CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Feliz Dia do Despsicólogo

Nelson Job
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Ah, sim, hoje é dia do psicólogo. Muitas pessoas vão para os consultórios, terem suas vidas repartidas entre édipos, arquétipos, couraças de caráter, figuras/fundo e gradações de piores e melhores Corpos sem Órgãos. Seus sonhos serão “decifrados”, seus desejos terão uma causa e suas singularidades serão traduzidas em conceitos europeus.

A psicologia hoje, a despeito de sua origem, é um serviço que entrou nos hospitais, escolas, exércitos, empresas - incluindo times de futebol. O seu objetivo é manter a ordem dessas instituições. A psicologia é regida por instituições de “formação” (leia-se: massificação e manutenção de conceitos) e universidades (cujas ementas são ideologicamente oferecidas como se reparte o tempo em horário eleitoral na TV, ou seja, diretamente proporcional entre a popularidade do autor – e influência principalmente econômica de seus seguidores - e o números de cadeiras disponíveis sobre esses mesmos autores). Os textos desses autores dificilmente serão lidos e sim, a sua versão colonizada, o manual introdutório do professor ou de seu "padrinho". Dificilmente haverá alguma cadeira de Filosofia da Mente. Pergunte pra algum aluno (ou até mesmo profissional) de psicologia sobre a questão extremamente relevante: “o que é a mente?” e ouça o que ele tem a dizer. Provavelmente nada, ou se iniciará uma avalanche “greatest hits” dos termos do “pai” (castrado?) de sua "escola".

Desde os gregos (ou seria desde os egípcios?) o tema “mente” tem sido pensado, e hoje em dia, até por proeminentes cientistas, mas, os cartéis de toda a espécie permitem apenas que os alunos saibam de neurocientistas que especulam (mas especulação em ciência ganha um caráter de quase-verdade, né?) de acordo com os preceitos do velho Sigmund e asseclas derivados. Dado todo mérito que estes merecem, é preciso lembrar que muitas outras considerações houveram e continuaram sendo criadas. Se o kantismo tem se deteriorado em vários setores do saber desde a aurora da Mecânica Quântica no início do século XX, na psicologia e na neurociência, sempre estive em voga.

O psicólogo, chamado à ativa pra gerar saúde mental em seus clientes, em geral promulga um ideal narcísico: torne-se o que eu sou e você se dará bem (ver Tripaterapia). O cliente é iludido com um “trabalho”, em geral adaptativo, em que poucas ou nenhuma questão profunda é realmente trabalhada, e sim, o desdobramento conceitual de cenas do cotidiano que serão revistas de forma que o stress seja menor.

A boa velha assimetria: se o antropólogo tradicionalista imputa a mesma natureza pro nativo de "cultura" diferente (ou seja, “joga com 12”: o antropólogo escolhe a sua natureza e sua cultura, ao índio lhe é reservada apenas sua cultura) (ver: Devires e Colecionando Ambientes). O psicólogo faz operação semelhante: antes do cliente se sentar, ele já teria seus édipos, Ids, arquétipos de Velho Sábio, couraças oculares etc, pouco importando o que ele venha a falar. Ora, se não há espaço para alteridade, não há clínica, ao menos não em seu significado mais relevante: o de clinâmen. (ver Uma Clínica do Clinâmen).

A psicologia: esse “estudo da mente”, mas que não problematiza o seu objeto; produz clínicos que não geram escuta de singularidades, mas rebatimento conceitual. E a mente, objeto hoje degenerado pelo modernismo e seus cartesianos, cujos “sabedores” ainda a separam do corpo, se não for em discurso, o fazem em suas práticas.

Em algum lugar, “clínicos” livre-pensadores que passam com um sorriso de ternura e sarcasmo pelas instituições, que se não se apegam tanto a conceitos - a despeito de sua importância - mas à mais criativa relação, farão que as pessoas à sua volta questionarem suas vidas, suas famílias, sua sociedade, políticas em que se inserem ou lhes oprimem, gerando ações que possam fazer alguma diferença, alguma liberdade, nem que seja de sonhar, (ver Cultivo Onírico) livre das castrações, seja das instituições, seja das interpretoses. A esses clínicos, deve-se desejar, como num encontro com o Chapeleiro Louco (por favor, livre de antipsicóticos), um feliz dia do despsicólogo, a partir de amanhã, talvez?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Inserção n'A ORIGEM

Nelson Job

Assim que desperto, como um náufrago pisando em terra firme, comemoro o dia.
(...)
Não pergunto mais às coisas se têm forma, nome.
Me divirto com minha própria miopia
e guardo as propriedades do que é físico em alguma coisa que não é tato e não é vista
- é sono e confusão cansada, é a gaga frase de uma alegria estranha, é alguma coisa que esqueci agora.

