CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ficção Científica no Metrô

Emanuel Tadeu Borges



Imagine que você está num trem do metrô em movimento. Agora imagine que o trem vai ganhando aceleração até atingir uma velocidade infinita. Tudo ao seu redor, então, se desintegra o trem, as pessoas, os objetos, seu corpo, seus sentimentos, suas idéias, seus pensamentos. Suponhamos que resta algo e chamemos de seu ‘EU’, totalmente esvaziado, sua atenção pura, percorrendo o universo em velocidade infinita. O que ocorreria? O que “VOCÊ” – agora este “ponto de consciência sem identidade” – experimentaria? Ora, se a velocidade é infinita e a única forma de experiência que restou foi a percepção, duas coisas ocorreriam:

VOCÊ ESTARIA EM TODOS OS LUGARES AO MESMO TEMPO.

VOCÊ PERCEBERIA TODAS AS COISAS AO MESMO TEMPO.

UBIQUIDADE E ONISCIÊNCIA.

Chamemos este ponto ideal de percepção de mônada e suponhamos que ela vá desacelerando até atingir uma velocidade compatível com nosso mundo de coisas e com a nossa percepção. Em seguida imaginemo-la revestida de um corpo físico sensível e capaz de agir, de uma entidade emocional organizada, capaz de sentir coerentemente e de uma unidade mental dinâmica, capaz de uma atividade intelectual ordenada. Chamemos esse novo conjunto de personalidade.

A personalidade, ao contrário da mônada, é uma unidade separada, possui uma singularidade, uma identidade e uma localização (é uma individualidade em meio a outras, é dotado de uma diferença em relação a todas as outras coisas, possui um conjunto cumulativo e mutável de aquisições materiais, psicológicas e mentais, ocupa um lugar no espaço e desenvolve uma existência no tempo). A personalidade, enquanto experiência, é diferente da mônada. No entanto, a personalidade nada mais é que a mônada desacelerada e com um revestimento material – o corpo sensível – que possibilita a focalização da atenção no mundo. E em contrapartida, a personalidade é uma entidade percebedora que “carrega” a mônada em seu núcleo, ainda que atue como um foco adequado para a atenção ou consciência em nosso mundo.

No entanto, o ponto de consciência original é a mônada e tudo se dá à partir da variação da velocidade desta, de acordo com seus desígnios. Chamemos a mônada de self.

Quando o self se volta para os conteúdos psíquicos conscientes e para a sensibilidade auto-consciente, ele atua como complexo egóico, experiência objetiva e subjetiva consciente, percepção do “mundo” e identidade do “eu” (“consciência do mundo” e “auto-consciência”). Esse tipo de experiência dá-se por meio das 4 funções psicológicas: sensação, sentimento, pensamento e intuição.

Quando, na experiência objetiva, a consciência do ego se detém na tarefa de assimilar e aplicar os parâmetros coletivos ou sociais, as regras que determinam a interação entre os indivíduos num dado contexto coletivo, ela atua como persona.

Quando busca atuar no âmbito dos conflitos não resolvidos armazenados num nível de sensações, emoções, sentimentos e idéias (memórias vivas, isto é, carregadas de intensidade afetiva) fora do alcance da atenção consciente, o self denomina-se sombra.

Quando realiza um percurso do centro (seu lugar próprio de onisciência e ubiquidade, onde está em velocidade infinita) à periferia (seu lugar de velocidade egóica, isto é, apropriada à atenção objetiva) o self torna-se mensageiro de si mesmo fornecendo uma cosmovisão ou “imagem da totalidade”, na medida da capacidade de apreensão e da necessidade da consciência egóica em seu percurso em direção à (e de identificação com a) consciência sélfica. Isto passa por uma revelação dos conflitos não resolvidos através da repetição da forma das vivências problemáticas, até que se alcance a resolução desses conflitos. Neste processo, os conflitos assumem a forma de uma mulher, para o homem e de um homem para a mulher, na imagem onírica: anima/animus. A imagem da alma, enquanto “parte inconsciente da personalidade”, aparece sob a forma do sexo oposto ou pelo menos com as suas características, na forma de coisas, animais, vegetais ou minerais com a marca do feminino ou do masculino.

