CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Histéricas, graças a Deus?

Bruxaria & Imanência

Nelson Job

Brilha uma voz na noute...
De dentro de Fora ouvi-a...
Ó Universo, eu sou-te... 
Fernando Pessoa


"Autorretrato en la Frontera Entre El Abrazo de Amor de el Universo, la Tierra (México), Yo, Diego y el Señor Xólot"

Frida Kahlo



Eis que bruxas copulam com o cosmos. Os relatos tendem a ser oriundos da Era Medieval, mas elas já o faziam antes e o fazem atualmente. As ritualísticas evocavam demônios (daimons: espíritos) que as permitiam alterar a Natureza. Ora, qual surpresa? A natureza em devir muda, ser o agente de tal mudança é uma questão de agenciamento, de aliança demoníaca, como diriam Deleuze e Guattari (1997). Danças, músicas, cantares, movimentos que ressoam com o movimento cósmico agenciando mudanças: "furor uterino" enquanto potência de vida. 

O problema da conexão cósmica é a sua parcialidade, o grau inadequado. Se a conexão cósmica ou a magia é utilizada para o proveito de uns em detrimento de outros, sem nenhum critério, a auto organização vai ruir, ou ao menos produzir ruídos. Apreenda-se que eliminar as determinações culturais de nossos atos, estar consciente das convenções sociais e de quanto elas podem nos sobrecodificar, escravizando nossos desejos, é uma política cósmica que desejamos. Mas tal eliminação não deveria gerar como consequência a suposta “liberdade” de fazer o que quiser. Isso é falsa liberdade. Apenas um Ego que se entende como separado do cosmos é que pode fazer com o cosmos “o que quiser”, visto que está separado dele. Todas as práticas da chamada “magia negra” derivam dessa incompreensão. Apreendendo o ego permeável, imanente ao cosmos, sabe-se assim que o cultivo de si é o cultivo do cosmos. A plena liberdade é se compor mais e mais com o cosmos, gerando agenciamentos cada vez mais amplos, evidencia que a magia em sua plenitude possui ressonâncias com a Ética de Spinoza (2008).


Documentário "Häxan -  A Feitiçaria Através dos Tempos" (1922) dirigido por Benjamin Christensen, 
que relaciona - de forma "moderna" - bruxaria e histeria


A problemática do poder. Se você quer poder apenas pra si, ou o seu grupinho, vai ter que lidar com os outros grupinhos que o querem também. A Igreja - apreendida aqui enquanto associação com o Império Romano, perdendo assim suas características de um cristianismo original - se incomodou com o poder das bruxas, a partir disso, através do cultivo da misoginia católica latente e algumas manipulações políticas, os engendrantes do Malles Maleficarum instituíram a Inquisição. A questão é que a Inquisição foi algo muito maior do que se imagina e atravessou várias camadas da sociedade medieval e do Renascimento. Não apenas caçaram as bruxas, mas deslegitimaram a sua ontologia, o golpe muito mais poderoso que o genocídio - em termos de extinguir a bruxaria, visto que até então, apesar das fogueiras, ela insistia. A Renascença cultivou a separação entre linguagem e mundo (vide Foucault [2002] e, sobretudo, Stuart Clark [2006]) e com isso o Catolicismo ganha o mundo, pois junto com a linguagem se separa Deus: “Ele não está mais no mundo e apenas nós, os cristãos, estamos aptos a sermos os atravessadores, entre fiel e Deus”. O nome adequado para isso é reserva de mercado: “Quer contato com Deus? Apenas nós e não as bruxas, podemos lhe fornecer!”. Junte isso a Descartes (mente e corpo são de naturezas distintas), Boyle (ciência e política devem se separar: fim da alquimia enquanto filosofia e experimentação de laboratório imanentes), Newton(ianismo) (eliminação dos estudos teológicos e alquímicos para apenas sobrar os estudos físico-matemáticos, que instauram uma ciência acéfala representacional: “os números são o mundo”) e, finalmente, Hobbes (separação entre Igreja e Estado) e componha a receita iluminista da separatividade. Posteriormente, o imperativos categóricos de Kant só vieram a ampliar esse cenário. A ideia de separatividade tomou conta do mundo, e com isso, o que estava no meio, entre, foi eliminado: bruxas e demônios, os agentes intensivos, ou seja, que agenciavam a intensividade do mundo imanente.

