CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

domingo, 28 de agosto de 2011

Grupo de Estudo: Deleuze & Mística

"Mas o que você sabe de mim, uma vez que eu acredito no segredo - quer dizer, nas potências do falso - mais que nos relatos que revelam uma deplorável crença na exatidão e na verdade?"
"Conversações" Gilles Deleuze


"Deus não é o criador do mundo, é o poeta do mundo."
"Process and Reality" Alfred North Whitehead


"Porque na realidade ninguém permanece inativo um instante sequer, pois todo homem se vê impelido à ação, ainda que a despeito de si mesmo, pelas qualidades que brotam da natureza material."
"Bhagavad Gita"



Apesar do filósofo Gilles Deleuze pouco falar da mística e sequer tocar no Hermetismo, tais saberes possuem profundas ressonâncias com a Filosofia da Diferença. Em "Diferença e Repetição", místicos neoplatônicos são convocados para o filósofo fazer a reviravolta criativa em sua obra. Mais tarde, ele voltaria ao tema, fazendo uma ode ao paganismo em "Crítica e Clínica". Existem rumores que Deleuze escreveria um último livro acerca de Plotino. Se de um lado, Plotino, filósofo-místico por excelência, influenciou profundamente 2 das maiores influências de Deleuze - Spinoza e Bergson - por outro, em seus 7 Itens do Simulacro (onde Deleuze cartografa toda a sua ontologia, segundo Manuel DeLanda), fica evidente a relação dos itens com os 7 Princípios do Hermetismo. Bergson, por sua vez, tem livros como a coletânea "A Energia Espiritual" e sua última e definitiva obra "As 2 Fontes da Moral e da Religião", cujos títulos já falam por si. É possivel também relacionar os principais conceitos de Deleuze com os Arcanos Maiores do tarô. Neste módulo do grupo de estudos "A Egrégora Conceitual", estabeleceremos as ressonâncias entre Deleuze e Hermes Trismegisto, entre a Filosofia da Diferença e a mística.

O grupo de estudos A Egregóra Conceitual se reúne em uma sala em Botafogo próximo ao Botafogo Praia Shopping, todas as terças, das 19:00 às 21:00. O valor é estipulado pelo próprio participante. O facilitador é Nelson Job (psicólogo, professor e doutorando do HCTE/UFRJ).
Início do módulo "Deleuze & Mística": 06 de setembro - 2 meses de duração
Contato: nelsonjob1@yahoo.com.br e (21)8646-8905

Bibliografia Opcional:
. "Coletânea Hermética" W. Westcostt (org)
. "Introdução: Rizoma" in: "Mil Platôs 01" e "Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível" in: "Mil Platôs 04" Deleuze & Guattari
Ótimo texto acerca de Deleuze e a feitiçaria: "Memories of sorcerer" Matt Lee


Próximos módulos: "Consciência Quântica" (novembro) e "O Devir da Literatura em Philip K. Dick" (dezembro)


"Deleuze & Mística" no Facebook:

sábado, 20 de agosto de 2011

Desapologia ao Refúgio


Esse texto também foi publicado em Druam
pois aqui se fundiram plenamente pensamento e arte


Por: Nelson Job



Só há refúgio fingido.

Pois sim, as Luzes. Ficamos viciados nas luzes, seja as da razão, seja as que iluminam a noite, prática fatigante de Iluminismo. A Noite guarda segredos desveláveis, mas as luzes os afastam. Se adentrássemos os mais profundos obscuros da Noite, não precisaríamos nos preocupar com a energia. Ela tem fim? As luzes como refúgio é a falácia mais costumeira. Vício de consciência. Pois nem apreendemos o Inconsciente em sua plenitude. Há tantos belos por lá... (ver: "A Ontologia Onírica em Devir Pós-Natureza")

Claro, o amor. Eheheh... perdoem-me se pareço debochado, mas o “desamor” é vendido por trágico, mas é apenas patético. Confunde-se meio e fim. Os seres não são “objetos de amor”, mas o meio para o amor que nunca foi fim, muito menos refúgio, todo o contrário, o amor que pulula entre os seres, o Amor Cósmico, não refugia nada, é puro Impulso. (ver "Amarnifesto")

Sofregueio; então, corro pro seio da família. Se todos nascem das mães, essa imensa linhagem materna só indica que todas foram copuladas pela linhagem paterna, evidenciando o cosmos como grande trepada cósmica. E eu perco tempo em me refugiar na família? Rascunho mau feito das cirandas dos ventos?

