CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Guerra das Realidades (Nelson Job)

Prelúdio de uma Animanência


Criança: Se o Super-Homem tem capa e voa, então o Batman, que tem capa, voa também?

Nelson: Não, o Batman não voa. Só de Bat-avião.

C: Porquê?

N: Porque o Super-Homem veio de outro planeta, Krypton, e aqui, com os raios do nosso Sol, ele ganha poderes, como o de voar. O Batman é daqui e não tem poderes, a não ser a sua força de vontade e senso de justiça.

C: Isso é tudo de mentirinha, né?

N: Não, é tudo verdade. Na sua cabeça, na minha e de todo mundo que vê ou lê as histórias deles.

C: Na minha testa??????

N: Quando eu digo “na sua cabeça” é quando você tá pensando. O Batman não anda aqui no meio de nós, mas existe no seu pensamento.

C: Não! Não! É de mentira.

N: Deixa eu te mostrar como funciona. Você conhece algum cavalo azul?

C: Não.

N: Então, fecha os olhos e pensa em um cavalo azul.

C: Pensei!!!

N: Agora deixa crescer duas asas nele.

C: Hi! Agora ele tá batendo as asas! E não preciso ficar de olho fechado! Agora ele tá voando!!!

N: Agora você entendeu! O cavalo azul voador não existe aqui, nesta casa, a gente não anda nele. Mas ele existe quando você pensa nele.

C: Entendi!!!



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Ora, se Gregory Bateson pode, eu também posso! Inspirado nos famosos “Metálogos” do antropólogo etc, transcrevi esse minha conversa acima com uma criança de 3 anos como fractal deste texto.

Quando essa criança diz “isso é tudo de mentirinha”, todos os dados estão lançados. Todas as teorias vencedoras e derrotadas na história do pensamento estão em questão e cabe a quem responder repetir a tragédia ocidental ou dar um novo rumo para esta Guerra.

Digamos que eu respondesse que sim, tudo aquilo é mentira. A ficção é mentira. Eu estaria enfatizando os piores aspectos do saber ocidental, afirmando que só a natureza existe e a cultura é da ordem do transcendental, ou pior, não existe ontologicamente. Estaria separando Natureza e Cultura e por conseqüência, corpo e mente, sujeito e objeto, real e imaginário e inevitavelmente, ficção e história. (maiores detalhes desse “separatismo” e de uma filosofia que não opera com essa ênfase, ver “Devires”).

Quando eu digo que os (super)heróis existem no pensamento, estou, com isso, dando um estatuto de realidade para a ficção, uma materialidade, ainda que suave, tênue, para o pensamento, juntando Natureza-Cultura e todas as outras dualidades implicadas.

Uma criança que tem a ela negada desde cedo sua capacidade de fantasiar, ou, ainda que relegada esse fantasiar ao estatuto de “mentira”, é retirada de um cosmos amplo, carregado de possíveis, rumo a um universo pobre, cercado de impossíveis, sem encantamento. Encantar o mundo é uma política, ainda que, muitas vezes, sutil. De um lado, a filosofia “vencedora” do Ocidente, que transcende em vários âmbitos: o pensamento (o platonismo e seu mundo das idéias, o cartesianismo), Deus, deuses (a Escolástica), a experiência direta, ontológica de mundo real (Kant). Nos restaria um mundo do inatingível, a não ser pela ciência, que, a despeito de suas inúmeros ganhos, resulta em um mundo transformado em números. Se Newton era alquimista, seus seguidores aproveitaram uma parte bem limitada do mestre, colocando as equações como operações que se tornaram mundo (ver “Hermetismo em Aberto”). Positivismo. Cientificismo. Funcionalismo: “se funciona, então funciona”.

