CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tripaterapia

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Do maucaratismo à visceralidade
Nelson Job

“Todos estão loucos, neste mundo?
Porque a cabeça da gente é uma só,
e as coisas que há e que estão para haver
são demais de muitas,
muito maiores diferentes,
e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.
Todos os sucedidos acontecendo,
o sentir forte da gente – o que produz os ventos.
Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio, se a gente tem amor (...)
O demônio na rua...
Viver é perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.
Guimarães Rosa


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Não desejo a normalidade nem pro meu pior inimigo. Coisa chata. Vocês podem não me acreditar, mas todo dia essa coisa me aflige. Dá muito trabalho sair dela. Eu saio de casa e abro a porta. Toda vez que me deparo com a porta, a única coisa que penso em fazer é abrií-la e fechá-la. Não me lembro de quando fiz uma reverência para a porta em prol de sua pertinência cósmica. Pra que eu fale sozinho, tenho que forjar uma enorme solidão: tenho que imaginar que não estou ligado ao firmamento, ao solo, ao ar, aos quadros, livros e músicas... aí, não falo com nenhuma pessoa (o dito ser humano). Depois de um certo tempo, com muito esforço, começo a falar sozinho, eu e meus 3332 demônios interiores. Atiçá-los todos ao mesmo tempo é ainda tarefa muito mais árdua.

Também não acredito em desconexão com a realidade, ou seja, inexiste para mim, uma “loucura” que seja passível de ser considerada “errada”. Vejamos: a realidade, seja explicada por Philip K. Dick, ou pela física quântica e sua derivação mais "subjetiva", a consciência quântica, se desdobra em níveis. O que chamamos normalmente por realidade é apenas uma faixa que foi convencionalizada por uma cúpula de poder (de generais, industriais e outros pseudopedagogos) histórica que muda de mãos, estilo, ênfase e (não)localidade ao longo do tempo. Houve um preço histórico a se pagar pelo agenciamento ocidental Parmênides-Aristóteles-Descartes-Kant ao se separar espistemologicamente natureza e cultura. A partir daí, desse processo que culminou em uma atomização do sujeito, a realidade ficou bem curtinha, apesar de todos os quebra-galhos, como a realidade “virtual”. As brechas mais louváveis foram feitas pela arte de um lado e uma filosofia “perdedora” por outro: Heráclito, Spinoza, Leibniz, Bergson... Na virada do século XIX pro XX, os inconscientes freudiano e junguiano, a já citada física quântica e sua matéria em devir coexistente, acrescentaram mais brechas nessa estreita realidade.

A loucura - enquanto desconexão com a realidade - não existe. Existem atratores que lidam com vetores singulares, vetores que alcançam faixas de realidades mais amplas, assim como um cachorro alcança limites auditivos e olfativos mais amplos. Da forma como uma medicina ocular dita a faixa de curvatura da córnea ideal para “ver” direito (os óculos são os adaptadores universais para todos enxergarem de forma idêntica: ditadura ocular), a psiquiatria e a psicologia ditam uma "correta" cosmovisão, e os que não a possuem – ou alcançam uma faixa ampla e tem dificuldade para se adaptar a restrição da espectro de faixa de realidade – tem que usar o óculos sináptico (antipsicóticos) e psicóculos: a maioria das terapias que ditam uma realidade teórica (Édipos, arquétipos, couraças e outros fantasmas) e adaptam seus pacientes. O terapeuta costuma ser um especialista em clonagem: “torne-se, ó paciente, a minha imagem e semelhança neurótica”. E pague pelo direito ao festival de lamúrias semanais e evitação de processos micro-revolucionários, que deixariam o terapeuta sem dormir (!)

Claro que óculos para míopes configuram uma certa - digamos - "necessidade". Não para enxergarem “direito”, mas para enxergarem um mundo construído para aquela curvatura da córnea convencionalizada. Não um instrumento de cura, mas de adaptação e uma adaptação que possa ser opção. Temos toda a história da pintura pra desconstruir as formas de olhar e gerar miopias e astigmatismos-arte das formas, que multiplicam o direito a vários olhares.

Existe também o problema industrial: se não houver l(o)uc(r)os, o que fazer com os remédios, psiquiatras e psicólogos? Todas essas ferramentas são importantes, se utilizadas menos como adaptação contextual, ou melhor, alívio de sofrimento, e mais como lenta forja de uma vida livre, nunca "correção" definitiva. Além disso, várias aposentadorias são pagas a pais ainda jovens para poderem "cuidar" de seus filhos "doentes". A "loucura" dá dinheiro - pra todos os lados.

Mas existe um problema pouquíssimo falado: o maucaratismo do suposto louco. Se não existe loucura (enquanto desconexão com a realidade), existem diversos mau caráter que se fazem de louco para não trabalhar, não ir a escola e não correrem risco sequer que a vida oferece. A maior de todas as loucuras é se fazer de louco. Claro que se um mau caráter é internado em sua juventude, dopado, sofre internações e choques elétricos, ele tem muitas chances se tornar muito limitado. Minha questão é: será que os mecanismos “terapêuticos” estão habilitados para fazer o mau caráter operar em uma sociedade? Para cada candidato a louco, tem um pai candidato a ausente e uma mãe candidata a compor uma simbiose com o filho. Essa estatística turva (admito!) se inverte pra falar de drogados (estes já querem alargar a faixa de realidade por meios radicais: deveriam tentar mais a meditação, a arte etc).