A quem grasne a relevância da sociedade. É muito Tarde pra entenderem, Gabriel? A sociedade fractaliza as relações: relações hídricas de hidrogênio com oxigênio, relações gramaticais de poesia e verbo, relações sexuais de alma e corpo. O Amor, tal qual o socius, são a Relacionalidade elevada infinitamente ao Infinito. (ver: "Devires")

Refugiando nas leis do socius, apenas se acovardam diante do Impulso, quase incessante, acontecente. As leis fingem seriedade, mas são tristes brincadeiras em que repousam os amedrontados. As leis são organizações contextuais agrupadas após o Terremoto. Ah! Que venha o Próximo! Que me ensine a dançar melhor!


Vamos então às preces? Ora, as religiões - quando muito - apenas servem pra nos Religar ao Impulso. (ver "Êxtase em Devir")

Há quem diga: a arte, mas ela nunca se prestou a refúgio, talvez refúgio dos não-refugiados, aqueles que pouco se importam com isso. Quem busca refúgio na arte não a entende, e ela não se dá mesmo ao trabalho...

Busquei uma vez o refúgio em mim, só pra redescobrir tudo o que disse agora.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Scientiarum Historia IV: Ontologia Onírica

Participarei do Congresso Scientiarum Historia IV do HCTE, com 2 trabalhos. Para detalhes do Congresso, que será na UFRJ (Fundão) entre 19 a 21 de outubro:

O primeiro será juntamente com Virgínia Chaitin, "Seria a ciência mágica e a filosofia mística?", dia 19-10, quarta-feira, sala 04, das 16:30 às 18:30, compondo a mesa Estudos sobre ciência e epistemologia.

O segundo será "Ontologia Onírica: rumo a um estatuto de realidade do sonho", sexta-feira, dia 21-10, sala 04, das 14:00 às 16:00, na mesa História da Ciência da mente.

Seguem os resumos:

Seria a ciência mágica, e a filosofia mística?



Pretendemos com esse trabalho relacionar duas ressonâncias: a da magia com a ciência e a da mística com a filosofia, compondo uma inusitada “regra de três”:
magia – ciência
mística – filosofia
O antropólogo Marcel Mauss afirma que a magia é “a ciência por nascer” pois lida com o concreto, sem, no entanto, lidar com uma metafísica e um culto, o que a diferencia da religião. Já o filósofo Henri Bergson afirma que a religião interpenetra-se na magia enquanto fechada, pois é egoísta e não se preocupa com a Totalidade, mas a magia lança mão dos espíritos para realizar os seus nexos causais, que serão desenvolvidas pela ciência, obviamente sem o intermédio espiritual. Já a filosofia, que em seus primórdios dialogava com a religião, vai-se distanciando desta, tornando-se majoritariamente, no Ocidente, destituída de religiosidade.  A mística, entendida por Bergson como uma religião dinâmica, experiencial, vai estar presente em uma filosofia que corre paralelo na história do pensamento. Platão tem aspectos místicos que serão extremamente desenvolvidos no neoplatonismo de Plotino, Jâmblico etc. A partir daí, toda uma vertente mística da filosofia se desenvolve, influenciando o Hermetismo, pensamento místico que atinge seu esplendor na Era Medieval. Se a ciência e a filosofia Ocidental majoritária pouco dialogam com o espiritual, culminando em saberes dualistas, organizando o Caos, a magia conta com o Caos para se realizar e a mística permite-se tornar Caos, agora apreendido de outra forma, única. Toda uma filosofia minoritária desenvolve-se em ressonância com a mística, cuja vizinhança se estabelece de forma gradual: Estóicos, Spinoza, Bergson. Os dois últimos tem também uma influência da ciência de Kepler e Einstein, respectivamente. Analisando as ressonâncias e dissonâncias destes diferentes saberes e autores, pretendemos estabelecer relações específicas em termos gerais como, por exemplo: o mecanicismo da magia e o da ciência e a vivência da mística e da filosofia; a espiritualidade da magia e da mística e o racionalismo fechado da ciência e da filosofia ocidental majoritária. Partiremos, então, dessa “regra de três” em direção a um estudo das regras de racionalidade envolvidas, considerando diversos aspectos característicos, tais como: premissas ontológicas, agentes causais, lógicas de associação, redes conceituais, processos de verdade e a posição dos sujeitos desses saberes em suas práticas. A partir desse estudo, pretendemos delinear uma proposta de como nos relacionarmos com esses saberes para produzir de forma transdisciplinar uma nova forma de saber que emerge consistente, dinâmico e aberto.