Nuno Ramos



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A Origem” de Christopher Nolan é um filme único que transborda conceitos além de ser entretenimento, elevando a categoria de blockbuster a um nível inédito na história do cinema. Como o diretor declarou: "eu tenha tanta preocupação em dar ao espectador algo que possa entreter, mas também desconcertar".

As passagens pela psicanálise, pelo artista plástico Escher, pela literatura de Philip K. Dick e Jorge Luis Borges, por uma crítica filosófica da realidade, colocam “A Origem” em uma “escola” cinematográfica composta por “O ano passado em Marienbad”, “Matrix”, grande parte da obra de Charlie Kaufman, principalmente no roteiro de "Brilho eterno de uma mente sem lembrança" dirigido por Michel Gondry (ver “Um Clamor ao Popcinema”), entre outros.


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Relação entre "Relatividade" de Escher e o cartaz de "A Origem" 


"A Origem" é mais do que o novo "Matrix". É, sim, o novo "Blade Runner": passado quase 30 anos do filme de Ridley Scott, finalmente o cinema consegue articular direção de arte, ficção científica, bons atores com boas atuações, bom roteiro e uma estética surpreendente. Mas agora, com um entendimento da indústria e, por que não, uma maturidade do público que permite um filme como esse seja um sucesso de bilheteria, nem que seja pelo fato de que as pessoas retornem pra entendê-lo melhor.

Christopher Nolan já tinha por hábito ressignificar os blockbusters com temas de filmes “de autor”, como a não-linearidade temporal em “Amnésia” e o mal descontroladamente possível em “Batman – Cavaleiro das Trevas”. Neste “A Origem”, a questão dos níveis de realidade, do sonho dentro do sonho (indefinidamente) é entrelaçada com os típicos tiroteios, perseguições e lutas-balé caros à Hollywood.

O filme trata de um grupo de espiões industrias que roubam idéias entrando tecnologicamente no sonho alheio. Desta vez, são contratados para implantar uma idéia, daí a “inserção” do título original (Inception). Existem inserções em sonhos dentro de sonhos, não havendo ao final do filme, nenhum acesso à uma realidade não-onírica definitiva, por assim dizer. Ao sairmos do cinema, temos a “estranha” sensação de questionar a realidade, afinal, o protagonista Dom Cobb ("Cobb" também é o nome do protagonista do primeiro longa de Nolan, "Following", de 1998) tem várias semelhanças com outro protagonista realizado por DiCaprio, o Teddy de “A Ilha do Medo” de Scorcese, que também não sabe bem em que “realidade” ele está inserido. A música onipresente no filme, que é o aviso para "voltar à realidade", é “Non, Je Ne Regrette Rien” na voz de Edith Piaf, cujo filme baseado na vida da cantora teve como atriz principal Marion Cotillard, que em “A Origem” faz o papel de Mal, esposa de Cobb. A música, obviamente, fala sobre não se arrepender, questão de Cobb em relação... à esposa. Não que tal estratégia seja inédita. Em "Matrix", cujo protagonista Neo, feito por Keanu Reeves, era um hacker que transitava informações digitais no cérebro inseridas eletronicamente na nuca , além de ser "o escolhido"; são características semelhante a papéis anteriores de Reeves: respectivamente "Johnny Mnemonic" e o Buda de "O Pequeno Buda".

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Além da melancólica história de amor do protagonista com sua falecida esposa, a emoção do filme também fica por conta da personagem Ariadne, feita pela sempre bem-vinda Ellen Page. É a personagem que se preocupa e desvenda os novelos afetivos em que Cobb envolve seus comparsas. Ariadne é a designer dos sonhos que serão implantados, cuja base são labirintos, sua especialidade. Aqui, as referências com a mitologia grega são óbvias, vista que a Ariadne mitológica é quem fornece o fio que permite que Teseu mate o Minotauro e escape de seu labirinto.

