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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ontologia Onírica: confluências entre magia, filosofia e ciência

Nelson Job 

Texto da apresentação no Coninter 2012
Este artigo em inglês: AQUI

Até adormeço, mas ao mesmo tempo sonhos fortes me mantêm acordado.
Franz Kafka


                                                          Yerka


Magia, filosofia e ciência, entendidas como entrelaçamento de saberes, gerando transaberes, é uma possibilidade que apenas concepções recentes da História da Ciência (e da magia e filosofia) podem permitir. A partir dessa relação, vamos poder conceber uma nova teoria dos sonhos, retirando-os do domínio representacional que a psicologia do século XX relegou-os, produzindo uma assim chamada “Ontologia Onírica”. Além disso, tais conceitos nos impelem a também conceber outra transcendência, a transcendência a posteriori.

Hermetismo em aberto
Definir ‘magia’ é requer cuidado, visto que o historiador de demonologia Stuart Clark (2006) afirma que magia não é nada, ela é o que determinado cenário cultural a estrutura para ser. Uma definição que auxilia a compor com as conceituações deste artigo é a do antropólogo Marcel Mauss (2003) definindo a magia como “a arte das mudanças”. Neste trabalho[1], utilizaremos o exemplar mais influente da magia ocidental: o Hermetismo.

O Hermetismo (Westcott, 2003) é uma confluência entre os saberes ligados ao culto do deus Thoth no Egito Antigo com a filosofia neoplatônica de Plotino. É comumente associado à figura mítica de Hermes Trismegisto (três vezes mestre: do físico, mental e espiritual), que é nomeado tanto como o próprio deus Thoth, como também seu maior discípulo, não existindo nenhuma confirmação histórica de sua existência, o que leva a crer que muito dos textos atribuídos a ele sejam de vários autores que utilizaram sua alcunha. O Hermetismo foi organizado na virada do século XIX para o XX em sete princípios, os quais serão utilizados para tecer as relações com a filosofia e a ciência neste trabalho.

O Hermetismo influenciou a filosofia de Leibniz e Spinoza, além de grandes nomes da ciência. Giordano Bruno (Yates, 1964) baseou suas importantes concepções do universo anímico, infinito, descentrado e dinâmico entre outras inspirações, no Hermetismo. Kepler (Connor, 2005) – que exercia com notável reconhecimento o ofício de astrólogo – também foi influenciado pelos saberes herméticos para compor a sua Harmonia do Mundo. Isaac Newton se inspirou na alquimia e no Hermetismo para cunhar seu conceito geral de força e de gravidade (Dobbs, 1984). Newton retirou da segunda edição de seu Principia a afirmação de sua crença na transmutação da matéria, relegando tal citação em seu Optica. A partir daí, parece possível especular que Poincaré e Einstein tenham, com a equivalência entre energia e matéria, recuperado o Newton oculto.

A influência da física de Newton foi exercida a despeito de suas influências herméticas, mas, a ciência nunca perdeu seu sotaque hermético, sobretudo com algumas peculiaridades da física moderna. Essa física newtoniana purificada, a Inquisição, a postulação de uma linguagem desconectada ontologicamente do mundo (estabelecendo uma separação entre as palavras e as coisas) e o triunfo do Iluminismo, relegaram o Hermetismo, na passagem do século XVII para o XVIII, a guetos sem credibilidade.

Devires
A Filosofia da Diferença, entre outros saberes, vai problematizar as dualidades como natureza e cultura, corpo e mente, sujeito e objeto etc. ou, ao menos, colocá-las em movimento. Utilizaremos aqui a concepção de Filosofia da Diferença como Deleuze (2006) defende em seu livro Diferença e Repetição: pretende-se “tirar a diferença de seu estado de maldição”; não mais subordinar a diferença à oposição, analogia, semelhança, negação, identidade, ou seja, a todos os aspectos da mediação e da representação, pois assim chega-se à diferença pura. Não é inscrever a diferença no conceito em geral. A diferença é afirmação. Não é uma questão de dado, e, sim, de como o dado é dado. O processual é uma tônica extremamente relevante, assim como o conceito de devir: a mudança que muda, sem suporte, continuamente, mas inconstante, eliminando da ontologia a permanência e a transcendência. O devir aqui, a princípio, se equivale ao ser, mas vai além dele, ou seja, a própria ontologia esta em devir na Filosofia da Diferença.