Yerka
 Ontologia Onírica
rumo a um estatuto de realidade do sonho


Para texto completo, clique AQUI



A teoria dos sonhos se encontra domesticada. De um lado, a psicologia se limita aos seus aspectos simbólicos, de outro, a neurociência tende a colocá-la como apenas um guardião do sono, desprovido de significados profundos. A filosofia pouco fala do assunto. Alguns outros saberes necessitam serem chamados à nossa composição: a antropologia, que mostra como os sonhos podem ser extremamente considerados nos processos xamânicos; o saber hermético - como em Agrippa - e o religioso, que, tanto em sua faceta ocidental como oriental - no Taoísmo, Budismo etc - delegam ao sonho uma importância considerável. Se Freud trouxe a interpretação dos sonhos de volta a relevância na modernidade, mas castrou-o à repressão do desejo, Jung tratou de expandir seus sentidos, considerando não só seus aspectos simbólicos, mas também preditivos e criativos, dizendo inclusive, de forma não sistemática, que o sonho é natureza. Já a filosofia de Bergson, com seu original conceito de virtual, dão elementos para uma nova teoria dos sonhos, agora com um estatuto ontológico. Porém, quando este se põe a escrever - talvez assoberbado pelo então recente advento da psicanálise - sua abordagem onírica fica aquém do freudismo, sendo que o próprio Bergson evidenciaria os limites da psicanálise perante a sua filosofia anos depois, mas sem tocar no tema onírico. Guattari, munido de sua esquizoanálise, conseguiu trazer novos elementos não-interpretativos mas, sobretudo, experimentais, para a abordagem clínica dos sonhos. Agora, aliado com a proposta de consciência quântica de Penrose e Hameroff - que relaciona os sonhos com um funcionamento quântico no cérebro – e uma abordagem da neurociência menos reducionista, como a de Sidarta Ribeiro, se anuncia uma maior consistência a confluência de uma filosofia bergsoniana - tanto remetida às suas inspirações em Plotino, Spinoza, Leibniz etc, quanto aos seus desdobramentos em Deleuze e Worms - para efetivar uma nova teoria dos sonhos, que insinuaremos seu porvir aqui.






Bibliografia

AGRIPPA DE NETTESHEIM, Henrique Cornélio, 2008, Três livros de Filosofia Oculta. 1 ed. Madras editora, São Paulo
BERGSON, Henri, A Energia Espiritual. 2009, 1 ed. Ed. WMJ Martins Fontes, São Paulo.
DELEUZE, Gilles, 2005, A Imagem-Tempo. 1 ed. São Paulo, Editora Brasiliense.
JUNG, C. G., 1961, Memórias, sonhos, reflexões. 1 ed. Rio de Janeiro, Editora Nova
GUATTARI, Félix, 1988, Os 65 sonhos. in: Mais! Folha de São Paulo de 16 de fevereiro de 2003.Fronteira.
PENROSE, Roger e HAMEROFF, Stuart, 1996, Orchestrated reduction of quantum coherence in brain microtubules: a model of consciouness. 1 ed.in: Hameroff, Kaszniak e Scott (org.) Toward a science of consciousness – the first Tucson discussions and Debates. Massachusetts Bradford Book – The MIT Press.
WORMS, Frédéric, Bergson ou os dois sentidos da vida. 2011, 1 ed. Ed. Unidesp, São Paulo.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Fim de Tudo o que Conhecemos… e “um plus a mais”



Quase-fissuras entre a “Melancholia” de Lars Von Trier e a Gargalhada Cósmica

Pressure pushing down on me
Pressing down on you no man ask for
Under pressure - that burns a building down
Splits a family in two
Puts people on streets
"Under Pressure" David Bowie


Todos os seres se dividem entre aqueles que são e aqueles que não são. 
Entre eles, o segundo tipo é o maior, e tem mais importância.
 Conhecer o pensamento é estar em outra terra. Tudo é verdadeiro. Tudo. (...) 
De minha parte, queria o Fogo bem depressa. Ao menos ele dança. 
A paixão não é diferente disso.
"A Voz do Fogo" Alan Moore





Eis que paira a Melancholia. Seja a sensação, seja o filme de Trier.

