CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

E-mail a um jovem vortexeador



Caro(a) vortexeador(a),
Escrevo-te este email para que possa habitar o vortex com consistência. Tarefa,  ainda que árdua, deveras relevante. Pois, na ausência de caminho ou regras, nos resta perscrutar as sinuosidades que, num átimo, se manifestam. Eis que, com alegria:



ClAmor à Acontecência


"Autumn Rhythm" Pollock


A Tempestade rosna carinhosamente diante da ironia que é o processo civilizatório, pois este faz com que, a despeito do transbordamento da Natureza, os corpos se banhem em chuveiros elétricos. Entre o chuveiro e a Tempestade existem um ou mais vortexes. Cantamos para vocês, que querem habitar esse vortex.

As máscaras de deus que se apresentam ao longo da vida são trampolins para a Acontecência. A Acontecência nos escapa em toda tentativa de sucumbi-la, subordiná-la a um dogma, Verdade, eixos que estraçalham a Acontecência em “fatos”, “objetos”, “medidas”, “conceitos”. Ao descascar as máscaras de deus, incluindo deuses contemporâneos: a ciência, o conceito, habita-se a Acontecência. Os conceitos são tangentes de devires que ressoam com a Acontecência: é prudente ser infiel ao conceito, o queremos apenas provisoriamente, como trampolim, por exemplo: Nirvana, Tao, self, imanência, todos relevantes, porém, provisórios. O conceito “em si”, enquanto “eterno”, é uma falácia, assim como as funções da ciência, que elegem o ponto A e o ponto B enquanto lugares definitivos no fluir tortuoso e intenso do espaçotempo. O espaçotempo é um campo frágil em que tentamos habitar para avistar a Acontecência. Porém, a Acontecência está para além do ver e até mesmo do Ser. A Acontecência emerge quando abdicamos do nosso ritmo enquanto coágulo. A Acontecência é a festa para além do Cosmos em que todos os ritmos confluem para além. Em suma: nem nós, nem ninguém somos “atravessadores” da Acontecência. A Acontecência desvencilha-se de pontes e caminhos, coágulos do espaçotempo, pois é, porém é sem ser, po-ética experimental, devir mais selvagem, daqueles desprovidos de diques.

Quando o conhecimento bater à porta afirmando que “as regras podem mudar” e “que o Cosmos já não é mais o mesmo”, com toda a pompa que está trazendo a novidade, é preciso apreender as sutis reverberações da Acontecência em nossas incrustações e saber que as regras mudam até se esgotarem, até deixarem de serem regras, assim como o Cosmos é nosso apelido para a totalidade, sendo que a totalidade é uma brincadeira que topamos inadvertidamente. Totalidade é a nossa busca de fim, se queres um fim, finja que o tenha, mas nós estaremos em outro campo, que nos suscite alegrias.

As máscaras de deus, as ancestrais e as neófitas, (apenas critérios do Tempo, fingindo com ardor reinventar o Mesmo) causam essas vertigens enveredando para a busca. A busca só leva a busca, no sentido que a multiplicidade “busca” o Um e o Um, entediado de Plenitude, “busca” o múltiplo. Tais “evoluções” “evoluem” rumo ao seu extremo, muito além de uma instância eterna e definitiva, apenas para nos indicar o clamor de coexistência entre um e múltiplo, mas como estado instável de mais um trampolim provisório. Quando se dissipam as máscaras, a Acontecência se manifesta, perde-se o sentido da busca, de evolução teleológica: o que emerge, mais precisamente, são gradações de intimidade com a Acontecência, que variam de acordo com nossa disposição em estar, um estar peculiar, para além do ser e suas circunvoluções.

As contradições - alucinações do pensamento, incrustações do intuir - quando eivadas de puro intuir, ganham sotaques de paradoxos, que são suaves fagulhas podendo galgar o conceito enquanto trampolim para a Acontecência.


E o amor, para além de qualquer máscara de deus, é a Acontecência enquanto pista do além-coágulo, um convite ao descoagular, o feixe que flui rumo a Acontecência. Os coágulos tendem a contratar o amor. Quando se contrata o amor, ele se esvai, encrustecendo em lei. A lei, bem como seus agentes, como o chuveiro enquanto pleonasmo degenerado, lutam contra a Tempestade. A Tempestade, em todo o seu esplendor, é o soprar suave da Acontecência nos coágulos. A Tempestade é a vida que se convida a viver. É o amor sem os amortecimentos oriundos do pensamento. É o transpalavrar da palavra, o inconceitual do conceito, a conjuração melodiosa nas bordas entre ciência e arte. A Acontecência, umas acontecências, outras e aqui: Acontecência.

                                                                                                                                                      Inté,
                                                                                                                                        Nelson Job

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Coletivos Transaberes

O Coletivo Transaberes é uma derivação do formato "grupo de estudos", um vortex conceitual formado por quem estiver interessado em confluir saberes como magia, filosofia, ciência e arte em uma conversa semanal. O mote do Coletivo é aplicar tais conceitos na vida, gerando uma confluência e atravessamentos entre os participantes de forma que o Coletivo cria seus próprios conceitos. Nelson Job (doutor pelo HCTE/UFRJ, psicólogo e professor) é o atrator desse Coletivo cujo tema inicial será seu livro "Ontologia Onírica". O valor do Coletivo é estipulado pelos próprios participantes.

