CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ser-tão Cósmico

entre ficção e o real para além de "Os Sertões" e "Druam"


Nelson Job


Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira

não tem mais os sentidos que o trouxeram até aqui.

Bernardo Carvalho



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"Retirantes" Portinari



O sertão parece ser o território privilegiado para se pensar um imaginário brasileiro. Vamos averiguar essa potência em um viés transdisciplinar:


A virada para o século XX nos traz “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Muito se escreve/fala sobre a obra e seu autor, mas pouco se avança no mistério da perenidade da obra. Raio X do país? Preconceito racial elegante? “Os Sertões” traz uma discussão ainda rara. Euclides da Cunha abre a obra com o capítulo “A terra”: “Terra ignota”, “uma categoria geográfica que Hegel não citou”. Os sertões já são, geologicamente, uma singularidade para o autor. A função do rio Vaza-Barris como agente geológico é revolucionária, a mutação de deserto para flora tropical é uma apoteose “e o sertão é um paraíso...”


Em seguida, “O Homem”: Euclides da Cunha se espanta com o sertanejo: “toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se.” O autor aqui, parece prefigurar Deleuze e Guattari, colocando o sertanejo como artesão do Corpo sem Órgãos. Então, transborda-se Antônio Conselheiro. A figura do homem que, traído pela esposa, vagou pela Bahia se tornando lentamente, por uma “psicose mística”, um eleito do povo para gerar uma resistência inédita em Canudos, “um anacoreta sombrio” que “cresceu tanto que se projetou na história...”. A singularidade também emerge na carne.


Finalmente, Euclides da Cunha se detém em Canudos, o local e o evento. Canudos é uma resistência mais que política, é uma forma de vida, orgânica. Nas palavras do autor: “A campanha de Canudos despontou da convergência espontânea de todas estas forças desvairadas, perdidas nos sertões”. Agora se prefigura o conceito de máquina abstrata.


A chave para se entender a tamanha provocação de “Os Sertões” é justamente esse conceito, criado por Félix Guattari, processado conjuntamente com Gilles Deleuze e desenvolvido de forma brilhante por Manuel Delanda. Esse percurso conceitual pode ser feito no texto “Devires”, neste blog, e no texto do próprio Delanda também traduzido neste blog: “A Geologia da Moral – uma interpretação neo-materialista”.


Ficamos aqui com uma breve explicação: a máquina abstrata para Delanda, é o atrator que conecta os planos geológicos, biológicos e lingüísticos. O funcionamento de várias forças aparentemente aleatórias convergem, se auto-organizando em três níveis: fluxos de magma e seixos convergem-se, originando as camadas geológicas da Terra, fluxos de genes e memes se auto-organizam gerando todas as espécies vivas e pequenos dialetos se combinam, fazendo emergir a língua de uma nação. Exatamente como em “Os Sertões”: a singularidade geológica gera o sertão, que gera vários humanos singulares, que dentre jagunços e sertanejos se destaca Antônio Conselheiro que, através de sua fala que ressoa em muitos, gera a guerra de Canudos, produção lingüística, prática oral que desdobra em ato revolucionário.


O quadro “Os Retirantes”, de Portinari, convoca também a esse devir-sertão: o ato de se retirar, de produção de diferença, de porvir. Em seguida, temos “Grande Sertão: veredas”.


“Sertão não é maligno nem caridoso, mano oh mano!: - ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” Guimarães Rosa realiza em extremo o projeto de Proust alardeado por Deleuze de produzir uma língua estrangeira dentro da própria língua. “Grande Sertão: veredas” é um acontecimento literário-linguístico-teológico. A todo momento, a obra nos traz a dimensão do sertão como uma ontologia fractal, rizomática: “O sertão está em toda parte. (...) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe é no meio da travessia.”


É relevante o fato de que Guimarães Rosa seja diplomata: seu território literário cria neologismos com línguas estrangeiras ("smart" inglês, se tranforma em "esmarte"). O sertão está entre: entre línguas, entre lugares, entre estilos literários (romance épico, regional, faroeste (?) e cósmico). Assim como o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro ("A Inconstância da Alma Selvagem") coloca o xamã como diplomata cósmico entre as perspectivas nativas amazônicas, Guimarães Rosa é um xamã literário, diplomata cósmico do sertão.


O sertão então, migra para o cinema. Em “Deus e o diabo na terra do sol”, Glauber Rocha inscreve o sertão no cinema mundial e clama por um certo Brasil, cujo clamor atravessará toda a sua obra: Deleuze (“Imagem-tempo”) diria – Glauber quer formar um povo, um povo porvir. O devir-Canudos do Brasil produz mais e mais diferença. Esse povo nunca cessa de se formar: processo. Antônio das Mortes é esse avatar: enantiodromia – de assassino para além.


