CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 30 de outubro de 2010

Hermetismo em Aberto


Ontologias Oníricas entre Magia e Ciência

Nelson Job
"De qualquer maneira, se eu tentasse sanar o atraso,
se virasse a memória do avesso para reconstruir este tempo,
quem iria avalizar a minha perícia?"
O quieto animal da esquina
"ah, não imaginas a confusão de instantes, tudo anda amalgamado em mim,
em mim tudo é pura massa informe, sem face que me distinga entre os demais."

Berkeley em Bellagio
"estou salvo, perdidamente salvo outra vez."
Lorde
João Gilberto Noll

Queremos eliminar a dualidade entre magia e ciência. Essas dualidade, como muitas outras, se solidificaram ao longo da História, gerando uma aparente "verdade". Agora, com auxílio de estudos das últimas décadas, é possível evidenciar que magia e ciência não são "opostas" e sim, um contínuo de saberes que encontram em nossos tempos a possibilidade de se darem as mãos sob uma nova perspectiva, agora compondo com os avanços que geraram a despeito de seu "desencontro" forçado, compondo assim um saber híbrido mais eficaz para compreendermos e agirmos em nossa época.


Entendermos, a princípio, o hermetismo como avatar da magia, principalmente a ocidental, para, em seguida, contemplarmos as obras de Paracelso, Giordano Bruno, Kepler e Newton, exemplos notáveis de conhecimentos oriundos e amalgamados de magia e ciência. Então, estaremos mais aptos a revelar o quanto a ciência moderna é permeada de intuições herméticas.

Hermetismo e os 7 Princípios


O hermetismo é difícil de situar historicamente, em consequência, se torna complexa a precisão do advento de seus principais conceitos. Segundo o médico britânico, coronel, maçom e um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada[1], William Wescott (2003) e o terapeuta, secretário do controverso Aleister Crowley e membro da Aurora Dourada, Francis Regardie (2008), o hermetismo surgiu no período helenístico[2] (323-147 a.C.) baseados em preceitos do Antigo Egito, especificamente, os do deus Thoth, uma divindade lunar que tem a seu cargo a sabedoria, escrita, aprendizagem, magia, medição do tempo etc. Do hermetismo originaram-se a alquimia e astrologia.

Para a historiadora Frances Yates (1964), os textos herméticos iniciam no século II ou III d.C. e não na remota antiguidade, como os magos da Renascença acreditavam. Dentre estes textos, se destacam as “Enéadas” do filósofo egípcio neoplatônico Plotino.

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O hermetismo recebe essa alcunha em função da figura de Hermes Trismegisto. Yates afirma que ele não existiu, já os textos alquímicos medievais colocam o advento de Trismegisto no mais tardar em 1800 a.C. no Antigo Egito. Sua figura se confundiria com o deus Toth, ora aparecendo como o próprio, ora como seu principal seguidor e difusor.

Modernamente, organiza-se os princípios básicos do Hermetismo em sete:
MentalismoTudo é mente e a matéria é força mental coagulada.
VibraçãoTudo está em movimento, tudo se move, tudo vibra.
RitmoTudo tem fluxo e refluxo, um movimento para frente e para trás.
PolaridadeTudo tem o seu oposto, o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza.
Correspondência – O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Existem três grandes planos: o físico (matéria, substância etérea e energia), o mental (mineral, elemental, vegetal, animal e hominal) e o espiritual, sendo que os sete princípios se encontram em todos eles.
Causa e EfeitoToda a causa tem o seu efeito. Os estudiosos do hermetismo conhecem os métodos da elevação mental a um plano superior, onde se tornam apenas causadores, e não efeitos.
GêneroTudo tem o seu masculino e o seu feminino.

Os cientistas magos da Renascença

O hermetismo obteve sua maior popularidade na Idade Média. Apesar do cristianismo[3] ter-se mesclado inicialmente ao hermetismo, na Inquisição, todo tipo de paganismo foi entendido como heresia pela Igreja, sendo seus praticantes convertidos ou condenados. A ciência - que também inicialmente possuía íntimas relações com o hermetismo - com o seu avanço, foi abandonando-o gradativamente.

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Theophrastus Paracelsus Bombast von Honenheim (1493-1541) foi um médico alquimista suíço, muito crítico da medicina de sua época. Segundo o ex-editor da “Nature”, Philip Ball (2009), a concepção de medicina e filosofia de Paracelso baseava-se nos hermetismo e neoplatonismo. Paracelso estudava a natureza para entender o corpo, o que revelava, com tais relações de micro e macro, a presença do Princípio de Correspondência do hermetismo.