Claro que “viver é perigoso”. Mas, fingir loucura para supostamente afugentar o perigo, é uma tarefa das mais prejudiciais para o atrator em questão e seus atratores agenciados (família, vizinhos: socius). As dificuldades de relação, que aparecem fractalmente em pais, irmãos, amigos etc, devem ser trabalhadas por esses serviços “terapêuticos”, não enfiarem o atrator em uma categoria taxonômica politicamente correta (troco toda a obra de Aristóteles por um novo fragmento de Heráclito!) de “usuário”. Então, aparecem todos os monstros já conhecidos: as seitas foucaultianas, nisedasilverianas, a deleuziália etc. Nada contra esses autores (acho que deveria se ler mais Norbert Elias do que Foucault e saber que a Dr. Nise, com toda a sua vanguarda e merecido reconhecimento da “emoção de lidar”, hoje deveria ser acrescida das “novidades”, como o Acompanhamento Terapêutico), mas ainda bem que teremos sempre Marshall Sahlins para nos lembrar que os foucaultianos reclamam de Mcdonald's na China, mas não de restaurantes chineses no Ocidente... Essas seitas, muitas bancadas pelo Estado, travestidas de terapias, humanizam os loucos, sendo que a grande questão seria abandonar a categoria de humano como “central pra um socius”. A esquizofrenia, o autismo, a drogadição clamam pelos devires cósmicos, devir-pedra, devir-planta ou seja, toda uma poesia de Manoel de Barros - bem registrada em documentário (desbiografia) recente. As seitas terapêuticas deveriam promover menos a loucura enquanto “errada, doente, mas digna de respeito”, e mais, se tornando livres-pensadores, a ampliação das faixas de realidade. Mais uma vez, o problema não são os autores originais, mas seus "devotos"...

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A seita deleuziália também é muito curiosa. Longe de ser formada apenas por terapeutas, mas também por filósofos, “artistas” etc, eles, que promovem o autor que, justamente, critica a identidade, que promovem a multiplicidade (desde que todas passem por Deleuze!...) pregam erroneamente o fim do sujeito. Até onde eu sei, Deleuze não prega o budismo (existe uma profícua relação entre o conceito de devir enquanto contra-natureza e a impermanência: não vou aqui analisar as várias escolas budistas, fiquemos, não sem pagar um preço, com o sentido geral) quero dizer, acredito que o budismo e suas práticas sejam ótimos intercessores, mas existe uma diferença: para Deleuze, é importante a coexistência do um e do múltiplo, ou seja, o sujeito coexiste (a posteriori, em devir, devidamente agenciado) com a imanência. A deleuziália quer promover a esquizoanálise como apologia da loucura, como se a esquizofrenia fosse um estágio ideal do inconsciente. Quando Deleuze e Guattari promovem a esquizoanálise como um modelo de inconsciente esquizofrênico, era só uma provocação, no sentido que qualquer alternativa ao modelo neurótico da psicanálise servia, mas depois de uma crítica de Lyotard, eles abandonaram o “modelo” – pois nada tem de devir - mesmo sendo o modelo de uma “usina”, para atravessarem tudo com o rizoma e ir alcançando uma maior maturidade filosófico-clínica. A deleuziália usa a “Ética” de Spinoza para cometerem abusos a uma suposta moral psicanalítica. Entre seus “avanços éticos”, alguns promovem sutilmente o sexo com clientes como atividade terapêutica. Nada mais sórdido: apontem uma pessoa totalmente bem resolvida sexualmente ao ponto de usar tal ato terapeuticamente... A “Ética” é um texto grandioso e complexo tornado brega na mão da deleuziália (e não na mão de Deleuze, que muito respeitava o filósofo polidor de lentes). Também faz com que o mesmo “terapeuta” ou “esquizoanalista” faça a terapia do atrator em questão, mas também do marido/esposa, filhos e outros parentes. O espinosismo degenerado em perversão. A vingança dos perversos: declaram amor a Spinoza e promovem a sua deturpação. Pergunto: quem se declara “esquizoanalista” entendeu bem a jogada? Não era pra transformar a esquizoanálise em mais uma igreja, e sim, usá-la como apenas mais um trampolim para criar E criar E criar... Mas o amor a Spinoza é apenas charme. O verdadeiro amor é a Nietzsche, esse sim, amado incondicionalmente. Existe uma logorréia nietzscheniana no pensamento nacional. Não que ele não tenha o seu valor, (principalmente ao convocar a união do selvagem com o civilizado) mas a deleuziália insiste em desconhecer o aspecto do radicalismo aristocrático nele, denunciado, entre outros, por Domenico Losurdo. O que torna o Deleuze da deleuziália, perneta: se já não há quase nenhum diálogo com a ciência: biologia, física – teoria do Caos, tão presente no obra do filósofo e tão bela, criativa, necessária, a predominância de Bergson e Spinoza na obra mais consistente de Deleuze é substituída por uma ubiqüidade de um Nietzsche imparcial, raso e cegamente aristocrático, afinal, pra deleuziália, se você não lê Deleuze, você não é legal...

