CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 1 de maio de 2011

Sexar

Estocadas conceituais heraclitorianas
Nelson Job
“Fui tendo, no elástico tempo de piração, uma série de experiências iluminadoras, a saber: um satori budista, uma epifania cristã, um insight gestáltico, uma visão fugaz do zeitgeist hegeliano, uma regressão freudiana aos confins do útero materno, um tchans hippie mutcho lôco, bitchô e um súbito atravessamento lacaniano do fantasma. Saquei de chofre a verdade, a insofismável e macluhaniana verdade”
“Pornopopéia” Reinaldo Moraes


"Druuna" Serpieri

“Não Freud comigo” uns diriam, tal coisa é foodaaa, diriam outros; a questão é que o sexo e a sexualidade é um problema tremendo no Ocidente e quando digo “Ocidente”, digo de práticas falocêntricas que assolam todo o planeta, para além da localidade. Se em países do Oriente Médio a burca foi um acordo possível, aqui ela tende a ser proibida por ocidentais com síndromes ditatoriais.

A questão da burca nos parece quase simples: mulher, você controla seu feminino mais louco, enquanto isso a gente cria nossa cultura. Daí saem uma matemática que tomou conta do mundo, uma apologia aristotélica. Vatsyayana, em seu clássico “Kama Sutra” diz que tem hora pra tudo: arranhões, tapas, xingamentos. E nós demoramos séculos pra chegar no “um tapinha não dói”... Sim, chega-se ao ponto de cortar o clitóris em tribos, arroubo primitivo (sem aspas mesmo) de controlar o feminino. E aqui(s?) no Ocidente?

“Culturas” patriarcais, misoginias cristãs, família espartana... várias foram as pegadinhas para se controlar o feminino. Se a Pomba-Gira ganha nas religiões africanas o seu “devido lugar” pra ver se não dá problema fora dos rituais, aqui se “expulsa” alguns demônio(a)s, sendo chamada por histéricas nos redutos psicanalíticos. Se a psicanálise tenta controlar o feminino TRANS-loucado pela razão, dizendo a ela que é feio querer a piroca alheia, Almodóvar faz algo muito melhor e eficaz. Na psicanálise, se ensina que “nossa cultura é falocêntrica mesmo, menina, larga de ser invejosa e assume sua vaginidade”; Almodóvar faz um cinema andrógino cujo maior avatar é, a/o travesti Agrado, de “Tudo sobre a minha mãe”. Com isso, Almodóvar faz pra sexualidade dos 90 o que Woody Allen fez pra de 70, elaborou os dilemas sexuais da época. Se Allen sai da moral judaica debochando da vida, realizando o desejo de forma envergonhada e culpada; Almodóvar sacode a moral cristã legitimando o desejo em suas até então aporias, afirmando que se é por amor, então vale, desde que você esteja pronto - seja freira, gay, travesti, um simplesmente e loucamente apaixonado - para lidar com as mais imponderáveis consequências.

Jung saiu pela tangente da (supostamente) excessiva problemática sexual de Freud, afirmando alquimicamente a união de opostos: saída sublime, mas que gerou, inevitavelmente, uma perda gigantesca de reserva de mercado, alcance, desdobramento. Se as psicanalistas se vingam das interpretações psicanalíticas mais interessantes transformando o mundo todo em um grande devir-histérico, as junguianas sublimam o falocentrismo gozando com os falos enrugados do Velho Sábio. A vingança do feminino tomando posse do saber dos grandes teóricos terapeutas é grande e avassaladora, tomando conta de grande parte dos terapeutas “masculinos” também, histéricos até mais graves. Mas a clínica sobrevive da grandeza de poucos, que se lançam corajosamente na Terra de Ninguém ao usarem os conceitos apenas como trampolim pra ajudar o cliente em seu processo e com isso, enriquecer suas experiências existenciais também. (ver: "Feliz dia do despsicólogo")

Guattari chamou atenção que Freud descobriu as máquinas desejantes. Freud tem essa mania: dá 2 passos pra frente e 1 pra trás, mantendo a genialidade e castidade ao mesmo tempo. Freud sacou que tudo é sexual, no sentido que tudo é relacional. Isso vai evidenciar que a dualidade amor/sexo não faz sentido, mas é apenas questão de gradação: o sexo como densificação do amor. Melhor parar por aí, porque depois a psicanálise vai, quase literalmente, enfiar o pau atrás em todo o sexual, genitalizando simbolicamente tudo que tem por aí. Melhor entender essa acepção mais profunda do sexar com a relação em Whitehead: relação de relações cósmicas, em que qualquer relação é no mínimo entre 3 – a relação que se trata e seus 2 termos em que também são, por sua vez, relações. Imagine você, relações de órgãos, células, gens etc relacionando com esse texto, relações de letras, palavras, papel, carbono ou pixels e silício.

A criança é perversa polimorfa pra psicanálise, mas a sociedade, “ainda bem”, genitaliza, ensinando o que fazer direitinho com os pedacinhos de corpo devidamente juntados na fase do espelho. Acontece que perverso polimorfo é o estado mais interessante, em que o prazer pode ser exercido de qualquer forma. O problema aqui, de gerar Corpo sem Órgãos (pra usar um léxico deleuziano) não é ter um corpo sujeito a vários devires, isso é altamente desejável, o problema é criar um corpo não-falocêntrico e superar os problemas disso em uma sociedade falocêntrica. Toda uma questão de política dos desejos profundamente ética. Pra além do Kama Sutra: arranhões e gritos não tem o seu devido lugar, mas qualquer lugar desde que sejam éticos, em seu sentido mais espinozista.