Neste artigo, nos utilizaremos dos sete itens do Simulacro, apresentados por Deleuze, que são considerados por Manuel Delanda (2004), enquanto presentes em toda obra de Deleuze, devidamente alterados e atualizados em planos diferentes de acordo com o problema em questão. Esses itens pertencem a uma ontologia bergsoniana, composta pelo atual, intensivo e virtual.

 O virtual: a coexistência dos tempos, passado, presente e futuro, sendo que o futuro é ontológico, como todo o tempo, mas não envolve a produção do novo: o devir. O atual: o presente que passa, o momento presente e o intensivo: a passagem do atual para o virtual e vice-versa, sendo que um caminho não corresponde ao outro. Atual, virtual e intensivo se sobrepõem, não existindo um virtual ou atual puros (Bergson, 1999). Os Princípios do Hermetismo também se sobrepõem. Como as funções da física moderna dizem do mesmo universo, mas em níveis deferentes, também se sobrepõe, e tal superposição é buscada pela ciência com a alcunha de Teoria da Unificação.

 As diferenças emaranhadas: Vortexologia
Os sete Princípios do Hermetismo serão agora postos em relação com os sete itens do Simulacro e com sete funções da física moderna. Vale lembrar Heisenberg (1999), que já dizia sobre a filosofia de Heráclito: “Se substituirmos a palavra fogo por energia, poderemos quase repetir suas afirmações palavra por palavra, segundo nosso ponto de vista moderno”.

O Princípio de Gênero, no Hermetismo, afirma a relação dos princípios masculino e feminino engendrando a continuidade do universo. Não “homem” e “mulher”, mas princípios cósmicos diferentes e complementares. Deleuze diz que o item do Simulacro chamado centro de envolvimento é o acréscimo de complexidade dos seres vivos, o desdobramento físico-químico, orgânico, não-orgânico[2] e cultural sem envolver um evolucionismo teleológico. Já a cosmologia de Mário Novello (2010) supõe um universo do tipo bouncing, eterno e dinâmico, como no cosmos enunciado por Heráclito. Aqui, as relações entre esses três saberes comungam um cosmos dinâmico, processual, que se autocria de forma contínua em todos os níveis.

No Princípio de Causa e Efeito, de todas as causas anteriores emergem um efeito, ou seja, o efeito não é gerado apenas por uma causa anterior, mas por toda a cadeia de eventos até então, mantendo a ideia que os processos cósmicos são contínuos. Já Deleuze coloca que o molar e molecular são uma dupla articulação que é simultaneamente da ordem da qualidade e da extensão, que na física corresponde às partículas não elementares. Notam-se visões em que existem níveis de organização diferenciados, mas implicados, de forma que fazem parte de um grande processo cósmico.

O mais popular Princípio do Hermetismo é o de Correspondência, que diz: tudo o que está em cima é como o que está embaixo, relacionando o macro com o microcosmos. Na Filosofia da Diferença, há o conceito de mônada, sistematizado por Leibniz, desenvolvido por Gabriel Tarde. Deleuze (2000) conceitua a mônada a partir desses autores afirmando que ela é o espelho vivo e perpétuo do universo, mas tem um andar fechado e ressoante com todo o universo e outro que se conecta diretamente com o universo. O filósofo articula as mônadas com os fractais, figuras auto-similares relacionadas com a Teoria do Caos. O assim chamado colapso de onda também conflui com esses conceitos, no sentido que a mônada, exemplo do intensivo em Bergson, atualiza o virtual, como a onda, na Mecânica Quântica (MQ), se colapsa em partícula. O médico Stuart Hameroff (2002), a partir de seu modelo de consciência quântica criado com o físico Roger Penrose, relaciona a versão do colapso de onda realizado pela suposta gravidade quântica, chamada Redução Objetiva, como um exemplo de mônada. Assim como a monadologia cria um novo estatuto do sujeito, não apriorístico, mas relacional em devir, em que a sequência de mônadas é de onde emerge o sujeito, também a sequência de Reduções Objetivas no cérebro é que cria o fluxo da consciência, diferindo das interpretações convencionais da MQ em que o observador realiza o colapso de onda. Finalmente, a proposta especulativa de gravitação quântica chamada Triangulação Dinâmica Causal (Ambjorn, Jurkiewicz, e Loll, 2008) estabelece uma autossimilaridade fractal no nível quântico da matéria. Todas essas articulações evidenciam uma profunda relação entre os níveis macro e micro do cosmos, mostrando que em cada porção do cosmos abriga a totalidade, ainda que em devir.

