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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Transcendência a Posteriori: Como Saber Não Saber

Texto apresentado no Congresso Scientiarum Historia V - Filosofias, Ciências e Artes: conexões interdisciplinares
Nelson Job


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

"As três palavras mais estranhas" Wislawa Symborska




Turner

Vamos deixar o conceito de devir sem nenhum dique, ou seja, sem que nada possa limitá-lo, e perceber os desdobramentos de tal empreitada. O que se anuncia no limiar do pensamento é, surpreendentemente, uma transcendência, porém, com nuances inéditas.

Engendrando uma nova imagem do pensamento, tropeça-se por gambiarras epistemológicas ao longo do caminho. Se quisermos almejar um plano em que epistemologia e ontologia são imanentes, é preciso evitá-las: gambiarra atômica dos epicuristas diante de Heráclito, gambiarra "categórica" de Kant diante da denúncia do habitus por Hume, gambiarra estatística de Bohr perante o problema do suposto “colapso” de onda da Mecânica Quântica.

Pedimos, “como sempre” - com o perdão da contradição e a favor da denúncia - auxílio a um devir. Pois bem, devir: não mais “a mudança que sempre muda”, pois ainda aqui ficamos a mercê da permanência: o fato de que tudo muda e temos a certeza que sempre vai mudar, gerando um pseudo-paradoxo em que “a única permanência é que tudo muda”: isso é apenas mais uma gambiarra. Devir é mudança, mas mudança que muda, evolução que evolui, diferença que se diferencia, como nos lembra Gabriel Tarde (2003) e Bergson (2006), quando afirma que não há suporte para o devir. Tarde (2003) também nos alerta para os diques no devir. Não precisamos deles (apesar de que a sociedade do controle nos sussurra todo o tempo que sim), mas apenas lidamos com diferentes velocidades, como as diferentes velocidades entre nós (mais rápida) e a pirâmide (mais lenta), diria Whitehead (1994) e lidamos também com ressonâncias. Em devir pululam “entres” e entre nós existem ressonâncias: de criação (o cálculo diferencial criado simultaneamente, mas sem comunicação consciente entre Newton e Leibniz), de geração (o estágio inicial da gravidez humana e os girinos), de amor etc. Devir não precisa ser perdição, apenas aqueles que tentam cultivar o Eu, sobretudo. Devir não é perdição, mas deslocamento enquanto ubiquidade. Nossa bússola são os afetos, as relações; como dizíamos: as ressonâncias.

Em devir, encontramos vários diques no meio do caminho: os epicuristas, como dissemos, o Deus Imutável e Eterno de Spinoza (por mais que os modos que advém desse Deus estejam em devir), o Eterno Retorno de Nietzsche... Deleuze (2009) “aditiva” o Eterno Retorno, afirmando que ele é o eterno retorno da diferença, “o ser do devir, o um do múltiplo, a necessidade do acaso”. Mas, a diferença não estaria perdendo forças ao “retornar”? Até mesmo o devir contranatureza de Deleuze e Guattari (1997), que se torna Natureza, “retorna” a uma natureza, ainda que mutante. “Retornar à Natureza”, ainda que seja outra, é tentar controlar o devir. Deleuze e Guattari nos proíbem, assim, de ir além, seja lá o que isso for. Não adianta recorrer aos conceitos gregos requentados: é preciso permitir que o devir se liberte de qualquer amarra, inclusive da imanência. Não estamos voltando a nenhuma transcendência conhecida:  mundo das ideias platônico, Deus escolástico, mente cartesiana ou imperativos categóricos kantianos. Tampouco voltamos a Plotino (2002) (contínuos entre imanência e transcendência, de ontologia e henologia: os estudo do não-ser), Jung (1991) (trocas entre Kant e Nietzsche, ainda que sincronisticamente apenas o segundo prevaleça), Bergson (1995) (apologia à mística cristã: Deus sou eu, que me crio) e Whitehead (1978) (complementariedade entre imanência e transcendência), mas estamos próximos desse último. Sugerimos outra coisa...