Pra onde vai o sertão? A literatura se desdobra, conturbando as margens leitor-livro. Se Kafka sugeria tal com-fusão, Italo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno” convoca o leitor, avisando que ele está lendo um livro seu: “deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido.” O leitor ainda vai ser incorporado na obra outras vezes, em função de um “defeito” na brochuras que leva o romance a sustentar “fragmentos’ de outras obras. Em “As cidades invisíveis”, Calvino brinda o leitor com o maior exercício de fundir ficção e filosofia. Jorge Luis Borges em seu conto “O Outro” relata um encontro com ele mesmo, mais velho, em Boston. Em “Borges e eu” termina: “não sei qual dos dois escreve esta página”. “O Aleph”, funda o conto-mônada, sobre uma mônada, o Aleph do título. Borges se assume enquanto tema, e coloca o mundo enquanto tema, fractalmente, em sua obra. Sujeito e mundo, autor e obra se intercambiam na obra do escritor argentino. Também Paul Auster brinca com o leitor, é personagem e trechos do livro são citados enquanto trechos mesmo, em partes do mesmo livro, “A trilogia de Nova York”. Com “Elizabeth Costello”, J. M. Coetzee, cria a sua célebre alter-ego, aparecendo em forma de conto em muitas vezes que o escritor é obrigado a fazer algum discurso. Philip K. Dick dá passos largos nessas proezas de mesclar realidades e pontos de vista, como já analisamos em “Ontologia Onírica”, aqui.


Esses autores, se não mostram claramente que o sertão é uma ubiqüidade, evidenciam a fractalidade autor-obra-leitor.


Então voltemos ao Brasil. Se Borges produziu o conto-mônada, Luiz Ruffato escreveu o romance-monadologia: “Eles eram muitos cavalos”. Assim como Leibniz que descreve a cidade formada por mônadas, Ruffato descreve São Paulo de várias perspectivas: pai-empresário, irmão de traficante etc. Cada perspectiva gera um estilo literário diferente, unificados pelo autor e/ou romance e/ou cidade de São Paulo, como Deus unifica as mônadas. Se o sertão adentra a metrópole com Ruffato, com Bernardo Carvalho ele sai rumo a Amazônia. No grande romance de início de milênio no Brasil, “Nove Noites” relata a história do protagonista que vai atrás dos fatos que levaram o antropólogo (que sabemos real) Buell Quain ao suicídio: “a verdade depende apenas da confiança de quem ouve”. Bernardo Carvalho, nesse romance que é “subornar a própria consciência” avisa, chegando ao final: “A ficção começou no dia em que botei os pés nos Estados Unidos”. E então, essa parte seguinte é “verdadeira”? A anterior é, toda ela, “ficcional”? O trânsito real-ficcional se aprofunda quando o autor coloca uma foto sua, criança, com os índios no Xingu, na orelha de “Nove Noites”. Bernardo Carvalho, que realizou antes um romance perspectivista: “Teatro”, no livro seguinte a "Nove Noites", “Mongólia”, ele leva ao extremo o conceito de freudiano de “estranho familiar (unheimlich)” fazendo o protagonista procurar alguém na Mongólia (agora a foto da orelha é o autor no citado país!), e as evidências parecem levar que o procurado é ele mesmo...


Deleuze e Guattari, n'"O que é a filosofia?", elaboram as três filhas do caos, as caóides: a arte (variedades sensíveis que emolduram o caos), a filosofia (variações conceituais que se diferenciam do caos) e a ciência (variáveis funcionais que exploram o caos). Acrescentaríamos aqui, uma quarta caóide: a religião enquanto religare (variâncias que se tornam o caos), exercício de imanência. Bernardo Carvalho mostra muito bem, em seu mais recente romance, o contundente "O Filho da Mãe" (dessa vez a editora envia o autor para uma cidade qualquer para desenvolver um romance - Bernardo Carvalho foi para São Petersburgo, Rússia, onde foi assaltado) a caóide arte: ao longo do romance se "emoldura" que as mães geram as guerras. Ao final do livro, quando a criação praticamente se torna conceito, o autor a abandona, pois não mais o interessa, para partir para outras criações, em um futuro romance. Essa postura parece ser sentida como solitária: "Ninguém quer ler o que está por vir, à beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo." Mas sabemos que o sertão está entre, o abismo se desloca. Se for possível algum processo de vizinhança com o romancista, pretendemos, ao menos, armar alguma barraca à beira do abismo. Deleuze, em "A Lógica da Sensação" nos adverte que o aspecto talvez sombrio das pinturas de Francis Bacon devem ser apreendidas com a alegria da transformação operada no Corpo sem Órgãos, transformação alegre que pode envolver alguma dor. Assim com o quadro "Os Retirantes" de Portinari que, se é algo sombrio, é para celebrar o movimento necessário e inevitável de um povo porvir, ainda que com dor. Assim como o nietzscheniano abismo de Bernardo Carvalho.