No processo de resolução, curiosamente, a imagem de uma mulher divina, ou de um objeto, animal, mineral ou vegetal, de representação simbólica de cunho sagrado, substitui o animus nos sonhos da mulher. E a imagem de um velho sábio, ou um objeto, animal, vegetal ou mineral sagrado, substitui a anima nos sonhos do homem. Este fenômeno – do surgimento da imagem sagrada na psique – exprime a virtual união ou coniunctio misteriosa entre a consciência e o inconsciente, quer dizer, entre o ego e o self. O que era divisão, cisão, conflito, foi unificado, resolvido, apaziguado. O que era 2 fez-se 1. Não mais a oposição entre as polaridades representadas pelos sexos, nem busca da unidade representada pelo desejo.

O HOMEM SAGRADO E A MULHER SAGRADA SÃO SÍMBOLOS DA HARMONIA PERFEITA E DO EQUILÍBRIO ALCANÇADO, DA AUSÊNCIA DE DESEJO E DE NECESSIDADE, POIS NÃO HÁ MAIS ‘FALTA’. REPRESENTAM A CONSECUÇÃO DO ESTADO DE ‘ANDROGINIA’, ONDE NÃO MAIS EXISTE A DIVISÃO ENTRE ‘EU’ E ‘NÃO-EU’.

EU E MEU PAI SOMOS UM”.

Ego, persona, sombra, anima/animus e os diferentes graus de amplitude da “imagem da totalidade” que caracteriza a personalidade em sua totalidade, representadas pelo self, são diferentes velocidades da mônada, proporcionadas pela quantidade de energia psíquica investida, nos diferentes objetos: a “realidade objetiva” (mundo exterior), a “realidade subjetiva” (corpo, mente, emoções, sentimentos), para o ego; os padrões coletivos ou sociais de ação, para a persona; os complexos ou conteúdos do inconsciente pessoal, para a sombra; e os arquétipos ou imagens da totalidade do inconsciente coletivo para o self.

terça-feira, 16 de março de 2010

Deus joga dados viciados?


Para uma Filosofia Quântica
Nelson Job

Para esta vida não foi feita
Para ser guardada num cofre.
Guardada dentro dele, a vida
É presença que em tudo explode.
João Cabral de Melo Neto

Deus joga dados viciados.
Joseph Ford

http://www.brianmicklethwait.com/culture/TurnerFire.jpg

Filosofia Quântica: modo de usar
Este texto ressoa principalmente com outros 3: “Diferenças emaranhadas”, onde falamos sobre alguns conceitos principais da física quântica e do modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff; “Fractais quânticos monádicos”, onde estabelecemos as ressonâncias entre os conceitos de mônada, fractal, colapso de onda e o princípio de correspondência do hermetismo e “Ontologia Onírica”, onde todos os princípios do hermetismo são relacionados com conceitos da filosofia da diferença e da ciência pós-newtoniana. Aqui desdobraremos esses temas, pois entendemos que deles emergem uma filosofia quântica. Acrescentaremos aqui apenas a bibliografia que não foi citada nos outros textos.

Outras ressonâncias
Já no fragmento 3 da “Monadologia”, Leibniz diz que na mônada “não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis”. O físico Niels Bohr (2000) diria da “impossibilidade pictórica do formalismo quântico”.

O princípio da incerteza de Heisenberg (2008) diz, em relação à velocidade e posição da partícula, quanto mais se sabe de uma, menos se sabe de outra. No “Ontologia Onírica”, vimos que os conceitos de virtual, intensivo e atual de Bergson correspondem aos conceitos quânticos de onda, colapso de onda e partícula, respectivamente. Na filosofia, do virtual para o atual, quanto mais se ganha densidade, mais se perde velocidade e o contrário serve do atual para o virtual. Além disso, existem atualizações no tempo (a leitura deste texto, o dia de hoje, o tempo da vida do leitor etc) ou no espaço (este quarto, esta cidade, aquele determinado corpo etc).

Bergson se coloca entre o idealismo e realismo, Bohr, comentando os níveis de realidade versados na filosofia, assume que, na física quântica “concepções como realismo e idealismo, não tem lugar na descrição objetiva tal como definimos”.