Os filhos de Cobb se chamam Philippa e James. A primeira parece uma citação a Philip K. Dick, cuja obra é totalmente voltada às relações intrincadas entre real e imaginário: todo "A Origem" é um tributo à obra de Dick. O segundo filho parece remeter a trinca de nomes ligados ao conceito de fluxo de consciência. O fluxo de consciência foi nomeado pelo psicólogo William James e versa sobre o contínuo de pensamento que ele nomeia de consciência. Seu irmão, o escritor Henry James, aplicou o conceito na literatura, que desdobrou em excelência com o "Ulisses" de James Joyce! "A Origem" é um fluxo de consciência onírico.

Philip Dick, personagem com o nome "James" são citações também presentes em "Lost" (ver: "Lost: Perdição e Redenção Contemporâneas"), seriado findo este ano com muitos parentescos com "A Origem". A citação mais óbvia que o filme faz à série é o vôo Sidney-Los Angeles, extremamente relevantes para ambas as tramas, mas também existem sequências de números que são chave para a história e, claro, uma ressonância intensa entre a apreensão da desconstrução da realidade e a redenção dos personagens.

No filme, em cada nível mais profundo de sonho, o tempo vai se dilatando, chegando em níveis onde o tempo pode se tornar infinito, correspondendo a minutos na suposta vigília. Assim como no conceito de virtual em Bergson (ver o texto "Devires"), cujo vértice do cone do virtual é o "presente" que passa e quanto mais se expande o cone - logo, o virtual - mais o tempo se torna atemporal, uma multiplicidade de tempos. Avançando no bergsonismo: se, para Deleuze, Hitchcock é a crise do cinema do tipo imagem-movimento (cinema de ação, linear), que leva ao cinema da imagem-tempo (filme atemporal, onde a ação é secundária e a vidência é o mais relevante); "A Origem" é a transição entre a imagem-movimento e a imagem-tempo.

A atemporalidade do filme fica ainda mais evidente através do personagem Saito, feito por Ken Watanabe. "A Origem" começa com uma cena de Cobb com Saito, este envelhecido; cena que é retomada quase ao final da película. Em outra cena em meio ao filme, o Saito jovem e ferido, diz a Cobb que "ainda se reencontrarão jovens novamente", o que mostra que os tempos dos filmes estão misturados em todos os níveis. Saito é o personagem-alteridade de "A Origem" visto que ele, em seus traços orientais, é quem demanda a trama do filme, clamando por não se permitir a criação de um monopólio, sendo ele próprio um mega-empresário. Como diria o personagem Arthur: "paradoxo!....". Além disso, Saito exibe em sua mansão, um quadro pintado por Francis Bacon, em que afirma-se sua preferência por pintores do pós-guerra. A estética de Bacon possui algo onírico, com forças agindo na imagem que indicam passagem, produção de Corpo sem Órgãos. Os cineastas do pós-guerra são os mesmos que produzem as imagens-tempo que citamos acima. Todas essas citações evidenciam de quais estéticas "A Origem" pretende emergir.

Os níveis oníricos presentes no filme ressoam entre si. Aqui aparece a fractalidade, ou a ressonância com o Princípio hermético da Correspondência: “o que está em cima é o que está embaixo”. Sobre a discussão das relações intensivas de sonho com a realidade ver “Cultivo Onírico” e “Ontologia Onírica” (é preciso lembrar que o slogan do filme é: "o sonho é real"). A partir desses textos, é tentador pensar em desdobramentos em uma trilogia para “A Origem”:
. “A Origem 2” - a busca incessante pelo nível derradeiro da realidade, Cobb e seus comparsas descobrem que não há uma realidade definitiva.
. “A Origem 3” - os personagens descobrem que a realidade é extremamente plástica e tudo o que se pensa, torna-se realidade, se liberta-se a mente. Essa idéia é em parte desenvolvida no conto: “Se concebe, então é” no blog “Druam”, ressoante com este.

Espero que o sucesso retumbante de “A Origem”, conseqüência tardia do sucesso correspondente da trilogia “Matrix”, anime Hollywood em investir em filmes que cada vez mais elevem o entretenimento em arte que conjuga pensamento e emoção. Mas, Nolan, com seu estilo de tênue lirismo, ainda não é o diretor que Neil Gaiman sonha para dirigir o tão esperado filme baseado em “Sandman”...

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