O devir pós-Natureza, absolutamente selvagem, pode levar inclusive à transcendência, pois o devir não tem a priori: não o proíba de transcendência! Se a transcendência ocorre entre a imanência, ela simultaneamente se torna imanência, pois o suposto “nada” é preenchido pelos virtuais imanentes, antes mesmo que a transcendência surja pura. Mas se do devir emerge uma transcendência que transcende o devir, está lançada a transcendência. Se não somos criados por Deus, o que criamos de deuses é secundário; a questão, então, é: poderia, dado toda a acontecência, surgir daí deusinhos transcendentes? Tudo isso enquanto possibilidade, decerto, mas Bergson (1927) sussurrava desde o seu primeiro livro que toda antevisão é uma visão. A transcendência “existe”? Transcende o existir? Não sabemos, mas não é à toa que Deleuze (1995, p. 4) em seu último texto, “A Imanência: uma vida”, lança mão de um campo transcendental afirmando que “há qualquer coisa de selvagem e de potente num tal empirismo transcendental”. Este campo não é a transcendência, mas está no limiar da imanência. Mas ainda nesse texto, Deleuze admite um transcendente produzido pelo plano de imanência:
Pode-se sempre invocar um transcendente que recai fora do plano de imanência, ou mesmo que atribui imanência a si próprio: permanece o fato de que toda transcendência se constitui unicamente na corrente de consciência imanente própria a seu plano. A transcendência é sempre um produto de imanência.

Em toda a sua vida, Deleuze clamou a expulsão que Spinoza fez da transcendência: “Transcendência, doença propriamente europeia.”, Deleuze e Guattari (1995) diriam. Mas acreditamos que Spinoza (2008) quis dizer algo no sentido de que se pensar em Deus, então é imanência, se concebe, então é; em temos deleuzianos: tudo é virtualmente possível. Spinoza participa, assim, de uma egrégora milenar que envolve o ato neoplatônico de Plotino ao desdobrar o Mundo das Ideias platônico transcendente, cheio de conceitos e virtudes em um Uno, que não se concebe, apenas se vislumbra e é continuamente ligado a uma imanência, ainda que este um seja para além de um transcendente platônico, um não-ser. Spinoza, por sua vez, torna este Uno imanente. Se Platão dá referências demais, Spinoza impede qualquer referência. Estamos dizendo que concordamos que, para a transcendência, não há referência, mas isso não quer dizer que ela não possa ser criada.

Mas se se concebe transcendência, ela também surge, a partir de uma imanência. É aqui que se legitima toda a luta spinozista e deleuziana: não se pode conceber uma transcendência a priori. Cairíamos em todos aqueles velhos problemas separatistas: sujeito, objeto; natureza, cultura etc. É apenas a inocência do devir e apenas ela que pode realizar uma transcendência, inevitavelmente a posteriori.

Krishnamurti (KRISHNAMURTI e BOHM, 1995) nos informa que todas as religiões também fracassaram. Diz isso do ponto de vista de quem sempre teve boa vontade com elas. Ele simplesmente chegou à conclusão de que elas não levam a lugar nenhum. Para Krishnamurti, como em Bergson, nos resta nos atermos no aqui e agora, indo além das camadas culturais que nos assolavam de gambiarra em gambiarra epistemológica: identidade, eu, mente, enfim, cultura.

Se "Deus falhou", também falharam os deuses enrustidos dos judeus-ateus: Darwin (Evolução ― Deus biológico falha ao pensar a epigenética, o devir louco de apenas um indivíduo, antes da próxima geração), Marx (Proletariado: Deus histórico que falha na tentativa de predição), Freud (Inconsciente: Deus psicológico falha ao se ontologizar no corpo desejante de um sujeito imanente ao cosmos – o superjecto de Whitehead (1978)) e Einstein (Energia-Matéria: Deus cósmico que falha por não se relacionar com os processos quânticos).

É preciso conceber que, em relação à transcendência a posteriori, nada sabemos a não ser a possibilidade de seu engendramento. Não sabemos se ela existe, sequer se ela é da ordem da existência. Não sabemos se ela é descontínua em relação à imanência, necessariamente contínua. Essa oposição entre contínuo-descontínuo, por demais dialética, seria mais uma gambiarra do pensamento para “saber” algo da transcendência. Essa transcendência, como intuímos aqui, não está “em oposição à uma imanência”, não é uma nova dualidade, e sim, uma outra coisa. Não é “atemporal”, pois não sabemos a relação dela com quaisquer conceitos de tempo. O exercício em relação à transcendência a posteriori é justamente não saber, e o que sabemos, é imanência.