Para onde mais podemos estender o sertão? No texto “Fractais quânticos monádicos” especulei, através de conceitos físicos e filosóficos, a possibilidade do sonhar nos conduzir a universos paralelos. No novo blog, “Druam”, comecei a escrever em tom que “tende” para o ficcional, temas presentes neste blog de uma outra forma. Muitas vezes influenciado pelos meus sonhos e pelas minhas meditações, escrevo sobre Druam, minha contra-parte no aqui(s), cosmos paralelo que se atualiza na blogosfera como um blog paralelo a este. Assim “Druam” pode ser tanto uma derivação de “dream”, “sonho” em inglês, como um anagrama para a lenda celta de “Madru”. Acontece que, se eu realmente acredito nas relações oníricas entre universos, qual é o estatuto ficcional de “Druam”? Mas, se escrevo em tom que tende ao ficcional, qual é o seu estatuto de “realidade” em "Druam"?


A citada "caóide" religião é tangenciada em "Druam", pois deriva-se também de certas experiências com a meditação, o xamanismo etc. Mas o fato de se tratar, de certa forma, de universos paralelos em emaranhamento quântico - o primeiro conceito, oriundo de uma física especulativa ("ciência fictícia"), o segundo, de uma física compravada em laboratório - coloca "Druam" no âmbito da ficção-científica.


A ficção científica é produção nacional rara no Brasil, “país da saudade”. Mas é necessária, pois o sci-fi ajuda a alavancar rumo a um (povo?) porvir. Mas uma mescla de devir-Philip Dick (idéias sci-fi mirabolantes, quase beat) precisa confluir com um devir-Guimarães Rosa onde a criação lingüística transborda: “Sertão foi feito é pra ser assim: alegrias!”


Com “Druam”, menos pretensão e mais alegria: ser tão cósmico!


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os Pecados dos Pet Shop Boys


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o pop e a sexualidade
Nelson Job


Nada na história humana,
desde a divinização dos faraós no antigo Egito,
podia comparar-se ao culto da juventude européia
e americana ao rock stars.
Michel Houellebecq

Capa do álbum "Actually"



Sei... Elton John declara que Jesus cristo era gay (e inteligente) e a mídia fica em polvorosa. É certo que Sir Elton já tem uma carreira mais que sólida e pode se aventurar a tais “polêmicas”, mas sendo que ele não é teólogo ou historiador, porquê o barulho? As respostas são inférteis e pouco variáveis: porque “o artista quer aparecer” e/ou “os jornais precisam de polêmica pra vender”.

Se John Lennon já declarou que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo e Madonna lançou o brilhante “Like a prayer” (na época em que ela se dedica ao Jesus Cristo e não ao da Luz – perdão pelo clichê irresistível) o que se evidencia é que a “implicância” do pop com a religiosidade é que ambos competem por devoção. No Ocidente, ao menos, o pop vem vencendo... É no mínimo peculiar que o maior festival de rock-pop em céu aberto do mundo – o Glastonbury - seja feito no Vale de Avalon, na Inglaterra, palco também de lendas druidas.

A música sempre serviu de meio para otimizar os estados de êxtase ritualísticos onde os fiéis entravam em contato com algo além, seja com o mantra, o canto gregoriano etc. O fã do ícone pop entra também em uma espécie de êxtase, idolatrando um "ser". Acredito que a música pop pode ser um instrumento interessante de se chegar ao êxtase com músicas em devir-ritual de êxtase, sem ter que se deparar com os dogmas pré-fixados das religiões. Algumas bandas são mais propícias a proporcionar (com aditivos químicos ou não) estados alterados, como o Pink Floyd, mas o pop transfere isso para as festas, para a celebração, como o Depeche Mode faz (discutidos no texto “O mundo em meus olhos”) em músicas da estirpe de “Stripped” e “Enjoy the silence”. As bandas inglesas tendem para uma certa melancolia: os Modes são mais sombrios e os Pet Shop Boys – cujas músicas mais ritualísticas vão estar em destaque neste texto – são mais debochados e festivos.

A declaração “bombática” de Elton John também diz respeito à sexualidade de Cristo... nada mais pop. Desde os primórdios do rocn’n’roll – vide Elvis “The Pelvis” Presley - o pop está conectado com sexualidade e suas possíveis “transgressões”.

Mas porquê tantas aspas? A sexualidade se transformou em palco de uma interminável logorréia desde o advento da psicanálise. Até um suposto inocente boquete no BBB vira f(e/a)lação nacional...

Freud começou bem afirmando que sexualiade era relação qualquer e afirmando que a criança era perversa polimorfa. Depois se especializou a achar símbolos fálicos em sonhos e disse “ufa!” quando a sociedade (e a psicanálise) controlaram a criança, genitalizando-a, ato copiado à exaustão pela histeria vingadora psicanalítica.