Paracelso acreditava nos arcanos, incorpóreos eternos que tem o poder de transmutar os doentes. Esses arcanos combatiam doenças de calor com calor, frio com frio etc., o que veio, posteriormente, a influenciar os homeopatas, da máxima “similar cura similar”.

Com o advento do oxigênio de Lavoisier e sua química, diminuiu-se a influência de Paracelso. Ball discute o mito que essa “nova” química seria anti-Paracelso. De acordo com o autor, poderíamos supor que ele aplaudiria a descoberta do oxigênio. A grande perda da química é seu afastamento da filosofia, é o fato dela ter se tornado uma disciplina isolada, paradigma comum no Iluminismo. Paracelso ainda influenciaria a sinfilosofia dos Primeiros Românticos Alemães, ou seja, contribuiria no advento de uma nova filosofia “sinergética” que veio posteriormente influenciar o descobrimento do campo eletro-magnético.

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Giordano Bruno (1548-1600) foi um polêmico frade dominicano italiano, teólogo, filósofo e astrônomo, morto pela Inquisição. Influenciado pelo hermetismo e pelo neoplatonismo, era divulgador da arte da memória, uma técnica mágica de memorização.

Bruno (2008) afirmava no “Tratado da Magia”: “mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir”. Yates (1964) chama atenção para o fato de que o cálculo e a experimentação diferenciavam os magos renascentistas dos gregos antigos e teólogos da Idade Média e que essa disposição de homens como Bruno foi o germe que tornou a ciência tão poderosa.

Giordano Bruno conceberia filosoficamente um universo mutante, anímico, infinito e descentrado; sendo que as duas últimas características foram sustentadas pouco depois por Galileu Galilei. Esse último possuía diplomacia com a Igreja, diferente de Bruno, pois suas idéias pagãs e suas peças debochadas em relação à Igreja o levaram a fogueira em Roma, depois de um cruel processo de julgamento. O historiador da ciência Alexandre Koyré (1979) escreve: “foi Bruno quem pela primeira vez nos apresentou o delineamento, ou o esboço, da cosmologia que se tornou dominante nos últimos dois séculos”.

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Johannes Kepler (1571-1630) foi astrônomo, astrólogo e matemático alemão, que formulou leis da mecânica celeste que viriam ser muito importantes para a física newtoniana. Segundo o teólogo, ex-padre e especialista em geociência James Connor (2005), Kepler obteve grande fama como matemático imperial e como astrólogo, fazendo certeiras previsões, recebendo durante certo tempo a alcunha de profeta. Porém, ele sempre foi ambíguo em relação à astrologia, mas achava-a importante para apurar a astronomia. Sua mecânica foi decisiva para engendrar a de Newton, que tirou a importância da astrologia, relegando-a a guetos.

Kepler obviamente sofreu influência do hermetismo, citando longamente Hermes Trismegisto em sua “Harmonia do Mundo” (YATES-1964). A concepção kepleriana de harmonia era um misto de música, astronomia e, principalmente, geometria. Para ele, a harmonia - uma categoria primária da existência que permitia a experiência do mundo - oferecia acesso à mente de Deus.

Devido à sua peculiar fé luterana, Kepler negou, em sua obra, a concepção de universo infinito de Giordano Bruno e Galileu, utilizando-se de argumentos aristotélicos.

Sua mãe, Katharina – que era dada a costumes pagãos, fazendo poções de curas com ervas, mas não era propriamente uma bruxa – foi condenada e presa pela Inquisição já em idade avançada. Os esforços de Kepler permitiram uma soltura tardia, mas logo após, Katharina faleceu.

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Isaac Newton (1643-1727) foi físico, matemático, astrônomo, alquimista e teólogo. Segundo a historiadora Betty Dobbs (1984), Newton se dedicou principalmente aos estudos da alquimia que foi a principal inspiração para o seu conceito de “força”. É conhecido o discurso de Keynes (2002) dizendo que Newton não foi o primeiro homem da idade da razão, foi o último dos magos.

