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sábado, 30 de outubro de 2010

Hermetismo em Aberto


Ontologias Oníricas entre Magia e Ciência

Nelson Job
"De qualquer maneira, se eu tentasse sanar o atraso,
se virasse a memória do avesso para reconstruir este tempo,
quem iria avalizar a minha perícia?"
O quieto animal da esquina
"ah, não imaginas a confusão de instantes, tudo anda amalgamado em mim,
em mim tudo é pura massa informe, sem face que me distinga entre os demais."

Berkeley em Bellagio
"estou salvo, perdidamente salvo outra vez."
Lorde
João Gilberto Noll

Queremos eliminar a dualidade entre magia e ciência. Essas dualidade, como muitas outras, se solidificaram ao longo da História, gerando uma aparente "verdade". Agora, com auxílio de estudos das últimas décadas, é possível evidenciar que magia e ciência não são "opostas" e sim, um contínuo de saberes que encontram em nossos tempos a possibilidade de se darem as mãos sob uma nova perspectiva, agora compondo com os avanços que geraram a despeito de seu "desencontro" forçado, compondo assim um saber híbrido mais eficaz para compreendermos e agirmos em nossa época.


Entendermos, a princípio, o hermetismo como avatar da magia, principalmente a ocidental, para, em seguida, contemplarmos as obras de Paracelso, Giordano Bruno, Kepler e Newton, exemplos notáveis de conhecimentos oriundos e amalgamados de magia e ciência. Então, estaremos mais aptos a revelar o quanto a ciência moderna é permeada de intuições herméticas.

Hermetismo e os 7 Princípios


O hermetismo é difícil de situar historicamente, em consequência, se torna complexa a precisão do advento de seus principais conceitos. Segundo o médico britânico, coronel, maçom e um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada[1], William Wescott (2003) e o terapeuta, secretário do controverso Aleister Crowley e membro da Aurora Dourada, Francis Regardie (2008), o hermetismo surgiu no período helenístico[2] (323-147 a.C.) baseados em preceitos do Antigo Egito, especificamente, os do deus Thoth, uma divindade lunar que tem a seu cargo a sabedoria, escrita, aprendizagem, magia, medição do tempo etc. Do hermetismo originaram-se a alquimia e astrologia.

Para a historiadora Frances Yates (1964), os textos herméticos iniciam no século II ou III d.C. e não na remota antiguidade, como os magos da Renascença acreditavam. Dentre estes textos, se destacam as “Enéadas” do filósofo egípcio neoplatônico Plotino.

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O hermetismo recebe essa alcunha em função da figura de Hermes Trismegisto. Yates afirma que ele não existiu, já os textos alquímicos medievais colocam o advento de Trismegisto no mais tardar em 1800 a.C. no Antigo Egito. Sua figura se confundiria com o deus Toth, ora aparecendo como o próprio, ora como seu principal seguidor e difusor.

Modernamente, organiza-se os princípios básicos do Hermetismo em sete:
MentalismoTudo é mente e a matéria é força mental coagulada.
VibraçãoTudo está em movimento, tudo se move, tudo vibra.
RitmoTudo tem fluxo e refluxo, um movimento para frente e para trás.
PolaridadeTudo tem o seu oposto, o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza.
Correspondência – O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Existem três grandes planos: o físico (matéria, substância etérea e energia), o mental (mineral, elemental, vegetal, animal e hominal) e o espiritual, sendo que os sete princípios se encontram em todos eles.
Causa e EfeitoToda a causa tem o seu efeito. Os estudiosos do hermetismo conhecem os métodos da elevação mental a um plano superior, onde se tornam apenas causadores, e não efeitos.
GêneroTudo tem o seu masculino e o seu feminino.

Os cientistas magos da Renascença

O hermetismo obteve sua maior popularidade na Idade Média. Apesar do cristianismo[3] ter-se mesclado inicialmente ao hermetismo, na Inquisição, todo tipo de paganismo foi entendido como heresia pela Igreja, sendo seus praticantes convertidos ou condenados. A ciência - que também inicialmente possuía íntimas relações com o hermetismo - com o seu avanço, foi abandonando-o gradativamente.

