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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O amor no(s) tempo(s) do caos

caosmoscidade de um devir-mulher e seus acordos provisórios ressonantes

Nelson Job




"Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade 
para o delicado abismo da desordem."
Clarice Lispector


É possível amor em tempos de caos?

Quando uma sociedade chega a um espécie de "impasse  histórico", vem alguém querendo utopicamente dar um jeitinho na situação. A Grécia do século V a.C., segundo E. R. Dodds em seu brilhante "Os gregos e o irracional", vivia uma situação bifurcante, razão e filosofia de um lado e êxtases religiosos de outro. A suposta solução foi a criação de uma metafísica que abrangesse a fisicalidade humana e a intangibilidade dos deuses: a República do Platão, que era deveras entendiante... Entendo que não haveria sofistas, até aí, de fato, muita gente tem raiva de advogados... Mas também extraditar os poetas? Se bem que, uma República enquanto tal, já é em si um estado não-poético. Mas eis que a Grécia foi entrando em uma era cada vez mais tendenciosamente mística, a despeito dos esforços platônicos.

No século XVII, Spinoza tinha o problema da filosofia cartesiana e da Inquisição. Filósofos separatistas e padres incendiários, o que fazer? Em seu "Tratado Político" ela cria uma democracia, impedindo os escravos e as mulheres - chamadas de imbecillitas ("fracas") - de fazerem parte das deliberações, alegando que nunca mulheres e homens governaram juntos antes na história, sendo que os últimos são melhores, visto que as amazonas assassinavam todo e qualquer menininho que aparecesse por ali. O "príncipe dos filósofos" chega a dizer que um homem só leva a sério uma suposta  inteligência feminina se ele tem um certo tesão nela... Claro que apareceram spinozistas querendo salvar o mestre, dizendo que o livro é inacabado, que essa condição não é permanente, que a Ética possui elementos pró-mulheres se devidamente interpretados etc etc. O fato é que o velho Baruch se mostrou, de fato, um homem de sua época. Talvez o processo jurídico contra a sua irmã - que ele venceu, por sinal - e ter tido caso com Clara Maria Van den Enden - que era chegada um sexo livre - pode ter complicado um pouco sua opinião...

Esse fato nada trivial nos leva a rever a obra de Spinoza. Pensando bem, um cara que diz que um homem livre é senhor de suas paixões, proposta um tanto racionalista e iluminista, ainda que sua obra seja um caso a parte do Iluminismo, em outras palavras: muito melhor! A Ética é, de uma certa forma, teleológica: devemos chegar a Deus, ainda que, no âmbito dos modos, seja tudo processual, em devir. Porém, se devemos chegar a Deus, este é eterno e imutável. Ora, se o objetivo spinozista final é a imutabilidade, claro que Spinoza vai por a mulher de fora, imagine esses modos todos de TPM! A mulher, ou melhor, o feminino, nunca vai permitir que o homem, ou um masculino, seja senhor de suas paixões. É a paixão que desgoverna a teleologia, o projeto, não é a toa que Deleuze e Guattari em "Mil Platôs" vão afirmar que só existe devir enquanto devir-mulher, até os devires que passam pelo homem são devir-mulher.

Mas para todo Spinoza imutável e eterno temos um Bergson em devir sem suporte e com tempos múltiplos: Deus, então, é mutável em "As 2 fontes da moral e da religião". Bergson já não se preocupa com as relações entre homem e mulher, sua filosofia é, por assim dizer, uma nova etapa maturada do que Jung viria a recuperar da alquimia: o Mysterium Coniunctionis, ou, já usando o desdobramento de June Singer em "Androginia": a filosofia bergsoniana, da intuição (ou do pensar-sentir, ontologicamente preciso) é andrógina. 