Deleuze e Guattari, em seu poderoso conceito artaudiano, de Corpo sem Órgãos, clamam por uma experimentação corporal no limite, aberto a sensações múltiplas e conexão cósmica.

Mas, para além de freudismos e deleuzismos – esses já preconizados por um êxtase hermético milenar - a grande potência realmente revolucionária (palavra tão utilizada de forma abusiva...) se encontra em uma obra antropológica: “O Gênero da Dádiva” de Marilyn Strathern.

Nessa obra, Strathern fala, sobretudo, do fenômeno do kula nos Hagen, nativos da Melanésia. Espécie de concepção fractal dos nativos pelos seus, com o kula, a venda de um porco se transforma não em um produto que muda de dono, mas que parte desconectável de seu dono se conecta ao novo dono, ou seja: não troca-se a mercadoria, troca-se a perspectiva. O “dono” do porco “permanece o mesmo”, no sentido que, fractalmente, (o dono, sua mulher e filhos que criaram o porco, por exemplo) ele se junta ás partes conectáveis do “novo dono”. Os Hagen têm uma concepção curiosa e transmorfa da sexualiade: não existem homens e mulheres “em si”. O órgão genital só se torna “sexual” no ato do sexo!

O exemplo dos Hagen nos ajuda a pensar o quanto nossas taxonomias sexuais são rígidas. Quando dizemos “heterossexual” ou “homossexual” estamos rotulando pessoas através do que elas supostamente fazem com a sua genitália e inferindo que todo o seu psiquismo orbita em torno dessas práticas genitais. E a vovó “heterossexual” que não transa e não sente mais desejo sexual-genital há vinte anos? Ela almoça, vê TV e nina o netinho “heterossexualmente”? O “homossexual” que é chefe de uma empresa, impiedoso e lucrativo, age nos negócios “homossexualmente”?

Acredito ser mais produtivo pensar em gastronomossexualismo, capitalsexualismo, exibiossexualismo, fazendo valer as crianças perverso-polimorfas, agora crescidinhas, pois como as pessoas comem, ganham dinheiro ou se exibem com sorrisos amarelos “olhem, eu juro que sou feliz” no Orkut etc, dizem muito mais de seu psiquismo do que o que elas fazem com a genitália. Enfim, só existe pansexualismo. E ainda bem que a sociedade vem falhando em nos genitalizar. Se tivermos que escolher alguma alcunha, prefirimos a de "perverso ético", potente, logo, espinozista!

Voltando ao pop, quem se artila entre sexualidade, religião e postura pop com desenvoltura é a dupla eletrônica britânica Pet Shop Boys, ícone maior do tecnopop, que, agora, atingindo o marco de 100 milhões de cópias vendidas, se tornando a dupla musical que mais vendeu em todos os tempos, lançam o ótimo DVD/CD ao vivo “Pandemonium Live”, baseado em um grande show que passou pelo Brasil em quatro cidades. Nesse show, fica registrado uma das melhores características das bandas dos anos 80: a de não se levarem a sério. Durante "Why we can't live togheter?" vemos os dançarinos vestirem-se de prédios de papelão (!) como se fosse apresentação de crianças na escola.

As apresentações ao vivo dos Boys são marcadas pela teatralidade, trocas de roupas cenários, humor e um certo estilo kitch. Raro são instrumentos musicais, com muitas bases pré-gravadas. Não é um show típico de rock, é um show com uma estética artística muito peculiar.

Os Pet Shop Boys sugiram em meados da década de 80, com uma postura irônica bem ao estilo inglês. Se lançam já pelos seus 30 anos de idade, contrariando de saída, o aspecto de “juventude” dos ícones pop em seu início de carreira. O primeiro grande sucesso, “West end girls” já mistura disco com rap, mostrando a versatilidade do duo.

A ironia se evidencia tanto pelo visual, muitas vezes kitch, das capas de álbuns, vídeos e roupas e pelos trocadilhos sugeridos pelos títulos dos álbuns, imaginando os fãs comprando em lojas de discos (elas ainda existem?) por exemplo: “Please” – você tem o disco dos Pet Shop Boys, por favor? “Introspective” – você tem os disco introspectivo dos Pet Shop Boys? Eles trouxeram definitivamente a sofisticação ao pop, com letras elaboradas e trâmites com a literatura, como por exemplo, a citação literal de "Esperando Godot" de Beckett em "A red letter day".