O Princípio de Polaridade diz que tudo no cosmos tem o seu oposto que é, na verdade, o extremo de uma mesma coisa; tudo tem o seu duplo, que são diferentes em grau, mas os mesmos em natureza. O conceito de ressonância, que Deleuze desdobra a partir de Gilbert Simondon, afirma uma relação intrínseca de duas instâncias, podendo ser inclusive não-local, sendo que estas duas instâncias, ainda que gerando um processo de individuação, seguem seu processo de diferenciação. Um exemplo seria a ressonância não-local entre Leibniz e Newton ao criarem o cálculo diferencial, mas com formalismos diferentes. Na MQ , o emaranhamento quântico é a relação de simultaneidade entre duas partículas elementares em estado quântico, com algumas diferenças, como a rotação do spin. Aqui, verifica-se nesses três saberes uma relação de simultaneidade entre processos diferentes, mas interligados.

O Princípio de Ritmo mostra que tudo tem fluxo e refluxo no cosmos, padrões de comportamento. O conceito de máquina abstrata em Deleuze e Guattari (1995) também afirma um processo de auto-organização transespacial e transtemporal entre vetores que compõem um padrão. Manuel Delanda (1997), a partir de uma proposta de Prigogine, vai relacionar as máquinas abstratas com os atratores, em que o atrator estranho, na Teoria do Caos, vai se tornar um dos exemplos mais simples de uma máquina abstrata. O atrator estranho é formado por vetores que se auto-organizam, bifurcando fractalmente. Com essas relações, observa-se que o cosmos possui um processo de auto-organização, manifestado em padrões identificados em vários níveis.

O Princípio de Vibração afirma que o cosmos inteiro é vibracional, assim como na Filosofia da Diferença: tudo vibra, evidenciado pelo conceito de multiplicidade entendido como substantivo, não como atributo ou adjetivo. Diferença de diferença produzindo divergência e descentramento. Aqui os vetores começam a aparecer, mas o sentido e a ligação ainda não estão definidos. Uma das Teorias de Unificação, a Teoria das Supercordas (Greene, 2005), também supõe um cosmos vibracional, de cordas que vibram de formas diferenciadas gerando as diferentes manifestações das partículas elementares. Não é preciso apostar nas supercordas como um todo, aqui é enfatizado esse aspecto vibracional. Nesse item é fácil relacionar tal aspecto vibracional tanto no Hermetismo, na filosofia e na física: tudo é vibração.

Finalmente, no Princípio de Mentalismo[3] o cosmos é mente e a matéria é entendida como uma coagulação dessa mente. O plano de imanência, conceito de Deleuze e Guattari (1992), é a diferença pura, a velocidade infinita, o zero positivo. O plano coexiste com o caos e não pode ser pensado sem ele. Deleuze e Guattari pensam o tempo da filosofia como coexistência de vários planos, sem eliminar o antes e o depois. Na MQ, o vazio quântico é a função que mais se aproxima desses conceitos, pois é formado por uma complexa estrutura de relação de opostos, que se cancelam, mas que podem ser excitados de forma a suscitarem alguma forma material. Existem vários exemplos de uma estrutura semelhante, como o conceito de Tao, fundamental ao Taoísmo. Nessa última articulação, percebe-se que existe uma instância no cosmos que quase não existe, mas existe minimamente, gerando a possibilidade de, a partir de si, se emergir o cosmos. Mas, como observamos, o caminho não há apenas o caminhar a partir dessa instância primordial, mas em devir, chega-se a ele, também em um processo de descoagulação da matéria, seja através da meditação, do estado quântico ou do suscitar transformações sutis ou não, mas intensivas, nos corpos.

