica envolve as lógicas: da identidade ou do mesmo (Parmênides), dialética (Platão), clássica ou da dupla diferença (Aristóteles), da diferença ou do outro (Heráclito) e inclui ela própria. A lógica hiperdialética impele a uma ressignificação cósmica em que ser e pensar são o mesmo. Ela seria, então, “onto-lógica”, uma lógica do amar, prenunciada pelo romance (escrito ou filmado), onde se relacionam escritores e leitores formando um ente virtual andrógino.


“A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo, e sobretudo é conhecimento de perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada (...) Numa palavra: o melhor é a experiência.”

R. B.


Se o universo é uma totalidade – o “tudo que existe”, o universo eterno é também uma totalidade temporal. As questões de totalidade estão permeando a física, como facilmente notamos ao constatar o monumental investimento – financeiro e intelectual – no Grande Colísor de Hádrons, onde se espera identificar o campo de Higgs (GREENE – 2005), campo que permeia todo o universo, sendo que todas as massas das partículas são formadas a partir do atrito com ele. Se preferimos o conceito de vazio quântico (vazio pleno oriundo da Mecânica Quântica, diferente do vácuo, ou vazio absoluto), é por achar tal conceito mais amplo e de acordo com a filosofia da diferença, em que apostamos.


“Só na desordem somos concebíveis”

R. B.


Assim, chegamos a um passo além do imutável espinozista, no devir contra-Natureza de Deleuze e Guattari (1997). Aqui, o universo eterno ganharia cores intempestivas, não sendo mais “eterno” no sentido que sempre existiu e sempre existirá, mas que existe, simplesmente, sem “compromissos” com a prioris e a posterioris. Novello (1988) considera a possibilidade do universo ser governado pela bifurcação, oriunda de matemática criado por Poincaré, cujo desdobramento mais conhecido é a teoria do Caos. Em um universo assim - em que comungo que seja o nosso -, “as causas do mundo não estão no mundo”, pois, as mudanças acarretadas anteriormente mudam o universo de tal forma, incluindo suas leis, de maneira que não se possa re-conhecer nele seu antecedente. Em outras palavras: puro devir.


“O mundo inteiro é uma coincidência (...) A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos expostos por nossa própria natureza. A coincidência não obedece a leis, e se obedece, nós a desconhecemos.”

R. B.


Também podemos conceber a idéia de que no universo, podem coexistir leis da física diferentes em diferentes lugares. As hipóteses de universos paralelos (GREENE – 2005) - de Hugh Evertett III à teoria das Supercordas – expugam a diferença “pra fora” (como se faz a exaustão no pensamento ocidental), ou seja, para outros universos com leis da física diferentes das do “nosso”. O que se observa em nossa ínfima porção do universo, usualmente é extendida para a totalidade. Mas, é preciso perguntar, “e se não for assim?” Novello (1988) ainda lembra a teoria de Buracos Brancos, em que se pode criar nova matéria no universo, de forma imprevisível e aleatória.


Todas as questões elencadas acima estão de acordo com uma pensamento em devir assim, clamamos por uma cosmologia, por uma ciência que abarque todas elas. Mas ainda é preciso explicitar um grande fetiche da física: a conservação de energia da primeira lei da termodinâmica, que diz que a energia do universo não pode ser criada nem destruída, apenas transformada. Tamara Davis (2010) afirma: “quando tentamos entender se o Universo como um todo conserva energia, encaramos uma limitação fundamental, porque não há um valor único que possamos atribuir a algo chamado ‘a energia do Universo’ (...) o Universo não viola a conservação da energia. O Universo está fora da jurisdição dessa lei.”


Em uma ontologia que postula o devir que pode se tornar qualquer coisa, deixando inclusive de ser Natureza, podendo deixar inclusive de “ser”, não permiteria que houvesse essa “lei de conservação”, sequer lei alguma. Claro que muitas das leis que identificamos, podem ser concebidas como contextuais, como fazendo parte de um processo, cujo rumo é da ordem do inominável.


“O estilo era estranho, a escrita era clara e por ocasiões até transparente, mas a maneira como se sucediam as histórias não levava a lugar nenhum: só restavam crianças, seus pais, alguns vizinhos e no fim, na realidade, a única coisa que restava era a natureza, uma natureza que pouco a pouco ia se desfazendo num caldeirão fervendo até desaparecer totalmente.”

R. B.


Bibliografia

BOJOWALD, Martin, “Relatos de um Universo Oscilante” in: Scientific American Brasil 78, pp 30-35, 2008.

BOLAÑO, Roberto, 2010, 2666. 1 ed. Companhia das letras, São Paulo.

DAVIS, TAMARA M., “O Universo está perdendo energia?” in: Scientific American Brasil 99, pp 26-33, 2010.

DELANDA, Manuel, 2004, Intensive science and virtual philosophy. 2 ed. Continuum, London.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.

NOVELLO, Mário, 1988, Cosmos e Contexto. 1 ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro.

______________ 2006, O que é cosmologia? 1 ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.

______________ 2010, Do Big Bang ao Universo Eterno. 1 ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.

SAMPAIO, L. S. C., 2002, Filosofia da Cultura – Brasil: luxo ou originalidade. 1. ed. Editora Agora da Ilha, Rio de Janeiro.

SPINOZA, Benedictus de, 2008, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica.

Um comentário:

Anônimo disse...

Good point, though sometimes it's hard to arrive to definite conclusions