O conceito de complementaridade onda/partícula de Bohr também vale ser (re)visitado. Primeiramente, “complementaridade”, para Bohr, é algo muito amplo, se dando em: pensamento e sentimento, civilizações ocidentais e orientais, função orgânica e processos químicos etc. Para o físico, a complementaridade se dá em instâncias “mutuamente excludentes”. É nessa questão que se torna relevante reinserir o problema de Mario Bunge. Ele propõe que se troque a idéia de dualidade partícula onda, ou o “colapso de onda” por um conceito que ele nomeia de “quanton”. Apreciamos essa idéia porque Bunge quer denunciar com ela a questão de se usar alcunhas clássicas para nomear os fenômenos quânticos, que são novidades conceituais. O quantom é um objeto que possui características de onda e partícula, se assemelhando ao intensivo de Bergson, que é a passagem entre o atual e o virtual.

Quando dizemos “intensivo”, estamos falando também de dois conceitos, a mônada – como conceituada por Leibniz e transformada por Gabriel Tarde e Deleuze – e a ressonância, sendo a mônada diretamente ligada ao quanton e a ressonância ligada ao emaranhamento quântico, sendo ambos etapas do intensivo. Também o virtual, que é ligado à função de onda, possui outros conceitos inerentes como a imanência, a multiplicidade e máquina abstrata, vistos no “Ontologia Onírica” ressoarem com conceitos oriundos da relatividade e da teoria do caos. Se conceitos filosóficos ressoam simultaneamente com conceitos científicos de 3 físicas pós-newtonianas, tendemos a conceber que a física quântica tem um papel preponderante entre elas. De fato, apostamos que as teorias da unificação envolverão principalmente conceitos quânticos.

O emaranhamento quântico, que é uma simultaneidade entre partículas, foi criticado por Einstein, mas, como sabemos, Bell, Aspect, entre outros, confirmavam os tais efeitos “fantasmagóricos” do emaranhamento. Tenta-se salvar o postulado da relatividade restrita de que não há nada mais rápido que a velocidade da luz afirmando que na passagem de informação, ainda vale os preceitos einsteinianos. Mas, isso só é possível se se mantêm a separação dos conceitos de energia e informação. Nós apostamos, junto com Manuel Delanda, que energia-informação-matéria são uma mesma instância. Com o emaranhamento, acreditamos que a energia adquire simultaneidade, ubiquidade: o conceito de energia se transforma.

Bohr relata que era uma brincadeira entre ele e Einstein com qual dos dois Spinoza concordaria. Acreditamos que o filósofo concordaria com Einstein, pois acreditamos ser possível fazer a relação entre conversão de matéria em energia com a substância e modos em Spinoza (para maiores detalhes em Spinoza, ver “Devires”). Claro que a relação onda/partícula pode ser se remeter também a substância/modo, porém a ressonância entre Spinoza e Einstein nos parece mais elegante, inclusive, sendo a substância (e, obviamente, em Spinoza, Deus) eterna, tal afirmação alimentaria a posição famosa de Einstein que “Deus não joga dados”. Bohr teria respondido, elegantemente: “Não deve ser tarefa nossa prescrever a deus como Ele deve reger o mundo”. Voltaremos ao problema do "eterno" em relação a um devir (quântico).

Deus joga dados (viciados): devir quântico e fractal
Para nos atermos nessa questão se Deus joga dados, vamos antes fazer um pequeno compêndio das relações entre física quântica e devir.

Heisenberg (1999), já dizia sobre a filosofia de Heráclito: “Se substituirmos a palavra fogo por energia, poderemos quase repetir suas afirmações palavra por palavra, segundo nosso ponto de vista moderno” e “A comparação, muito antiga, entre um ser vivo e uma chama demonstra claramente que os organismos vivos, tal como a chama, constituem uma forma por meio da qual, de certa forma, a matéria flui.”(HEISENBERG – 2008). Bergson (2006) também observou uma potência no advento da física quântica, ainda em 1934: “De fato, as grandes descobertas teóricas desses últimos anos levaram os físicos a supor uma espécie de fusão entre onda e corpúsculo – diríamos entre substância e movimento.” Merleau-Ponty (2000) já dizia que a física clássica é sem devir, pois cada elemento tem o seu lugar objetivo e que a física se tornou bergsoniana com o advento da mecânica quântica. E, finalmente, Prigogine e Stengers (1984): “A história da mecânica quântica, como a de todas as inovações conceituais, é uma história complexa e cheia de imprevistos, a história de uma lógica cujas implicações são descobertas depois que ela própria foi produzida na urgência do diálogo experimental. Não podemos descrever aqui esta história, mas sublinhar apenas a maneira inesperada como ela participa na convergência que, atualmente, tem como resultado renovar a dinâmica e construir a ponte entre essa ciência do ser e o mundo do devir.”