 

Acerca do "Ontologia Onírica": clique AQUI.

O Coletivo se dará em 2 locais, com diferentes horários, a escolha do participante:

Largo do Machado: às terças, início 19 de novembro de 10:00 ao 12:00. Mapa: clique AQUI

ou

Ipanema: às quintas, início 21 de novembro de 19:30 às 21:30.
R. Joana Angélica 192/207. Mapa clique AQUI

Endereço completo no Largo do Machado e outras informações: nelsonjob1@yahoo.com.br e
 (21)  9 9866 1981

Curta nossa comunidade Transaberes no Facebook: AQUI 

                                   


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Campo Transaberes




 Novos encontros na cidade para “transaber”

Michel Melamed, Nelson Job, Ricardo Kubrusly e Sergio Seixas inauguram o Campo Transaberes dia 7/11, com entrada franca.
Conversações, transcriações, encontros e celebrações acontecem no Comuna, em Botafogo, a partir de 11/11
.

No Campo Transaberes professores são atratores, alunos são participantes, cursos são conversações e workshops são transcriações. A necessidade de renomear funções e atividades já conhecidas não é gratuita, segundo Nelson Job, psicólogo, Doutor em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) e idealizador das atividades que, com o propósito de gerar um saber híbrido para uma vida mais ética, com mais potência e possibilidades de criação.

“Sempre organizei e participei de eventos de caráter transdisciplinar, palavra que acaba evocando o ‘disciplinar’, a grande história ocidental de separatismo do conhecimento. A ideia do Campo Transaberes é articular os saberes conceitualmente e com a vida. Como também sou psicólogo, acho importante um conhecimento que não sirva apenas como ‘malhação neural’, mas que contribua para uma vida mais ética. A ética, segundo Spinoza, está profundamente ligada à alegria. Quanto mais ética, mais alegria e mais potência para criar. É esse novo conhecimento que buscamos, por isso as velhas definições não nos atendem”,      diz Job.


O naipe dos convidados para a inauguração no dia 7/11, com entrada franca no Centro Empresarial Rio-CER, em Botafogo, diz ainda mais sobre o Campo Transaberes: além de Nelson Job, estarão lá o artista interdisciplinar Michel Melamed, o matemático, poeta e coordenador do HCTE/UFRJ Ricardo Kubrusly e o astrólogo Sérgio Seixas. O tema é “Como um saber se relaciona com outros”, afinal as relações entre magia, filosofia, ciência e arte e a articulação com a vida são o que orienta as atividades do Campo Transaberes.



COLETIVO TRANSABERES 
Com Nelson Job, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) “atrator” e psicólogo.
Grupo em que se apreendem as relações dos mais variados saberes como a magia, filosofia, ciência e arte, fazendo-os convergir produzindo um novo campo de saber, os transaberes.

nelsonjob1@yahoo.com.br







                                                


         Facebook/Transaberes

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Livro "Ontologia Onírica"




"Job estabelece através na sua Ontologia Onírica os limites da crítica pós-moderna”. - Luiz Pinguelli Rosa, físico e Diretor da COPPE/UFRJ)

"Nelson Job nos leva a um outro olhar sobre esses saberes tortuosos e perigosos, esses saberes que possuem paixão que, como me disse o filósofo – antes de mergulhar no pântano de suas certezas - é aquilo que torna grande o poeta, o filósofo, o verdadeiro cientista”.  – Mário Novello, professor emérito e fundador do Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (ICRA/CBPF).

Definir uma nova teoria dos sonhos é o foco do autor em seu livro de estreia: Confluências entre magia, filosofia, ciência e arte: A Ontologia Onírica (Editora Cassará). Doutor e pós-doutorando em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia/UFRJ, psicólogo e professor, Nelson Job conecta o Hermetismo, a Filosofia da Diferença e a Ciência Moderna (Mecânica Quântica, Teoria do Caos, Cosmologia e algumas teorias especulativas) e os faz atravessar pela arte para dar consistência a um novo conceito, à sua Ontologia Onírica.  



O autor percorre conhecimentos sobre o sonho de “amigos atemporais na dura luta contra o clichê”, como Bergson, Deleuze, Guattari, Spinoza, Leibniz, Jung, Plotino mas também Kafka, Borges e, principalmente, Philip K. Dick (“é dele provavelmente a mais fina reflexão acerca da realidade”). Isto porque, para Job, magia e arte são as primeiras versões da almejada assimilação dos sonhos. “Procuro uma relação entre real e imaginário que seja ontológica, que exista de fato, não uma provocação literária; uma literatura cuja ficção não seja entendida como mentira ou não realidade, mas como extensão da realidade”.



A investigação resulta, por exemplo, numa nova interpretação de Os Sertões de Euclides da Cunha, que articula todos os níveis do romance: geológico (sertão) biológico (os indivíduos da região), subjetivo (a figura de Antônio Conselheiro e a relação que estabeleceu com seus seguidores) e histórico (a Guerra de Canudos). A obra ganha uma análise de composição de natureza transdisciplinar.