Não desejo a normalidade a ninguém. Tampouco uma "loucura". Menos ainda uma “terapia” oriunda de alguma seita. Quero promover aqui e em outras oportunidades a ampliação do real. Para isso, o amor aos autores é ultrapassado pelo amor a experimentar e ousar, se for com perversão, que seja com uma perversão ética: toda terapia consistentemente ética é uma tripaterapia: importa menos o autor, mas se a clínica é exercida menos com conceitos e com mais afeto e vísceras.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Relação (verbete)


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Conceito desenvolvido de forma consistente na filosofia por Whitehead. Desenvolvendo-o a partir da matemática, Whitehead vai conceber a relação como eliminando os termos e os próprios termos são concebidos como relações de relações, indefinadamente, não chegando a uma instância pura definitiva. Em Simondon, desenvolve-se na idéia de individuação biológica que precede o indivíduo. A relação, então, é pensada como anterior ao sujeito e objeto, invertendo concepções tradicionais da história do pensamento.


Textos neste blog onde surge este conceito:


Amarnifesto


Devires – pensar o impensável entre a filosofia e a diferença

Ressonância (verbete)

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Conceito que aparece de relance em vários filósofos e encontra uma maior sistematização em Gilbert Simondon, sendo desenvolvido por Deleuze. A ressonância é uma relação não-local, uma ação à distância, em que dois ou mais processos de diferenciação entrão em relação para além das dimensões espaço-temporais. Na física quântica vai aparecer como emaranhamento quântico.


Textos deste blog onde esse conceito surge:


Devires – pensar o impensável entre a filosofia e a diferença


Ontologia Onírica: hermetismo, diferença e ciência em Philip K. Dick


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Era do Conjugalismo


-->Devir-feminino de Amy Winehouse ao "Anticristo"

Nelson Job

Ela jamais teve certeza se as vozes eram reais,
mas finalmente se convenceu de que tinham sido parte
de uma daquelas situações em que
o real é apenas um conceito a mais.
"Count Zero"

Você tem procurado por toda a matrix,
mas eu tenho olhado para a matrix, a coisa toda.(...)
Continuidade é Continuidade.
Continuidade é o trabalho de Continuidade...
"Mona Lisa Overdrive"
William Gibson



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Feminar. Um verbo chave para os dias de hoje. Não que seja livre de perigos. Estar livre de perigos é algo que já desistimos há muito tempo. De um lado, a terra enquanto Gaia clama por uma co-habitação mais feminina, no sentido da mãe prover os filhos – seus habitantes – se estes a retroalimentam, e não a vampirizem. De outro lado, a com-fusão feminino-mulher. É bem verdade que os agenciamentos vitais, morfogenéticos, biológicos, favorecerem a mulher de ser “feminina”, mas esta suposta facilidade não deve funcionar como garantia.

O maior problema são relações ditas “afetivas” ou “conjugais”, que se tornaram práticas homossexuais masculinas em sua maioria. Não é uma crítica ao “homossexualismo” no sentido genital, e sim, em seu sentido que despreza a alteridade. Com carícias e cópulas que reproduzem as cenas pornográficas, a cópula vem se restringindo a pequenos agenciamentos pênis-vagina, pênia-ânus, pênis-boca. Não mais corpos interagem em um devir-conjugação, mas objetos parciais se intercambiam, quase sem afeto. O orgasmo é efêmero e condicionado ao Eu. Isso quer dizer, retirado do orgasmo toda a sua grandeza taoísta de celebrar o sexo como junção do céu com a terra e se ir muito além do Eu.

Vejamos então, as máscaras do feminino na mulher: Angelina Jolie ressoa bem o estilo desse homossexualismo: mulher que bate-mata-friamente. Mulher que se torna homem para sobreviver em um mundo masculino. Estratégia de combate que torna o solo de Gaia cada vez mais estéril, povoado do mesmo.

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Se uma Isabelle Adjani ou Monica Bellucci remete a um devir-Perséfone, mulher sombria, cujo sofrimento é guardado a sete chaves, gerando uma postura defensiva em relação ao mundo, porém profunda; temos o devir-Hera, a dona de casa amorosa, que cria os filhos e quase torna o marido um deles, digamos, uma Margie Simpson, se tem alguma moral, ou uma Lois Griffin (!), já quase sem moral. De devir-Afrodites, temos aos montes, porém muito poucas que elevam a sedução e a sacralidade do sexo... Mas precisamos de uma outra coisa, todos esses aspectos do feminino são importantes, mas para forjar um amálgama de um novo feminino quintessencial, pois, se usamos os gregos para nos basear, é só para abandoná-los: qual é a figura de feminino que precisamos hoje, visto que os moldes gregos encerram uma Velha Era?



Recentemente, falou-se muito que a ciência decretou que o ponto G não existe. Concordamos com o interessante artigo de Arnaldo Bloch afirmando que o ponto G é coexistentemente quântico. Curioso: a ciência pré-quântica realmente precisa "conter" o devir pra existir: estabeler a repetição de "fenômenos científicos" empiricamente provados. Como o ponto G é móvel, a ciência não consegue achá-lo e cria a ilusão de que ele não existe. Nos apressemos a declarar: devir-feminino torna-se então um pleonasmo! É da ordem do feminino essa porosidade, essa não-localidade!