É importante lembrar que o devir está inscrito em uma ontologia fractal, ou monádica: isso quer dizer que, se o devir é louco, ele também é correlacionado. Quando Deleuze postula um devir enquanto contra-natureza, ele lança o devir para uma etapa em que não há referência, mas uma contração ressoa com qualquer outra, fornece “pistas” dos próximos movimentos.

Quando Hameroff articula a redução-objetiva (OR) (o “quanton” de uma suposta gravidade quântica) com a mônada (ou ocasião atual em Whitehead: ver “Devires”), ele está evidenciando que tanto o modelo de consciência quântica quanto a monadologia colocam o sujeito como a posteriori: diria Deleuze que é o sujeito que se instala na mônada, e não o contrário e Penrose e Hameroff afirman que é da seqüência de ORs que emerge o fluxo de consciência. Stapp screscentaria que é o nexus whiteheadiano que mantêm a coerência no fluxo de consciência, acrescentaríamos que é através de um processo de auto-organização: não mais utilizamos a alcunha de “sujeito” e sim, de atrator.

Sabemos que Manuel Delanda articula o conceito de atrator estranho com a máquina abstrata, e esta realiza a atualização geológica, biológica e lingüística em um mesmo processo. Bruzzo e Vimal (2007) acrescentariam que nos neurônios existe um processo caótico de auto-organização, o que acreditamos estar implícito em Delanda quando ele fala de auto-organização lingüística.

Sendo assim, creio que a resposta mais adequada para Einstein seria que Deus joga dados, mas joga dados viciados. “Dados viciados” no sentido em que existe um devir que cria novidades, imprevisibilidades, diferenças, mas em seu bojo está o anúncio do próximo passo: mônada que “é uma continuação natural do seu estado passado, assim também o presente está prenhe do futuro.” Leibniz (2000) também diria que a natureza não dá saltos. E, se o devir, com Deleuze, é contra-natureza, não é através de saltos. O devir é louco, porém, fractal.

A proposição de Einstein gerou debates entre os físicos quânticos. Max Planck era cristão e considerava religião e ciência compatíveis, pois, para ele, eram diferentes domínios de realidade. Bohr tinha reservas em relação à idéia de Deus pessoal e achava o discurso religioso próximo da poesia. Heisenberg acreditava em uma “ordem central”, uno, alma. “Verdade”, para ele, se relaciona com a experiência religiosa e , além disso, o físico criticava o preconceito em relação ao misticismo. Paul Dirac – segundo Bohr, o mais entranho homem a visitar o seu instituto – era completamente contra que ciência e religião dialogassem. Recentemente, se especulou que Dirac poderia ser autista (FARMELO - 2009).

As concepções de Wolfgang Pauli merecem destaque. Acreditava que não havia separação entre ciência e religião. Devido a problema a separação da esposa, morte do pai e alcoolismo, fez terapia com Von Franz que cujas sessões eram supervisionadas por Jung. Este se atraiu tanto pelos sonhos de Pauli que escreveu a primeira a obra alquímica junguiana, “Psicologia e Alquimia”, a partir daqueles relatos oníricos. Ficaram amigos. Nas cartas entre Pauli e Jung (2001) era claro o entusiasmo de Pauli pelos Upanixades (assim como Schrödinger) e por uma psicologia quântica. Eles desenvolveram o conceito junguiano de sincronicidade, apesar de não falarem do emaranhamento quântico – provavelmente pelo fato de Pauli ter falecido em 1958, e as propostas de Bell e Aspect (que popularizaram e deram consistência científica ao emaranhamento) se deram depois, nos anos 60 e 80, respectivamente.