Como ficou a bruxa? Ora, foi definhando à categoria de histérica, de forma que o furor uterino se tornaria "doença". A possessão e cópula cósmica se degeneraram em "conversão histérica". O que era imanência entre bruxa e Natureza, com a separação entre linguagem e mundo, se tornou um bug entre o inconsciente (avatar moderno da representação) e o corpo. A (im)pulsão é o “Durepox psicanalítico” entre natureza e cultura. Se uma nova psicanálise comemora que tudo é (im)pulsão, até mesmo o cosmos, falha em manter a carcomida entropia - oriunda de um zumbi chamado Modelo Padrão da Física - entendida com “pulsão de morte”. Mas aqui,  apreendemos "histeria" como a consequência da separatividade nas bruxas, mas não como "estrutura" ao algo assim, mas como faixa vibratória histérica em que um atrator ou vortex se instala. O Pai "faltoso" em que se cria o mito da histeria estrutural é apenas o mundo com um deus transcendente, inacessível. As bruxas, por sua vez, copulavam com o cosmos que é imanente a Deus, de forma que não há "falta", apenas dinâmicas e políticas de desejo divinamente cósmicas



 "Départ pour le Sabbat" (1910) Albert Joseph Pénot


O cartesianismo atomiza o ego, separando-o do mundo, expulsando a mente da natureza do corpo. Os cartesianos "esquecem" do conceito de glândula pineal de Descartes, que faria justamente a ligação entre mente e corpo. Em Freud, a glândula pineal se mascara como pulsão. A bruxa, imanente à Natureza, era possuída, naturalmente, pelas forças inerentes à Natureza. Agora, supostamente destacada do cosmos, a então bruxa, agora histérica, entende o Falocentrismo enquanto estranho, "convertendo" o corpo. Freud, em cara a Fliess em 1897, dizia: “Fliess, o que é que você diria se eu contasse que toda a minha nova teoria da histeria era conhecida e tinha sido publicada centenas de vezes, e há vários séculos? Você se lembra como eu sempre disse que a teoria medieval da possessão demoníaca, sustentada pelos tribunais eclesiásticos, era idêntica à nossa teoria de um corpo estranho e de uma divisão na consciência, tudo se resumia a substituir o demônio por uma fórmula psicológica?". Seu interesse pelo tema é herança de Charcot,  que perdurou ao longo do obra, como em seu texto de 1923 acerca da "neurose demoníaca". Nele, Freud (1976) estrategicamente escolhe um episódio documentado do seculo XVII - em que o psicanalista já declara: "Devo admitir que não estou disposto a lançar dúvidas sobre os padres"-  cujo pintor em questão solicita ao demônio justamente que este substitua o pai que morreu. Obviamente, episódio escolhido a dedo pra reificar que o demônio "representa" o pai. As interpretações em relação às feiticeiras é relegado à periferia, ou melhor, não analisado por Freud, mas por Ernest Jones. Freud escolhera um episódio de um indivíduo culpado que recorre aos padres, que registram os fatos com a perspectiva representacional e culpada do catolicismo, em que o demônio é um anjo caído, degenerado. Do ponto de vista das bruxas, o demônio não é o pai maligno ou a Lei enquanto horror, mas a emergência do relacionalismo da Natureza.

A questão é: justamente, o Falocentrismo é o estranho que é o mesmo, “mesmo” no sentido de dique no devir: a Lei que quer parar o estupor feminino ou um devir-mulher. O Falocentrismo é o avatar do separatismo: a Lei que separa natureza e cultura. A histeria é o ato de resistência que quer negar o Falocentrismo para instaurar uma nova imanência (ou “Nova Aliança” como preferem Prigogine e Stengers [1984]). O erro da bruxa contemporânea é querer instaurar uma velha imanência: Matriarcalismo, negação da ciência e do Falocentrismo (criamos uma fábula com estas imagens: A história em que se fundam todas as Histórias). A histérica sofre por viver na ilusão da representação. Freud criou uma clínica da representação, em que os demônios das bruxas - que são, de fato, virtuais da Natureza - se tornam complexos representacionais sobrecodificados em um inconsciente ele próprio entendido enquanto representacional. À luz de um devir, de uma imanência, é impossível uma re-apresentação, visto que a mudança opera inclusive na passagem de imagens, de informação. Nada pode “se apresentar de novo”, em suma: a imagem da bruxa com a vassoura não é “o feminino com o Falo”, a "vassoura", palavra e/ou imagem, é (no sentido que se estende a)  a vassoura  enquanto "objeto", imanência entre palavra e coisa.




