CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 18 de abril de 2010

Êxtase em Devir

meditação e Corpo sem Órgãos


Este texto é sobre o tema do módulo do grupo de estudos Cosmos e Consciência


Nelson Job


Ó Vida Oculta! Vibrante em cada átomo;

Ó Luz Oculta! Brilhando em cada criatura;

Ó Amor Oculto! Abraçando todos na Unidade;

Que cada um se sinta Nela,

Sabendo que ele também é um em todos os outros.

Annie Besant


Instrui-te sobre um pinheiro com um pinheiro,

e sobre um bambu com um bambu.

Matsuo Bashô



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Segundo o professor de estudos religiosos Willard Johnson (1982) “o significado original do termo ‘ioga’ tinha por base uma destreza consumada, que dominamos ao nos preparar para uma aventura ou atividade no mundo, a meta da ‘ioga’.” Preparemo-nos, então, para a aventura:

Existe uma certa egrégora atemporal na filosofia ocidental composta por Plotino, Spinoza e Bergson: estes três autores falam da coexistência do Um e do múltiplo e sua apreensão, promovendo uma interface com o pensamento oriental, tirando a filosofia tradicional do ocidente de seu eixo costumeiro. Através do conceito de Corpo sem Órgãos de Deleuze e Guattari e a prática e conceituação da meditação (ou ioga) advinda do Oriente, estabeleceremos as ressonâncias entre esses campos do saber.


Plotino, filósofo neo-platônico do século III d.C., já começa sacudindo a transcendência platônica, considerando-a inseparável de uma imanência, segundo José Carlos Bacarat Júnior (PLOTINO – 2008). Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase: segundo seu seguidor e biógrafo Porfírio, ele ascendeu ao Uno cerca de quatro vezes, e, a partir dessas experiências, escrevia as “Enéadas”. A concepção plotiniana de contemplação é deveras relevante: une-se sujeito e objeto, Uno e múltiplo, pois o universo observa a si próprio. Nas palavras de Plotino (2002): “a Alma tem de ser una e múltipla, dividida e indivisível, e não devemos acreditar que é impossível uma coisa estar em muitos lugares. Do contrário, a natureza que mantém as coisas todas juntas e as governa não existiria: ela que, abarcando todas as coisas, as mantém unidas e as conduz com sabedoria, sendo ao mesmo tempo múltipla (posto que os seres são múltiplos) e una – a fim de que o princípio de coesão seja uno. Mediante a sua unidade múltipla, a Alma dá a vida a todas as partes, enquanto que, mediante a sua unidade indivisível, as conduz com sabedoria. No caso dos seres desprovidos de Inteligência, o princípio indivisível que o rege imita a inteligência.”


Plotino adverte que o problema é quando as almas, querendo pertencer a si mesmas, afastam-se da origem divina. Bergson (2005), um dos grandes comentaristas de Plotino, comenta que a concepção de consciência plotiniana é totalmente adversa da versão moderna. Adquirir consciência, para Plotino, é se afastar do divino, é uma perda, pois é na inconsciência que se quer chegar, ao Uno. Consciência é exterioridade, é dispensável, instabilidade: é permanecer fora daquilo que se apreende.


Com Spinoza (2008), no século XVII, alcançamos uma outra etapa. Deus se equivale à mente e a substância: imanência. Spinoza enumera três gêneros de conhecimento: opinião ou imaginação – que leva ao falso – razão e conhecimento (noções comuns e idéias adequadas das propriedades das coisas) e ciência intuitiva: através dela Deus ama a si mesmo que é o amor intelectual da mente para com Deus. O espinozismo conclama a intuição como a capacidade única de apreender a imanência, com isso, chega-se à liberdade.


Esse amor intelectual de Deus por si seria a mente humana na perspectiva da eternidade, para Spinoza. Mas é preciso qualificar o que é “eterno” no espinozismo: Marilena Chauí (2000), comentando as questões relativas ao eterno e à duração em Spinoza, escreve: “eternidade e duração não estão referidas ao tempo, mero ens imaginationis: eternidade não é simultaneidade dos tempos, mas existência necessária; duração não é sucessão dos tempos, mas força contínua de perseverar na existência; ambas são atualidade necessária da existência”.