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Theophrastus Paracelsus Bombast von Honenheim (1493-1541) foi um médico alquimista suíço, muito crítico da medicina de sua época. Segundo o ex-editor da “Nature”, Philip Ball (2009), a concepção de medicina e filosofia de Paracelso baseava-se nos hermetismo e neoplatonismo. Paracelso estudava a natureza para entender o corpo, o que revelava, com tais relações de micro e macro, a presença do Princípio de Correspondência do hermetismo.

Paracelso acreditava nos arcanos, incorpóreos eternos que tem o poder de transmutar os doentes. Esses arcanos combatiam doenças de calor com calor, frio com frio etc., o que veio, posteriormente, a influenciar os homeopatas, da máxima “similar cura similar”.

Com o advento do oxigênio de Lavoisier e sua química, diminuiu-se a influência de Paracelso. Ball discute o mito que essa “nova” química seria anti-Paracelso. De acordo com o autor, poderíamos supor que ele aplaudiria a descoberta do oxigênio. A grande perda da química é seu afastamento da filosofia, é o fato dela ter se tornado uma disciplina isolada, paradigma comum no Iluminismo. Paracelso ainda influenciaria a sinfilosofia dos Primeiros Românticos Alemães, ou seja, contribuiria no advento de uma nova filosofia “sinergética” que veio posteriormente influenciar o descobrimento do campo eletro-magnético.

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Giordano Bruno (1548-1600) foi um polêmico frade dominicano italiano, teólogo, filósofo e astrônomo, morto pela Inquisição. Influenciado pelo hermetismo e pelo neoplatonismo, era divulgador da arte da memória, uma técnica mágica de memorização.

Bruno (2008) afirmava no “Tratado da Magia”: “mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir”. Yates (1964) chama atenção para o fato de que o cálculo e a experimentação diferenciavam os magos renascentistas dos gregos antigos e teólogos da Idade Média e que essa disposição de homens como Bruno foi o germe que tornou a ciência tão poderosa.

Giordano Bruno conceberia filosoficamente um universo mutante, anímico, infinito e descentrado; sendo que as duas últimas características foram sustentadas pouco depois por Galileu Galilei. Esse último possuía diplomacia com a Igreja, diferente de Bruno, pois suas idéias pagãs e suas peças debochadas em relação à Igreja o levaram a fogueira em Roma, depois de um cruel processo de julgamento. O historiador da ciência Alexandre Koyré (1979) escreve: “foi Bruno quem pela primeira vez nos apresentou o delineamento, ou o esboço, da cosmologia que se tornou dominante nos últimos dois séculos”.

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Johannes Kepler (1571-1630) foi astrônomo, astrólogo e matemático alemão, que formulou leis da mecânica celeste que viriam ser muito importantes para a física newtoniana. Segundo o teólogo, ex-padre e especialista em geociência James Connor (2005), Kepler obteve grande fama como matemático imperial e como astrólogo, fazendo certeiras previsões, recebendo durante certo tempo a alcunha de profeta. Porém, ele sempre foi ambíguo em relação à astrologia, mas achava-a importante para apurar a astronomia. Sua mecânica foi decisiva para engendrar a de Newton, que tirou a importância da astrologia, relegando-a a guetos.

Kepler obviamente sofreu influência do hermetismo, citando longamente Hermes Trismegisto em sua “Harmonia do Mundo” (YATES-1964). A concepção kepleriana de harmonia era um misto de música, astronomia e, principalmente, geometria. Para ele, a harmonia - uma categoria primária da existência que permitia a experiência do mundo - oferecia acesso à mente de Deus.

Devido à sua peculiar fé luterana, Kepler negou, em sua obra, a concepção de universo infinito de Giordano Bruno e Galileu, utilizando-se de argumentos aristotélicos.