Existem algumas pistas para se apurar o feminar: o filme-acontecimento “Anticristo”, de Lars Von Trier, nos força a ver com violência, que o masculino racional, travestido de psicólogo comportamental, já deu o que tinha que dar. Por um lado, a queda de Bush mostra que esse patriarcalismo de 6.000, 8.000 anos, está em curva descendente. Um feminino, o que realmente interessa: o do êxtase, foi boicotado pela Inquisição na Idade Média (tema de tese da personagem, cujo temo é considerado “superficial” pelo comportamentalista) e pelo racionalismo, no Iluminismo, em seguida. Este feminino - seja pelos tremores, tsunamis, inundações, furacões etc incessantes de Gaia, seja pelo clamor insandecido de feminino da personagem do filme (que entra em depressão depois da morte do filho e enlouquece de medo da solidão com o marido no bosque) – insiste em ressurgir. Outro problema: re-surgimento. (acerca do filme "Melancholia" de Lars Von Trier, ver "O Fim de tudo o que conhecemos... e `um plus a mais'")

Há um esquema para o retorno do matriarcalismo. A própria Hipótese Gaia de Lovelock, traz a idéia do planeta ser feminino. Também o crescimento do paganismo: formas de religiosidade do matriarcalismo. Não há nada em se ganhar, seja wiccas ou xamãs, com o retorno, “sagrado” ou não, do feminino matriarcal. Isso apenas seria uma tola etapa em um jogo dual de pseudo-vencedores. “Agora, nos próximos 6.000 anos, quem ‘manda’ é a mulher, heim?!?”. Nada disso. A questão não é quem manda, mas como relacionar sem utilizar o poder.


Um "sintoma" midiático é a interessante e carismática ascenção dos vampiros no cinema, TV e literatura recentemente. Esses personagens "demoníacos-pagãos" se tornaram "éticos" e não sugam sangue humano (ao menos, os bonzinhos) e não morrem em contato com o sol (o "Iluminismo", enquanto pensamento solar, nunca bastou para evitar as trevas). Claro que há uma beleza romântica, ainda que imatura, de, por amor, se dispor a mudar de natureza, o problema que essa "nova natureza" é o vampirismo. As adolescentes apaixonadas por eles sofrem pelo dilema mortal-imortal, chegando até ao pedido de se tornar vampira, enquanto que o amado em questão não quer passar a maldição para a amada: passagem milenar de poder patriarcal para o matriarcal - inevitavelmente acaba em co-vampirismo... A morte apenas é o momento quando um determinado coletivo deixa de acompanhar um processo. O vampiro é aquele que se apega, que tenta replicar infinitamente o pré-momento da morte. Tentativa mórbida de domesticação do devir: o impedimento invitavelmente vampiresco do fato que o devir remete o vivente para o inominável , o incontrolóvel. Agora o bastão desse mórbido controle está sendo passado do vampiro para a vampirizada em pré-vampirização. É preciso um neo-paganismo, um tecnopaganismo que leve em conta os tecno-devires! Como a "Trilogia Sprawl" de William Gibson: cyberespíritos na matrix..


Amy Winehouse também fornece pistas: mulher-fractal do mundo. Quando esteve em profunda crise com álcool e drogas, foi internada. Assim como o mundo entrou em crise, aparentemente “econômica”. Passadas as crises, Gaia e Winehouse tentam se levantar com criatividade. Se a economia se repensa – com muita dificuldade, pois está viciada em modelos, principalmente no duplamente falido homo economicus – Amy se aventura pelo jazz, experimental por natureza, menos pelo soul, que influenciou o álbum anterior. (Acerca da morte de Amy Winehouse, ver: "O Fim de tudo o que conhecemos... e `um plus a mais'")



Tanto Amy quanto a personagem de “Anticristo” nos dão pistas que para ser mulher, enquanto feminina, se sofre. E muito. Os sucessivos solavancos de Gaia e Winehouse mostram que a crise do feminino é geológica, econômica, social, artística. Um atrator estranho feminino se projeta, como Gaia que causa destruição, ou como uma mulher na música ou no cinema que desespera em função do afeto. Se a Inquisição tentou controlar o êxtase místico das feiticeiras, não há quem segure o êxtase de Gaia. Mas, se o retorno do feminino não é a solução, qual é?

Precisamos devir-Gaia. Não ser seu filho, mas ser a Terra, como de forma simplificadora, o filme “Avatar” de Cameron mostra. Curioso fenômeno: avatar blues. A depressão que se segue por não habitarmos o planeta Pandora, cujos habitantes tem uma relação intensiva, uma co-habitação sentida pelos humanóides, animais, plantas etc. Mas a questão é que nós habitamos Pandora: a Terra mostra cada vez mais detalhes de sua auto-organização: seja pelas chuvas em florestas incendiadas, seja por aparecimento de plantas em um local cuja doença é curada por estas plantas. Toda a questão agora é: como fazer para nos sentirmos enquanto Gaia, como tornamos o Eu em segundo plano e as relações cósmicas em primeiro?

Se isso implica em um devir-feminino, não implica em um retorno ao matriarcalismo, mas em uma era de conjugalismo, sem preponderância de masculino ou feminino. É bem verdade que o patriarcalismo sugiu junto com o advento do manejamento do ferro. A produção de armas gerou a escravização e a produção em vários níveis de hierarquias do mais forte sobre o mais fraco. Mas foi o matriarcal que gerou o desejo do patriarcal: colocando em termos simples:
Homem: - Eu quero ir para a Lua.
Mulher: - Não, descubra a sua lua interior!
Então, o Homem gerou ciência, poder etc e foi à Lua. Tanto a ciência, como o paganismo animista místico da matriarcalismo são importantes e não-excludentes. É preciso levar ambos em conta, pois os dois isolados geram, no caso do misticismo, dogma, repetição e no caso da ciência, poder exarcebado, poluição, em suma, desconexão da humanidade com o cosmo: supremacia do Eu. Descobrir a lua interior e conhecer a Lua em si são ambas tarefas dignas, que ressoam profundamente, fazendo uma relação fractal de micro e macro: interação ciência e misticismo.

