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quinta-feira, 15 de março de 2012

Philip K. Dick: diplomata cósmico


A TEORIA MODIFICA A REALIDADE QUE DESCREVE.
Philip K. Dick



 “Em um mundo louco, são os loucos que sabem o que está havendo”. Assim brada Philip K. Dick (2009b), em seu “Vozes da Rua”. Sendo uma das poucas ficções de sua autoria que não é sci-fi, o romance é o mais autobiográfico, e é justamente lá que encontraremos essa chave de toda a obra: os textos de Philip Dick são deveras relevantes para compreendermos nosso mundo. É dele provavelmente a mais fina reflexão acerca da realidade. Vamos então ao “louco”.

Philip Dick talvez seja o único autor que relaciona quase todos os temas que elencamos neste blog: Hermetismo, Taoismo, Plotino, Spinoza, Leibniz, Bergson, Mecânica Quântica, universos paralelos, estados múltiplos de consciência e arte!

Philip Kindred Dick (1928–1982) teve uma vida conturbada (AMARAL, 2006), casando-se várias vezes, usando drogas pesadas, alucinógenas, desdobrando em surtos esquizofrênicos. Estudou da Universidade de Berkeley, onde preferia os estudos sobre Pitágoras, Parmênides, Heráclito, gnósticos, Hume, Spinoza, Leibniz, Bergson, entre outros. Philip Dick se considerava um “filósofo ficcional”. Podemos dizer que sua obra é uma versão beat da ficção científica, que até então ― década de 1950 ― era bem comportada, cujos nomes mais famosos eram justamente Arthur Clarke e Isaac Asimov. Philip Dick é um dos maiores nomes da “Nova Onda” da ficção científica, onde já se mostravam influências da contracultura dos anos 1960. Em seus contos e romances, Dick tinha como temas a realidade e seus simulacros, as relações natureza-cultura, principalmente a explicitada na questão homem-máquina. Dick também tinha um recorrente questionamento acerca de Deus, como veremos no comentário ao seu livro “VALIS”. Seus personagens, em geral, eram homens de classe média baixa, deprimidos, muitas vezes usuários de drogas, e seus cenários, apesar de serem futuristas, geralmente retratavam um futuro sombrio e sem excessivos fetiches com naves, alienígenas, lasers etc. Pode-se considerar Philip Dick como o maior precursor da cultura cyberpunk, cujo maior expoente literário é o livro Neuromancer, de William Gibson na literatura de ficção científica, e que por sua vez inspirou o maior expoente cyberpunk no cinema: o filme Matrix (The Matrix, 1999, EUA, Irmãos Wachowski). Na música, temos vários grupos que combinam música eletrônica, rock e roupas de couro, que tendem ao underground. Philip Dick é mais conhecido do grande público pelas adaptações cinematográficas de suas obras: Blade Runner ― o caçador de androides (Blade Runner, 1982, EUA, Ridley Scott), Vingador do Futuro (Total Recall, 1990, EUA, Paul Verhoeven), Minority Report ― a Nova Lei (Minority Report, 2002, EUA, Steven Spielberg) etc. Blade Runner, em seu torpor afetivo-existencial entre humano e replicante, típica paranoia philipdickeana, continua sendo o mais esplendoroso exemplo de um novo cinema que articula elementos de um "filme de ação" ou blockbuster e um filme autoral, mais "artístico".

No conto A Formiga Elétrica (DICK, 2002), que podemos comparar com A Metamorfose, de Kafka, Garson Poole acorda em um hospital depois de sofrer um acidente e lá é revelado que ele é uma formiga elétrica, um androide programado para achar que é um ser humano. A partir daí, Poole faz uma série de experimentos com sua “fita de memória” ― análoga ao cérebro humano ―, nos quais o personagem volta no tempo, muda cenários e “se desliga” para ser novamente ligado até “morrer”. No ato de sua morte ele pergunta para a sua secretária se ela vai deixar de existir, pois o mundo dele poderia ser falso, quando ele realmente começa a desaparecer e só “os ventos continuam soprando”.

Num dos maiores contos da ficção científica, Philip Dick nos traz uma abordagem perspectivista onde o humano, para o androide, é memória e o androide, para o próprio androide, seria humano, pelo menos até a imposição humana de sua “nova” condição. A partir daí, o antigo humano, para os humanos, se torna androide. No mundo que o androide exprime, em sua morte, todo um mundo morre. Será sua secretária apenas uma memória implantada? E, caso ela fosse apenas uma memória, ela seria real, ou seja, a memória “falsa” teria um estatuto de realidade? E ele próprio, seus sentimentos, suas vivência íntimas?