Do imenso repertório do duo eletrônico, não faltam boas canções: da bela melodia de “Suburbia”, passando pelo refrão poderoso de “So Hard” e chegando a “Flamboyant”. Nem experimentalismos, como a associação com ritmos latinos em “Domino Dancing” (talvez o maior sucesso no Brasil), o samba do Olodum em “Se a vida é” e grandes cópulas com a música erudita como ...drunk”, todas registradas ao vivo no álbum “Concrete”. As parcerias também são numerosas e variadas: com Dusty Springfield na excelente “What have i done to deserve this?”; “Disappointed”, Eletronic, “Hello Space Boy”, David Bowie etc. As covers são um capítulo a parte, como “Always on my mind” (cujo vídeo foi extraído do longa com os Boys "It Couldn't Happen Here", de Jack Bond) de Elvis Presley, que fez mais sucesso que o original, se tornando um dos maiores hits da dupla, “Go west” do Village People – cuja versão foi adotado pelo Village em seus shows – e “Where the streets have no name/ Can’t take my eyes off you”, U2/Frank Valli, recentemente, "Viva la vida" do Coldplay etc. Releituras de sua própria obra também surgem, como a versão acústica da clássica “Rent”. Os vídeos também marcam ponto, como o divertido “Heart” (que conta com o “Nosferatu” Ian McKellen) e as computações gráficas de “Can you forgive her?”. Os Pet Shop Boys são requisitados como produtores e remixers, como o feito em “Read my mind”, obra-prima dos Killers - banda que confessa a influência da dupla, como podemos ver o vocalista Brandon Flowers ao lado de Lady Gaga na homenagem aos Boys no Brits Awards de 2009. - com o Blur em "Girls and boys", "Sorry" de Madonna, Lisa Minelli etc. Canções críticas às políticas inglesas começaram a surgir em “Fundamental” como “I’m with stupid” e “Integral. Antes, tal tema aparecia de forma tênue, como na bela "King's Cross" e "London". Até os lados B dos singles, geralmente delegados à sobras dos àlbuns, reservam surpresas, como "Shameless" e "The truck driver and his mate". Em 2009, os Pet Shop Boys lançaram o seus mais recente álbum de inéditas, “Yes”, que é seu melhor disco em 15 anos, onde se destacam a ótima “Pandemonium” e "Did you see me coming?".

Vamos destacar 2 canções das melhores dos Pet Shop Boys que merecem relevância:

It’s a sin” é, merecidamente, o maior sucesso do duo. A música é sensacional, a melodia inesquecível, a letra poderosíssima. A canção inicia com uma referência ao concerto de Saint Preux, tem um clássico som de trovão e termina com uma oração em latim “Confiteor”: “... mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.”. Sabemos que o vocalista e letrista Neil Tennant foi educado em um regime católico ortodoxo, algo traumatizante para um jovem com a sexualiade “em torção”. O incrível vídeo da música encena uma inquisição na Idade Média, onde se faz referência aos sete pecados capitais – contando com uma Geena Davis encarnando a “luxúria” – numa referencialidade rara no pop. Derek Jarman - cineasta cult importante para a imagem do duo - também fez sua versão de vídeo para telão em projeção de shows dos Boys para "It's a sin". Em uma versão ao vivo, durante a apresentação, uma backing vocal vestida de freira (holandesa!!?) começa a introduzir “I will survive” de Gloria Gaynor em “It’s a sin” tirando a roupa e mostrando por baixo um vestido sexy preto brilhante. Subversão pop! A letra é confessional:
(Twenty seconds and counting...
T minus fifteen seconds, guidance is okay
you are not at all)
When I look back upon my life
It's always with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

At school they taught me how to be
So pure in thought and word and deed
They didn't quite succeed
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to
It's a sin

Father, forgive me, I tried not to do it
Turned over a new leaf, then tore right through it
Whatever you taught me, I didn't believe it
Father, you fought me, 'cause I didn't care
And I still don't understand

So I look back upon my life
Forever with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to - it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a, it's a, it's a, it's a sin

(Confiteor Deo omnipotenti vobis fratres, quia peccavi nimis cogitatione,
verbo, opere et omissione, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa)
(Zero!)

Podemos entender a letra de “It’a a Sin” como uma crítica à intolerância católica ao homossexualismo, mas o sucesso do single evidencia suas potências mais amplas: podemos ouvir as palavras de Tennant em “It’s a Sin” como um libelo contra todo e qualquer tipo de intolerância. Félix Guattari, em seu road book “Micropolíticas”, com Suely Rolnik, afirmava que, se ele compõe com os grupos homossexuais, não é para legitimar o "indivíduo homossexual", mas para legitimar a prática homossexual como uma prática possível dentre várias.

As referências às bruxarias já dão o tom suficiente para remeter “It’s a Sin” à maior música de tom ritualístico dos Boys. O rock'n'roll e o pop, com suas extravagâncias, relação com drogas e o hábito de levarem multidões ao êxtase, ressoam com a ritualística pagã da bruxaria, ou - para usar um termo menos dado ao pejorativo - hermetismo. Ambos possuem a característica de estarem `a margem da população que segue uma "norma", abrigando de forma descentralizada os outsiders. Claro que hoje, época de práticas híbridas, muito do rock e do pop se tornam maistream... "para além do bem e do mal".