Monica Bellucci em 3 "fases" midiáticas:

bruxa medieval em "Irmãos Grimm"(2005) de Terry Gilliam

histérica moderna em "Malena" (2000) de Giuseppe Tornatore


e como Persephone em "Matrix Reloaded" (2003) dos Irmãos Wachowski:
 seres "sobrenaturais" são reais enquanto programas na matrix


O tópico curioso de muitas histéricas se tornarem freudianas, ao melhor estilo "se não pode vencê-los, junte-se a eles", faz com que elas obedeçam a "agenda moderna", reproduzindo a ilusão da representação, operando a manutenção da "estrutura" histérica, ocupando cargo importantes em faculdades de psicologia, formações psicanalíticas e afins. Exemplo ocidental do que a antropologia simétrica conceitua como imanência do inimigo, segundo Eduardo Viveiros de Castro (2002): se nos índios Araweté o matador é possuído pelo espírito da vítima, fazendo o matador assassinar os seus; a psicanalista, "possuída" pela bruxa, histericiza toda a psicanálise! Tanto Stroumsa como Schmitt (SCHULMAN e STROUMSA, 1999)  vão nos mostrar o quanto a psicanálise é herdeira da operação cristã em difundir um imaginário da ubiquidade da culpa: reside na reserva de mercado da psicanálise e suas derivações teóricas e operacionais,   a manutenção do gap "faltoso" entre natureza e cultura,  cuja ferramenta óbvia é a pulsão, assim como A Igreja manipula o gap entre Deus e Homem, ambos, "cristianismo" e psicanálise, relembrando ad infinitum seus fiéis de sua culpa "inerente".  "Impossibilitadas" de mergulhar, de habitar a imanência, resta a histérica operar as regras transcendentais da representação. Disso resulta o jogo infinito de frustrar em maior ou menor grau o (agora supostamente desconectado) "objeto" de desejo, visto que esse "objeto" é "sempre" "faltoso", porque é também, desconectado da imanência. Esse sofrimento "eterno" dos sujeitos e objetos separados pela representação transcendental vai ser devidamente alimentado - ainda que com a ilusão de ser suavizado - na sociedade moderna e suas variações de culto com seus contratos que inscrevem o "indivíduo" em obrigações ditadas a priori: capitalismo (o dinheiro representa o valor), educação platônica (o professor representa o saber), matrimônio (contrato que representa  e domestica os afetos), divã (o terapeuta ensina a "lidar melhor" com a Lei) etc.  As histéricas olham pras bruxas em um misto de desprezo, medo e nostalgia. O rompimento com o paradigma representacional - somando aos ganhos do percurso (filosofia da diferença, ciência moderna, literatura kafkaísta e seus desdobramentos, como a obra de Philip K. Dick, o cinema do intensivo de Charlie Kaufman, Christopher Nolan, Lars Von Trier etc e as artes plásticas do pós guerra etc) gerando um campo relacional em devir, como a Ontologia Onírica - permite que tais histéricas se libertem.

Imanentemente sabemos que não existe “inconsciente”, e sim, que tudo possui um mental emergente das relações ubíquas, os devires passam, gerando vida e graus de consciência. Quão mais alheios à consciência cósmica, mais estaremos “inconscientes”, não como representação, não como “linguagem” em si, mas inconscientes enquanto alheios às gradações infinitas de um devir, consciência cósmica, imanência. Em suma, o sofrimento da histérica é por se sentir impedida por uma “barreira representacional” - que não existe de fato - de copular cosmicamente. Essa “barreira” é  uma ilusão engendrada pelos separatistas iluministas, ou o “acordo moderno”, como diria Latour (1994).