A partir dos conceitos de Deleuze sobre o cinema (imagem tempo e imagem em movimento), Job cria também o conceito de imagem intensivo para definir filmes com aspectos autorais e de entretenimento e que são bons exemplos de Ontologia Onírica, como “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de Charlie Kaufman, e “A origem”, de Christopher Nolan. “Nesses filmes o mundo dos sonhos é absolutamente real, uma realidade que não é da vigília, mas que influencia a vigília e é uma extensão dela”.

DOS PRIMÓRDIOS DA MAGIA À NOVA TEORIA DOS SONHOS

Na primeira parte do livro (Vortex Dorme), Job trata dos primórdios da magia, o conceito em sua vertente egípcio-babilônica e seu desdobramento na ciência renascentista; estuda a Filosofia da Diferença, cunhada por Gilles Deleuze, “a corrente mais adequada por servir de ‘diplomata’, facilitadora de trocas e permutas, e permitir o atravessamento destes saberes e de novos conceitos”; e busca entender a hipótese da consciência quântica, “importante vetor a se considerar no estudo da interface entre os fenômenos físicos e mentais”.

Em Vortex Sonha, vai ao encontro da Mecânica Quântica, da meditação, da biologia, das artes e da clínica. E aborda o onirismo a partir do ponto de vista de “amigos atemporais na dura luta contra o clichê”: Bergson, Deleuze, Guattari, Spinoza, Leibniz, Guimarães Rosa, Bernardo Carvalho, Glauber Rocha, Jung. 

E na terceira e última parte, Vortex Desperta, Job percorre alguns dos conhecimentos acerca do sonho, para em seguida dar um passo além e consistente para uma ontologia onírica, uma nova teoria dos sonhos, retirando-os do domínio representacional que a psicologia do século XX relegou-os.

“O sentido a vida é criar sentidos para ela, não podemos estabelecer um sentido pré-definido para o sonho. A partir de uma conceituação consistente, o convite da Ontologia Onírica é que cultivemos as imagens oníricas para expandir nossas experiências no dia a dia; não precisamos de aditivos químicos para isso, mas de uma nova ontologia, de um novo estatuto do ser. O mal estar contemporâneo é consequência da ditadura de uma certa realidade”, afirma Job. 

. Leia trecho do livro clicando AQUI

"Ontologia Onírica" no Facebook AQUI

Confluências entre magia, filosofia, ciência e arte: 

A ONTOLOGIA ONÍRICA 

|Editora Cassará          |Formato: 16x23cm       |Págs: 256         |Preço: 35,00 


Comprar- encomende pela Editora Cassará: cassara@cassara.com,br




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sábado, 17 de agosto de 2013

Pornoética?

Pornologia para Epistemontonautas


Foi mistério e segredo
E muito mais
Foi divino brinquedo
E muito mais
Se amar como dois animais
Alceu Valença

Estranho, mas o amor puro é tranquilo.
Waldo Vieira



Nelson Job


A Ontologia Onírica vem esmiuçando o preço a se pagar pela imanência e o preço que pagamos por minimizar a magia. Se o primeiro preço “pagamos” com prazer, o segundo não valheu a pena. A Inquisição e a mudança do estatuto ontológico da linguagem (passagem da palavra é a coisa para a palavra representa a coisa) estabeleceram um mundo dualista e mau resolvido sexualmente. A Igreja, com suas interpretações e “lapidações” da escolástica, criou um paradigma sexual culposo. A orgia das bruxas foi sendo trocada por sexo silencioso para os filhos ou pais não se ouvirem (ver “Histéricas Graças a Deus?”).

Existem resistências: a dita “revolução sexual”, o rock’n’roll, a abertura do Ocidente para a sacralidade do sexo de certo Oriente. Uma resistência peculiar é a pornografia, que é pouquíssimo problematizada. Aparecem algumas leituras psicanalíticas redundantes, algumas inserções antropológicas e sociológicas etc. A questão é: com o advento da popularização da internet, a pornografia se torna ubíqua. Pré-adolescentes tem acesso livre, moldando suas iniciações sexuais ao clichê boquete-penetração vaginal e depois, anal-ejaculação na boca ou em outra parte exterior do corpo, repetido ad infinitum pelas inúmeras cenas pornô online. Tanto se usa pornografia e tão pouco se fala. A hipocrisia diante da sexualidade, tão criticada na era pré revolução sexual, hoje se reinstala através da pornografia silenciosa: quase todos a utilizam, quase ninguém fala sobre; antes se escondia revistas pornô embaixo da cama, agora se assiste pornografia com fone de ouvido, escondida de todos. Comenta-se publicamente nas redes sociais da operação médica de alto risco recém feita até de como se odeia profundamente o vizinho funkeiro, mas pouco se fala do ícone ocasional do onanismo reincidente.

As bruxas possuíam uma liberdade sexual, ainda que muitas vezes degenerada (mais no sentido entrópico que moral), mas ao menos davam vazão aos seus desejos. Hoje, se pratica muito sexo pudico compensado por masturbações homéricas para as divas do pornô (bem como animais, máquinas etc: os filmes pornô possuem muitas “categorias”). O quê fazer diante dessa cisão desejante? Que fique claro: o problema aqui não é a disseminação crescente do pornô, nenhum juízo de moral nisso, mas a cisão entre o sexo que se pratica e o sexo que se fantasia, ainda que seja necessário explicitar o clichê pornográfico bem como sua predominância de fantasias masculinas levem a uma homogeneidade desnecessária à sexualidade contemporânea. Poucas atrizes pornô que se tornam diretoras conseguem prevalecer fantasias femininas em seus filmes, ainda que venha se constelando um movimento para filmes de sexo explícito mais românticos: DaneJones etc.