 O filme menos causa arrebatamento e mais avisa do arrebatamento inevitável. A personagem Justine, deprimida, não se sente feliz pelo “casamento e empregos perfeitos”, denuncia várias hipocrisias sociais ao longo da película. Sua mãe debocha do casamento e pede para não chamá-la para os ridículos rituais, como “a hora de cortar o bolo”. A irmã teme o fim do mundo, o encontro inevitável com o planeta Melancholia, em ressonância com a melancolia de Justine, crescente, implacável. Seu cunhado, especialistas em astros, quando percebe o inevitável, abandona o otimismo cientificista e se mata, abandonando, inclusive, um filho. Tudo falha. Tudo acaba. Melancholia reina, depois de Justine clamar que a natureza é má, pois gerou a solitária vida humana na Terra. Ela insiste nos "Jardim das Delícias" de Bosch: crença no absurdo, fazendo coexistir céus, infernos e purgatórios...  Lembremos do filme anterior de Trier, o (por enquanto) insuperável "Anticristo". (ver "A Era do Conjugalismo") 

O arrebatamento anunciado pelo Melancholia explode todos os dias em nossas caras: o Ocidente fracassou, o projeto civilizatório europeu fracassou. O fato mais que simbólico da Grécia falir e, provavelmente, ser expulsa da União Européia: a nação que inaugura o projeto civilizatório ocidental – a separação da filosofia do mito e rito – sucumbe diante do mundo. Os economistas fingem ter a resposta, economia em W, L, U... Sabemos que é economia em X, “X” da questão, que não sabemos. O projeto iluminista (ou: "e viva a razão"...) já tinha nos dado os mais terríveis fascismos (Eu decido quem vive seguindo meus preciosos critérios científicos e racionais [?]), agora nos dá um mercado agonizante. Os EUA: triste mais curto império da história. Versão Forrest Gump do fracasso europeu: Run Forrest! Até o precipício! Amy Winehouse morre, mulher-fractal do mundo, anuncia que nosso mundo morreu, o que está nascendo nos é (por que não?) estranho. E, se Cannes expulsa Trier por uma brincadeira infeliz com o nazismo, é por não saber o que fazer com quem denuncia o fato de que a Europa não sabe mais o que fazer com suas belas, mas também terríveis, heranças... E tome vandalismo por toda a Inglaterra. Vive la France? Desde que seja sem, por favor, o legado dos Le Pen!

Mundo multipolar inevitável: blocos ariscos de Oriente Médio, Ásia, América Latina (samba-rock no pé, improviso, miscigenações genética, artística, emocional etc) se somam aos antigos impérios. Cada um com sua idiossincrasia. E desejos, fés, estilos. Novidade histórica. Não sabemos o que fazer. Recorrer à economia é aceitar as gambiarras conceituais, mais uma vez (sabemos que o crescimento econômico chinês do tipo ianque é inviável; Lovelock já está rouco de clamar por novas Eras de Gaia...). Gambiarra atômica dos Epicuristas diante de Heráclito, gambiarra "categórica" de Kant diante da denúncia do habitus por Hume, gambiarra estatística de Bohr perante a Mecânica Quântica: chega delas! Pedimos, como sempre (com o perdão da contradição e a favor da denúncia), auxílio ao devir. Pois bem, o devir encontrou vários diques no meio do caminho: os Epicuristas, como dissemos, o Deus Imutável e Eterno  de Spinoza, Eterno Retorno de Nietzsche (Deleuze tenta salvar: "ah, é o eterno retorno da diferença", mas, nos perguntamos, que diferença é essa que retorna eternamente???), o Devir Contra-Natureza de Deleuze & Guattari, que se torna Natureza. “Voltar a Natureza”, mesmo que seja outra, é tentar controlar o devir. Deleuze & Guattari nos proíbe, assim, de ir além, seja lá o que isso for. Não adianta recorrer aos conceitos gregos requentados: é preciso permitir que o devir se liberte de qualquer amarra, inclusive da imanência. (Ora, Justine! A Natureza não é má, ela simplesmente passa. Até quando não sei... e não estamos sós, não te contaram? Tudo é vivo e conectado, até agora, ao menos.) Não estamos aqui voltando a Plotino (contínuos entre imanência e transcendência, de ontologia e henologia), Jung (cópula entre Kant e Nietzsche, ainda que sincronisticamente apenas o segundo goze no final, com Jung) e Bergson (apologia à mística cristã: Deus sou eu, que me crio). Assumimos todas essas possibilidades, desde que partamos de um entre imanente, para não recaírmos em uma separação entre natureza e cultura, por enquanto. Mas sugerimos outra Coisa...