O catolicismo e sua prática mais perversa, o jesuitismo (disseminar o cristianismo eliminando as práticas sociais da sociedade dominada) reverbera bem a questão: Cristo, que vive em função da mãe em nome de um pai que ele não conhece. Seu pai mortal também tem que suportar o fato de não tê-lo inseminado. Além disso, Cristo não vai poder ter esposa, apenas elevar a mãe na hora da morte. Esse masculino assustado pelo matriarcalismo (uma certa Maria-mãe) enraivecido pela perda do poder gera o homem que se esconde no laboratório para “manipuilar” a Natureza. Projeto que hoje, mais uma vez, aos solavancos, se mostra parcialmente infeliz. Parcialmente porque a ciência trouxe belezas também, ao seu modo: belezas quânticas, fractais, astronômicas... E, assim como, se existem traumas cristãos (sexuais, transcendentes) existem potências crísticas (tolerância, amor).

O conjugalismo é entre ciência e misticismo, natureza e cultura, sujeito e objeto e masculino e feminino. como no Tai-chi, complementariedade yin-yang. É ir além das dualidades é abdicar do poder. O controle absoluto que se exerce no pensamento é a separação de natureza e cultura! Está na literatura (separação leitor-livro) e nas artes em geral e nas relações que acreditam que o outro não pode ser intensamente acessado, a não ser por indícios: tristeza propriamente kantiana. Acreditamos ainda, infelizmente, estarmos separados do cosmos, acreditamos no atomismo do Eu. É preciso lembrar das potências já alcançadas de grandes precursores na arte, cujas obras tranformaram profundamente seu porvir: o barroco juntando quadro e contemplador, Kafka, livro e leitor e Hitchcock "incluindo" o espectador no filme, prefigurando inúmeras rosas púrpuras do Cairo. Se concebermos a junção de natureza e cultura, e por consequência, a abdicação de todas as dualidades, inclusive a de tempo e espaço, estaremos mais próximos de uma era de conjugalismo.

http://c2.api.ning.com/files/aGL8DXVjIyzdtzq2DP03KlHfQeNnNzvCb**CdOH2mMNcNk0pGGHOcY-Ceb4FyzuLc6h8FOcSWtjtM*LyTonYX*mD72*jx*CZ/Tao_YinYangEarth2.jpg

Para um desdobramento deste texto, ver:

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Glossário de conceitos

Nelson Job



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Para ter imagens e links de textos deste blog que utilizam os conceitos, clique em cada um deles.


Animismo
Termo usado para designar crenças pagãs, como o hermetismo, que concebe toda a existência como viva. Alguns pensadores clássicos do ocidente são animistas como Spinoza e Leibniz. O animismo é um conceito escamoteado na história do pensamento, mas muito presente. Em termos atuais, diríamos: não existe nenhuma conceituação consistente para afirmar com precisão onde “começa” e “termina” a vida.


O termo oriundo da Teoria do Caos a partir da análise de turbulência de fluidos. O atrator estranho se dá no gráfico como padrão não-linear, fractal, cuja relação de vários vetores aparentemente aleatórios resultam nesse padrão não-linear, cujo exemplo mais conhecido de atrator estranho é o efeito borboleta. Na filosofia de Deleuze e Guattari, foi precedido pelo conceito de máquina abstrata. Ex: nuvem de pássaros.


Termo de Bergson para falar do uso do sensório-motor no presente que passa, após um processo intensivo de atualização do virtual. Designa ação, uma densificação e uma perda de velocidade.

Termo oriundo da física quântica. Os experimentos em laboratórios não identificam porque o pacote de onda se torna apenas uma partícula. Se convencionou dizer que o observador é que realiza o “colapso”. Essa convenção gera muitos disparates, inclusive a afirmação que o “colapso de onda é científico”. Não. É apenas uma hipótese. Outras hipóteses para a passagem da onda à partícula são a Teoria dos Muitos Mundos, onde cada partícula vai para um mundo diferente, e posteriormente cogitou-se até universos paralelos. Outra teoria é a da decoerência, que implica, entre outros fenômenos, que troca de fótons com o meio torne a onda, partícula. Uma última hipótese seria a da gravitação quântica. Nesse caso, se postula uma gravidade – que, normalmente, não é concebida no nível quântico da matéria – que realizaria o colapso. Tanto a decoerência, quanto a gravidade quântica não necessitariam do observador para se dar. O físico e filósofo da ciência Mario Bunge propõe cunhar um termo único, o “quantom” que teria características não-dualistas tanto da onda, como da partícula.

A característica do ente pensar sobre si mesmo: “quem sou eu?”, “o que eu estou sentindo?” etc. O animismo propõe que tudo no cosmos tenha consciência, mas em gradações diferentes, sendo a consciência humana muito complexa. Vários pensadores ao longo da história do pensamento já se debruçaram sobre a questão, adquirindo importância com Descartes, Spinoza, Leibniz. Roger Penrose e Stuart Hameroff têm um modelo de consciência baseado na física quântica.