O destreino da crítica tenta relegar os Pet Shop Boys a alcunha de "banda gay" (como por exemplo o Village People e o Soft Cell – que realmente influenciou a dupla), mas o principal compositor da dupla, Chris Lowe, numa clássica canção da dupla, “Paninaro”, ele (raramente!) canta: “girls, boys, arts, pleasure.Perversos éticos do pop ...

Left my own devices” é uma das maiores obras do pop em termos de grandiosidade. Na canção, observamos influências claras de ópera, música clássica erudita, pop, música eletrônica e rap, todos fundidos e harmônicos em um só single, produzido por Trevor Horn. A canção tem um aspecto psicodélico, Neil canta: "Che Guevara and Debussy to a disco beat" em uma frase emblemática que resume o espírito dessa música. “Left...” é uma máquina abstrata, como diriam Deleuze e Guattari, onde várias forças herogêneas se auto-organizam, evidenciando a ritualística de “Left...”: compor forças. A canção é uma ótima música, que invadiu os hit parades e pistas de dança do mundo inteiro.

Depois de realizarem o musical "Closer to heaven" e de terem composto uma trilha para o clássico russo "O Encouraçado Potemkin" de Eiseinstein, os Pet Shop Boys se preparam agora para musicar um balé. A multifacetação não cessa, em devir:




sábado, 13 de fevereiro de 2010

Deleuze e o Tarô


Rascunho rumo a um pensar em êxtase

Nelson Job

Em magia, como em religião e em linguística,
são as idéias inconscientes que agem.
Marcel Mauss

A filosofia “deleuziana” se presta a quê? Se presta a pensar em limiar, a pensar com, sem amarras, sem limites, em ressonância. Deleuze dialogou com vários filósofos clássicos, com a física, a biologia, a antropologia, a literatura, o cinema, a pintura, a psicanálise, a química etc. Em um artigo anterior, “Ontologia Onírica”, nos dedicamos a evidenciar as ressonâncias entre a filosofia da diferença (tendo Deleuze como atrator), a física “pós-newtoniana”, o hermetismo e a literatura de ficção científica pré-cyberpunk. Tais relações permitem uma ressonância mais específica: a relação entre os principais conceitos de Deleuze (e da filosofia da diferença) com os arcanos maiores do tarô.

Sobre o tarô, pouco desenvolveremos. As imagens devem falar por si. Existem inúmeros livros sobre tarô, mas nenhum deles vai fornecer o mais relevante: a relação intensiva e intuitiva com as imagens.

Uma filosofia como a de Deleuze ser relacionada com um saber pagão como o hermetismo, e, por conseqüência, com o tarô, não nos surpreende. Deleuze, em seu texto “Nietzsche e São Paulo, D. H. Lawrence e João de Patmos” faz um belo elogio ao paganismo (simbólico), que possui conexões vivas, em detrimento do judaísmo e cristianismo (alegóricos) com seu amor abstrato (dar sem nada tomar) e o Apocalipse já industrial (que, com o seu “Juízo” - pré kantiano - Final, nos desconecta com o cosmos).

O paganismo é uma relação de êxtase com o cosmos, onde a vida é celebrada. Não nos surpreende que um antropólogo como Eduardo Viveiros de Castro, dado a reviravoltas deleuzianas, relacione o seu trabalho etnográfico (que envolve o xamanismo Yawalapíti e Araweté) com o filósofo neo-platônico Plotino, em seu texto “A Floresta de cristal”. Nele, é formulada uma operação que nos é cara: “Seria preciso apenas trocar a metafísica molar e solar do Um neo-platônico pela metafísica da multiplicidade lunar, estelar e molecular indígena”.

Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase (lembrando que "êxtase" significa literalmente "sair de si mesmo"). Francis Yates, em seu brilhante “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, o considera o verdadeiro iniciador histórico do Hermetismo. Porfírio, seguidor de Plotino, nos diz que seu mestre passou por quatro êxtases em que ele sofria tremores e tinha visões, donde os textos das “Enéadas” derivavam-se a partir de tais êxtases. Deleuze celebra o conceito de “contemplação” em Plotino, que já era uma relação onde sujeito e objeto se misturavam, ainda que com uma transcendência remanescente.

O autor que Deleuze considera o seu “plano de imanência”, Spinoza, também tinha várias influências místicas (a cabala judaica, por exemplo), como afirma Marilena Chauí em sua máquina do tempo “A Nervura do Real”. Vale lembrar que Bergson, outro grande atrator na obra de Deleuze, possui um livro chamado “A Energia Espiritual”, onde afirmava a telepatia e a vida após a morte. As questões de Deleuze seriam místicas, mas não com essa alcunha: mistura de sujeito e objeto, problematização da atomização do eu, conexão intensiva com a Natureza apenas para sair dela rumo ao inominável: o devir contra-natureza e a criação de Corpo sem Órgãos.