Na primeira edição do “Principia”, Newton explicitava a sua crença na transmutação da matéria. Com o advento de sua “Óptica”, ele retirou a afirmação do “Principia”, ficando apenas na primeira, considerada obra menor. Se Koyré acredita que Newton deixou de acreditar na transmutação, Dobbs afirmaria que ela está subentendida na obra-prima de Newton. É importante lembrar que Newton era muito influenciado pelos Rosa-Cruzes, e os mestres alquimistas exigiam segredo das descobertas. Koyré (2002) faria ainda uma crítica ao legado de Newton; ele teria posto o “movimento absoluto” no lugar do devir, gerando uma espécie de mudança sem mudança, separando o mundo em dois: o da quantidade, que seria o mundo da ciência e da qualidade, do nosso mundo percebido e experimentado.

Caberia a questão se Newton seria “newtoniano”: não, se alimentarmos a hipótese que Newton realmente acreditava na transmutação da matéria. Assim, Einstein e sua Teoria da Relatividade - que equivaleria matéria e energia - não apontariam o “erro” de Newton, mas recuperaria e desdobraria o Newton oculto.

O Hermetismo presente na Física Moderna

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Com a enorme difusão da física “newtoniana[4]”, a magia vai perdendo espaço na sociedade. Nos resta aqui, brevemente, elencar as ressonâncias com a magia que a ciência guarda, “ocultamente”. Vale lembrar que “ciência oculta” na Renascença, era a ciência do invisível, como seria hoje, por exemplo, a Mecânica Quântica[5] (BALL-2009): o prêmio Nobel Wolfgang Pauli fez psicoterapia supervisonada pelo médico suíço Carl Jung. Este ficou tão impressionado pelos temas alquímicos nos sonhos de Pauli que seu interesse gerou o primeiro livro de Jung (1991) sobre o tema. A amizade entre ambos gerou uma troca profícua de cartas (PAULI e JUNG – 2001) e um estudo profundo entre física e psicologia, culminando no conceito junguiano de sincronicidade (simultaneidade significativas entre inconsciente e o mundo), depois veio a ser corroborado em parte com a comprovação em laboratório do emaranhamento quântico (simultaneidade entre partículas distantes), ambos guardando semelhanças com o Princípio de Polaridade no hermetismo.

O Princípio de Correspondência também tem suas ressonâncias modernas em hipóteses relacionadas a autossimilaridade dos fractais (CLANTON-1997), tanto na cosmologia de Luciano Petronero (GEFTER-2007), em que todo o universo seria fractal, como na Triangulação Dinâmica Causal de Renate Loll (AMBJORN, JURKIEWICZ e LOLL) em que, no nível micro, quântico, a estrutura da matéria apresentaria características fractais. [Detalhes em "Fractais quânticos monádicos"]

A teoria de unificação das Supercordas (GREENE – 2005) - que supõe cordas como a menor partícula do cosmos cujas diferentes vibrações gerariam todas as outras partículas elementares do universo - possui uma imensa semelhança com o Princípio de Vibração.

Cópulas de uma Ontologia Onírica
Como vimos, o hermetismo está vivo e presente de forma "oculta" em vários aspectos da ciência. As confluências entre magia e ciência foram avançadas aqui. Para entender o quanto a filosofia tem um papel "diplomático", ressonante, relevante, vide "Ontologia Onírica". Pois é na Ontologia Onírica que habitamos nosso pensar e viver: amálgama mutante de saberes para além das dualidades, compondo uma transdisciplinaridade radical, que agrega em sua cópula cósmica o estranho, o inominável e o até então inconcebível.

Notas
[1] A Golden Dawn – misto de hermetismo, cristianismo, filosofia, ciência e teosofia - , foi fundada na Inglaterra em 1888 por membros da maçonaria, Fraternidade Rosa-Cruz e Sociedade Teosófica (REGARDIE – 2008).
[2] Segundo o egiptólogo Eric Iversen (1993), as trocas entre Egito e Grécia se originaram entre os séculos VII e VI a.C.
[3] O historiador Raphael Patai (2009) afirma que houve vários alquimistas judeus, dentre eles se destaca Maria, a Judia, que viveu provavelmente no início do século III d.C., criadora do popular processo alquímico, hoje largamente utilizado na culinária, banho-maria.
[4] Entendemos “newtoniana” aqui como algo adverso do Newton pensador.
[5] Prigogine e Stengers (1984) diriam: a Mecânica Quântica constrói a ponte entre essa ciência do ser e o mundo do devir.