A partir dessas relações emerge um novo saber, que ressoa todas os saberes que atravessamos aqui, evidenciando sua imanência: a Vortexologia. O vortex emerge das relações de forças em devires mais selvagens em torno de um atrator, sendo formado por vortexes formando vortexes. O vortex é ubíquo, autossimilar, coexistente, dinâmico, relacional, transespaçotemporal e instável, podendo transcender a posteriori, como veremos ao final deste texto. A Vortexologia consiste nas seguintes instâncias: a arte evidencia o vortex, a ciência modela o vortex, a filosofia explica o vortex, a magia conjura o vortex, a meditação intensifica o vortex, a  Ética cultiva o vortex, o amor multiplica o vortex. A Ontologia Onírica vive o vortex. Sendo assim, não anunciaremos mais um "sujeito", mas um vortex. O sujeito, o objeto, bem como a sua relação são vortexes, formado por vortexes e desdobrando em vortexes. Não há mais dualidade na Vortexologia. Sendo assim, vamos evidenciar o vortex que se instala entre vigília e sonho.

Ontologia Onírica
Essas relações entre Hermetismo, filosofia e física podem nos levar a lugares imprevisíveis. Uma questão peculiar é a do sonho. A psicologia, desde Freud, delimitou o estudo dos sonhos a um modelo representacional, reduzindo os processos oníricos a um mero exercício de interpretação, herança do Cristianismo, que estigmatizou o sonho e caçou seus intérpretes. Vamos agora entender as concepções de sonho de algumas tradições antigas, pois assim adquirimos consistências para as nossas próprias conceituações.

Desdobrando o sentido da sonhabilidade do mundo, Wai-yee Li (Shulman e Stroumsa, 1999) evoca a mais conhecida narrativa onírica da China e do Taoismo, o sonho narrado por Chuang-tse: “mas ele não sabe mais se foi Zhou que sonhou que era uma borboleta, ou se foi uma borboleta que sonhou que era Zhou”. Aqui já é borrado o limite entre realidade da vigília e o mundo onírico, estabelecendo uma relação de reciprocidade entre eles: o sonho é a realidade da vigília e vice-versa, e não se pode estabelecer em qual “lado” você está, ou melhor, abdica-se do “lado” e dilui-se o realismo parcial entre os dois mundos. Em suma, o Tao de Chuang-tse é uma ontologia em que sonho e realidade estão devidamente imbricados, impondo tal característica visceralmente no pensar filosófico chinês.

Existem várias correntes budistas pelo mundo. Vamos abordar o onirismo de apenas duas. David Schuman (Shulman e Stroumsa, 1999), a partir de sua análise do poema budista “Manimekalai”, afirma que a lógica interna do Budismo não é aprendida, e, sim, sonhada. É esta lógica onírica que traz os elementos para uma iluminação, tão sonhada pelos budistas. Além disso, nesse contexto, realiza-se o que ocidentalmente chamamos de sonho lúcido, ou seja, a capacidade de estar consciente de se estar sonhando e até alterar a narrativa onírica. Nessa versão do Budismo, propõe-se até a verificação empírica de alguns sonhos, verificando a sua relação no “mundo desperto”. Nessa perspectiva, é possível, através do sonhar, deslocar o foco do self para o cosmos. A corrente japonesa budista fundada no século XII chamada Terra Pura ― o paraíso budista ― nos é apresentada por Tamaru Noriyoshi (2007) também com algumas passagens oníricas importantes. O fundador Hōnen, através de um sonho, mudou o nome de seu discípulo de Shakku para Zenchi, que depois foi ser definitivamente conhecido por Shinran. Este sonhou com um antigo mestre Kannon, e no sonho o mestre lhe afirmava que retornaria como ajudante de Shinran em forma feminina, que viria ser a filha do próprio, chamada Eshin-ni. Shinran ainda teria um sonho premonitório acerca do sofrimento das massas nas províncias do leste.

No Hinduísmo, como nos informa Wendy Doniger (Shulman e Stroumsa, 1999), o mundo em que vivemos foi, na verdade, sonhado por Deus, sendo que, nos sonhos, se encontra a mais legível forma de compreensão da realidade do universo.

O antropólogo Evans-Pritchard (2005), relata que entre os Azande é distinguido o sonho de bruxaria, que seria um mau sonho, de um sonho bom, que seria oracular. No sonho de bruxaria ocorre uma batalha psíquica entre as almas do “embruxado” com a do bruxo.