As conseqüências do mundo desencantado, nós todos conhecemos: drogadição (tentativa química desesperada de encantamento), depressão (visto que a melancolia era o estado anterior ao deslumbramento mágico: no desencantamento, a melancolia degenera em depressão, mundo cinza, cinza, cinza), poluição (se eu não sou Natureza, então, destacado do cosmos formando uma dualidade, eu não me importaria com o que “sobra”: poluição – obviamente a ecologia nasce do reencantamento anímico: Gaia, tanto faz se dos antigos gregos ou de Lovelock) e crise econômica (se de todos os valores, apenas sobra o capital, uma auto-organização se impõe de forma desesperada: a crise é a emergência de uma reviravolta dos valores, tão sonhada por Nietzsche – o Haiti se tornará onipresente? A importância da pessoa não é mais ressoante com a sua conta bancária, visto que ela não existe - ou não existirá? - mas sim o que você faz, como você faz).

Os atravessadores de Deus se espalharam pela história. Se no paganismo mais “primitivo” Deus respirava nas árvores, rios, pedras e onças, do xamã para o papa existe um longo processo de afastamento pela humanidade de Deus, sendo Este apenas acessível a alguns poucos atravessadores: padres, gurus, mestres. Se o Budismo resgatou a nossa possibilidade de encontro direto com o Incomensurável (ver "Êxtase em Devir"), já prefigurado nas linhas do Bhagavad-Gitã; o catolicismo (pela fé) e sua Escolástica (pelo pensamento) tratou de cortar esse elo no Ocidente, assegurados pela Inquisição e sua típica misoginia (ver “A Era do Conjugalismo”) (pela eliminação de bruxas herméticos-pagãs). Estava (quase) garantida a posse do mundo desencantado, com Deus(es) distantes e atravessadores manipuladores ricos e poderosos.

A magia das bruxas queimadas, o pensamento oriental, a filosofia em devir supostamente derrotada e uma ciência ainda emergente e misturada à alquimia hermética de Kepler e Boyle nos levou ao espinozismo. Colocando Deus de volta a Natureza e equivalendo-os à mente, a “Ética” de Spinoza é um trato filosófico-geométrico-hermético, mas sem as limitações do paganismo antigo. Spinoza, e, de outra forma, Leibniz, ambos contra a febre dualista cartesiana, fundam um neo-animismo (ver "Animismo Vivo") um neo-paganismo, reunindo o melhor de dois mundos: uma certa ciência (ainda que hermética), uma certa filosofia (do devir, historicamente “derrotada”) e uma certa magia (sem dogmas, ou, no caso de Leibniz, quase sem dogmas). Ambas as filosofias criam o paralelismo, juntando pensamento e Natureza em um mesmo composto em devir. Leibniz pulula olhares nos cosmos com as mônadas e Spinoza afirma que da substância univocamente desdobram, dentre infinitos atributos, a extensão e o pensamento, em suma: Natureza -Cultura imanentes.

Mas esses dois avatares de um novo pensamento ainda seriam quase esquecidos. Precisariam ainda de uma intempestividade nietzschieniana, uma virtualidade bersgoniana, uma filosofia orgânica de Whitehead, uma ontologia quântica (ver “Diferenças Emaranhadas”) para adquirir a robustez que tem em nossos tempos (ver: "Ontologia Onírica"). A mecânica quântica é um ótimo exemplo de clamor por novas ontologias: de tanto a ciência explorar a matéria tentando aristotelicamente lhe “enquadrar” em alguma taxionomia universal, vem os quanta pra berrarem em todos os ouvidos surdos de ceras-diques no devir que a natureza se vingou do enquadramento: “somos loucos, estamos aqui e, simultaneamente, em todo o Cosmos!”.

Com essas armas podemos tomar parte na Guerra das Realidades. De um lado, o mundo “desanimista”, onde heróis não existem, Deuses carecem de downloads cósmicos hierarquizados, “elitizados” e um pensamento que não afeta a carne. De outro, um mundo (re)encantado, onde, segundo o espinozismo e seus desdobramentos, ser é um e múltiplo, somos todos nós, cuidar de mim é cuidar do mundo, cuidar do outro (que também sou eu) é, obviamente cuidar de mim. E somos Deus. Somos deuses. Somos Cosmos. Somos o Tempo, os tempos e o atemporal. Nossos “eus” são apreendidos como atratores. Nossas armas são nossos conceitos e nossa prática: a de engendrar vida mesmo que seja no desencantamento, reencantando-o. A Guerra das Realidades se dá, como vimos, até em uma simples conversa com uma criança, mas também no trabalho, no lazer, na dança. Sobretudo na dança: “só posso crer em um deus que saiba dançar”, diria Nietzsche.