De um lado, algumas saídas vêm sendo discutidas (educação sexual nas escolas, abertura de diálogo entre os pais etc), de outro, (já ponderamos aqui que) a sexualidade é para além do genital, e isso é , digamos assim, "saudável" (ver “Sexar”). O cristianismo institucional ainda é um problema. O Vaticano vem dando sinais constantes de abertura, é possível (esperamos) que se permita o uso da camisinha em breve. Mas as igrejas evangélicas insistem e dar passos atrás nessa abertura.

O recente neocaretismo dos vampiros ultrarromânticos é um fenômeno que também merece uma reflexão (ver: “Redivivos?”). Se as “mocinhas” preferem vampiros milenares conservadores aos lobisomens jovens e selvagens, a pista é que o processo civilizatório é fatal, ou, no mínimo, mortificante? Diante disso, é preciso trazer selvageria ao convite à imanência de Spinoza: imanência entre civilização e animalidade, entre polidez e selvageria. Resumindo “Sexar”: não há tipologia sexual, há desejo. O norte da Ética do desejo: se produz um bom encontro para ambos (ou mais), se a imanência goza junto com você em uma cópula cósmica, genital ou não, então é uma prática sexual ética. Claro que as nuances dessa Ética devem ser exploradas para não degenerar em sexualidades tristes. Assim, a cisão desejante deve se reencontrar na imanência: as fantasias podem ser realizadas, apenas se atentem à Ética, e não a moral (“não pode isso, goze desse jeito e só”).

Porém, o problema da pornografia é mais abrangente: nas redes sociais, a estética é pornográfica, no sentido que o explícito e a ausência do privado tomam conta. O fato do Facebook vender informações de seus usuários para as empresas apenas é uma versão mais institucionalizada. Nas redes sociais se exibe a ressaca, o almoço chinfrim, a doença, a miséria, sobretudo, a miséria estÉtica. Outra cisão: o tímido do mundo exterior se torna o histriônico virtual (no sentido de cibernético).

Claro está os benefícios da internet (ver “Brasil-vortex”): o aumento quantitativo e de velocidade da troca de informação. Mas o tempo gasto diante dos computadores criaram personas cibernéticas que, muitas vezes, “virtualiza” de um lado, mas desvitaliza de outro. Pode, é claro, acontecer vivências autênticas no cyberespaço, mas também se otimiza a possibilidade de preguiças existenciais (não chamo de neurose, por que o termo  há muito se moralizou) cibernéticas. Dito isso, não há problema algum no sexo virtual, nem na masturbação. O problema está, mais uma vez, no método fechado, no clichê: as novas formas de relação e sexualidade não devem se tornar as únicas, apenas mais uma no rol infinito de possibilidades relacionais.

Já anunciamos por aqui que um feminar que se anuncia, emergindo uma Era do Conjugalismo. Se não deve se repetir as degenerações das bruxas medievais (que orbitavam em torno do prazer egóico e/ou reativo a uma moral cristã vigente), é preciso suscitar desejos amorais, perversamente (que não tem apenas um verso, quem sabe vários poemas eróticos) éticos. Não é uma questão de 50 tons de pseudo liberdade sexual, mas sim de um infinito espectro de autênticas conexões desejantes.

Cabe, então, a questão: é possível uma pornoética? Sim, se considerarmos a imanência entre o amor (ver: “Amarnifesto”) e a pornografia. Do contrário, a pornografia não afetiva, o sexo pelo sexo, leva cada vez mais a um niilismo sexual, bem típico da histeria, minimizando as potências afetivas do sexo. Mas se apreendemos que a sexualidade animal que emerge nas vortexologias humanas coexiste com o processo civilizatório e com o amor (Último tango em Paris: "a partir de agora seremos apenas rugidos"...), a questão das perversões só será patológica se não passa pelo crivo ético, o niilismo sexual só impera num cultivo de preguiça existencial (ver "O amor no(s) tempo(s) do caos").

Nossa época vem declinando do privado, porém o público deve ser, muitas vezes, questão de escolha. O momento político é beneficiado eticamente por certo declínio da vida privada; o que não quer dizer que tudo deva ser público, isso seria apenas uma medida excludente, empobrecedora. Se há algo de potente no público, é que devemos assumir nossos desejos a todo tempo, ainda que seja uma opção relevante praticá-los na alcova, à meia luz.






sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Epistemontonauta (verbete)


(Sonhador ontológico) Vortex, atrator, "pessoa", "ente", agenciamento, auto organização de vetores que suscita seu(s) vortex(es) através do apreensão (estudo + vivência) da Vortexologia.

Epistemontologia (verbete)



Imanência entre epistemologia (estudo do conhecimento) e ontologia. Não se concebe aqui uma separação entre os estudos do ser (que na espistemontologia é devir) e do conhecimento. À luz de um transaber, como é a Ontologia Onírica, devir é adquirir sabedoria, ou seja, conhecimento aplicado à vida.