No contemporâneo, observamos uma curiosa transição em que as institições perdem gradativamente sua relevância. Se ainda queremos um Ética processual, de bons encontros e aumentos alegres de potência, não a queremos teleológica, queremos "apenas" o processo: viva Whitehead em "Process and Reality"! Mas sabemos que aparecerão entristecidos querendo (re)fundar o Estado, com Leis a priori e suas proibições. Não podemos aqui ficar elegendo utopias e destopias. Seriam mais desculpas teleológicas. Podemos, sim, brincar de transtopias, ou (in)ex-topias, no sentido que, dadas as relações em devir selvagem, não se pode extrair daí um conjunto de regras, mas acordos provisórios ressonantes. Um torpor de amantes chega a um "lugar", mas esse lugar não se torna fixo. O casamento é uma forma de traçar as diretrizes dos amantes, trazendo modelos de comportamento em meio as caos amoroso. Mas "casamento" é uma ubiquidade, o cosmos todo casa forças, desejos, o cosmos é processual e relacional. Porém, esse "casamento" não é constante. Nada impede que duas pessoas fiquem juntos por muito tempo, mas necessariamente se alimentarão de alteridade, assumem que acordam todo dia com outra pessoa, o devir que passa já na aurora, modificando o então amado adormecido. O amor em meio ao caos se dá pelas convergências ressonantes de afetos, mas essas convergências precisam se tornar outras, novas convergências. Assim, no amor e no cosmos, não há Estado, tristeza dos escravos. No amor-cosmos-caos existem esses acordos provisórios ressonantes; é a ressonância que funda a linguagem caótica do amor: a poesia em que a separação entre amor e paixão é uma ilusão criada por diferenças de velocidades. Ilusão das dualidades: só existe dualidade quando olhamos com apenas uma perspectiva, ora do um, ora do múltiplo, mas na acontecência coexistem um e múltiplo. É assim que entendemos a complementaridade do Tai-chi, yin-yang: o Tao é enquanto o um e enquanto As Dez Mil Coisas. 

Assim, não falamos mais de Homem e Mulher, mas assumimos que o devir-mulher geram vários sexos, um sexar: infinitos sexos entre os clichês taxionômicos de homem e mulher, em que todos os cariótipos seriam triviais, se não o são, é provalvelmente por assassinatos em massa ao longo da História mais Antiga: déspotas de várias épocas que ordevam a morte da diferença. Nos acordos provisórios ressonantes não é possível um Estado, muito menos um déspota. O déspota surge quando o acordo degenera em Lei. Sonhamos com um "Direito" em que a lei fique subordinada à jurisprudência, e não o contrário. Não há pátria dos Corpos sem Órgãos, os CsO são o golpe de estado intensivo que não gera outro Estado, mas um estado qualquer: devir. O Estado boicota o amor, assim como o amor se dá à revelia do Estado. Mas o contemporâneao é a possibilidade em que a ilusão das dualidades se torne explícita e a amor ressoe mais intensivo. O caos deixa de ser evitado para se intensificar em caosmos

É justamente no Oriente Médio em que surgem os mais autênticos devires-mulheres cinematográficos de hoje: em "A Fonte das Mulheres", de Radu Mihaileanu, atualizando as mulheres de Atenas, em que uma greve de sexo organizada pelas mulheres geram transformações sociais libertadoras e em "E agora, onde vamos?" dirigido, estrelado e co-escrito pela bela Nadine Labaki, em que as mulheres do vilarejo suscitam um devir fazendo com que as tradições sejam abaladas em prol da vida. O poder paradoxal da burca: se, de um lado, a ela "esconde" a mulher, conserva-se o feminino. Feminino esse que o Ocidente explicitou de forma a torná-lo masculino. O feminino não se expõe facilmente, assim como um devir é muitas vezes imperceptível. O sensual se dá na penumbra, já o pornográfico escancara o que deveria ser íntimo. Se não há mais sentido na dualidade ocidente-oriente, também não há sentido na pornografia da mulher masculinizada (histeria de mundo), nem na ocultação do feminino oriental. Sem dualidades, copulam atratores, vortex a media luz.

As cópulas entre vortexes geram outros vortexes: desejos conectantes que se ligam a outros desejos. Não estamos mais em busca de um novo Deus em que se sabe demais acerca Dele, nem de um novo Estado, nem de uma nova Lei. Esse amor, esse devir-mulher, essa caosmoscidade pode nos levar a uma transcendência a posteriori, rumo a um paradoxal profundo não saber. Nem uma orgia do êxtase pagã das bruxas medievais, tampouco uma histeria da mulher-Homem contemporânea, pois o descuido ao cultivo de uma Ética das primeiras levaram à racional degeneração das segundas. Não mais um feminino enquanto incoerência contigente, mas um devir-mulher que transita entre velocidades a despeito da tendência à permanência de um masculino. Se o Bufão dos Deuses ria que só podia crer um em deus que saiba dançar, clamamos então a uma dança do caos com ritmos cósmicos que acordam nossos passos, amores, cópulas e gargalhadas; amores que suscitam caos no mundo, gerando caosmos, afinal, só há amor em tempos de caos!