Bohr, Heisenberg e Pauli (em níveis crescentes de entusiasmo) citavam o Taoísmo como uma referência que poderia ressoar com a física quântica. Nas correspondências com Pauli, Jung – que chega a equivaler o átomo quântico com o inconsciente - compara o yin/yang com a dualidade onda/partícula.

Cosmologia e unificação
Louis De Broglie se perguntava sobre o estatuto ontológico da função de onda. A visão estatística, tradicionalmente cooptada pela cúpula de Copenhague, o incomodava, pois concebe partículas saltitantes. David Bohn desenvolveu uma teoria de onda-piloto que desenvolveria suas idéias, mas também não obteve grandes adeptos.

A teoria quântica de campo, que faz concessões à teoria da relatividade, também caminha para uma ontologização quântica maior. PLOTNITSKY relaciona essa teoria quântica de campo com o virtual de Deleuze e Guattari. Faz sentido, porque se a partícula seria uma excitação quantizada no campo, isso se torna análogo ao processo de atualização na filosofia.

Surgem novas teorias que articulam a física quântica, a teoria do caos e cosmologia. A hipótese, antes desconsiderada, de multiverso, ganha cada vez mais adeptos, se especulando agora até sobre como seria vida em outros universos (JENKINS e PERZ). Se anuncia uma grande mudança na física e acreditamos que a filosofia da diferença pode oferecer muito na construção de uma filosofia que possa ajudar a entender essa próxima revolução. Assim como os estudiosos da teoria das supercordas (e outras teorias de unificação) acreditam em uma teoria M que reuniria as diversas versões, todas essas possibilidades devem ser levadas em contas em nos próximos passos conceituais.

É importante levar em conta que a onda é ontológica, mas também gerando consciência, não só no cérebro, como dizem Penrose e Hameroff, mas a consciência como uma ubiquidade no universo, como propõe não só “whiteheadismo modernizado” de Shimony, mas também o princípio de mentalismo no hermetismo, as mônadas de Leibniz e a vida não-orgânica em Deleuze. Heisenberg já falava em uma ubiquidade dos fenômenos quânticos. Novas descobertas mostram emaranhamento quânticos em vegetais corroboram com as possibilidades propostas por Penrose e Hameroff de um cérebro quântico.

As teorias devem ter uma relação paradoxal com o mistério. Quando Deleuze clama por um devir contra-natureza, devir selvagem, nos parece estar indo mais um direção ao mistério do que os trancedentais de Kant e o eterno em Spinoza. Dizer de um eterno, seja uno, Deus e/ou imanência, parece servir para dar conta de uma aparente angústia: “alguma base vai estar sempre lá, dando conta de tudo, ufa...”. O mistério está em avançar no conhecimento mas não saber "onde vai dar", ou melhor, não saber nem se as categorias de espaço, tempo, natureza, (im)permanência vão fazer sentido. O devir, sendo uma convocação ao inominável : tentar dizê-lo - eis o paradoxo.

Cada filosofia tenta puxar as discussões da física quântica para si. Heisenberg relata uma conversa com a neokantiana Grete Hermann. O filósofo Carl Friedrich disse a ela, polidamente, que o a priori de Kant fica “relativizado” com a física quântica. Heinseberg afirmou para a filósofa que a nova física é baseada em fenômenos obervacionais. As problematizações quânticas que os físicos adeptos dela evocam, fazem Schrödinger afirmar que Kant se torna obsoleto. A questão é que as relações entre física e filosofia (e demais saberes) produzem outro saber, seria pequeno reduzir o quântico a uma determinada filosofia. Apostamos que a filosofia da diferença pode contribuir muito, mas também o hermetismo, a antropologia simétrica, os devaneios (será?) literários e filosóficos de Philip K. Dick etc.