Textos neste blog:

Vortex: Ubiquidade Cósmica - vortexologia pragmática para sonhadores oníricos (JOB, Nelson)

(I)manifesto Transaberes (JOB, Nelson)

sábado, 3 de agosto de 2013

A Gargalhada Cósmica (por: Nelson Job)



Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
Manoel de Barros


Há quem credite a alcunha de “grande autor” os pensadores trombados que nos fazem adestrar o olhar para o torpe do mundo. Nós, eivados dos mais belos transaberes, cultivamos outros devires...

O mundo ao redor: eis que as gargalhadas estão em extinção. Se, de um lado, controla-se o desejo, “não pode isso, mas pode aquilo”, por outro, influencia-se no que se deseja. O Homem, triste de desejos tolhidos e redirecionados, sorri amarelo nas redes sociais. Sabe-se que o Homem emerge da relação entre desejos, vetores com os mais desterritorializados devires, mas é devidamente territorializado pelas convenções sociais e morais. Porém, são essas convenções sociais e a ubiquidade do consumo, desvirtuaram esse desejo. Resta ao Homem nada mais que risos de soslaio quando as crianças teimam em lhe ensinar o mais nobre indício de criação de sentido da vida: o gargalhar.


Há muito que Spinoza e Bergson culminam suas obras com a alegria. O "príncipe dos filósofos" nos contempla com o conceito de que o aumento de potência, o bom encontro, o auto-amor da imanência, a Ética, são da ordem da alegria e o francês, por sua vez, diz que a alegria se dá ao apreendermos cada vez mais o virtual, ao nos relacionarmos intensivamente com o atemporal. Bergson ainda vai nos dizer que o riso denuncia a rigidez do sensório-motor, pura apreensão de virtual e que a humanidade precisa aprender a trocar o prazer pela alegria (ainda que isso não nos impeça da alegria do sexar).

Já Deleuze e Guattari, nos ensinam a rir com Kafka (a alegria das metamorfoses), Francis Bacon (a graça do corpo indo além) e Beckett (esplendor das circunvoluções mais inesperadas das palavras). Autores que recebem usualmente o rótulo de “pesados”, no entanto, nos convidam, nem tão sutilmente, para dançar nas forças vitais com a leveza de quem brinca, ainda que suas imagens criadas sejam intensas.

Esses europeus já fizeram a sua parte. Aqui, urge cultivar a alegria nas vorticidades brasileiras.

É conhecido o bom humor e calor humano dos trópicos. Ainda que esse bom humor seja relacionado a um riso triste que tenta esquecer a pobreza, almejamos aqui nos direcionar para outras peculiaridades. O Brasil possui heterogeneidades inéditas. A alegria que suscitamos aqui é oriunda da vertigem de emergir de uma inconstante sopa pré-biótica cósmica, vortex (epi)genético que goza dos mais múltiplos vetores: gens oriundos de todos os cantos do mundo se encontram no campo brasileiro, se estendendo para os gens anímicos da geografia e culturas mais heterogêneas, cadências rítmicas. O código genético se estende aos vivos inorgânicos traçando na acontecência  a plena alegria de gerar novidade. Essa novidade que possui rumo incerto, esse não saber que se estende ao limiares epistemontológicos, gera nas entranhas da terra a mais plena gargalhada cósmica. Gargalhada no sentido que nela, se perde o controle do corpo, chega-se a chorar, atravessado pelos devires mais vertiginosos: a festa das intensidades ou dança dos vetores instáveis da novidade. Os vortexes gargalham do/no/por puro devir. A graça de não se controlar a acontecência, a alegria de não saber o que virá, a vertigem de intuir a expansão epistemontológica!

Se os europeus nos ensinaram a rir dos devires que lá se anunciavam, as vortexidades brasileiras e pós-brasileiras conclamam às gargalhadas cósmicas, pois: até as leis da física podem mudar, gerando outro cosmos, alegria de instabilidade. Se, de um lado, o talento de Chaplin ainda convoca à hipocrisia em “Smile”, aqui se ensaiam, lentamente, algumas novidades pela Porta dos Fundos.



O problema do limiar do Caos: Christopher Nolan nos assustou com a triste gargalhada do seu Coringa, “o agente do Caos”. Vortex sombrio tão poderoso que coagulou do âmbito cinematográfico para suicidar seu ator e atirar dentro das salas de exibição. Aqui há um atropelo: o Coringa se nega a encarar o que é problemático na seriedade de um Batman. A gargalhada cósmica tem seus percalços, é preciso muita seriedade e esforço para se chegar até ela. Muitas vezes, a melancolia é seu prenúncio. Se o Coringa se aliena dessa seriedade, desse esforço, ele se dicotomiza saindo de um ego neurótico (por exemplo, um Batman) para se esvair em Caos. A gargalhada cósmica opera de outra forma: a imanência é o Caos, não se esconde dele, funde-se a ele, elo místico de um vortex spinozista-bergsoniano, ou seja, apreender a imanência, a divindade caótica, ainda que instável.