June Singer, em seu espetacular “Androginia” caminha com desenvoltura em uma Psicologia Analítica da sexualidade - por onde Jung evitou - nos dizendo acerca do andrógino: “O novo andrógino não se sente confuso quanto à sua identidade sexual. Homens andróginos manifestam uma sexualidade masculina natural, espontânea e desinibida, enquanto mulheres andróginas podem ser totalmente femininas em sua própria sexualidade. No entanto, nenhum tende a extremos; os homens não ostentam uma atitude machista, nem as mulheres fingem um caráter ingênuo e dependente. (...) Os indivíduos andróginos deixam que essas repressões se esvaeçam, no intuito não tanto de preparar terreno para a liberação de seus impulsos sexuais, mas sim de permitir que o que havia sido reprimido possa voltar a ser reintegrado à percepção e cognição conscientes”.

Nossa questão envolve sempre uma saudável "heterossexualidade", no sentido que sexar é, por definição, com a alteridade. Se eu mudo, muda outrem como qual copulo, ontologicamente é impossível uma "homossexualidade", pois não existe o mesmo, menos ainda sexo com o mesmo. Mas, o que se faz por aí são cópulas com pedaços de genitais, geralmente com psiquismos masculinos com masculinos: a sociedade falocêntrica transformou as mulheres em seres masculinizados, daí a enorme necessidade de devir-mulher, de feminar (ver: A Era do Conjugalismo). O maior avatar da mulher hominificada é Angelina Jolie, exemplo contemporâneo de beleza e atitudes femininas, que se especializou no cinema a explodir objetos e bater em todo mundo. Não espanta, diante disso, que sua filhinha queira se tornar homem...

Não importa que aquele corpo seja “homem” ou “mulher”, mas que estes corpos se remetam pra diferença, pra alteridade. Mas nos alertamos com o homossexualismo ressentido “sou gay pra sacanear meu pai juiz e castrador; gozo com a decepção fálica...”. Grande parte da bicha-lôca estereotipada, vem de ressentimentos desse porte.

A problemática das doenças sexualmente transmissíveis carrega essa questão. A AIDS é uma consequência psicossomática da “revolução” sexual: trepe com qualquer pessoa, mas trepe... Diremos: escute seu corpo, relaciona-se com desejos profundos, ame: amor é pra além do Ego (ver “Amarnifesto”), apenas genitalizar é preguiça existencial. A impotência: de um lado, histeria masculina (vou te seduzir, mas não vou te comer...), de outro, puro ato de ação anti-falocêntrica (vamos gozar com criatividade!). A paudurecência é possível quando o Homem sofre uma degeneração existencial em Apenas Pau, como geralmente acontece em filmes pornôs e na pegação juvenil (de todas as idades), ou quando, no homem, o pau pouco importa, sendo mais um vetor entre outros, no mais puro e belo sexar. Se não estamos interessados na primeira por ser uma impotência (no sentido espinozista) secular, nos dedicamos à segunda, atividade maior. A frigidez é a resistência diante do falocentrismo: sensibilize todo o corpo, todos os corpos são sexuais-relacionais. Daí os fetiches com objetos. Problema nenhum, desde que eticamente (e sexualmente) aumente a potência.

O áudio-visual norte-americano está tomado pela ressaca da “revolução” sexual, quase toda história começa com um assassinato e/ou estupro, crime que será devidamente resolvido por um anti-herói solitário. A violência contra a mulher é a pior ressaca da “revolução”, entendido que já existia antes, mas agora ela se fetichizou de vez, cinematograficamente... Urge, então, uma necessidade artística de sexar: devires-almodóvar, devires-bukowski, devires-manara, devires-wild(e). Produzi alguns "exemplos" "ficcionais": "Tão óbvio mistério", "Pornoema", "Alteríntimo"...

Marilyn Strathern, no maior tratado sexual de todos, o antropológico “O Gênero da Dádiva”, nos convida o aprender com os melanésios: o órgão sexual é apenas sexual no ato de copular. O gênero “homem” ou “mulher” só faz sentido no ato sexual, a sociedade não é pensada através de gêneros. Os seres são fractais à toda tribo, pois cada venda de objetos manufaturados leva consigo o ponto de vista monádico de seu criador, implementando-se no novo dono. O sexo entre os melanésio é uma cópula fractal da tribo com a tribo!

Pensar os seres como personas sexuais é um vício do pensamento psicanalítico. Já viu um “heterossexual” passando por aí? Como você o definiria? Se definirmos alguns “bissexuais” e “homossexuais” é através dos mais estúpidos estereótipos. Os atos do dia a dia não são definidos como a pessoa usa sua genitália, mas por singularidades e idiossincrasias que são peculiares, tem um afeto específico, uma história. Existem sim: gastronomossexuais, futebolsexuais e principalmente, capitalsexuais. Há séculos, seres (des)humanos copulam COM E POR dinheiro, realizando atrocidades, desvios de conduta, todo tipo diminuição de potência por can(ib)alizarem sua libido no dinheiro.

Não há nada mais sexual que um padre em pura epifania cristã, um monge taoísta imerso em pleno Tao, um budista meditando em impermanência, ou um artista em puro devir criativo, variações de sexo não-genital, porém cósmico. Não existe "estado sexual" definitivo, mas sexualidade em devir.

Sexar é ato cósmico, gerando vida na vida, potência de existir. Não existe “forma” certa, ou conduta protocolar, apenas Ética, que se fecunda no sexar. O orgasmo é a memória do Uno, o Uno é o orgasmo cósmico. Múltiplo que copula entre si, num fogo heraclit(or)iano que arde em orgasmo Uníssono, Cosmos Relacional. Todo dique no devir é diminuição do relacionar, foda cósmica mau dada. Let`s do it again e pergunte: “foi bom pra você-nós”?


Manara