CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Egrégora Conceitual

das potências clínicas do grupo de estudos
Nelson Job

Se não quero das palavras seu sentido, mas aquilo que carregam realmente, e do incêndio quero o fogo e não a rima, da sombra o escuro e não a posição gramatical (....) então seria melhor apagá-las todas, as palavras, uma a uma, às negras, pequenas aranhas, livrando o dicionário dessa mácula, e beber o que foi tinta até a boca ficar preta, e transformar a tinta em chuva, em tigre.
Nuno Ramos

Não se trata de acreditar nelas cegamente,
basta ler e comparar com as próprias experiências vividas.
Strindberg

http://tzatziki.files.wordpress.com/2006/11/20060509-bansky.jpg?w=490

Trata-se de lutar. A preguiça existencial é, sim, um inimigo. Mas devemos entendê-la como os selvagens (elogio) o fazem, como inimigo imanente, ou seja: a preguiça existencial é minha inimiga, imanente à terra com a qual componho, e luto comigo-ela-preguiça nos tornando mais vida.

Já anunciamos em “Tripaterapia e "Feliz Dia do Despsicólogo" os problemas da psicologia de consultório, então, sem delongas: no dispositivo terapeuta-cliente em uma salinha claustro-fóbica de vida, o conceito tende a entrar pela tangente. A preguiça existencial impede que o conceito seja maturado, re-criado. “Ah não, quero é falar da briga que eu tive com a minha namorada, do meu cachorro" etc. O dispositivo do consultório se tornou a versão chique da aspirina: “falo do meu problema e fico bem; até a próxima consulta”. O terapeuta não quer ir fundo na sua vida, devido à preguiça, que ressoa com a preguiça dos clientes: cada um tem a relação terapêutica – devidamente existencialmente preguiçosa - que merece???

Já em “Uma Clínica do Clinâmen” anunciamos que a clínica, clinamen (re)dobra da vida, pode se dar em qualquer lugar, inclusive (provavelmente) fora do consultório. Vamos então proliferar a idéia de que a clínica tem mais chance de engendrar nos grupos de estudos; mas ambos, grupo e consultório, podem, é claro, coexistir...

Pode-se ter alguma preguiça, mas no grupo de estudos o conceito vai surgir de uma forma ou outra, vai ser esmiuçado, re-criado, incriado, mal-criado, desnaturado, maravilhado. E convida-se, em uma boa hipótese, a criar conceitos, mesmo que – e talvez, inevitavelmente – a partir de algum conceito anterior.

No grupo, o sujeito, sujeitinho, adquire mais facilmente o seu devido lugar: uma mera prostração da existência perante às relações. O grupo é relações: de afetos, conceitos, percepções, dores, crises, criações, amores, fé, medo, descrença, música. Brota-se sujeitinhos aqui e ali, devem ser abandonados, deixados a mercê do grupo, e se algum atrator quiser, que aproveite o sujeitinho na saída, pra comprar leite, e, terrivelmente, pra tirar onda na festa que “sabe” tal e tal conceito, tais e tais autores. Mas um atrator, embuído de uma Ética - conceito de sublime relevância a ser povoado no grupo - vai engendrar festa, ressoar a festividade, tarefas maiores, relevantes, que o grupo deve, a cada conversação, cultivar. O grupo enquanto festa, da festa conceitual para quaisquer alegrias. Pois o conceito só serve se aplicado na vida, copulado com a vida!

O atrator do grupo costuma ser um “sujeitinho” específico. Um bom grupo faz o atrator deslocar, de sujeitinho em sujeitinho, compondo um atrator fractal a todos os outros: o grupo de estudos em si. O facilitador ou (palavra terrível) coordenador, foi um sujeitinho que se torna uma força, um vetor do atrator, uma mônada que (trans)forma o grupo. E, de preferência, não (con)forma.

O grupo pode se encontrar em lócus específico, que também pode deslocar - alegria festiva do grupo - estuda-se conceitos na sala, mas também no cinema, no museu, no bar. Pode se deslocar no tempo em horários e durações diferentes, no intuito de alegremente fracassar em seu objetivo, porque só "fracassando" é que se instaura o devir: partindo-se de “A” (qualquer conceito) e esquisitamente não se chega a “B” (conceito qualquer), mas na pantera, na Monica Belluci, no Leonard Cohen, enfim, ao longo da imanência.

O grupo pode ter várias contrações da duração, um encontro, anos, minutos, deslocar atratores, atrair novos atratores, fazer ressonância com outros grupos, com outros saberes, com outros afetos e posturas. Sim, outros saberes, o grupo alegremente se alimenta da filosofia, da física, biologia, psicologia, antropologia, amarelinha, pintura, perversão, capuccino. O grupo é corpo, diz Nietzsche: “o lugar certo é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto é conseqüência disso...”, corpo esse que, é claro, dança: “não se pode excluir a dança, em todas as formas, da educação nobre; saber dançar com os pés, com os conceitos, com as palavras; ainda tenho que dizer que é preciso saber dançar com a pena – que é preciso aprender a escrever?” Então, os conceitos estão na vida, devém vida. A vida é o entre do grupo, que é corpo. Entra-se no grupo pela vida mais esplêndida, mais ética, cultivando o corpo de afetos, sobretudo de alegrias.


O grupo pode se embriagar; Deleuze se interessa pela operação henrymilleriana de se embriagar com o copo d’água: o grupo se embriaga de conceitos. A partir dos conceitos, a embriaguez pode adquirir inúmeros vetores, alterando velocidades e percepções, criando mundos. Cultivar mundos possíveis: tarefa perspectivista maior do grupo de estudos. Destruir o estatuto do impossível. Um grupo de estudos potente é um grupo hermético, é um grupo que engendra magia, assim como Heráclito enumera para quem ele profetiza: "para os errantes noturnos, os magos, os bacantes, as mênades, os mistas. (...) É sem piedade que se iniciam nos mistérios em voga entre os homens" e ainda, Giordano Bruno: "Em filosofia e entre os filósofos, esta palavra mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir": relevância extrema de um pragmatismo conceitual, da aplicação dos conceitos na vida! Onde se declara uma impossibilidade, o grupo de estudos se instaura, com a alegria e ousadia de suas relações micro e macroscópicas, fundando um novo possível.



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4 comentários:

roberta disse...

Nelson, vc é o cara mais doido que conheci em toda minha humana existência!

roberta disse...

Nelson, vc é o cara mais doido que já conheci nesta minha fulgaz existência!

roberta disse...

Eu daria vários nomes para minha existência, mas não sei se conseguiria nomear a sua!!

Nelson Job disse...

Ótimo, Robs: não nomear a "minha" existência já seria uma emergência em devir! Já diziam os Mutantes (ou seria Spinoza???): "Eu juro que é melhor não ser um normal se eu posso pensar que deus sou eu." Inté!