Bergson (1999), pensador da intuição e da duração, quando lança o conceito de virtual ao final do século XIX, promove uma sofisticação nessa corrente. No virtual, energia que tende a ficar cada vez menos densa , ou seja, a se virtualizar, coexistem-se os tempos, passado, presente e futuro e no atual (mais denso, a extensão) existe um presente contraído na duração.


Se em Plotino o devir domestica-se no Uno e em Spinoza, no eterno, em Bergson (2006) ele fica livre em toda a natureza, não havendo nenhum suporte para o devir, visto que tudo está em devir. Já em Deleuze e Guattari (1997), nem a natureza domestica o devir: o devir é contra-natureza. É nesse âmbito que chegamos ao conceito de Corpo sem Órgãos (CsO).


“O grande livro sobre o CsO, não seria a Ética? (...) Os drogados, os masoquistas, os esquizofrênicos, os amantes, todos os CsO prestam homenagem a Espinoza.”, assim, Deleuze e Guattari cunham um de seus conceitos mais importantes e de grande ressonância: o CsO foi extraído do obra do dramaturgo Antonin Artaud e seria uma espécie de corpo sem organização. É uma experimentação intensiva, que tira o corpo de um estado atual rumo a um virtual. Os autores citam a ioga, o Tao, os místicos, o uso de peyote como relatado por Casteneda etc,. como exemplos de criação de CsO. Um problema seria virtualizar demais, gerando um regime de abolição, como o drogado que se torna dependente e, por fim, morre. É preciso prudência, Ética. A soma de todos os CsO seria o campo de imanência, ou a constituição do plano de consistência.


Se a ioga é citada como exemplo de criação de CsO, vamos desdobrar a possibilidade. Para entender o significado de ioga, Willard Johnson nos convida à Índia dos 1500 a.C., quando a ioga é considerada simplesmente um meio de se chegar ao fim. Podemos, segundo o autor, relacionar ioga com a meditação enquanto disciplina depois dos 500 a.C., já relacionada a uma posição confortável, de preferência a posição de lótus, respiração profunda e concentração.


Um objetivo da meditação é o êxtase. Johnson supõe que os primeiros êxtases são contemporâneos à domesticação do fogo, por volta de oitocentos mil anos atrás, acrescentando que a caça e o fato do caçador ter que entrar em sintonia com a caça, já seria um estado medidativo, como o ato físico do sexo com o abandono do orgasmo, alguns traumas (que geram, entre outras consequências, experiências de “fora do corpo”), rituais de cura, como o com plantas psicoativas por índios, a kundalini indiana etc.


O uso do peyote, bem como o da ayahuasca, por índios em seus rituais, são exemplos de êxtase e de criação de CsO. O xamã é um grande criador de CsO. Porém, o uso indiscriminado de substâncias, seja o álcool, cocaína etc. pode levar a um “regime de abolição”, a dependência e a morte. Ético seria a utilização das plantas no âmbito ritualístico, onde há um know-how milenar para a experimentação. Johnson ainda ressalta que em Castaneda, nos livros seguintes à “A Erva do Diabo”, Dom Juan abandona o uso de peyote para utilizar a meditação. Não que a experimentação com drogas como o LSD sejam necessariamente negativas, mas existem campos onde a experiência tem grandes chances de ser mais produtiva. Em uma palavra: prudência.


A kundalini (enroscada) é a força cósmica adormecida, enroscada dentro de nós, cujas práticas de meditação hinduístas tem como objetivo despertar. O guru da Siddha Yoga (originada na Índia), Swami Muktananda (2000), relata suas experiências na meditação. Nelas, se pode observar todas as ressonâncias com os êxtases xamânicos e o CsO. Para ilustrar suas experiências, ele traduz um poema de Tukaram Maharaj: “minha visão tornou-se divina e a distinção ilusória entre unidade e a dualidade dissipou-se. Desapareceu também a noção de diferença entre espaço, tempo e substância; não há espaço, nem tempo, nem substância; a diversidade não existe. O meu ser apareceu como universo e o universo, que chamamos de realidade objetiva, apareceu como meu Ser. Não existe mundo exterior. Somente o Absoluto existe.”


O budismo se seguiu ao hinduísmo na Índia e teve como ícone maior Siddhartha Gautama, o Buda no auspicioso século V a.C., quando surgiram também Heráclito na Grécia, Confúcio e Lao Tsé na China: o mais pleno zeitgeist do devir, seja nomeado de impermanência ou transformação!


A meditação tem um papel central no budismo. Através dela se chega ao nirvana, ao desapego total. Nas palavras de Paul J. Griffiths (YOSHIRI-2006): “Na tradição budista indiana, a prática da meditação – aqui provisoriamente compreendida como tentativa consciente de alterar de forma sistemática e integral, a experiência perceptiva, cognitiva e afetiva do praticante – está intimamente vinculada tanto a rituais quanto à magia (...) Emprego o termo ‘meditação’ de uma forma ampla, para me referir a toda técnica de alteração da consciência empregada conscientemente e sem o recurso a substâncias químicas externas ao praticante para a produção da alterção desejada (...) De acordo com essa definição, envolver-se numa relação sexual, ouvir Beethoven ou contemplar as boas qualidades do Buda serão todos exemplos de meditação.” No processo de análise obsevacional budista, que envolve a meditação, Griffiths exemplifica diversos desenvolvimentos de poderes mágicos: criação de duplicatas de si mesmo, clariaudição, clarividência, telepatia, a lembrança de vidas anteriores etc. Já Johnson - citando os benefícios do samadhi (quando o objeto da meditação se irradia na consciência destituída de conteúdo usual) enumerados por Pantajali – acrescentaria: conhecimento do cosmo, suspensão da fome e sede, conhecimento sensorial psíquico à distância, domínio da fonte de criação da matéria, onipotência etc. Como diriam Deleuze e Guattari acerca do CsO: “Tudo é possível, sem dúvida”...


Deleuze e Guattari também somam o Tao às possibilidades de CsO. Anne Cheng (2008) coloca que, a partir do século V d.C., o budismo teve grande receptividade na China, principalmente devido aos esforços de Kumârajîva. São grandes as ressonâncias entre budismo e taoísmo, porém o conceito de impermanência não encontrou uma forte aceitação. Para estabelecer uma relação intensa com Spinoza e derivações, talvez o melhor agenciamento seja com Guo Xiang (século I d.C.) com seu imanentismo puro. Nele, o Tao não é origem, mas apenas o nome da espontaneidade dos seres.


A ciência tem estudado a meditação. Recentemente, a neurociência vem confirmando os benefícios da meditação na diminuição do stress etc. No modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff (1996) as Reduções Objetivas (a versão dos colapsos de onda quânticos, na teoria deles) no cérebro são, normalmente, em torno de 0,4 segundos, mas a meditação e outros estados de consciência alterados acelerariam muito a seqüência de Reduções Objetivas. Com isso, Penrose e Hameroff incluem a meditação como potencial acelerador do fluxo de consciência, além de produzir mais realidade, visto que estamos falando de processos físicos, ou seja, a meditação é uma ferramenta para expandir os níveis de realidade, tanto para as religiões, quanto para uma certa ciência especulativa. Hameroff (2002) chega a relacionar a Redução Objetiva com a mônada de Leibniz e os "momentos de experiência budista". É importante lembrar que o vazio quântico é preenchido, assim como os vazio chinês (o Tao) e a maioria das concepções do nirvana budista.


Johnson conta que Pochang Huai-hai, budista chinês do século VIII d.C., apresentou aos seus seguidores o kung-an, o enigma de procurar o boi dentro de nós. Existem conjuntos de imagem que ilustram essa busca, ( ver abaixo) envolvendo, entre outras etapas: ser dominado pelo boi, dominar o boi, encontrar o vazio, e finalmente, encontrar o Buda sorridente. O estereótipo de quem pratica meditação pode ser de alguém sisudo, cuja prática é sofrida. Mas, o objetivo da meditação, chamemos de êxtase, iluminação etc., é um caminho rumo à alegria suprema. Spinoza concordaria, dizendo que o aumento de potência através dos bons encontros, que ele chama de alegria, é o objetivo da sua “Ética”. Bergson (2004) afirma que “para produzir efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura (...) O cômico é inconsciente.” Deleuze e Guattari: “Acontece que existe uma alegria imanente ao desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa (...) O CsO é desejo, é ele e por ele que se deseja.”


Finalmente, gostaríamos de acrescentar que este texto sobre meditação, face à meditação, deve ser esquecido. Esquecido no sentido que tudo que foi lido aqui é somente o trampolim, a respiração profunda que antecede o porvir na meditação: ferramenta formidável do devir, êxtase que é da ordem do inominável. Ficamos, então, com Marguerite Yourcenar (1968), que nos traz seu personagem Zênon, alquimista e filósofo ressoando em profunda meditação: “Agora, em favor de um exame mais percuciente, renunciara temporariamente aos próprios conceitos; retinha o espírito, como retém a respiração, para melhor ouvir o ruído das rodas que giram tão depressa que não percebe estarem elas girando.”


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Bibliografia

BERGSON, Henri, 1999, Matéria e memória – ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2004, O Riso – Ensaio sobre a Significação da Comicidade. 2 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2005, Cursos sobre a Filosofia Grega. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

_______________ 2006, O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

BESANT, Annie, 1950, The union of all faiths – in common act of worship. 1 ed. Madras, The Theosophical Publishing House.

CHAUÍ, Marilena, 2000, A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. 1 ed. Companhia das Letras, São Paulo.

CHENG, Anne, História do Pensamento Chinês, Editora Vozes, Petrópolis, 2008.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1996, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 3. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

_______________________________ 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.

HAMEROFF, Stuart, Consciousness, Whitehead and quantum computation in the brain: panprotopsychism meets the physics of fundamental spacetime geometry. 2002 in: http://www.quantumconsciousness.org/

JOHNSON, Willard, 1982, Do xamanismo à ciência – Uma história da meditação. 1 ed. Ed. Cultrix, São Paulo.

MUKTANANDA, Swami, 2000, Jogo da Consciência – Uma autobiografia espiritual. 1 ed. Siddha Yoga Dham Brasil, Rio de Janeiro.

PENROSE, Roger e HAMEROFF, Stuart, 1996, Orchestrated reduction of quantum coherence in brain microtubules: a model of consciouness. 1 ed. in: Hameroff, Kaszniak e Scott (org.) Toward a science of consciousness – the first Tucson discussions and Debates. Massachusetts Bradford Book – The MIT Press.

PLOTINO, 2002, Tratado das Enéadas. 1 ed. Polar Editorial, São Paulo.

_________ 2008, Enéada III. 8 [30]. 1 ed. Ed. Unicamp, Campinas.

SPINOZA, Benedictus de, 2008, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica.

YOSHIRI, Takeushi (org.), 2006, A Espiritualidade budista – Índia, Sudeste Asiático, Tibete e China Primitiva. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.

YOURCENAR, Marguerite,1968, A Obra em Negro. 1 ed. Ed. Nova fronteira, Rio de Janeiro.

sábado, 10 de abril de 2010

Lançamento: "Parição da Presença"




Parição da Presença – o livro da Inocência Madura

de Sergio Seixas e Lygia Franklin de Oliveira

Editora: 3RSTUDIO

Assunto: Psicologia e Filosofia

344 páginas

R$ 40,00

passara@uol.com.br


Lançamento dia 26 de Abril de 2010 – segunda-feira

das 19hs as 10:30hs


CASA DE CULTURA LAURA ALVIM

Avenida Vieira Souto 176, Ipanema – RJ


Parição da Presença – o livro da Inocência Madura.

Quando o mundo se adapta àquele que se fez humano.


Um livro de Sergio Seixas e Lygia Franklin de Oliveira

É possível uma vida material estável, uma realização amorosa plena e uma vivência do sagrado sem religião? Com que perguntas se constroem um rosto? Com quantos gestos se imanta um encontro? Essas e outras questões são refletidas pelos autores onde articulam Psicologia, Medicina Chinesa, Ciências Oraculares, Arte e Natureza numa tentativa de recordarmos a potência do humano, pois é na Inocência Madura que nossos dias se despem à Presença.


Um pouco mais sobre o livro:

Viver é um ato empírico ou há uma subjetividade que norteia a inteligência? Que espécie de merecimento permeia nossos encontros amorosos? Em tempos limítrofes, onde a racionalidade não dá conta do Pleroma, o que é necessário saber para se vivenciar um sentido de pertencimento? A que servem nossos medos? Levar uma vida refém da sobrevivência material não seria um aviltamento ao Plano da Existência? Como seria uma verdadeira espiritualidade sem religião?


Alguns milênios se passaram e apesar da humanidade ter estagnado numa espécie de adolescência emocional, o Self nos deixou pistas claras do que devemos recuperar na alma para que uma vida não seja em vão. OMysterium”, o transbordamento, a confiança nos dias vividos na Consciência... Tantos legados nos fazem instrumentalizados para a plena realização pessoal e também social.