O devir pós-Natureza, absolutamente selvagem, pode levar inclusive à transcendência, pois o devir não tem a priori: não o proíba de transcendência! Se a transcendência ocorre entre a imanência, ela simultaneamente se torna imanência, pois o suposto nada é preenchido pelos virtuais imanentes, antes mesmo que a transcendência surja pura. Mas se do devir emerge uma transcendência que TRANSCENDE o devir, está lançada a transcendência. Se não somos criados por Deus, o que criamos de deuses é secundário; a questão, então, é: poderia, dado toda a acontecência, surgir daí deusinhos transcendentes, pós-humanos, "pós" tudo o mais que você queira, em um estupor philipdickeano? Tudo isso enquanto possibilidade, decerto, mas Bergson cochichava desde o começo que toda antevisão é uma visão. Ela “existe”? Transcende o existir? Não sei. E suporto, ainda.

Krishnamurti nos informa que, também, todas as religiões fracassaram. Diz isso do ponto de vista de quem sempre teve boa-vontade com elas. Ele simplesmente chegou à conclusão que elas não levam a lugar nenhum. Para Krishnamurti, como em Bergson, nos resta atermos no aqui e agora, indo além das camadas culturais que nos assolavam de gambiarra em gambiarras epistemológicas: identidade, eu, mente, enfim, cultura. Meditação sim, mas sem imagens.

Se "Deus falhou", também falharam os deuses enrustidos dos judeus-ateus: Darwin (Evolução – Deus biológico falha ao pensar a epigenética, o devir louco de apenas um indivíduo), Marx (Estado: Deus histórico que falha na tentativa de predição), Freud (Inconsciente: Deus psicológico falha ao se ontologizar no corpo desejante sujeito/superjecto-cosmos) e Einstein (Energia-Matéria: Deus cósmico que falha por não se relacionar com os processos quânticos).

Então não sobrou nada? Talvez os antidepressivos? Estes são gambiarras diante da Melancholia. Antes do Eu cartesiano, a melancolia não era considerada doença, apenas estado anterior e talvez necessário para o júbilo, epifania, contemplação, seja de xamãs, padres ou monges. A construção social-farmacêutica do Transtorno Bipolar fractalizou patologicamente essa dinâmica ancestral. Sem os antidepressivos, temos a gargalhada, até agora, nosso mais precioso conceito, mas não falamos aqui de risinhos de escárnio,  alienação, mas sim de plena alegria em saber que não conhecemos, deixamos de nos dedicar ao conhecimento e preferimos intuir saberes (intuição bergsoniana, precisa), sendo pura conexão cósmica, até agora e isso basta, por hora. A Melancholia de Trier é entendida aqui como um prelúdio para a gargalhada cósmica! O diretor talvez gargalhe com o seu próximo filme quase-pornô, "The Nynphomaniac" (aqui cabe a advertência de Bergson: a humanidade deve trocar o prazer pela alegria!). Só mesmo em um socius torpe de químicas imperativas se decreta o "fim absoluto" com o avizinhamento da Melancholia, sendo que, notoriamente, morre-se apenas um Ego para que, sim, cedendo o lugar a um egozinho permeável que contemple o cosmos. Em suma: o "fim de tudo o que conhecemos" é o começo do que podemos intuir!

Se nossa herança milenar não nos serve, o que nos serve? Nada. Não temos conceito. Resta o desespero? Não. Temos-somos a acontecência, pululando, emergindo, e o nosso corpo, relacionando-sendo a pura acontecência. Todos os antigos conceitos, como o velho-sempre (???)-novo devir, podem nos ser úteis, livre dos velhos preconceitos, podendo anexá-los, lambuzá-los de mística, arte, sonho. Não para usá-los tal e qual, mas como trampolim para a acontecência, que nos obriga a criar-sendo outro conceito, outra acontecência, clamores loucos de inomináveis, impensáveis. Como se diz nas ruas, “um plus a mais”, menos como pleonasmo e mais como clamor de soma! E que seja apenas para abandoná-los diante da emergência... do Quê mesmo?

- Psiiiiuuuuuuuu!!!...
Ouço Leonard Cohen: “Dance me to the end of love


                                                                   "Melancolia" Dürer