Sua mãe, Katharina – que era dada a costumes pagãos, fazendo poções de curas com ervas, mas não era propriamente uma bruxa – foi condenada e presa pela Inquisição já em idade avançada. Os esforços de Kepler permitiram uma soltura tardia, mas logo após, Katharina faleceu.

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Isaac Newton (1643-1727) foi físico, matemático, astrônomo, alquimista e teólogo. Segundo a historiadora Betty Dobbs (1984), Newton se dedicou principalmente aos estudos da alquimia que foi a principal inspiração para o seu conceito de “força”. É conhecido o discurso de Keynes (2002) dizendo que Newton não foi o primeiro homem da idade da razão, foi o último dos magos.

Na primeira edição do “Principia”, Newton explicitava a sua crença na transmutação da matéria. Com o advento de sua “Óptica”, ele retirou a afirmação do “Principia”, ficando apenas na primeira, considerada obra menor. Se Koyré acredita que Newton deixou de acreditar na transmutação, Dobbs afirmaria que ela está subentendida na obra-prima de Newton. É importante lembrar que Newton era muito influenciado pelos Rosa-Cruzes, e os mestres alquimistas exigiam segredo das descobertas. Koyré (2002) faria ainda uma crítica ao legado de Newton; ele teria posto o “movimento absoluto” no lugar do devir, gerando uma espécie de mudança sem mudança, separando o mundo em dois: o da quantidade, que seria o mundo da ciência e da qualidade, do nosso mundo percebido e experimentado.

Caberia a questão se Newton seria “newtoniano”: não, se alimentarmos a hipótese que Newton realmente acreditava na transmutação da matéria. Assim, Einstein e sua Teoria da Relatividade - que equivaleria matéria e energia - não apontariam o “erro” de Newton, mas recuperaria e desdobraria o Newton oculto.

O Hermetismo presente na Física Moderna

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Com a enorme difusão da física “newtoniana[4]”, a magia vai perdendo espaço na sociedade. Nos resta aqui, brevemente, elencar as ressonâncias com a magia que a ciência guarda, “ocultamente”. Vale lembrar que “ciência oculta” na Renascença, era a ciência do invisível, como seria hoje, por exemplo, a Mecânica Quântica[5] (BALL-2009): o prêmio Nobel Wolfgang Pauli fez psicoterapia supervisonada pelo médico suíço Carl Jung. Este ficou tão impressionado pelos temas alquímicos nos sonhos de Pauli que seu interesse gerou o primeiro livro de Jung (1991) sobre o tema. A amizade entre ambos gerou uma troca profícua de cartas (PAULI e JUNG – 2001) e um estudo profundo entre física e psicologia, culminando no conceito junguiano de sincronicidade (simultaneidade significativas entre inconsciente e o mundo), depois veio a ser corroborado em parte com a comprovação em laboratório do emaranhamento quântico (simultaneidade entre partículas distantes), ambos guardando semelhanças com o Princípio de Polaridade no hermetismo.

O Princípio de Correspondência também tem suas ressonâncias modernas em hipóteses relacionadas a autossimilaridade dos fractais (CLANTON-1997), tanto na cosmologia de Luciano Petronero (GEFTER-2007), em que todo o universo seria fractal, como na Triangulação Dinâmica Causal de Renate Loll (AMBJORN, JURKIEWICZ e LOLL) em que, no nível micro, quântico, a estrutura da matéria apresentaria características fractais. [Detalhes em "Fractais quânticos monádicos"]

A teoria de unificação das Supercordas (GREENE – 2005) - que supõe cordas como a menor partícula do cosmos cujas diferentes vibrações gerariam todas as outras partículas elementares do universo - possui uma imensa semelhança com o Princípio de Vibração.

Cópulas de uma Ontologia Onírica
Como vimos, o hermetismo está vivo e presente de forma "oculta" em vários aspectos da ciência. As confluências entre magia e ciência foram avançadas aqui. Para entender o quanto a filosofia tem um papel "diplomático", ressonante, relevante, vide "Ontologia Onírica". Pois é na Ontologia Onírica que habitamos nosso pensar e viver: amálgama mutante de saberes para além das dualidades, compondo uma transdisciplinaridade radical, que agrega em sua cópula cósmica o estranho, o inominável e o até então inconcebível.