Bibliografia
AMBJORN, Jan, JURKIEWICZ, Jerzy e LOLL, Renate “Universo quântico auto-organizado” in: Scientific American 75 ano 06, pp 28-35, 2008.
BALL, Philip, 2009, O Médico do Demônio – Paracelso e o Mundo da Magia e da Ciência Renascentista. 1 ed. Rio de Janeiro, Imago.
BRUNO, Giordano, 2008, Tratado da Magia. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.
CLANTON, Amy, 1997, Art, Science and Wholeness. in: http://www.hermeticgoldendawn.org/hogdframeset.html
CONNOR, James A., 2005, A Bruxa de Kepler. 1 ed. Rio de Janeiro, Rocco.
DOBBS, Betty Jo Teeter, 1984, The Fundations of Newtons’s Alchemy or, The Hunting of the Greene Lyon. 1 ed. Cambridge, Cambridge University.
GEFTER, Amanda, 2007, “Is the universe a fractal?” in: http://magickriver.blogspot.com/2007/10/is-universe-fractal-by-amanda-gefter.html
GREENE, Brian, 2005, O Tecido do Cosmos – O espaço, o tempo e a textura da realidade. 1 ed. São Paulo, Companhia das Letras.
IVERSEN, Eric, “A Tradição Canônica” in: HARRIS, J. R., O Legado do Egito, 1 ed. Rio de Janeiro, Imago, 1993.
JUNG, Carl Gustav, 1991, Psicologia e Alquimia. 1 ed. Petrópolis, Vozes.
KEYNES, John Maynard, “Newton, o homem” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
KOIRÉ, Alexandre, 1979, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. 1 ed. Rio de janeiro, Forense-universitária.
_______________ “O significado da síntese newtoniana” in: COHEN, Bernard e WESTFALL, Richard S (org.)., 2002, Newton – Textos . antecedentes . comentários. 1 Ed. Rio de Janeiro, UERJ/Contraponto.
PATAI, Raphael, 2009, Os Alquimistas Judeus. 1 ed. São Paulo, Perspectiva.
PAULI, Wolfgang e JUNG, C G, 2001, Atom and archetype – The Pauli/Jung Letters 1932-1958. 1 ed, Princeton, Princeton University Press.
PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, 1984, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB.
REGARDIE, Israel, 2008, A Golden Dawn – a Aurora Dourada. 1 ed. São Paulo, Madras.
WESTCOTT, William Wynn (org), 2003, Coletânea Hermética. 1 ed. São Paulo, Madras.
YATES, Frances A. 1964, Giordano Bruno e a tradição hermética. 1 ed. São Paulo, Cultrix.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Egrégora Conceitual

das potências clínicas do grupo de estudos
Nelson Job

Se não quero das palavras seu sentido, mas aquilo que carregam realmente, e do incêndio quero o fogo e não a rima, da sombra o escuro e não a posição gramatical (....) então seria melhor apagá-las todas, as palavras, uma a uma, às negras, pequenas aranhas, livrando o dicionário dessa mácula, e beber o que foi tinta até a boca ficar preta, e transformar a tinta em chuva, em tigre.
Nuno Ramos

Não se trata de acreditar nelas cegamente,
basta ler e comparar com as próprias experiências vividas.
Strindberg

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Trata-se de lutar. A preguiça existencial é, sim, um inimigo. Mas devemos entendê-la como os selvagens (elogio) o fazem, como inimigo imanente, ou seja: a preguiça existencial é minha inimiga, imanente à terra com a qual componho, e luto comigo-ela-preguiça nos tornando mais vida.

Já anunciamos em “Tripaterapia e "Feliz Dia do Despsicólogo" os problemas da psicologia de consultório, então, sem delongas: no dispositivo terapeuta-cliente em uma salinha claustro-fóbica de vida, o conceito tende a entrar pela tangente. A preguiça existencial impede que o conceito seja maturado, re-criado. “Ah não, quero é falar da briga que eu tive com a minha namorada, do meu cachorro" etc. O dispositivo do consultório se tornou a versão chique da aspirina: “falo do meu problema e fico bem; até a próxima consulta”. O terapeuta não quer ir fundo na sua vida, devido à preguiça, que ressoa com a preguiça dos clientes: cada um tem a relação terapêutica – devidamente existencialmente preguiçosa - que merece???