Barbara Tedlock (Shulman e Stroumsa, 1999) realizou um inventário acerca dos sonhos em tribos ameríndias. Os Zunis fazem contato com os mortos através dos sonhos a partir de rituais com peyote, realizando, inclusive, viagens no tempo. Para os Kìche Maya, os sonhos de doentes fornecem uma possibilidade de como se obter a cura. Um dos relatos mais interessantes é de uma xamã Cahuilla, conhecida como Ruby Modesto. Aos 13 anos ela foi presa ― e voltar foi muito difícil ― em um 13° nível de sonho, sendo que o 2° era o pré-requisito para o “real Sonhar”.

O controverso Carlos Castaneda (1993) revela, a partir de seus aprendizados com o nativo mexicano yaqui dom Juan Matus, que a feitiçaria mais importante era a chamada “a arte do sonhar”. Essa arte consiste em, durante o sonho, mudar o ponto de aglutinação energética da pessoa, fazendo-a percorrer outros mundos. Castaneda acrescenta que, a partir do assim chamado “terceiro portal do sonhar”, seria possível fundir os mundos do sonho e do cotidiano. É relevante notar que os conceitos de dom Juan conhecidos como tonal (mundo ordinário) e nagual (mundo desconhecido) tem ressonância com os de atual e virtual, respectivamente, no bergsonismo.

Artemidoro (2009) foi o maior intérprete de sonhos do mundo greco-romano. Nasceu em Éfeso no século II. Com sua Oneirocritica, iniciou a transição de uma concepção dos sonhos da Antiguidade rumo à Modernidade. Ele separa o sonho onírico (referente ao futuro) do sonho simples, que é acerca do presente. O intérprete onírico dá mais importância ao primeiro e se dedica a desvendá-lo. Segundo Artemidoro, o sonho onírico “é um movimento (oreinein) ou uma modelagem polimorfa da alma que significa o bem ou o mal que virá com os acontecimentos futuros”.

Moshe Idel (Shulman e Stroumsa, 1999) analisa a concepção de sonhos no Judaísmo. Nele, o estado normal de consciência é religiosamente centrípeto, envolvendo uma microcronicidade, sendo mais espiritual e remetendo à ascendência ao um: apoteose; enquanto o sonho é centrífugo, envolve uma macrocronicidade, mais material, tendendo à diferenciação e à multiplicidade, realizando uma descida rumo a uma teofania.

A Filosofia da Diferença afirma que o sonho é virtual, pois, no sono, o sensório motor é relaxado, permitindo um fluir no virtual, sendo o sonhar esse exercício atemporal. Mais precisamente, no bergsonismo, o sonhar tende a ser mais da ordem do virtual e o relato onírico - que encadeia em narrativa linear o sonhar atemporal -  é mais da ordem do atual. O relato do sonho, atualizando esse sonhar, deve ser menos interpretado e mais experimentado, como um convite a novas possibilidades de vida. O sonho não como protetor do sono, como quer fazer acreditar a neurociência, mas como uma modulação singular da vigília; em outras palavras, através da filosofia onírica de María Zambrano (2006), afirmamos que o maior desafio não é interpretar o sonho, e sim, assimilá-lo[4]. A filósofa espanhola também vai fazer uma profunda relação entre tempo e sonho, ressonado profundamente com a concepção onírica do virtual:

“[O sonho] já no tempo, mas não no seu, no tempo comum com todo o vivente. E através de si com o tempo cósmico, como se o palpitar do sangue, o inaudível rumor das entranhas fossem últimas ondas, as ondas captáveis do palpitar dos astros, do rumor do universo. Aquele que dorme sente-se assim na periferia de todo universo. Imerso na vida, mais além dela, em ritmo com o cosmos na sua totalidade. Ligado, pois, a um tempo cósmico, ao tempo físico que de alguma forma penetra nele, desliza nele por qualquer fenda, porque o envolve”. (Zambrano, 1994, p. 63)

Se, no modelo de consciência quântica de Penrose e Hameroff (Hameroff, 2012), há emaranhamento quântico no cérebro, pode-se especular que exista emaranhamento quântico entre dois ou mais cérebros e entre cérebros e outros objetos. Articulando isso a uma possibilidade da Cosmologia em que o universo pode possuir leis da física diferentes em locais diferentes (Novello, 1988), poderíamos especular também que, no sonho, emaranha-se o cérebro com locais em que o universo tem outras leis, às vezes incompreensíveis, muito diferentes deste quinhão do universo. O cosmos, assim, é entendido como um tecido também onírico, em que esse limiar entre sonho e vigília seria tão borrado quanto os limiares quânticos e clássicos do universo.