Não podemos nos dar ao luxo de construir mais diques no devir. A física quântica (e seus desdobramentos cosmológicos: quintessência, universos paralelos etc.) conclama a uma fluição na matéria, um devir ontológico. Sobre os diques no devir (expressão feliz de Gabriel Tarde), já sabemos o suficiente: a permanência em Parmênides, o imutável mundo das idéias em Platão, a taxonomia em Aristóteles, a trancendência cristã, o mecanicismo em Descartes, os imperativos categóricos em Kant, a normatização social (sociedade de controle em Deleuze, politicamente correto etc), a domesticação da ciência, como a de Sokal e Bricmont etc. Se acreditamos que o sonho nos conduz a universos paralelos (ontologia onírica!), é porque uma certa ciência, uma ciência menor, como diria Delanda, dá braços a outros saberes e germina ousadia: uma filosofia quântica que engendra novos cenários, novos conceitos, novas alegrias e novos e (a/o)ntológicos sonhos em devir!

Bibliografia Complementar
ALBERT, David Z e GALCHEN, Rikva, “Uma ameaça insuspeita à relatividade restrita” in: Scientific American Brasil 83, pp 28-35.
BERGSON, Henri, 2006, O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
BOHR, Niels, Física atômica e conhecimento humano. 1 ed. Rio de Janeiro, 2000, Contraponto.
BRUZZO, Angela Alessia e VIMAL, Ram Lakhan Pandey, Self: an adaptive pressure arising from auto-organization, chaotic dynamics and neural darwinism. 2007, in: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18181268
FARMELO, Graham, The Strangest Man: The Hidden Life of Paul Dirac, Quantum Genius. 1 ed. London, 2009, Ed. Faber and Faber Limited.
HEISENBERG, Werner, Física e Filosofia. 4 ed. Brasília, 1999, Edições Humanidades.
____________________ A parte e o todo. 1 ed. Rio de janeiro, 2008, Contraponto.
JENKINS, Alejandro e PERZ, Gilad, “A busca pela vida na estranheza do multiverso” in: Scientific American Brasil 93, pp 24-31.
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm, Novos ensaios sobre o entendimento humano. 1ed. São Paulo, 2000, Nova Cultural
MARLEAU-PONTY, Maurice, 2000, A Natureza. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
PAULI, Wolfgang e JUNG, C G, Atom and archetype – The Pauli/Jung Letters 1932-1958. 1 ed, Princeton, 2001, Princeton University Press.
PLOTNITSKY, Arkady, Chaosmologies: quantum field theory, chaos and thought in Deleuze and Guattaris What is philosophy?
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, 1984, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB.

sábado, 6 de março de 2010

Um Milhão de Platôs


Por uma transdisciplinaridade radical

Nelson Job


http://www.scootercommunity.com.au/blogs/my_life_as_a_scooter/Evangeline%20Lilly%20Biography.jpg

Evangeline Lilly, a Kate de "Lost"


Chega de ubiqüidades da taxonomia. Chega da domesticação do pensamento, seja na arte, na ciência, na filosofia e na fé.


É verdade, venho convocando muito alguns autores, preciso ainda citar? Hermes Trimegisto, Spinoza, Leibniz, Bergson, Deleuze, Penrose... Se cito Deleuze e sua “tchurma” não é para pertencer a um certo estilo de pensamento. Se cito Deleuze e seus apêndices de autores da diferença é para me inspirar a sair dele. Ele é muito bom nisso, ainda que a maioria faça o contrário em seu nome. Criei o trampolim com o meu “Deleuze e o Tarô”, para citar exemplo recente. Se cito Penrose, não é pra ter um “Sir” entre meus preferidos, mas para me alimentar de uma proposta provisória-experimental-especulativa (precisa mais?) de uma consciência quântica. Se cito Hermes Trimegisto, não é para me alinhar à turba de esquizotéricos, mas para ressoar saberes tão antigos (egípcios, babilônicos) com todos os conceitos mais belos.


Eis que enumeram os inimigos de Deleuze. Hegel? Kant? Besteira. O inimigo de Deleuze é apenas um, o resto deriva desse: o clichê. Sim, pois o clichê permeou todos os aspectos - dos mais ínfimos, aos mais óbvios - de nossas vidas. Pensamos, amamos, apreciamos “arte”, nos drogamos, rezamos etc com clichê. O clichê se tornou a mais terrível ubiqüidade de nossa era. Não que seja fácil eliminá-lo, ou mesmo suavizá-lo. Deleuze evoca o pintor Francis Bacon que evoca Cézanne: ao longo de toda uma obra de diversos quadros, compondo a mais terrível luta contra o clichês, desse embate restam apenas “uma maçã, e um ou dois vasos”. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro já nos lembrou que para os nativos da Amazônia, o inimigo é imanente. Então vale a pena citar o poeta Manuel de Barros (ou seria Freud?): “repetir-repetir: até ficar diferente.” Árdua batalha contra o clichê.