Então não sobrou nada? Talvez os antidepressivos? Os antidepressivos são a gambiarra química diante do mais puro devir selvagem. Antes do Eu cartesiano, a melancolia não era considerada doença, apenas estado anterior e talvez necessário para o júbilo, epifania, contemplação, seja de xamãs, padres ou monges (CHAUÍ, 2000). A construção social-farmacêutica do Transtorno Bipolar (AGUIAR, 2004) fractalizou patologicamente essa dinâmica ancestral. Sem os antidepressivos, temos a gargalhada, até agora, nosso mais precioso conceito, mas não falamos aqui de risinhos de escárnio, alienação, mas sim de plena alegria em saber que não conhecemos, deixamos de nos dedicar ao conhecimento e preferimos intuir saberes (intuição bergsoniana, precisa), sendo pura conexão cósmica até agora, e isso basta, por hora. Só mesmo um socius torpe de químicas imperativas assusta-se diante da morte de um Ego para que, sim, ceda o lugar a um egozinho permeável que contemple o cosmos. Em suma: o mais selvagem devir é o começo do que podemos intuir!

Se nossa herança milenar não nos serve, o que nos serve? Nada. Não temos conceito. Resta o desespero? Não. Temos-somos a acontecência, pululando, emergindo, e o nosso corpo, relacionando-sendo a pura acontecência. Todos os antigos conceitos, como o velho-sempre-novo-devir, podem nos ser úteis, livres dos velhos pré-conceitos, podendo anexá-los, desdobrá-los ao infinito de mística, arte, sonho. Não para usá-los tal e qual, mas como trampolim para a acontecência, que nos obriga a criar-sendo outro conceito, outra acontecência, clamores loucos de inomináveis, impensáveis. Como se diz nas ruas, “um plus a mais”, menos como pleonasmo e mais como clamor de soma! E que seja apenas para abandoná-los diante da emergência do que vier.

De maneira alguma esse clamor de transcendência a posteriori é um dique no pensamento. À luz de um devir, não há pensamento que se “conclua”, a não ser contextualmente, sendo um ato simultâneo de estranhar e entranhar os conceitos engendrados. Assim, estaremos mais consistentes com a alegria de não se pensar contra o mistério e sim, com o mistério: devir mais selvagem do pensamento, além do próprio pensar.

Referências Bibliográficas
BERGSON, Henri, Ensaio Sobre os Dados Imediatos da Consciência. 4 ed. Lisboa Edições 70, 1927.
_______________ As Duas Fontes da Moral e da Religião. Ed. Almedina, Coimbra, 2005.
_______________ O Pensamento e o Movente. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
DELEUZE, Gilles, “A Imanência: uma vida” (1995) Disponível em: http://www.4shared.com/file/35407578/cc5a0c80/Gilles_Deleuze_-_A_imanncia_Uma_vida.html Acesso em 20-01-2012.
________________ Nietzsche. Lisboa, 70, 2009.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix, 1995, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 1. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.
____________________________________ 1997, Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo.
JUNG, C. G., A Dinâmica do Inconsciente. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
KRISHNAMURTI, J. e BOHM, D. A Eliminação do Tempo Psicológico. 10ª Ed. São Paulo, Cultrix, 1995.
NIETZSCHE, Friedrich, Além do Bem e do Mal – prelúdio a uma Filosofia do Futuro. 2 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
PLOTINO, Tratado das Enéadas. 1. ed. São Paulo: Polar Editorial, 2002.
SPINOZA, Benedictus de, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica, 2008.
TARDE, Gabriel, Monadologia e Sociologia. 1 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2003.
WHITEHEAD, Alfred North, 1978, Process and Reality (corrected edition). 1 ed. New York, The Free Press.
________________________ 1994, O Conceito de Natureza. 1 ed. São Paulo, Martins Fontes.

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