Termo oriundo do draturgo Antonin Artaud que foi utilizado por Deleuze em sua filosofia, sendo que o conceito foi se positivando ao longo de sua obra. O Corpo sem Órgãos (CsO) seria um tipo de corpo sem organismo, sem a organização tradicional de uma medicina, de saber totalizante sobre o corpo, uma forma de adquirir velocidade, mesmo parado, de virtualizar, mas evitando a morte. A união de todos os corpos sem órgãos seria a imanência.

O cyberpunk desdobra-se em várias facetas: literatura, cinema, música etc. Podemos identificar como precursor a obra do escritor de ficção-científica Philip K. Dick, que criou em seus livros uma atmosfera sombria, futurista e sobretudo que questionava a realidade. Influenciou o livro "Neuromancer" de William Gibson, que é um marco do cyberpunk, com seus conceitos de cyberespaço, matrix, roupas de couro e óculos escuros, drogas baseadas em estimulantes e clima futurístico-noir. Nos quadrinhos, a grande referência é o mangá "Ghost in the shell" de Masamune Shirow, que discute o surgimento de uma Inteligência Artificial autônoma no cyberespaço, à luz de filosofias zen, entre outras. No cinema, o filme "Blade Runner" de Ridley Scott, baseado em livro de Philip Dick, dita a estética do gênero no cinema. O grande impulso midiático do cyberpunk foi o filme "Matrix" dos irmãos Wachowski, que, influenciado por tudo o que citamos anteriormente, faz uma síntese do conceito.

Termo conhecido e mau digerido. Deve-se seu prenúncio a Heráclito e foi se sofisticando ao longo de toda a história do pensamento ocidental, mas existem relações profundas com o pensamento oriental como a transformação no Taoísmo e, principalmente, a impermanência no budismo. O devir é inconstante, ao contrário do que se costuma dizer. Não existe suporte para o devir porque tudo muda, inclusive a mudança. Não se conhece o devir, porque em seu ato de mudar, já se perdeu qualquer apreensão. O devir é da ordem do inominável, do inapreensível, é uma diferença que se diferencia. É uma contra-natureza.

Leibniz, pensando a diferença, chamava a atenção para o fato que a individualidade envolve o infinito. Segundo Gregory Bateson, a informação é a diferença que gera diferença. Para Deleuze, é preciso não subordinar a diferença a negação, analogia, semelhança, identidade ou oposição, mas dar a diferença um estatuto de afirmação, de diferença pura: não uma questão de dado, mas de como o dado é dado (como diverso).

Einstein criticou certos conceitos da física quântica afirmando que esta previa acontecimentos simultâneos (EPR) que contradiziam um de seus postulados da Relatividade: não existe nada mais rápido que a velocidade da luz. Niels Bohr respondeu que sim, o emaranhamento era uma possibilidade que a física quântica previa. A querela foi parcialmente resolvida com John Bell que deu elementos experimentais para a comprovação do emaranhamento comprovados, entre outros, por Alan Aspect. O emaranhamento quântico constitui uma relação de simultaneidade entre duas partículas separadas em qualquer distância no universo. As comprovações já chegam a quinze quilômetros.

Conceito complexo, que tem bifurcações científicas, filosóficas e místicas. A energia, segundo Einstein, é a matéria em maior velocidade. Para Manuel Delanda, a energia faz parte de um agenciamento que envolve energia-matéria-informação. A energia é a instância que compõe tudo o que existe, em graus diferentes de densidade. Quanto mais denso, menos rápido e vice-versa.

Epistemontologia
Imanência entre epistemologia (estudo do conhecimento) e ontologia. Não se concebe aqui uma separação entre os estudos do ser (que na espistemontologia é devir) e do conhecimento. À luz de um transaber, como é a Ontologia Oníricadevir é adquirir sabedoria, ou seja, conhecimento aplicado à vida.

Epistemontonauta
(Sonhador ontológico) Vortex, atrator, "pessoa", "ente", agenciamento, auto organização de vetores que suscita seu(s) vortex(es) através do apreensão (estudo + vivência) da Vortexologia.

Conceito diferenciado da moral, que é um conjunto de regras a priori de certo e errado. A ética vai adquiri seu esplendor conceitual com Spinoza, que vai concebê-la como um processo, onde há que se engendrar, bons encontros, aumento de potência, alegria. A ética em uma imanência, deve ser o melhor neste todo, não só uma ética para indivíduos.

Conceito oriunda da teoria do Caos. Mandelbrot identificou padrões em ruídos de telefones e a aplicação dessas equações geraram no gráfico belas imagens, onde existem semelhanças entre a pequenas partes constituintes e o todo. Os fractais estão na natureza, como na folha de samambaias e encostas de praias. Deleuze os articula com as mônadas e a teoria hipotética de unificação da Triangulação Dinâmica Causal prevê uma relação da física quântica gravitacional com os fractais.