Mas esses “lados” são só aparentes. A Guerra das Realidades não tem “lado” vencedor ou perderdor. Isso seria recair em mais um dualismo. Ela apenas quer acrescentar no mundo uma polivisão, uma cosmovisão, em detrimento de um pensamento único, desanimista. Queremos povoar e pulular o cosmos de multiplicidade. Não ganhar a Guerra, mas re-movê-la infinitamente. Nesse sentido, Heráclito já havia alertado que não há paz. O desejo de paz é o desejo do pensamento único, estático. Na Guerra das Realidades, o “outro lado” é a Paz da Realidade Única Desanimista. Até podemos adquirir uma certa serenidade, uma serenidade estranha, em devir, rumo ao terceiro gênero de conhecimento cunhado por Spinoza: aumento de potência, alegria e consciência cósmica – amor de Deus por si mesmo (ver “Amarnifesto”).

Claro que toda a luta por “direitos humanos” tem o seu lugar, pelas minorias racials, sexuais e financeiras, mas esta é uma luta que mantém o Pensamento Único. A "raça" é um conceito menor diante até mesmo de uma ciência convencional. O conceito de “raça” não tem consistência científica. A sexualidade também, separada em taxonomias também precisa ser repensada cientificamente (como já é feito em alguns guetos acadêmicos): o homem tem aspectos femininos e a mulher aspectos masculinos – os corpos de cada gênero tendem fisiologicamente ao outro. A oposição "homem X mulher" é uma tolice. As práticas sexuais também: não existem heterossexuais, nem homossexuais: só existem pansexuais - seres que copulam com outros seres: sejam eles humanos, capitalísticos (economistas, bancários, acumuladores que copulam com dinheiro), gastronômicos (glutões de junky, fast, green ou qualquer mais ou menos sofisticada food, cujo prazer sexual advêm obviamente da comida), ficcionais (onanistas, artistas, contempladores que copulam com o imaginário). O freudismo já dizia que a criança nasce perverso-polimorfa. O problema é que a sociedade genitaliza essas crianças. Assumir uma imanência, um devir é assumir um pansexualismo, mas podendo lidar com as tendências (heterossexuais etc) e clamando por uma ética. Nenhuma relação de quaisquer corpos, humanos ou não, deve resultar em destruição, e sim, em conhecimento do terceiro gênero espinosista.

A reencantamento do mundo (falhado pela escola de Frankfurt, mas com um belo legado: a filosofia de Walter Benjamin) tem a sua urgência decretada por todos os cantos onde brotam devires mágicos (“Senhor dos Anéis”, “Harry Potter” etc), vampíricos (“Drácula”, “True Blood” etc), fusões entre magia e ciência (Dr. Destino, “Duna”, “Star Wars”, “Ugly Americans”) e realidades tranfiguradas, multifacetadas (toda a obra de Neil Gaiman e sobretudo, de Philip K. Dick e derivados cyberpunks como “Matrix” [ver “Ontologia Onírica”], no cinema de Charlie Kaufman [ver "Um Clamor ao Popcinema"] e até em “A Origem” [ver “Inserção em ‘A Origem’”]). Quando o filme 3D invade a sala de cinema, se torna mais uma ressonância da urgência de uma presença maior do virtual no atual, de expansão do virtual, do imaginário habitar uma ontologia, de povoar as realidades.

Não assuma “lado”, não acredite nas partes: fractalize-se. Rume em direção ao âmago da imanência, ao âmago do neo-animismo. Pura Animanência. Habite os cosmos, sendo todos nós. A Guerra das Realidades já começou há muito tempo. Adquira consciência dela. Seja Cosmos e Consciência!


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