Gargalhar cosmicamente por apreender a pintura abstrata (seus sentidos antes ocultos), por abraçar (enquanto enlace amoroso), por simplesmente criar, emergindo outras estÉticas. A gargalhada cósmica é nosso conceito mais precioso. É uma obviedade que emerja em vortexes brasileiros, mas para, eticamente, ressoar no cosmos. Para tanto, é preciso se aliar aos conceitos, adquirir vorticidade, vibrar as energias. Sabemos que o controle, os a prioris e a previsão (mas não a intuição) são tristes. Assim, urge que, sem diques, sejamos atravessados por devires, por vortexes: que nosso mergulhar na acontecência suscite as mais estrondosas gargalhadas cósmicas!






segunda-feira, 1 de julho de 2013

Encontros Transaberes: Da Realidade dos Sonhos



As manifestações recentes no Brasil revelam que o sonhar até então improvável, tendendo ao impossível, é muito mais realizável do que se imaginava. Jung enunciava frases misteriosas ao longo de sua obra, tais como "O sonho é natureza" e "O sonho deve ser assimilado". Christopher Nolan em seu filme A Origem, traz uma nova visão do sonhos, conjugando neurociência, arte e filosofia. Como desdobrar conceitos consistentes a partir desses fatos? O próximo tema dos Encontros Transaberes será A Realidade dos Sonhos. Nele, iremos explorar as mais longínquas e mais vanguardistas expressões do sonhos: nas antigas tradições (Taoísmo, Budismo etc) na filosofia (Neoplatonismo, Bergson, María Zambrano), na psicologia (Freud, Jung, Guattari), na literatura (Kafka, Neil Gaiman) e no cinema (David Lynch, Charlie Kaufman, Chistopher Nolan) para compormos uma novo olhar, em transaberes, que transborda para um novo campo do saber tanto conceitual quanto clínico chamado Ontologia Onírica.

Onde: Largo do Machado
Para quem? a todos os interessados
Quem coordena: Nelson Job (psicólogo, doutor pelo HCTE/UFRJ)
Que dia? toda terça de 09 a 30 de julho
Que horários? de 10:00 ao 12:00
Quanto: valor estipulado pelo próprio participante
Outras informações: nelsonjob1@yahoo.com.br e (21) 8646-8905
Tem Facebook? AQUI

Programação:
09-07: Sonhos e as antigas tradições
16-07: Sonhos e a psicologia
23-07: Sonhos e a filosofia
30-07: Olhares oníricos da arte e conclusão ou O que é a Ontologia Onírica?





segunda-feira, 24 de junho de 2013

Brasil-vortex

Manifestações & Vortexologia Aplicada


Nelson Job



Tonight the streets are ours
These lights in our eyes, they tell no lies

Those people, they got nothing in their souls

And they make our tvs blind us from our visions and our goals

"Tonight the streets are ours" Richard Hawley







O Brasil está passando por uma transformação sem precedentes na História. Os intelectuais tentam adequar o fenômeno às suas teorias velhas sem dar conta do que está acontecendo. Este texto é um exercício de aprender conceitualmente com o acontecimento atual e produzir novos conceitos bem como uma ontologia que lhe seja própria. 



As manifestações do Movimento Passe Livre ganharam adeptos, ressoando com as insatisfações de vários estudantes no Brasil, produzindo ressonância e gerando com isso um movimento muito mais amplo. Vários vetores foram acrescentados: o grupo Anonymous, pessoas sem partido com uma insatisfação geral com o país, vários segmentos da classe média, alguns partidos etc. A catalisação se multiplicou, sobretudo através das redes sociais, o que gerou uma imensa massa de manifestantes nas ruas, com as mais variadas agendas. Destacam-se a alegria, a leveza do movimento, o apartidarismo, apenas mudando de tom com alguns manifestantes mais agressivos, recebendo a alcunha midiática de "vândalos", sobrepondo irresponsavelmente os manifestantes mais agressivos, os oportunistas e os "infiltrados". Muitos vão para as passeatas com o intuito de participar de algo que possui popularidade entre os seus, mas saem dali mais informados, politizados. O movimento não é exatamente racionalizado, mas possui uma intuição coletiva de que é necessário mudar. Pouco se divulga que as cidades do interior também realizaram suas passeatas, fazendo com que o número de manifestantes tenda a ser muito maior ao que é divulgado na mídia - que chamarei de "tradicional": TV, jornais e rádio - que tem dividido espantosamente o número de manifestantes nas ruas para 5 vezes menos (em geral) em suas matérias, minimizando o movimento. A princípio contra, depois colocando alguns aspectos positivos e finalmente, a mídia tradicional vem agora alardeando o movimento como um momento histórico que mudou o país para sempre.



Os resultados estão sendo rápidos. Diminuição do preço das passagens de ônibus em várias cidades, ainda que não de forma ideal, pronunciamento da presidente e subsequente reunião com governadores, anunciando possibilidade de plebiscito etc, queda da PEC 37, mobilização com debates de várias entidades: OAB, universidades, sindicatos etc. É preciso, evidentemente, ter cautela com os manejos da presidência: de um lado, pode estar se utilizando do movimento para exercer um poder que não lhe cabe, de outro, pode estar propondo mudanças que não possuem consistência democrática. Se algo der errado, a "culpa" é dos outros que não toparam ou de quem não propôs soluções viáveis? De todo modo, a massa até então apática da nação se tornou um grande agregado mobilizador da sociedade. Espantoso, imprevisível, porém, em alguns pontos urgem um desdobramento do debate:



Fluxo de informações- Pela internet, várias agendas foram anunciadas, muitas delas facilmente coaptadas por manifestantes desavisados e ávidos de sentido. Através de uma pesquisa mais aprofundada, percebe-se, por exemplo, que não foi votada exatamente uma "cura gay" (claro que devemos nos atentar para e combater as tentativas da bancada evangélica de forçarem aspectos de sua "fé" - leia-se poder - em nossas vidas), tão alardeada, e existe uma grande desinformação em relação às PECs. As opiniões variam, proporcionais às gradações de informação que cada vetor possui. Também é preciso entender qual revindicação deve ser orientada a qual entidade: quais dos "3 Poderes", quais instituições etc. Sendo assim, o próximo passo do movimento, ainda que se mantenham as passeatas, deve envolver também um maior estudo dos temas. É preciso estimular os jovens e todos os manifestantes em geral que se reúnam para debater os temas, estudar autores dos mais variados campos de saber que possam ajudar a compreensão, manutenção, desdobramento e posicionamento em relação ao movimento. A ferramenta do grupo de estudos é extremamente bem vinda, bem como os grupos de discussão nas redes sociais. O MPL evoca Zigmunt Bauman, alguns celebram Pierre Lévy, adeptos da Filosofia da Diferença vão se lembrar de Toni Negri, Manuel Castells ganha destaque etc. Claro está que o descentramento e intensa relacionalidade não-local do movimento nos conduz a considerá-lo, de fato, rizomático, no sentido de Deleuze e Guattari. É justamente Félix Guattari que vai profetizar em 1989 em sua As 3 Ecologias o que está se passando: "As oposições dualistas tradicionais que guiaram o pensamento social e as cartografias geopolíticas chegaram ao fim. Os conflitos permanecem, mas engajam sistemas multipolares incompatíveis com adesões a bandeiras ideológicas maniqueístas".

Todos esses autores e conceitos nos ajudarão, mas é preciso alardear o que Gregory Bateson chama de aprender a aprender: o acontecimento nos pede novos conceitos, que se construa saberes a partir dele.




"V de Vingança" Moore & Lloyd, 1982



O grupo Anonymous- Exite uma grande desconfiança em relação ao grupo inspirado no personagem V de Alan Moore. As ideias do bruxo de Northtampton são nobres, porém, não necessariamente buscadas pelo referido grupo. A questão é que qualquer pessoa pode ser um Anonymous e cada página nas redes possuem ideias diferentes. Não existe uma unidade, uma homogeneidade dos Anonymous. Cabe a cada um discernir em cada página de cada grupo de Anonymous o que lhe interessa. Para conhecer o que pensa Alan Moore, recomendamos esse documentário:






 "The Mindscape of Alan Moore" Legendado (2003, Reino Unido) Dez Vylenz e Moritz Winkler



Apartidarismo- Como dissemos, o caráter geral do movimento é apartidário, sendo  criticado em relação à reação violenta a quem portou bandeiras de partidos dentre os manifestantes. Alguns comentam que a característica do apartidarismo é o fascismo. Não parece o caso, mas sim o contrapartidarismo, que, de fato, alguns manifestam. O apartidarismo não é despolitização, e sim outra política. Somos entusiastas de uma democracia direta da era da internet, em que o povo pode votar diretamente as suas leis. Isso não envolve ausência de partidos, mas uma gama de pessoas que não deseja ser representada. Claro que esse tópico merece um desdobramento muito maior, um estudo das possibilidades de realizar-se, das regras possíveis, da tecnologia disponível, do aspecto jurídico, se o voto distrital seria uma etapa inicial viável etc.



"Esquerda" e "direita"- O movimento foi considerado por muitos como sendo de "esquerda" e que houveram tentativas da "direita" de se apropriar do acontecimento. Os termos oriundam-se da Revolução Francesa, evidenciando os locais em que, de um lado, a nobreza e o clero e de outro, seus opositores, se sentavam na assembleia. Este blog tem ojeriza a dualismos e parte do princípio que "esquerda" e "direita" são fetiches conceituais de pensadores políticos, sendo que os próprios políticos apenas os utilizam como estratégias de manipulação para chegarem e se manterem no poder. São conhecidas as histórias dos membros do Partidão que, exercendo cargos mais importantes, se regozijam dos mais variados privilégios assemelhando-se à meritocracia normalmente associada à "direita". O que de fato é relevante são as ideias, plurais e variáveis e o exercer político inscrito em uma Ética. Assim, "direita" e "esquerda" manifestam-se enquanto anacronismos intelectuais de pouca ou nenhuma utilidade, apenas se relacionando fragilmente a, respectivamente, uma escolástica paranóica e hegelianos frustrados. Se existe algum conceito de esquerda que vale atenção este é o de Deleuze, que pode ser assitido neste trecho de entrevista:





"Abecedário de Gilles Deleuze" (França, 1996) Pierre-André Boutang



Não havendo governo de esquerda, pois esta evoca um devir que corre às margens do poder, só nos resta lembrar que o próprio autor acima não possui o hábito de utilizar o vernáculo bilateral em seus textos.