Pensamento místico com origens historicamente indefinidas. O hermetismo pode ter tido suas bases no Antigo Egito com as crenças em torno do deus Thoth, tendo aparecido enquanto "hermetismo" no período helenístico. O primeiro texto comprovadamente hermético foi as “Enéadas” de Plotino. O hermetismo teve seu período de maior popularidade na Idade Média. A alcunha "hermetismo" se deu em relação a figura de Hermes Trismegisto. Não existem dados históricos suficientes para se afirmar onde e quando ele viveu, se é que ele existiu e se os textos atribuídos a Hermes foi ele mesmo que escreveu. Contudo, acredita-se que o Hermes viveu no Antigo Egito. O hermetismo se organiza modernamente a partir de sete princípios (ressonâncias filosóficas após cada definição entre parenteses): Mentalismo (tudo é mente) imanência, Correspondência (o que está em cima é como o que está embaixo) mônada, Vibração (tudo vibra), Polaridade (tudo é duplo) ressonância, Ritmo (tudo tem fluxo e refluxo) máquina abstrata, Causa e Efeito (todas as causas anteriores contribuem para um efeito, e tudo de acordo com a Lei) e Gênero (conjugalidade dos princípios masculino e feminino). Do hermetismo foi gerada a alquimia (que gerou a química) e a astrologia (que gerou a astronomia). Dentre estudiosos célebres do hermetismo estão Agrippa, Paracelso, Giordano Bruno, Isaac Newton e Leibniz.

O que se define por si. Conceito tornado conhecido com Spinoza, mas com precedentes nos estóicos, por exemplo, e diz de uma equivalência entre Deus, substância e mente. Na imanência, é eliminado o transcedental.

Em Deleuze, é a passagem entre atual e virtual, sendo que o caminho da atual para o atual é diferente do virtual para o atual. A mônada é um exemplo de intensivo.

Conceito de Deleuze e Guattari tido por Manuel Delanda como precursor do conceito de atrator estranho da Teoria da Caos. A máquina abstrata é virtual e tem uma pré-organização atemporal, relacional e não-linear. A partir dela se identificam processos de auto-organizações em vários planos como ao agenciamentos lava-seixos-geologia, genes-espécie, dialetos-língua; todos com comportamentos aparentemente aleatória que se auto-organizam.

Conceito originado nos pitagóricos, emergindo da relação entre cosmogonia e geometria. Foi desenvolvido por inúmeros filósofos, como os neoplatônicos; no hermetismo e sistematizado no séc. XVII por Leibniz. A mônada (de “Mono”: um) é um espelho vivo e perpétuo do universo, indivisível. O que acontece com uma mônada, o universo inteiro se ressente. Gera o perspectivismo, onde cada ato de olhar gera um mundo. Gabriel Tarde, ao final do séc. XIX, vai desenvolver o conceito afirmando que as mônadas são abertas e formam sociedades. Deleuze, na segunda metade do séc. XX, vai articular as mônadas com os fractais da Teoria do Caos, somando os conceitos de Leibniz e Tarde: as mônadas teriam dois andares, como uma casa barroca – o de cima fechado e o de baixo aberto. O conceito vai ser importante também para a filosofia orgânica de Whitehead. O médico Stuart Hameroff vai se utilizar do conceito de mônada ao equivaler com a ocasião atual de Whitehead e redução objetiva: versão do colapso de onda da física quântica que Roger Penrose desenvolve em seus livros sobre consciência quântica, a partir da gravidade quântica.

Estudo do ser enquanto ser. Manuel Delanda propõe o termo “ontologia plana” para designar uma junção da ontologia com a epistemologia (teoria do conhecimento), que seria uma ontologia da imanência, que não separa natureza e cultura.

Ontologia Onírica é um transaber em que são tecidas imanentemente a epistemologia e a ontologia pondo em ressonância a magia, a filosofia, a ciência; sobretudo o Hermetismo, a Filosofia da Diferença, a Física Moderna, principalmente a Mecânica Quântica, a Teoria dos Caos e a cosmologia e a arte. A partir da Ontologia Onírica, o sonho ganha um estatuto de realidade, saindo de um paradigma representacional e o devir selvagem pode criar uma transcendência a posteriori, ou seja, pode-se criar algo  que não sabemos nada: sequer essa transcendência é discreta ou contínua.

Originado em Leibniz, com o seu conceito de mônada, o perspectivismo alcança vários desdobramentos com Nietzsche, Gabriel Tarde e Deleuze. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro vai aplicar o perspectivismo em seus trabalhos etnográficos afirmando que os índios da Amazônia tem o perspectivismo como hábito. Em teoria, cada olhar gera um mundo, e o sujeito é uma sucessão de perspectivas, um processo de alteridade que envilve uma conexão direta com o mundo, ou mundos, que se sobrepõe a cada ato de olhar. O nosso mundo convencionalizado se dá entre perspectivas.

Conceito desenvolvido de forma consistente na filosofia por Whitehead. Desenvolvendo-o a partir da matemática, Whitehead vai conceber a relação como eliminando os termos e os próprios termos são concebidos como relações de relações, indefinadamente, não chegando a uma instãncia pura definitiva. Em Simondon, desenvolve-se na idéia de individuação biológica que precede o indivíduo. A relação, então, é pensada como anterior ao sujeito e objeto, invertendo concepções tradicionais da história do pensamento.

Conceito que aparece de relance em vários filósofos e encontra uma maior sistematização em Gilbert Simondon, sendo desenvolvido por Deleuze. A ressonância é uma relação não-local, uma ação à distância, em que dois ou mais processos de diferenciação entrão em relação para além das dimensões espaço-temporais. Na física quântica vai aparecer como emaranhamento quântico.