Em outro romance de Dick (1985), O homem do castelo alto, conhecemos uma realidade alternativa onde os alemães ganharam a Segunda Guerra e os EUA estavam habitados por vários japoneses, que eram a elite econômica. Tem-se notícia de um livro pirata, confiscado, cujo autor joga o I Ching para tomar as decisões sobre cada personagem que diz de uma realidade alternativa onde os aliados venceram. Obviamente, Philip Dick (1995) nos relata que o seu livro foi escrito com o auxílio do I Ching e nos sugere jogá-lo para perguntar sobre fatos e coisas que supostamente não existem... Assim como o filósofo chinês Chuang-tse, conhecido por não saber se sonha com a boboleta ou se a borboleta é que sonha com ele; Dick estabelece uma relação intrínseca entre universos!

No livro VALIS, Philip Dick (2007) nos apresenta Horselover Fat, cuja revelação divina o leva lentamente à loucura. O nome é uma brincadeira com a etimologia de Philip Dick, jogo assumido ao final do livro: “Philip” em grego e “Horselover” em inglês como “amante de cavalos” e “Dick” em alemão e “Fat” em inglês significando “gordo”. O próprio autor é narrador e personagem do romance, onde se revela que o personagem Fat é apenas um delírio dele, uma “personalidade falsa”. VALIS é conceituado logo no início do livro como: “uma perturbação no campo da realidade no qual um vórtice negentrópico automonitorador espontâneo é formado, tendendo progressivamente a subsumir e incorporar seu ambiente em combinações de informações”. Numa obra que combina, como vimos, teoria da informação e teologia, além de Jung, Spinoza, Heráclito, T. S. Eliot, Crick e Watson (relacionando-os com Hermetismo), animismo e números de Fibonacci, Dick nos leva a uma jornada onde não sabemos o limiar de ficção e realidade, loucura e sanidade, ciência e religião. Sabendo-se que o autor realmente relata que teve uma visão divina em 1974 e a relatava em um manuscrito até hoje mantido parcialmente inédito chamado Exegese (1995), tal qual o personagem Horselover Fat. Philip Dick introduz o leitor em seu universo, fazendo-o partilhar de suas angústias em relação a Deus, realidade, morte etc.

Se Kafka, no início do século XX, confunde a antes confortável separação leitor-obra, colocando personagens com suas inicias como K. ou Joseph K. e trazendo um questionamento dos limites da realidade, da verdade etc., e Ítalo Calvino junto a Jorge Luis Borges elevam essa ideia a um conceito literário constantemente aplicável, brincando todo o tempo com “a passividade do leitor”, em Dick, a relação ficção-realidade é questionada de várias formas e, o que é estilo literário para alguns autores, para ele é um desespero, uma inevitabilidade. No realismo fantástico de Borges, o improvável argentino aparece de forma inexplicada, em Dick, o imaginário norte-americano é atravessado pela tecnologia, que legitima o improvável, resultando então em uma ficção científica. Em VALIS, personagem e escritor são o mesmo e, a partir de relatos biográficos e autobiográficos, sabemos que a “alucinação” sobre VALIS e a escrita de Exegese, a internação e a problemática com a realidade são pertencentes ao livro enquanto ficção e à vida de Dick enquanto realidade. Mais ainda: utilizando os pensamentos, oriundos sejam da ciência, filosofia, ocultismo ou religião, ele nos põe a pensar sobre a problemática da realidade com consistência filosófica. Se no magistral artigo “How to Build a Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later” Philip Dick (1995) relaciona a disparidade entre Heráclito (tudo muda) e Parmênides (tudo permanece) para afirmar que a realidade não existe, podemos dizer que a realidade é múltipla, diminuindo um pouco a paranoia proposta por ele. Para Dick, “realidade é tudo que continua quando você deixa de acreditar nela”. De outro modo, Blanchot (2011) vai definir o escritor em geral em relação à realidade da seguinte maneira: “A irrealidade começa com tudo. O imaginário não é uma estranha região situada além do mundo; é o próprio mundo, mas o mundo como conjunto, como o todo”. E ainda, Deleuze (1997): “Pecar por excesso de realidade ou de imaginação é a mesma coisa”.

Em um conto claramente inspirado no gnosticismo, “A fé dos nossos pais”, Philip Dick (2002) nos mostra um empregado do governo que recebe uma dose de medicação antialucinação e começa a ver que o líder nacional é um monstro sem forma definida. Descobre depois, junto a um grupo subversivo, que outras pessoas que tomam o medicamento veem o líder de outras formas e que a água do país está contaminada de alucinógenos para todos verem apenas o líder, ou seja: para Philip Dick, a verdadeira realidade é múltipla, o controle da realidade é para transformá-la em única e, a partir daí, manipular as pessoas. O autor considera esse conto, segundo sua Exegese, o melhor exemplo em sua obra da solução dos problemas da realidade, ao lado de seu romance A penúltima verdade (DICK, 1964), que descreve uma população inteira vivendo no subsolo da Terra, convivendo com imagens falsas feitas pelo governo, nas quais se vê uma Terra devastada. Porém, a Terra está intacta e é desfrutada por uma elite. Ele afirma, baseado no filósofo empirista David Hume e em Henri Bergson, que o tempo é múltiplo, coexistente e que as relações de causa e efeito são falsas, o problema e a solução acontecem simultaneamente, então, para alcançar a solução seria uma questão de refazer o problema, recriar a realidade. Em Ubik, Dick (2009, p. 237) dá uma definição de um produto comercializável presente em todo aquele (micro)cosmos ― um mundo onde as pessoas vivem em animação suspensa, mas em uma realidade própria em que convivem umas com as outras e os vivos “do lado de fora” são vivenciados como deuses ou fantasmas ― da seguinte forma:
Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis. Eu fiz os mundos. Eu criei as vidas e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou o verbo e meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu sempre serei.