Autênticos bruxos e bruxas contemporâneos  não negam o Falocentrismo, mas propõem sua assimilação em uma cópula cósmica, um Conjugalismo (ver A Era do Conjugalismo), atualizando o princípio de Gênero do Hermetismo e a imagem alquímica do Andrógino (ver Sexar). Essa cópula cósmica é uma ubiquidade, a Vortexologia. Não mais um “tudo é pulsão” entrópico, mas ubiquidade do vortex, campo de relações que emerge de relações, ou, relações de relações, como advoga Whitehead (1978), que possuem características quânticas, coexistentes, vibracionais. Não uma administração da "neurose histérica" em relação a "Lei Eterna", mas o cultivo de acordos provisórios ressonantes imanentes a um devir (ver "O Amor no(s) Tempo(s) do Caos"), políticas místicas .

Claro que essa nova imanência, instaurada pela Ética (panteísta e neopagã) spinozista, mas atravessada pelo bergsonismo - perdendo eternidade e imutabilidade, ganhando atemporalidade com seus tempos múltiplos e intensidade em devir -, pode suscitar novidades muito estranhas, como outra transcendência, a partir da imanência, a transcendência a posteriori, ou, o que é, de fato, “ocultismo”: a disposição de intuir com o mistério, operar na vida sabendo que provavelmente haverá inomináveis atravessando o processo. Mas nem por isso os processos devem ser estancados, mas diferenciados, transformados, sendo que o trabalho, seja qual for, tem que saber lidar com os arroubos do inominável.

A nova bruxaria conjura vortexes, agora, em prol de um Relacionalismo. A velha bruxa e a velha histérica dão lugar a uma nova bruxa, ou melhor, um devir-mulher em que quase não precisa de ritualística, pois , como diria Confúcio (2005): a vida é ritual. A nova bruxaria é também, a Ontologia Onírica, em que o preço a se pagar por assumir integralmente em devir a imanência é viver um neoanimismo (imanência entre orgânico e inorgânico), a relação harmônica e produtiva entre magia e ciência (recuperando e renovando as melhores práticas de Paracelso, Giordano Bruno, Kepler e Newton - ver "Hermetismo em Aberto") e assimilar o estatuto de realidade dos sonhos, não mais somente interpretados, mas entendidos como vorticidades que podem ganhar consistência, assumindo que a natureza é plástica e que os sonhos são intuições de como operar essa plasticidade. Não existe mais metodologia a priori, mas abertura a devires: meditação, amor, criação de conceitos e de artes, desde que intuídos imanentemente. Menos demônios que se articulam com a natureza enquanto tal, mas o cultivo de devires que podem suscitar uma pós-natureza. A telepatia é uma obviedade, como proferiria Bergson (2009). A atomização do ego, se iludindo enquanto Ego Impermeável, é que nos faz alheios à telepatia, mas é da natureza do pensamento ser telepático: o pensamento se dá entre nós. A Ontologia Onírica suscita que os egos permeáveis intuam juntos, permitindo que a telepatia se dê Naturalmente. Enfim: menos um slogan ingênuo do tipo “precisamos mudar” e mais a urgência em permitir que devires passem, que abrandemos mais e mais os diques no devir, que conjuremos vortex, que deixemos a magia da vida fluir.



Bibliografia

BERGSON, Henri, A Energia Espiritual. São Paulo, Martins Fontes, 2009.


CLARK, Stuart., Pensando com Demônios - A Ideia de Bruxaria no Princípio da Europa Moderna. São Paulo: Edusp, 2006.


CONFÚCIO, Os analectos. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix,  Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo, 1997.

FOULCALT, Michel, As Palavras e as Coisas. 8 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

FREUD, S. "Uma neurose demoníaca do século XVII" in: O Ego e o Id e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago, 1976.

LATOUR, Bruno, Jamais fomos modernos – Ensaios de antropologia simétrica, Rio de Janeiro, Editora 34, 1994.

PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB1984.


SHULMAN, D.; STROUMSA. G. (orgs.), Dream cultures – explorations in the comparative history of dreaming. 1ª ed. New York: Oxford University Press, 1999.


SPINOZA, Benedictus de, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica, 2008.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo,  A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2002.



WHITEHEAD, Alfred North, Process and Reality (corrected edition). 1 ed. New York, The Free Press, 1978.






Nenhum comentário: