CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

"Lost": Perdição e Redenção Contemporâneas

Nelson Job
Um ato bem realizado repercute
sobre o conjunto da realidade.
Alejandro Jodorowsky
image

Acabei de ver o último episódio de "Lost", o maior evento da história da televisão e acontecimento midiático que dá as regras para os novos tempos do entretenimento, mas também do mundo como um todo. Vou aqui fazer comentários que ressoam com os temas que a série evoca, sem pretender acrecentar grandes explicações que supostamente os mistérios da série deixaram em aberto.

http://z.about.com/d/lost/1/0/Y/U/-/-/Locke.jpg

"Lost" ficou famosa por fazer várias referências: John Locke, personagem importante da série, que recomeçou a andar na ilha depois de uma paraplegia e recuperou a sua fé, é uma referência a um filósofo homônimo, empirista, que acreditava na "tábula rasa", idéia muito combatida por Leibniz. Talvez o filósofo, tal qual o personagem, tenha que ter um pouco de fé também...

O personagem dono dos melhores episódios é Desmond David Hume. Desmond é a "constante" no tempo, chave para a manutenção da ilha. "Desmond" é um nome celta para "homem da sociedade". Alie isso ao filósofo David Hume, que de forma magistral em seu "Tratado da Natureza Humana", rompia com as noções de causa e efeito, afirmando que isso era consequência do habitus humano de relacionar dois ou mais eventos em sequência. (Para maiores detalhes ver "Devires"). O personagem realmente quebra a linearidade pela sua "natureza" em viajar no tempo e por não apertar o botão da cabine dentro da escotilha dentro da ilha, gerando uma reviravolta nos acontecimentos. Desmond guardou a chave que rompia com a escotilha arás do livro "A Volta do Parafuso" de Henry James, livro que conta uma história sobre crianças abandonadas que vêem fantasmas. Assim como os personagens de "Lost".

O personagem Ben Linus aparece lendo o livro "VALIS" de Philip K. Dick, que fala de uma entidade que é criada a partir de conceitos da teoria da informação e teológicos, sobre a totalidade do universo (maiores detelhes em "Ontologia Onírica"). Assim como os personagens esquizóides de Dick, Ben acreditou na ilha e em explicações estranhas que misturavam antigas crenças e conceitos científicos. Ben também aparece lendo "Ulisses" de Joyce, que mostra um dia em 3 versões diferentes. Além disso, tanto em Dick como em "Lost", existe uma profunda discussão sobre "o que é a realidade".

http://elsieyogakula.files.wordpress.com/2006/08/badass-yoda.jpg

Exatamente essa característica de discussão sobre o estatuto do real é um dos grandes atrativos de "Lost". A obra de Philip Dick talvez tenha sido pioneira em articular misticismo, religião, pop e ciência. A cine-série "Star Wars" - muito citada em "Lost"- levou isso adiante, sendo menos lisérgico: os jedis afirmavam que "a força está em tudo que existe", sendo eles uma espécie de monges que se utilizavam de naves espaciais e espada lasers, ou seja, plena relação de misticismo pagão e ciência. Os jedis eram propagadores uma imanência. A série de quadrinhos "Incal", de Jodorowsky e Moebius, mantinham essa clima de "Star Wars", mas acrescentando a lisergia de Philip Dick, influência confessa de Jodorowsky.

O final da série mostra que a redenção dos personagens, para além das questões de fé e ciência, é o amor. (Ver "Amarnifesto") Sim, o amor é a imanência, Spinoza já dizia que a substância, que se equivale a mente e a Deus, só é atingida pelo terceiro gênero de conhecimento, a intuição que leva a apreensão do mais pleno amor: o amor de Deus por si: liberdade absoluta, potência máxima. (maiores detalhes em "Êxtase em Devir").

Na temporada final, os personagens se encontram em uma "realidade paralela" que se revela ao final ser um "lugar" atemporal, onde os mortos da "nossa" realidade - uma realidade mais óbvia, simples - se reencontram para "seguir em frente". Na igreja, que é o palco desse reencontro, vê-se símbolos de várias religiões: cristã, chinesas, indianas etc.

O nome da série, é então, um jogo com o fato óbvio de estarem "perdidos" em uma ilha e de estarem também "perdidos" no mundo, condição esta, não só dos personagens, mas de quase todos nós que vivemos em um mundo onde - justamente depois da queda de um avião em 11 de setembro do primeiro ano do novo milênio - começa a ser palco do confronto de realidades capitalistas ocidentais, fundamentalistas orientais, em uma economia torpe em uma ecologia torpe. O ser humano está "perdido" se ele não encontrar o seu caminho, não um suposto caminho que as instituições a beira da falência determinam, mas o caminha constituído a partir de eixo interno rumo à redenção e ao amor. Assim, vimos personagens norte-americanos,sul-coreanos, iraquianos, africanos e até brasileiros se defrontarem com a sua necessidade de redenção (ver "A Era do Conjugalismo").

Assim, "Lost" é um poderoso amálgama que relaciona entretenimento, drama, ficção científica, mistério, romance, misticismo etc., mostrando que o nosso mundo precisa alcançar a redenção articulando várias de nossas heranças históricas e múltiplas e sobretudo, não excluindo o que desconhecemos. A série não "explica" vários de seus mistérios, o que deixará os fãs mais racionais em polvorosa, até porque o final, não sendo ruim, é abaixo da média de qualidade do total dos episódios. Mas esses mesmos mistérios poderão ter respostas parciais, ou melhor, intuídas, se concebemos a série como um todo.


http://www.415vince.com/images/tvshows/xfiles.jpg

"Lost" fica como um indício que as séries americanas tendem a ser mais experimentais , mas mantendo a qualidade, do que Hollywood, talvez mais até que a maioria dos filmes independentes americanos. A série mais precursora disso é mesmo "Arquivo X", que inseriu qualidade cinematográfica às séries. "Lost" é realmente única, mas ainda temos "Fringe" - muito assumidamente inspirada em "Arquivo X" - também criada por J. J. Abrams, investindo pesadamente em conceitos limiares da ciência, principalmente por universos paralelos e as derivações investigativas de Sherlock Holmes: "The Mentalist" (intuitiva), "Lie to me" (decifrativa) e "House" (científica).


As heranças de "Lost" são múltiplas:
. a realidade é ampla e interconectada: vários de seus personagens se esbarraram em algum momento antes do acidente do avião. Existe uma ressonância entre os personagens, cujo atrator é a ilha.
. os saberes, a ciência, a religião, o misticismo, a arte, inclusive o entretenimento, são conectados e devem ser cultivados e ampliados em sua conectividade.
. a vida é um insconstante território de possibilidades epifânicas de redenção.
. vale a pena estudar, conhecer, desde que se assuma o mistério imanente.

É isso, dude.


terça-feira, 18 de maio de 2010

Grupo de estudos: Ontologia Onírica - ressonâncias herméticas entre filosofia, ciência e arte

Novo módulo a partir de 01 de junho


Jorge de Lima, fotomontagem

Nesse módulo, estudaremos o hermetismo e suas ressonância na história da filosofia ocidental e oriental, ciência e arte:
. Sobre a figura histórica de Hermes Trimegisto
. A relação Plotino-hermetismo
. a influência direta do hermetismo em Giordano Bruno, Agrippa, Paracelso, Newton, Spinoza, Leibniz, Jung etc
. como a ciência contemporânea - com suas quintessências etc - adquire um certo sotaque hermético.
. a relação profunda, mas indireta, entre o hermetismo e a filosofia da diferença
. em que o hemetismo hoje emplica na concepção de realidade e, consequentemente, em uma concepção ontológica dos sonhos e como tal implica em uma revisão da teoria dos sonhos para além de Freud, Jung e Guattari.
. a influência do hermetismo na obra do escritor Philip K. Dick e do cineasta, escritor e psicomágico Alejandro Jodorowsky, diretor de "A Montanha Sagrada" e escritor da história em quadrinhos "Incal" que Moebius desenhou, entre outras obras.

Textos deste blog sobre o tema: "Ontologia Onírica", "Cultivo Onírico"e "Deleuze e o Tarô"

Duração: 2 meses

Outras informações sobre o grupo de estudos Cosmos e Consciência

http://www.consciencia.org/imagens/incal/43.jpg
"Incal" Moebius


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Congresso Teoria e Prática Junguiana


Minha apresentação no Congresso C. G. Jung - Teoria e Prática Junguiana: produções acadêmicas, clínicas e sociedade:

Entre neo-paganismos e “partículas de Deus" - em que Jung é precursor no século XXI?
Será dia 27 de maio, próxima quinta-feira, às 16:25, no Rio de Janeiro


http://www.saindodamatrix.com.br/archives/jung-pills.jpg


Falarei sobre como o pensamento de Jung - que transitava entre a alquimia, a ciência (principalmente a mecânica quântica, em profícua amizade de Jung com o físico ganhador do Nobel, Wolfgang Pauli) e suas então avançadas concepções acerca do inconsciente - é precursor de várias temáticas que permeiam os textos deste blog: a consciência quântica, a relação do hermetismo com saberes contemporâneos e o neo-paganismo "midiático".

O congresso terá também a participação de Franklin Chang, autor dos textos "Os Desajustados" e "Jung e a China: uma civilização em transição" deste blog, Lorena Richter, entre outros. Quem quiser aparecer, maiores detalhes no site oficial do congresso:

www.teoriaepraticajunguiana.com

Inté,

Nelson Job