Uma relação do tarô com Deleuze já foi feita, sobretudo enfatizando o seu caráter semiótico, por Inna Semetsky. A nossa abordagem é diferente, relacionando conceitos filosóficos. François Jullien - esse um grande autor cujo conjunto de obra é um extensivo trabalho relacionando a filosofia do Ocidente e o pensamento chinês - em seu livro “Figuras da Imanência”, realizou um ótimo estudo relacionando o “I Ching”, antigo livro oracular chinês, com vários conceitos da filosofia da diferença.

O tarô, como quase tudo relacionado ao conhecimento antigo, tem um passado incerto. Costuma-se afirmar que tenha se originado no Antigo Egito, com o Hermetismo. Os jogos de carta começaram a se popularizar na Europa no séc XIV e o tarô mais popular – com o qual lidaremos neste texto – conhecido com o Tarô de Marselha, surgiu no final do séc XV, constituído por 22 arcanos maiores, de sentido mais geral e por 56 arcanos menores.

Jogar tarô é mais e menos que realizar um “oráculo”. Mais do que “dizer o futuro”, o tarô realiza o Princípio hermético de Correspondência, a saber: tudo o que está em cima é como o que está embaixo. Desse princípio se desenvolve, por exemplo, a astrologia, que é um embrião da astronomia. O princípio hermético da correspondência é o mais profícuo (e popular, daí um texto apenas para ele: “Fractais quânticos monádicos”) de todos, pois possui ressonância com a teoria do caos (fractais), mecânica quântica (“colapso” de onda) e filosofia, já que o conceito leibniziano de mônada, se origina no hermetismo. Então, jogar tarô é ver o presente, grávido de passado e futuro.

Vamos aos arcanos (para um desdobramento maior dos conceitos, veja texto neste blog- "Devires"):

Deleuze é um autor espinozista, que afirma a coexistência do um e do múltiplo.

O Um:


A Lua no Tarot de Marselha-Camoin

Onde tudo está misturado, imanente. Deve sempre ser pensado em conjução com o múltiplo (o Sol).

O múltiplo:

O Sol no Tarot de Marseille-Kris Hadar

O múltiplo deve ser pensado com substantivo, e não como adjetivo. Aqui aparece todo o mundo visível, mas apenas aparentemente em partes, a separação nunca é total. Deve sempre ser pensado articulado com o Um (a Lua).

Os conceitos de atual, intensivo e virtual de Bergson são extremamente relevantes na obra de Deleuze. Mas o caminho do virtual para o atual não é o mesmo do virtual para o atual. Vejamos as duas diferentes seqüências, lembrando que o os três conceitos coexistem, se interpenetram: existe algo de atual no virtual e vice-versa.

O atual:

O Diabo no Tarot de Marseill-Kris Hadar

O mundo mais denso, de diferenças de gradação, mais lento. O presente.

O intensivo:


A Roda da Fortuna no Tarot de Marseille-Camoin

Passagem do atual para o virtual, onde existem mudanças de fases, perde-se densidade, adquire-se velocidade.


O virtual:


O "Arcano sem Nome", a Morte, no Tarot de Marseille-Camoin

 quA imanência que tende (mais não chega nunca) a zero (zero positivo). Velocidade infinita. Pura energia. Atemporalidade (tempo múltiplo ou coexistência de todos os tempos). Memória cósmica.


Do virtual para o atual:

O virtual:

Os Namorados no Tarot de Marselha-Camoin

Toda a memória, que se guardo no tempo e não no cérebro, como se pensa. O tempo está em si, con-fundido. Diferenças de natureza que no atual se tornarão diferenças de gradação.

O intensivo:


A Torre no Tarot de Marseille-Kris Hadar

Passagem do virtual para o atual. Adquire-se densidade, perde-se velocidade.


O atual:


O Julgamento no Tarot de Marseille-Camoin

Adquire-se forma. Se atualiza a memória através do cérebro, que busca no tempo (virtual) como um editor, uma espécie de “Google”, para agir no sensório-motor, para se realizar a ação. Diferenças de natureza no virtual se tornam diferenças de gradação.


Esses três conceitos se desdobram em sete (segundo Manuel Delanda na obra “Intensive science and virtual philosophy”): virtual, (plano de imanência, multiplicidade e máquina abstrata) intensivo (ressonância e mônada) e atual (molar junto com o molecular e centro de envolvimento). Vejamos esses conceitos nas duas seqüências, a começar do atual para o virtual:

O centro de envolvimento:


A Imperatriz no Tarot de Marselha-Camoin

O aumento de complexidade no cosmos. O engendramento da vida gerando vida.


O molar e molecular:


A Força no Tarô de Marselha-Camoin

A coexistência de dois tipos de organização diferentes, um no nível micro e outra no macro.