Por outra transcendência
Outro desdobramento das relações realizadas aqui, é a radicalização do conceito de devir. Se colocado em sua máxima liberdade, o devir – que, sobretudo depois de Spinoza, permite a problematização das dualidades, inclusive entre transcendência e imanência – traz uma novidade: a postulação de uma transcendência a posteriori. Se o devir é proibido de transcendência, cria-se com isso uma transcendência epistemológica: não há transcendência no devir. Isso é fato se concebermos transcendências a priori: mundo das ideias platônico, o Deus dos escolásticos, a mente de outra natureza que a do corpo, em Descartes e os imperativos categóricos kantianos. Esses conceitos, realmente, não tem lugar em uma Filosofia da Diferença, mas um devir selvagem, sem nenhuma amarra – incluso as amarras epistemológicas – pode gerar uma transcendência, é claro, a posteriori. Mas aqui, essa transcendência, de fato, transcende todo saber e experiência, não se sabe se ela existe, apenas que ela é possível de ser criada pelo devir. Não é uma nova dualidade, pois senão, já saberíamos algo em relação a ela: que a transcendência estaria em oposição à imanência. Mas não é o caso, pois essa transcendência, além de qualquer saber, está também para além de qualquer categoria, e encaixá-la em um dualismo seria categorizá-la. Também não é o advento de um descontínuo, pois, afirmando uma imanência contínua, não sabemos se essa transcendência descontinua a imanência. Assume-se aqui apenas a possibilidade de uma transcendência a posteriori, gerada pelo devir mais selvagem, e mais nada podemos saber e dizer acerca dela até então, sem criar apriorismos e epistemologias desconectadas da ontologia.

Quando é engendrado um conceito de sonho com estatuto de realidade, virtual, é também estabelecida uma ontologia onírica. Observa-se, assim, mais um elemento de tal ontologia: em devir, ela não pode ser desconectada de uma epistemologia, pois não há um saber definitivo sobre ela, visto que aqui, magia, filosofia e ciência são compreendidas como saberes imanentes. Porém, a qualquer momento pode ser engendrada, se é que isso já não foi feito, uma transcendência a posteriori, eliminando qualquer apriorismo no cosmos, uma ontologia onírica selvagemente em devir.

Outro despertar
Assim, o sonho inicia toda a magia, como diz Zambrano (1994). Mostrando aqui que a magia percorre todo o saber, a filosofia, a ciência, mas também as artes, seja através de Kafka, Francis Bacon, Borges, Neil Gaiman, David Lynch ou Christopher Nolan. A magia e a arte são as primeiras versões da almejada assimilação dos sonhos, sendo que a magia recorre a práticas que atravessam o atual. Nessas práticas está o bojo da ciência, e da apreensão desses processos, emerge a filosofia. Sonho-magia-filosofia-ciência, enfim, ontologia onírica: despertar no sonho, que é realidade. Enfim, toda ação humana é uma história da assimilação onírica, a ontologia onírica é ubíqua "epistemontologicamente". Mas tudo isso não é uma espécie de teoria geral, apenas trampolim para um “de-saber”, conceitos que promovem o abandono dos conceitos, ainda que a evocação desse dessaber seja consistente: a intuição de uma transcendência a posteriori.

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[1] Este trabalho é um resumo de minha tese de doutorado “Rumo à Ontologia Onírica: confluências entre magia, filosofia e ciência”, realizada no HCTE/UFRJ, com orientação do físico Luiz Pinguelli Rosa.

[2] A Filosofia da Diferença possui o conceito de vida não-orgânica, unindo o natural e o artificial.
[3] No limiar entre os Princípios de Mentalismo e Gênero, visto que todos os princípios coexistem, encontramos ressonâncias também com as relações na física entre matéria e anti-matéria.
[4] O analista suíco Carl Gustav Jung (2011) também vai enfatizar a necessidade de assimilação onírica, porém sua técnica ainda permanece predominantemente interpretativa. O esquizoanalista Félix Guattari (2003) em ressonância com essa questão, vai clamar a necessidade cultivar na vigília o “umbigo do sonho”, seu ponto de singularidade, de maior non sense.


                                                           María Zambrano

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