Deleuze é um ótimo exemplo, como já dissemos em “Tripaterapia”. Se ele é pródigo em articular filosofia, literatura, biologia, antropologia, física, pintura, cinema etc, seus asseclas citam os mesmos autores que o filósofo cita, ad nauseum. Quando colocamos o pensamento de Deleuze copulando com conceitos nunca antes articulados por ele – consciência quântica, a literatura de Philip K. Dick, o hermetismo (e por conseqüência, o tarô) etc – é porque assim é a única forma autêntica de se pensar com ele. Atravessando rumo ao novo.


Propomos uma transdisciplinaridade radical. Os conceitos atravessam e são oriundos de “saberes” dos mais diversos: várias filosofias (da diferença, da ciência, e seus desdobramentos religiosos: a filosofia taoísta, budista, hermética). Mas também a ciência em várias vertentes: a “comprovada” (física quântica, teoria do caos), a especulativa (a supercordas e tantas outras teorias da unificação) e todos os tipos de arte, inclusive as “de massa” como os filmes blockbusters (se consistentes), as histórias em quadrinhos, os seriados de TV, como “Lost” - que é transdisciplinar e ótimo exemplo além do clichê televisivo: drama, ficção científica, terror, mistério, suspense e atemporalidades em flashback, flashfoward e tempos paralelos - enfim, arte pop em geral.


Quando se fala em transdisciplinaridade, geralmente se faz multidisciplinaridade: põe-se os saberes lado a lado, sem cópula, sem mistura, sem hibridização. É comum citar Freud com Jung ou Winnicott (clichê!...), mas é raro relacionar Guattari com “Lie to me” ou “The Killers”. Os autores elaboram conceitos cheios de hífen, como o insuportável “bio-psico-socio-eco-antropo-cultural” (chamemos de cartesianismo enrustido) aarrgh! Vício taxonômico, apenas ligado por hífens para saudar uma pseudo inteligência “pós-moderna”: autores que dizem que nosso mundo é fumaça e que nós somos seres a vagar rumos a descobrir aspectos da fumaça.


Vivemos em uma era que evidencia-se as potências transdisciplinares. Bruno Latour já avisou em “Jamais fomos modernos”, mas agora, as crises econômicas, geológicas, e anímicas (depressão, transtornos de todos os gostos e taxonomias psiquiátricas: bipolar, de ansiedade, de pânico: o verdadeiro "transtorno psiquiátrico" é o transtorno que a psiquiatria faz nas vidas humanas pra alimentar a indústria farmacêutica...) anunciam que a crise é transdiciplinar e apenas uma compreensão que atravessa os saberes (incluindo a arte e as filosofias religiosa-místicas) podem apreender bem o fenômeno e buscar alternativas. Alternativas que não são novos modelos econômicos, e sim, uma economia de modelos, ou seja, abandonar o método repetitivo, científico-empírico e desenvolver conceitos mistos que se operam recriando-se a cada problemática.


A mídia vem tentando manter uma suposta tranqüilidade de que apenas o modelo vai ser trocado, como se a crise fosse a de um modelo apenas. Não, a crise é do modelo! A crise é a crise do clichê enquanto estilo. A crise é, sobretudo, da preguiça existencial. Se pulamos da Madonna para Britney Spears, apenas consumimos o novo clone, assim como passamos de “Matrix” para “Avatar”. Então vale lembrar: se Madonna (pop e feminismo), então Amy Winehouse (black, soul, politicamente incorreto). Se “Matrix” (realidade virtual ciberpunk), então “Anticristo” de Lars Von Trier (neo-animismo lírico). “Não só, mas também...”


Sejamos sonhadores ontológicos (“Ontologia Onírica”), sejamos poetas ontológicos: criar, em nossa era, não é uma quimera artística, criar agora é uma potência ecológico-cósmica (ai, esses hífens...)! Saiam de si e criem mundos!