Em Os 3 estigmas de Palmer Eldritch (DICK, 2010), nosso autor relaciona mais uma vez o questionamento da realidade e de Deus somado às drogas. Nesse livro, Palmer Eldritch vende a droga Can-d com o seguinte slogan: “Deus promete vida eterna; nós cumprimos a promessa”. Aqui é apresentada uma noção de realidade que se aproxima de Bergson: “A luz, pensou, que é a base do jogo de fenômenos que chamamos de ‘realidade’”.

Por todos os motivos elencados aqui, Philip Dick é o escritor de uma Ontologia Onírica por excelência, ou seja, ele é um diplomata cósmico, desdobrando o sentido xamânico de Eduardo Viveiros de Castro (2002) (ver: "Devires"), pois Dick relaciona ontologica e epistemologicamente vários níveis de realidade fazendo-os coexistir. Se entendemos uma ontologia onírica como o estatuto onírico da realidade, esta múltipla, apenas domesticada por convenções, o escritor denuncia tais convenções e convoca nossa vida a uma existência, ainda que angustiada, mas tomada pelos múltiplos afetos e acontecências possíveis.

A questão das drogas é outra grande temática na obra de Dick. Ele a retoma em uma de suas obras-primas, Vazio Infinito. Philip Dick (1974) nos apresenta Jason Taverner, que acorda em um mundo onde ele não existe. Sua namorada, amigos etc. não o reconhecem e não existe nenhum registro de sua existência. O enigma se resolve com a explicação da droga KR-3, que altera a percepção cerebral do espaço... ontologicamente. Segundo Dick, Vazio Infinito relata uma cena que aconteceria com ele depois, evidenciando mais uma vez a sua experiência VALIS e a coexistência dos tempos.

O tema das drogas volta mais intensamente em O Homem Duplo. Nele, Dick (2007b) conta a história de um policial infiltrado cujo disfarce toma a sua vida, viciando-se na Substância D ― de “death”, morte. O livro é baseado nas próprias experiências do escritor e de seus amigos. A duplicidade do personagem ecoa na mente cindida entre os efeitos da droga e o mundo convencionalizado. Em um depoimento ao final da obra, Philip Dick escreve uma homemagem aos citados amigos: “Esses eram camaradas que eu tive; não existem melhores. Eles continuam em minha mente e o inimigo nunca será perdoado. O 'inimigo' foi o erro que cometeram em brincar. Que todos brinquem de novo, de outra forma, e que sejam felizes”.

Bibliografia

 AMARAL, Adriana, 2006, Visões Perigosas – uma arque-genealogia do cyberpunk. 1 ed. Porto Alegre, Editora Sulina. 


BLANCHOT, M., A Parte do Fogo. Rio de Janeiro, Rocco, 2011.


DELEUZE, Gilles, Crítica e Clínica. São Paulo, 34, 1997.


DICK, Philip K., 1964, A penúltima verdade. 1 ed. Portugal Ed. Europa-América.




______________1974, Vazio Infinito (Flow my tears, the policeman said). 1 ed. Portugal, Publicações Europa-América.

______________ 1985, O homem do castelo alto. 1 ed. São Paulo, Ed. Brasiliense.

______________ 1995, The Shifting Realities of Philip K. Dick - Selected Literary and Philosophical Writings. First Vintage Books Edition.

_____________ 2002, Minority Report – a nova lei. 1 ed. Rio de janeiro, Ed. Record.

_____________ 2007, VALIS. 1 ed. São Paulo, Editora Aleph.

_____________ O Homem Duplo, Rio de Janeiro, Rocco, 2007b.

_____________ 2009, Ubik. 1 ed. São Paulo, Editora Aleph.

_____________ Vozes da Rua. Rio de Janeiro, Rocco, 2009b.

_____________ Os 3 Estigmas de Palmer Eldritch. São Paulo, Editora Aleph, 2010.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo,  A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2002.












Um comentário:

Anônimo disse...

É você uma outra manifestação do Elias biblíco ??? Parabéns texto excepcional !!!