Sergio Seixas e Lygia Franklin de Oliveira nos mostram que há um Roteiro a Jornada, há uma trilha clara para o humano e suas incertezas. Já temos o que necessitamos para vermos nosso próprio rosto e reconhecermos no outro um pouco de nós mesmos e também de todo o universo.


Parição da Presença – o livro da Inocência Madura nos fala ao coração verdades fortes e ternas a respeito do que já se caminhou e do que ainda falta caminhar para nos tornarmos homens e mulheres de fato. Fundado numa Psicoterapia da Presença, que não se detém a reducionismos narrativos; numa Medicina Chinesa, que convida a Psyche a nutrir nossos diversos corpos cindidos, com a seiva da Consciência e nas Artes Oraculares que nos devolvem o “Mysterium” que faz de nossos dias uma escritura do “Ser Que É”, o livro nos surpreende a cada instante com um texto que é prosa poética e uma filosofia que não se exime em apontar direções, não ficando num discurso do impasse, onde um niilismo narcisista impera sobre o medo de se pronunciar a palavra Verdade. Os autores crêem que somente um amadurecimento emocional e espiritual nos reconduzirá a inocência perdida e somente ela, nos devolverá o humano que, apesar de sempre ter estado em nosso coração, se fez ausente, em nome de interesses destituídos da Compreensão.


Sergio e Lygia são terapeutas e articulam as Artes Oraculares e a Medicina Chinesa com um olhar fundado no arquétipo.

sábado, 3 de abril de 2010

Grupo de Estudos:




A Egrégora Conceitual
(para saber mais, clique nos links em azul no texto abaixo)

http://beinart.org/artists/jacek-yerka/gallery/jacek-yerka-3.jpg

O Grupo de Estudos A Egrégora Conceitual é uma proposta de cultivar em conjunto conceitos aplicáveis na vida oriundos de diversos saberes, ou seja, propomos uma transdisciplinaridade radical em que a filosofia está em ressonância com a ciência, a arte, a magia etc.

O grupo se encontra semanalmente e discute geralmente a partir de um texto ou algum outro dispositivo, como um filme, uma pintura etc. O coordenador faz uma exposição e o debate se dá a partir dessa exposição.

O coordenador é Nelson Job, autor do campo conceitual conhecido como "Ontologia Onírica", que articula a filosofia da diferença de Deleuze e seus intercessores (Estóicos, Spinoza, Bergson, Tarde, Whitehead, Manuel Delanda etc.) com a ciência moderna (sobretudo a Física Quântica, a Teoria do Caos e a Cosmologia), com a magia (especialmente o que é chamado de Hermetismoe com a arte (literatura, cinema, músicaartes plásticas etc) para se pensar, ou melhor: intuir, entre outros devires, o contínuo da vida com os sonhos e seus desdobramentos para os saberes. Os temas do grupo tendem a orbitar em torno dos saberes dos quais emergem a Ontologia Onírica.

Coordenador: Nelson Job – psicólogo, doutor e pós doutorando em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia/UFRJ, coordenador do grupos de estudo.
Para quem: aos que querem alegremente cultivar uma transdisciplinaridade radical.
Onde: Botafogo, Rio de Janeiro.
Quando: às quintas, de 19:00 às 21:00. Primeiro encontro gratuito.
Quanto: valor estipulado pelo próprio participante
O que entedemos por uma "egrégora" enquanto grupo de estudos? Clique AQUI!
Contato para outras informações: nelsonjob1@yahoo.com.br e/ou 8646-8905


Novo módulo Poética & Vida em março de 2013: clique AQUI


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Cultivo Onírico

Jardinagens de uma Ontologia Onírica

Nelson Job

-Em que devo acreditar?(...)
-Em tudo.
Neil Gaiman

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Se você é um sonhador, você tem, de saída, dois problemas: o primeiro - tomar cuidado, muito cuidado – com quem não é um sonhador; o segundo, o que fazer com os seus sonhos.