Conceito oriundo da botânica: sistema de radículas que se atravessam, não sabendo de qual árvore se originou. Deleuze e Guattari o trabalharam em sua filosofia, propondo um pensamento papa além da estrutura: a estrutura emerge contextualmente no rizoma. Cada ponto pode se comunicar com qualquer outro e a convegência de rizomas pode gerar um tubérculo, ou seja, mais atualizado, lento densificado. O rizoma tem precedentes em Gregory Bateson e Jung. Ex: sites da Internet que se intercomunicam, rede neuronal, mapas aeroviários etc.

Termo cunhado por Jung a a partir de seus estudos sobre hermetismo, parapsicologia e física quântica. Foi importante para Jung se encorajar a escrever sobre o tema que o assolava há anos, sua amizade com o físico Wolfgang Pauli, ambos adeptos de uma articulação da psicologia com a física quântica. A experiência-chave clínica de Jung foi quando uma paciente resistente sua lhe contou um sonho sobre um escaravelho dourado e ao mesmo tempo aparece na sala um besouro com traços amarelados. A sincronicidade fala de uma coincidência significativa, sem passagem de energia (como no emaranhamento quântico) no tempo e no espaço.

Transcendência a posteriori
A transcendência a posteriori é um conceito do campo conceitual Ontologia Onírica. Ela é uma possibilidade do devir selvagem, sem diques. Um devir que é de fato imprevisível, pode criar inclusive uma transcendência, que emerge de uma imanência. Essa transcendência a posteriori não tem nada em comum com as transcendências e Trancendentais a priori da filosofia ocidental. Não é uma trancendência platônica (mundo das ideias), escolástica (Deus católico), kantiana (imperativos categóricos) nem um não-ser neoplatônico. Acerca da transcendência a posteriori, nada se sabe: se   ela é dualista, discreta (em oposição a um contínuo), se ela está em oposição a uma imanência, apenas sabemos que emerge de uma imanência, não necessariamente nela.

Transaber
O transaber é o saber concebido como imanente à vida. Todo saber é um transaber, no sentido que eleva a sabedoria. Os transaberes abandonam a transdisciplinaridade,  em função de que a transdisciplinaridade está comprometida ainda com a disciplina, epistemologia que quer disciplinar, axiomatizar a ontologia. O transaber é da ordem de uma epistemontologia, como a Ontologia Onírica.


Entendemos por transdisciplinaridade radical a articulação de vários saberes oriundos das mais diversas fontes: filosofia (incluindo o hermetismo e as filosofias orientais como o budismo e o taoísmo), as ciências (inclusive as especulativas, como a teoria das supercordas e a consciência quântica) e as artes (como também as manifestações da arte pop e "de massa"): ou seja, nenhum saber é previamente desconsiderado. Essa articulação produz uma relação entre os saberes gerando um híbrido, que emerge dos vetores de saberes utilizados. A transdisciplinaridade radical é superada pelos transaberes.


Termo de Bergson para falar do processo da memória e da coexistência e multiplicidade do tempo na experiência cotidiana. Vai se atualizar no “presente” (ou o tempo que passa agora) no atual. Podemos dizer que o virtual é a energia tornada menos e menos densa, ao limite da intangibilidade, mas sem se tornar intangível.

Vortexologia
A Vortexologia é um transaber oriundo da Ontologia Onírica, uma conexão de transaberes. O vortex emerge das relações de forças em devires mais selvagens em torno de um atrator, sendo formado por vortexes formando vortexes. O vortex é ubíquo, autossimilar, coexistente, dinâmico, relacional, transespaçotemporal e instável, podendo transcender a posteriori. A Vortexologia consiste nas seguintes instâncias: a arte evidencia o vortex, a ciência modela o vortex, a filosofia explica o vortex, a magia conjura o vortex, a meditação intensifica o vortex, a Ética cultiva o vortex, o amor multiplica o vortex. A Ontologia Onírica vive o vortex, de forma que todas esses saberes sejam imanentes entre si na Vortexologia. O vortex elimina as dualidades nos saberes, ele emerge da imanência entre natureza e cultura. Ex: a "relação entre sujeito e objeto" é um vortex, formado pelo "sujeito" que é vortex, formado por vortexes que forma vortexes e o "objeto" que, por sua vez, é formado por vortexes, compondo vortexes.

Virtual (verbete)

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O cone é o virtual

Termo de Bergson para falar do processo da memória e da coexistência e multiplicidade do tempo na experiência cotidiana. Vai se atualizar no “presente” (ou o tempo que passa agora) no atual. Podemos dizer que o virtual é a energia tornada menos e menos densa, ao limite da intangibilidade, mas sem se tornar intangível.

Textos no Cosmos e Consciência:



Devires – pensar o impensável entre a filosofia e a diferença


Fractais quânticos monádicos


Ontologia Onírica: hermetismo, diferença e ciência em Philip K. Dick


Sincronicidade (verbete)

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Jacek Yerka


Termo cunhado por Jung a a partir de seus estudos sobre hermetismo, parapsicologia e física quântica. Foi importante para Jung se encorajar a escrever sobre o tema que o assolava há anos, sua amizade com o físico Wolfgang Pauli, ambos adeptos de uma articulação da psicologia com a física quântica. A experiência-chave clínica de Jung foi quando uma paciente resistente sua lhe contou um sonho sobre um escaravelho dourado e ao mesmo tempo aparece na sala um besouro com traços amarelados. A sincronicidade fala de uma coincidência significativa, sem passagem de energia (como no emaranhamento quântico) no tempo e no espaço.


Textos no Cosmos e Consciência:


A energia segue o pensamento