A mônada:


A Justiça no Tarot de Marselha-Camoin

A relação intensiva do mais ínfimo com todo o cosmo. O equilíbrio nos universos. Múltiplas perspectivas que geram vários mundos.


A ressonância:

A Temperança no Tarot de Marseille-Camoin

A relação simultânea e harmônica no cosmos de termos diferentes, em diferenciação.

A máquina abstrata:

A Estrela no Tarot de Marseille-Kris Hadar

As várias forças do cosmos em auto-organização se expandindo, se abrindo.

A multiplicidade:
II. La Papesse, A Papisa, no Tarot de Marselha-Camoin

As várias forças do cosmos quase sem as “referências”.

O plano de imanência:


O Mundo no Tarot de Marseille-Camoin

O cosmos em sua instância ínfima e sutil. A soma de todos os Corpos sem Órgãos.

Vejamos, pois, a outra seqüência:

O plano de imanência:


O Louco no Tarô de Marselha-Kris Hadar

Puro devir, donde tudo sai. O impulso vital em cascata. O Corpo sem Órgãos.


A multiplicidade:

O Papa no Tarot de Marselha-Camoin

O devir começa a adquirir força e direção.

A máquina abstrata:

O Mágico no Tarô de Marselha-Camoin

A relação de forças auto-organizada além do tempo e do espaço. A pré-formação.

A ressonância:

O Pendurado no Tarot de Marseille-Camoin

A simultaneidade das forças compondo seres diferentes. A individuação anterior ao indivíduo.

A mônada:

O Ermitão, ou Eremita, no Tarôt de Marseille-Camoin

A concentração das forças do cosmos em uma instância, mas ressoando todo ali. O mundo que emerge de um ponto-de-vista. A pré-atualização.

O molar e o molecular:

O Carro no Tarot de Marselha-Camoin

Duas organizações diferentes que coexistem no indivíduo: uma molecular, lisa, ágil e outra molar, estriada, lenta.

O centro de envolvimento:

O Imperador no Tarot de Marselha-Camoin

O "indivíduo" enquanto processo de individuação em relação com o cosmos em devir.

Não queremos, de forma alguma, restringir o uso do tarô a esses conceitos. Apenas estabelecemos ressonâncias, relações, que podem fazer emergir maiores compreensões de ambos os campos. Tais relações engendram um caminho que permite a filosofia pensar em êxtase, para além de um pensamento domesticado. E já que Deleuze clama ao devir, à criação, sugerirmos um vigésimo terceiro arcano maior: o rizoma, ondes todos os arcanos coexistem, podendo cada um se interconectar com qualquer outro em qualquer sequência!

O rizoma (arcano 22):

http://www.sarcasmosmultiplos.com.br/wp-content/uploads/2008/04/mapa-da-internet-map-positive.jpg

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Transdisciplinaridade Radical (verbete)


Giger

Entendemos por transdisciplinaridade radical a articulação de vários saberes oriundos das mais diversas fontes: filosofia (incluindo o hermetismo e as filosofias orientais como o budismo e o taoísmo), as ciências (inclusive as especulativas, como a teoria das supercordas e a consciência quântica) e as artes (como também as manifestações da arte pop e "de massa"): ou seja, nenhum saber é previamente desconsiderado. Essa articulação produz uma relação entre os saberes gerando um híbrido, que emerge dos vetores de saberes utilizados. A transdisciplinaridade radical é superada pelos transaberes.

Todos os textos deste blog possuem em alguma intensidade uma transdisciplinaridade radical. Especificamente:

Um Milhão de Platôs: por uma transdisciplinaridade radical

Cyberpunk (verbete)



http://www.coverbrowser.com/image/ghost-in-the-shell/2-1.jpg


O cyberpunk desdobra-se em várias facetas: literatura, cinema, música etc. Podemos identificar como precursor a obra do escritor de ficção-científica Philip K. Dick, que criou em seus livros uma atmosfera sombria, futurista e sobretudo que questionava a realidade. Influenciou o livro "Neuromancer" de William Gibson, que é um marco do cyberpunk, com seus conceitos de cyberespaço, matrix, roupas de couro e óculos escuros, drogas baseadas em estimulantes e clima futurístico-noir. Nos quadrinhos, a grande referência é o mangá "Ghost in the shell" de Masamune Shirow, que discute o surgimento de uma Inteligência Artificial autônoma no cyberespaço, à luz de filosofias zen, entre outras. No cinema, o filme "Blade Runner" de Ridley Scott, baseado em livro de Philip Dick, dita a estética do gênero no cinema. O grande impulso midiático do cyberpunk foi o filme "Matrix" dos irmãos Wachowski, que, influenciado por tudo o que citamos anteriormente, faz uma síntese do conceito.

Texto do blog onde esse conceito aparece;

Ontologia Onírica: hermetismo, diferença e ciência em Philip K. Dick