O sonhador, seu brilho no olhar e seu ar de alegria em poder deslumbrar na vida causa raiva, inveja e desconfiança em quem não é um sonhador. Esse indivíduo triste quer, a todo custo, fazer você agir como ele. Vai dizer que a vida é dura, pra você “voltar pra realidade”, que não há nada melhor do que ter garantia na vida. O não-sonhador quer, sobretudo, ganhar muito dinheiro, fazer o jogo do sistema e passar os “otários” pra trás. O não-sonhador desistiu do que sonha, e realiza o que lhe oferecem, o que o senso comum quer. Ele obedece, se necessário e trapaceia quando pode. As pessoas a sua volta costumam adoecer. Ele tem muito ódio do sonhador, porque o sonhador o faz lembrar do que ele tinha de melhor... e abandonou! Vai debochar do sonhador, vai tentar denegrí-lo, vai tentar fazer de todas as mais terríveis formas que o sonhador desista. Então, o status quo (ou estabilichment ou qualquer outro tipo de normatização) fica tranqüilo. Cuidado, você, sonhador, com essas pessoas. Elas estão em todo lugar e são a maioria. Mas não se sinta sozinho. Depois de muito tempo, eles estão perdendo o jogo.

Com a crise econômica, evidenciaram-se outras crises: a crise do modelo (“Um Milhão de Platôs”), a crise da realidade única (“Tripaterapia”), a crise ambiental (“Climáticas Mudanças”) etc. Enfim, a(s) crise(s) envolvem o fim de um processo iluminista em que o homem tentou ser racionalista demais. A ciência, que nasceu do magia, se desarticulou dessa última, assim como a fé e a emoção se separaram da razão. Ninguém agüenta mais isso, e com “ninguém”, eu estou incluindo o planeta, chame-o de Terra, mas apelide-o de Gaia. Os drogados não cansam de reclamar: “socorro, o mundo tá concreto demais!”. Em todos os lados, clama-se por uma realidade mais ampla, por mais arte, por mais sonho.

O outro problema, sonhador, é o que fazer com o seu sonho. Porque, a questão não é, simplesmente, “tornar o seu sonho realidade”. A questão é mais complexa.

Falemos brevemente de conceituações bergsonianas (detalhes em “Devires”). Existem níveis de realidade (virtual) em que se atualizam com mais consistência e densidade (atual). O tráfego de um para o outro é o intensivo. Conceito brilhante, que diz, entre várias possibilidades, das mudanças de fases cósmicas, tanto a passagem do sólido para o gasoso; o “colapso” quântico de vários estados da partícula em apenas um e o ato de sonhar e lembrar do sonho. Se enfatizarmos radicalmente o atual, ficamos nesse mundo que criticamos, por demais concreto e triste. Se enfatizarmos o virtual, nos deteremos em algo atemporal, quase intangível e de difícil apropriação. Temos que galgar uma (cada vez maior) apreensão do virtual, mas através do intensivo. O intensivo é a chave.

Para nos tornar íntimos do intensivo, é preciso buscar o virtual: a coexistência, o sonho, o atemporal e nos adentrarmos em dimensões para além do ego. Para tanto, existem a arte, a dança, a meditação, a entrega ao amor etc. O estudo, se exercido com a tripa, também ajuda muito. Dizem que Deleuze é um filósofo do virtual. Não creio. Os “filósofos do virtual” são os teólogos e adjacências. Deleuze é, pra mim, um filósofo do intensivo, e nos convida a vários autores que nos ajuda para essa empreitada de apreendermos o intensivo: Bergson faz um viravolta no pensamento (lança o conceito de virtual), faz também uma reviravolta para lançá-lo no atual. Deleuze se preocupa mais com esse ínterim, o intensivo. Sabemos que os conceitos coexistem. Para conceber melhor tal coexistência, é de extrema relevância que nos tornemos, sobretudo, intensivos.

Então você, sonhador, sonhe à vontade. Mas não basta o esforço de “tornar o seu sonho realidade”, ou seja, atualizar. É importante que se conceba também o sonho como aspecto da realidade (“Ontologia Onírica: rumo a um estatuto de realidade dos sonhos”). É saber, que, seja lá qual for o seu sonho, ele é, também real, mas virtual. Ser intensivo é coexistir as dimensões do sonho e do exercício de torná-los “reais”, ou melhor, atuais. Sonhe muito, e saiba que sonhando, você esta expandindo a realidade. Deixe o sonho transbordar pela vigília. Esse é o primeiro passo para sairmos da crise atual, para sairmos da crise do sonho e cultivarmos mundos mais amplos, múltiplos e, sobretudo, alegres.