Notas
[1] A Golden Dawn – misto de hermetismo, cristianismo, filosofia, ciência e teosofia - , foi fundada na Inglaterra em 1888 por membros da maçonaria, Fraternidade Rosa-Cruz e Sociedade Teosófica (REGARDIE – 2008).
[2] Segundo o egiptólogo Eric Iversen (1993), as trocas entre Egito e Grécia se originaram entre os séculos VII e VI a.C.
[3] O historiador Raphael Patai (2009) afirma que houve vários alquimistas judeus, dentre eles se destaca Maria, a Judia, que viveu provavelmente no início do século III d.C., criadora do popular processo alquímico, hoje largamente utilizado na culinária, banho-maria.
[4] Entendemos “newtoniana” aqui como algo adverso do Newton pensador.
[5] Prigogine e Stengers (1984) diriam: a Mecânica Quântica constrói a ponte entre essa ciência do ser e o mundo do devir.

Bibliografia
AMBJORN, Jan, JURKIEWICZ, Jerzy e LOLL, Renate “Universo quântico auto-organizado” in: Scientific American 75 ano 06, pp 28-35, 2008.
BALL, Philip, 2009, O Médico do Demônio – Paracelso e o Mundo da Magia e da Ciência Renascentista. 1 ed. Rio de Janeiro, Imago.
BRUNO, Giordano, 2008, Tratado da Magia. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
CLANTON, Amy, 1997, Art, Science and Wholeness. in: http://www.hermeticgoldendawn.org/hogdframeset.html
CONNOR, James A., 2005, A Bruxa de Kepler. 1 ed. Rio de Janeiro, Rocco.
DOBBS, Betty Jo Teeter, 1984, The Fundations of Newtons’s Alchemy or, The Hunting of the Greene Lyon. 1 ed. Cambridge, Cambridge University.
GEFTER, Amanda, 2007, “Is the universe a fractal?” in: http://magickriver.blogspot.com/2007/10/is-universe-fractal-by-amanda-gefter.html
GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.
IVERSEN, Eric, “A Tradição Canônica” in: HARRIS, J. R., O Legado do Egito, 1 ed. Rio de Janeiro, Imago, 1993.
JUNG, Carl Gustav, 1991, Psicologia e Alquimia. 1 ed. Petrópolis, Vozes.
KEYNES, John Maynard, “Newton, o homem” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
KOIRÉ, Alexandre, 1979, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. 1 ed. Rio de janeiro, Forense-universitária.
_______________ “O significado da síntese newtoniana” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
PATAI, Raphael, 2009, Os Alquimistas Judeus. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.
PAULI, Wolfgang e JUNG, C G, 2001, Atom and archetype – The Pauli/Jung Letters 1932-1958. 1 ed, Princeton, Princeton University Press.
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, 1984, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB.
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WESTCOTT, William Wynn (org), 2003, Coletânea Hermética. 1 ed. São Paulo, Madras.
YATES, Frances A. 1964, Giordano Bruno e a tradição hermética. 1 ed. São Paulo, Cultrix.


4 comentários:

Vinícius Vardiero disse...

Muito bom texto. Assim, os cientistas vão pro inferno por 2 motivos: por desafiarem os princípios cristãos e por serem seguidores oclutos do hermetismo. Corram que o Papa vem aí!
Rsrsrsrs!
Parabéns, Nelson Job.

Carol G. disse...

Estou me sentindo no grupo!
Uma revisão de todos os encontros(?)
Muito bom!!
Quanta consistência! Tanta que preciso dar um jeito de estar presente!

beijos

Nelson Job disse...

Obrigado, Carol! Esse texto foi publicado nos anais do 3o congresso de História da Ciência na UFRJ. Tamo te esperando no grupo de estudos, HEIN!!!??? Bj

Anônimo disse...

bom comeco