Já em “Uma Clínica do Clinâmen” anunciamos que a clínica, clinamen (re)dobra da vida, pode se dar em qualquer lugar, inclusive (provavelmente) fora do consultório. Vamos então proliferar a idéia de que a clínica tem mais chance de engendrar nos grupos de estudos; mas ambos, grupo e consultório, podem, é claro, coexistir...

Pode-se ter alguma preguiça, mas no grupo de estudos o conceito vai surgir de uma forma ou outra, vai ser esmiuçado, re-criado, incriado, mal-criado, desnaturado, maravilhado. E convida-se, em uma boa hipótese, a criar conceitos, mesmo que – e talvez, inevitavelmente – a partir de algum conceito anterior.

No grupo, o sujeito, sujeitinho, adquire mais facilmente o seu devido lugar: uma mera prostração da existência perante às relações. O grupo é relações: de afetos, conceitos, percepções, dores, crises, criações, amores, fé, medo, descrença, música. Brota-se sujeitinhos aqui e ali, devem ser abandonados, deixados a mercê do grupo, e se algum atrator quiser, que aproveite o sujeitinho na saída, pra comprar leite, e, terrivelmente, pra tirar onda na festa que “sabe” tal e tal conceito, tais e tais autores. Mas um atrator, embuído de uma Ética - conceito de sublime relevância a ser povoado no grupo - vai engendrar festa, ressoar a festividade, tarefas maiores, relevantes, que o grupo deve, a cada conversação, cultivar. O grupo enquanto festa, da festa conceitual para quaisquer alegrias. Pois o conceito só serve se aplicado na vida, copulado com a vida!

O atrator do grupo costuma ser um “sujeitinho” específico. Um bom grupo faz o atrator deslocar, de sujeitinho em sujeitinho, compondo um atrator fractal a todos os outros: o grupo de estudos em si. O facilitador ou (palavra terrível) coordenador, foi um sujeitinho que se torna uma força, um vetor do atrator, uma mônada que (trans)forma o grupo. E, de preferência, não (con)forma.

O grupo pode se encontrar em lócus específico, que também pode deslocar - alegria festiva do grupo - estuda-se conceitos na sala, mas também no cinema, no museu, no bar. Pode se deslocar no tempo em horários e durações diferentes, no intuito de alegremente fracassar em seu objetivo, porque só "fracassando" é que se instaura o devir: partindo-se de “A” (qualquer conceito) e esquisitamente não se chega a “B” (conceito qualquer), mas na pantera, na Monica Belluci, no Leonard Cohen, enfim, ao longo da imanência.

O grupo pode ter várias contrações da duração, um encontro, anos, minutos, deslocar atratores, atrair novos atratores, fazer ressonância com outros grupos, com outros saberes, com outros afetos e posturas. Sim, outros saberes, o grupo alegremente se alimenta da filosofia, da física, biologia, psicologia, antropologia, amarelinha, pintura, perversão, capuccino. O grupo é corpo, diz Nietzsche: “o lugar certo é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto é conseqüência disso...”, corpo esse que, é claro, dança: “não se pode excluir a dança, em todas as formas, da educação nobre; saber dançar com os pés, com os conceitos, com as palavras; ainda tenho que dizer que é preciso saber dançar com a pena – que é preciso aprender a escrever?” Então, os conceitos estão na vida, devém vida. A vida é o entre do grupo, que é corpo. Entra-se no grupo pela vida mais esplêndida, mais ética, cultivando o corpo de afetos, sobretudo de alegrias.


O grupo pode se embriagar; Deleuze se interessa pela operação henrymilleriana de se embriagar com o copo d’água: o grupo se embriaga de conceitos. A partir dos conceitos, a embriaguez pode adquirir inúmeros vetores, alterando velocidades e percepções, criando mundos. Cultivar mundos possíveis: tarefa perspectivista maior do grupo de estudos. Destruir o estatuto do impossível. Um grupo de estudos potente é um grupo hermético, é um grupo que engendra magia, assim como Heráclito enumera para quem ele profetiza: "para os errantes noturnos, os magos, os bacantes, as mênades, os mistas. (...) É sem piedade que se iniciam nos mistérios em voga entre os homens" e ainda, Giordano Bruno: "Em filosofia e entre os filósofos, esta palavra mago designa um homem que alia o saber ao poder de agir": relevância extrema de um pragmatismo conceitual, da aplicação dos conceitos na vida! Onde se declara uma impossibilidade, o grupo de estudos se instaura, com a alegria e ousadia de suas relações micro e macroscópicas, fundando um novo possível.



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