O despreparo da polícia- Foi largamente documentado a ineficiência e "truculência" da polícia em muitas das manifestações. O policial recebe um salário baixo, um treinamento pífio, tem que frequentemente proteger a sua família da possível vingança dos que eles porventura prenderam, gerando uma instabilidade psicológica considerável. Depois dessas manifestações, a nação inteira se transformou em inimigo potencial, o que exponencializa a paranóia, além do fato de que muitos deles concordam com os objetivos gerais da manifestação, mas são ordenados a irem contra. Motivos o suficiente para "surtarem". Isso não justifica as ações deploráveis, mas indica soluções para um aparato policial menos doente. Uma das primeiras atitudes sensatas seria a de extinguir a Polícia Militar, peculiaridade desnecessária de pouquíssimos países além do nosso. Aliado a esses fatos, o BOPE vai deixando de ser ícone pop para se tornar agente nefasto do governo carioca, este por sua vez, transmutado em inimigo público n. 1. Os novos ícones são, principalmente, V, Banksy e Joaquim Barbosa.




Banksy

O que explica o acontecimento das manifestações? Henri Poincaré cunhou em 1885 a bifurcação, que foi apropriada pelos sistemas dinâmicos, falando de uma trajetória que vinha se mantendo em uma tendência e, repentinamente, adquire outra, inesperada. Vamos entender essa bifurcação brasileira:

1) O Brasil: é preciso mergulhar nas singularidades brasileiras. O agenciamento Euclides da Cunha-Guimarães Rosa-Glauber Rocha vem nos avisando do sertão brasileiro enquanto potência múltipla de agenciar novos afetos, mobilizações, políticas excêntricas, Corpos sem Órgãos (ver: "Ser-tão Cósmico"). O Brasil é uma inconstante novidade histórica que convive com uma pluralidade geográfica, genética, cultural, afetiva permitindo que o brasileiro seja um amálgama de relações extremamente rico, instável e excêntrico. Possui "PhD" em habitar o Caos, em sobreviver no caótico. É rítmico, alegre, pulsante, por definição. Todos os problemas intrínsecos na brasileiridade oriundam da dificuldade em  relacionar de forma potente tais singularidades: as manifestações são o indício que as potências da singularidade a partir de agora se tornaram mais intensas.



2) A internet e as redes sociais: as revoluções nascem de uma anomia (quem são as lideranças? qual é a agenda do movimento? qual é a ideologia?) e geralmente são cooptadas pelo grupo que fornece as respostas mais rapidamente com um poder considerável de persuação em vários níveis. Partidos e movimentos políticos anteriores às manifestações tentaram realizar essa cooptação com o movimento e não conseguiram. A rapidez de respostas e alertas nas redes sociais permitiram a continuidade da heterogeneidade do movimento, e assim deve prosseguir. Os jovens, em geral, possui um hábito de leitura baseado na agilidade nos 143 caracteres do Twitter. Essa agilidade permitiu, de um lado, a rapidez de expansão do movimento, por outro, uma agenda confusa e pouco refletida. Cabe a todos os que são mais lentos e reflexivos, gerarmos também textos curtos que possam convidar  a "geração 143 caracteres" a expandir gradativamente sua capacidade de leitura e reflexão. Não que a internet seja "o messias que vai nos redimir" e sim, uma ferramenta que otimiza o fluxo e o acesso à informação. Porém, não está claro o nível de controle que se pode ter dela. Fala-se em "tráfico de informações" com dados dos usuários do Facebook, por exemplo. Seria importante as pessoas utilizarem mais de uma rede social, mais de uma ferramenta de busca, aguçando cada vez mais seus discernimento e ter em voga encontros pessoais, não se aterem ao virtual binário.

3) O Vortex (epistemontológico): este blog vem notando uma instabilidade ontológica na tecitura da realidade. Para desenvolver um saber transdisciplinar aplicado à vida, um transaber, cunhamos o conceito de vortex (ver: "Vortex: ubiquidade cósmica") em que o vortex da ciência é apenas uma intuição parcial do conceito aqui tratado com mais profundidade na articulação de saberes. A Vortexologia diz que o tecido do real é formado por vortex que compõe vortexes e são constituídos por vortexes, infinitamente do menor ao maior, do mais intensivo ao menos intenso, com níveis variados de permeabilidade imanente. Não existe vetor sem dinâmica no vortex. Ele é instável, podendo ser o estopim de algo absolutamente novo, inominável, que chamamos de transcendência a posteriori.  As manifestações são até agora o melhor exemplo do vortex tal qual nós conceituamos: heterogêneo, instável, composto por vários vortexes e ressoando com outros vortexes turcos, árabes, egípcios etc. Não se pode prever em que esse movimento vai decorrer: talvez uma transnação, uma nova relação com os poderes ou alguma novidade ainda inapreensível. Fica notória a necessidade de compor conceitos como este em que não se sabe a resultante de seus devires mais selvagens: o saber enquanto agente incontrolável. Portanto, as "autoridades" não apreendem o vortex, os conservadores não o entendem, os taxonomistas não o localizam, mas os sonhadores ontológicos o clamam: o vortex-Brasil pode inclusive perder a brasileiridade, suscitando vetores inauditos, deixando de ser Brasil.

Assim, esse movimento sem precedentes na História continua sua caminhada desterritorializando as "verdades" acerca dele. Vamos co-escrever esse peculiar interlúdio na História de forma a não decretar estilos nem estipular regras definitivas, mas definições provisórias, lampejos rítmicos. Cabe a qualquer agenciamento criar os próximos termos a serem acolhidos, desde que profundamente éticos e, em seguida, descartados, problematizados,  transformados pelos desdobramentos seguintes deste acontecimento...